Diretor de agronegócios do banco destaca que o impacto do clima e as variações no preço do açúcar alteraram lógica de melhorias dos grupos mais capitalizados
Uma melhora na saúde financeira durante o ciclo 2020/21 – consequente da maior geração de caixa, da redução das dívidas e do alongamento no perfil dos débitos –, desembocou em fluxo de caixa mais folgado para a maior parte das sucroenergéticas. O movimento foi acompanhado por uma maior presença no mercado de capitais, seja por meio de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA), debêntures ou até mesmo com abertura de capital.
Este cenário foi detalhado pelo diretor de agronegócios do Itaú BBA, Pedro Fernandes, que comentou o desempenho financeiro do setor sucroenergético durante a 21ª Conferência Datagro, realizada no final de outubro.
Um dos indicadores analisados pelo banco é o de geração de caixa, dado pela evolução do Ebitda (lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização) em relação à moagem de cana, descontados os efeitos de variação do preço do ativo biológico. No ciclo 2020/21, o valor foi recorde, de R$ 63/t, ante R$ 44/t de um ciclo antes (a série histórica do banco se inicia na temporada 2013/14).
Em 2019/20, a análise foi feita a partir dos dados de 59 grupos sucroenergéticos localizados no Centro-Sul, representando uma moagem de 349 milhões de toneladas. Entretanto, a amostra foi reduzida em 2020/21. “Temos dúvida se esse valor será maior ou menor [em 2021/22]”, completa Fernandes.
A questão está em aberto por conta da queda na moagem e por uma precificação heterogênea do açúcar. Ainda que seja incerto atingir o recorde de 2020/21, Fernandes completa que as usinas têm registrado níveis “muito saudáveis” em termos de rentabilidade operacional.
Confira na versão completa, restrita aos assinantes do NovaCana, mais detalhes sobre a alavancagem do setor, opiniões do banco sobre as fusões e aquisições e a possível redução na disparidade do setor sucroenergético.
Uma melhora na saúde financeira durante o ciclo 2020/21 – consequente da maior geração de caixa, da redução das dívidas e do alongamento no perfil dos débitos –, desembocou em fluxo de caixa mais folgado para a maior parte das sucroenergéticas. O movimento foi acompanhado por uma maior presença no mercado de capitais, seja por meio de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA), debêntures ou até mesmo com abertura de capital.
Este cenário foi detalhado pelo diretor de agronegócios do Itaú BBA, Pedro Fernandes, que comentou o desempenho financeiro do setor sucroenergético durante a 21ª Conferência Datagro, realizada no final de outubro.
Um dos indicadores analisados pelo banco é o de geração de caixa, dado pela evolução do Ebitda (lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização) em relação à moagem de cana, descontados os efeitos de variação do preço do ativo biológico. No ciclo 2020/21, o valor foi recorde, de R$ 63/t, ante R$ 44/t de um ciclo antes (a série histórica do banco se inicia na temporada 2013/14).
Em 2019/20, a análise foi feita a partir dos dados de 59 grupos sucroenergéticos localizados no Centro-Sul, representando uma moagem de 349 milhões de toneladas. Entretanto, a amostra foi reduzida em 2020/21.

“Temos dúvida se esse valor será maior ou menor [em 2021/22]”, completa Fernandes. A questão está em aberto por conta da queda na moagem e por uma precificação heterogênea do açúcar. Ainda que seja incerto atingir o recorde de 2020/21, Fernandes completa que as usinas têm registrado níveis “muito saudáveis” em termos de rentabilidade operacional.
Alavancagem em queda
Segundo o diretor do Itaú BBA, há ainda outros números “promissores”. A dívida das sucroenergéticas caiu, em média, R$ 11/t em 2020/21, de R$ 146/t para R$ 135/t; a diminuição só não foi maior, segundo ele, pois o câmbio ascendeu de R$ 3,90 para R$ 5,20 entre março de 2020 e março de 2021. “Projetamos para 2021/22 uma redução importante da dívida, caso o câmbio permaneça nos níveis atuais”, completa.
Já a alavancagem, dada pela relação entre dívida líquida e Ebitda, atingiu um ponto mínimo de 2,2 vezes no ciclo já encerrado, também considerando o período de 2013/14 a 2020/21. “Vemos um setor que tem gerado caixa como não gera há dez anos, em uma posição de alavancagem também como não se vê desde a 2013/14. Um setor do ponto de vista financeiro muito saudável”, declara Fernandes.

Por outro lado, o diretor faz um alerta para os grupos que ainda estão fazendo a “lição de casa” de recuperação de competitividade: “O custo do dinheiro aumentou muito e continuará aumentando nos próximos meses. Por mais que o desenvolvimento do mercado de capitais venha a baixar o spread bancário, ele antes era cobrado sobre uma Selic de 2%; no ano que vem será de 11%”.
Com isso, ele aponta que a rubrica de despesas financeiras terá um peso relevante no fluxo de caixa das companhias nas próximas temporadas até um reestabelecimento das condições fiscais do país.
Fusões e aquisições fracas
Para Fernandes, este cenário financeiro positivo deveria se converter em mais investimentos na construção de novas unidades ou em uma consolidação, por meio de fusões e aquisições.
Porém, analisando a média da precificação dos ativos ao longo das últimas safras, os múltiplos das negociações que têm se concretizado são inferiores aos esperados. “O volume de transações tem sido bastante baixo e o custo para construção de novas unidades muito elevado. Sem muito medo de errar, colocamos o custo para construção de uma greenfield acima de R$ 500/t”, expressa.
O diretor ainda questiona: “Por que um negócio tão bom, que tem sido tão estável, que tem uma base de capital importante e que tem perspectivas tão boas, não tem levado os empresários a caminharem, seja com a consolidação regional ou com a construção de novas unidades?”.
Ainda de acordo com ele, há um mercado construído e disponibilidade para financiamento. Além disso, até pouco tempo atrás, os juros estavam em um patamar considerado atrativo, independentemente de eventuais subsídios que existiam no banco de fomento; agora, por questões inflacionárias, o banco projeta uma taxa Selic “bastante importante”.
Mesmo assim, o Itaú BBA não vê movimentos de investimento. “É uma preocupação, considerando a liderança do Brasil na produção de biocombustíveis, como o país vai conseguir manter sua importância neste mercado que cresce mundialmente dado que não temos feito os investimentos necessários”, completa.
Fernandes reitera que existe um cenário positivo para 2021/22, com surpresas mais do ponto de vista agronômico do que de investimentos. “Esse cenário, que deveria ser expansionista para os grupos bastante capitalizados, tem ainda muito pouco apelo apesar de toda a rentabilidade e importância estratégica que o biocombustível passa a ter”, diz.
Disparidade embaralhada
Usualmente, o Itaú BBA divide as companhias sucroenergéticos em quatro grupos, indo dos mais saudáveis financeiramente aos em grande estresse. “Sempre víamos os vencedores abrindo distância em relação à média, tendo maior rentabilidade por tonelada de cana processada, menor alavancagem e melhor liquidez”, relata Fernandes. “Mas a história dessa safra é um pouco diferente”.
De acordo com ele, há dois fatores que tornam a performance entre os diferentes atores muito mais heterogênea ao longo da safra, independentemente da alavancagem.
O primeiro deles é o clima. Fernandes explica que a temporada foi marcada por uma variabilidade “muito grande” em termos de produtividade. “Têm regiões tradicionais que contavam com uma grande estabilidade de produção e que tiveram reveses importantes, seja pela seca ao longo do ano, seja pela geada já no segundo semestre, além de muitas unidades já tendo terminado a safra em outubro”, relata o diretor.
O segundo fator de heterogeneidade é a variação do preço do açúcar ao longo do tempo. Conforme Fernandes, com o passar dos anos, as companhias foram desenvolvendo suas próprias políticas de fixação, que são muito diferentes dependendo do percentual de cana própria que moem e do apetite de risco. “Existem grupos muito saudáveis que anteciparam a comercialização e que vão ter resultados piores do que grupos que deixaram para fazer uma comercialização mais tardia”, completa.
Os dois fatores, portanto, devem “embaralhar” a lógica vista até então, onde empresas mais capitalizadas ficavam melhores e as menos capitalizadas ficavam piores financeiramente. “Achamos que, no ano que vem, grupos que estavam em uma situação mais difícil vão melhorar bastante e os que estavam em uma situação muito confortável terão um desafio importante do ponto de vista de disponibilidade de cana a ser moída, dada toda a necessidade de plantio que virá no início da próxima temporada”, detalha.
Apesar disso, o diretor de agronegócios afirma que o horizonte parece ser “bastante bom” para o setor, considerando a atual rentabilidade recorde e a baixa alavancagem das companhias.
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana