Especialistas comentam oportunidades e o que as empresas precisam fazer para alcançarem estes recursos; usinas detalham os usos dos investimentos
O mercado de capitais no Brasil vem se desenvolvendo de forma generalizada nos últimos anos. As pessoas físicas estão buscando maior conhecimento de alternativas de investimento e melhores rentabilidades. A educação financeira vem ganhando força, o que aumenta o desenvolvimento de mercado, conforme o chefe de agro, consumo e varejo da XP Investimentos, Pedro Freitas.
Ele destaca que, na esteira desse crescimento, o setor de açúcar e etanol tem tido um histórico positivo dentro do mercado de capitais. “Isso faz com que o investidor que está buscando essas alternativas conheça cada vez melhor o setor e que haja muito espaço para essas empresas adquirirem capital”, garante e completa: “Junta um grupo que quer captar com outro que quer investir”.
Desta forma, as condições de custos, as garantias e os prazos melhoram para as empresas que desejam captar recursos. Para Freitas, o que elas buscam é maximizar as vantagens desta tríade.
Para o superintendente executivo de mercado de dívida do Santander CIB, Matheus Licarião, com o aumento da taxa de juros, a tendência é que haja um crescimento de investidores. “As emissões incentivadas costumam ser investimentos rentáveis e com risco controlado. Essa grande liquidez gera um aumento da oferta por novos papéis e eles costumam ter prazos um pouco mais longos do que os de operações bilaterais. É uma boa oportunidade para os emissores acessarem esse bolso de investidor pessoa física”, complementa.
Além disso, o setor sucroenergético está vivendo um momento positivo, o que propicia que capte mais, conforme explica a diretora da área de mercado de capitais de dívidas do UBS BB Investment Bank, Fernanda Motta. Segundo ela, o câmbio é um dos pontos que favorece o segmento e faz com que o investidor o analise “com bons olhos”.
Um dos principais acessos ao mercado de capitais feito pelo setor atualmente, pensando no mercado doméstico de renda fixa, são as debêntures de infraestrutura incentivadas, regidas pela Lei nº 12.431 de 2011. Estes papéis correspondem a áreas de investimento priorizadas pelo governo e seu uso pelo setor de biocombustíveis foi aprovado em 2019.
Outra modalidade são os Certificados Recebíveis do Agronegócio (CRAs), que também têm emissão bastante recorrente pelo setor de açúcar e etanol.
Confira, na versão completa, as principais formas de acesso das sucroenergéticas ao mercado de capitais de dívida sob a análise de especialistas, além das experiências das produtoras Diana Bioenergia, Companhia Mineira de Açúcar e Álcool (CMAA), Coruripe e Sonora.
O mercado de capitais no Brasil vem se desenvolvendo de forma generalizada nos últimos anos. As pessoas físicas estão buscando maior conhecimento de alternativas de investimento e melhores rentabilidades. A educação financeira vem ganhando força, o que aumenta o desenvolvimento de mercado, conforme o chefe de agro, consumo e varejo da XP Investimentos, Pedro Freitas.
Ele destaca que, na esteira desse crescimento, o setor de açúcar e etanol tem tido um histórico positivo dentro do mercado de capitais. “Isso faz com que o investidor que está buscando essas alternativas conheça cada vez melhor o setor e que haja muito espaço para essas empresas adquirirem capital”, garante e completa: “Junta um grupo que quer captar com outro que quer investir”.
Desta forma, as condições de custos, as garantias e os prazos melhoram para as empresas que desejam captar recursos. Para Freitas, o que elas buscam é maximizar as vantagens desta tríade.
Para o superintendente executivo de mercado de dívida do Santander CIB, Matheus Licarião, com o aumento da taxa de juros, a tendência é que haja um crescimento de investidores. “As emissões incentivadas costumam ser investimentos rentáveis e com risco controlado. Essa grande liquidez gera um aumento da oferta por novos papéis e eles costumam ter prazos um pouco mais longos do que os de operações bilaterais. É uma boa oportunidade para os emissores acessarem esse bolso de investidor pessoa física”, complementa.
Além disso, o setor sucroenergético está vivendo um momento positivo, o que propicia que capte mais, conforme explica a diretora da área de mercado de capitais de dívidas do UBS BB Investment Bank, Fernanda Motta. Segundo ela, o câmbio é um dos pontos que favorece o segmento e faz com que o investidor o analise “com bons olhos”.
“[O sucroenergético] é um setor conhecido, que já capta há um bom tempo e que, hoje, tem uma maturidade no mercado de capitais”, Pedro Freitas (XP Investimentos)
CRAs e debêntures
Um dos principais acessos ao mercado de capitais feito pelo setor atualmente, pensando no mercado doméstico de renda fixa, são as debêntures de infraestrutura incentivadas, regidas pela Lei nº 12.431 de 2011. Estes papéis correspondem a áreas de investimento priorizadas pelo governo e seu uso pelo setor de biocombustíveis foi aprovado em 2019.
Conforme o diretor da área de mercado de capitais de dívidas do UBS BB, Guilherme Ceneviva, o que tem estimulado as usinas a buscarem financiamento por meio de debêntures incentivadas é o fato de que a emissão é mais simples do que a de uma securitização, uma vez que envolvem menos agentes, tornando-se mais barata. Na outra ponta, o investidor tem isenção fiscal e as pessoas físicas buscam esse tipo de papel.
Segundo o mais recente Boletim Informativo de Debêntures Incentivadas, divulgado pelo Ministério de Minas Energia (MME), as empresas ligadas ao setor de biocombustíveis emitiram, até abril deste ano, R$ 3,86 bilhões por meio de debêntures incentivadas. Como o governo autorizou até R$ 7,91 bilhões, isso significa que ainda há mais de R$ 4 bilhões a serem aproveitados pelas empresas.
Para a emissão deste tipo de debêntures é necessária a autorização do MME e a empresa deve demonstrar que tem um plano de investimento e como ele vai funcionar. “É um processo moroso. Então, companhias que veem janelas de oportunidade no mercado para fazer uma emissão e ainda sem o lastro [autorização], têm a alterativa de buscar a emissão de Certificados Recebíveis do Agronegócio (CRAs), que não exige esse processo”, completa Ceneviva.
Portanto, outra modalidade são os CRAs, que também têm emissão bastante recorrente pelo setor de açúcar e etanol.
Ceneviva destaca que, tradicionalmente, foram esses créditos que ajudaram a financiar o agronegócio brasileiro e, mais recentemente, as empresas do setor sucroenergético. “No entanto, conforme as empresas ganham autorização do MME para fazer a emissão de debêntures de infraestrutura, elas passam a fazer menos CRAs”, pondera.
Em ambos os casos, segundo Freitas, o principal público-alvo é a pessoa física, ainda que existam algumas diferenças entre os papéis: “Mas, no final, isso se traduz em duas formas muito eficientes de captação para essas companhias”.
No caso das debêntures incentivadas, além do investidor pessoa física, há também os fundos de infraestrutura, que se dedicam a adquirir esse tipo de título. “Conforme surgem emissões sucroalcooleiras e de bioenergia, esses fundos com capital disponível têm a oportunidade de diversificar os seus papéis. Sem contar que as operações de biocombustíveis são tradicionalmente de emissão verde”, explica Ceneviva.
Motta completa que o momento de mercado é bom. “A Selic está subindo, mas ainda é uma taxa de juros baixa para custo de oportunidade quando o investidor olha as opções de investimento”, relata.
Instruções de acesso
As empresas interessadas podem fazer a captação por meio de duas instruções da Comissão de Valores Mobiliários (CVM): a CVM nº 400, por meio da qual é possível fazer a venda para um número ilimitado de investidores; ou a CVM nº 476, onde somente 75 investidores podem ser abordados e a comercialização ocorre para 50. Licarião destaca que, no segundo caso, há menos acesso ao varejo, tendo um menor impacto de precificação.
“A CVM nº 476 é muito mais simples do ponto de vista de documentação, burocracia e ritos a serem seguidos do que a nº 400. Na oferta 400, se por um lado a empresa tem mais trabalho, por outro é possível acessar uma base muito maior de investidores, o que pode propiciar ganhos em taxa e volume”, compara Freitas.
Ceneviva complementa que a modalidade mais complexa demanda um prospecto com materiais de marketing mais robustos, de modo a acessar um público investidor amplo. “A governança da empresa precisa ser impecável para que ela consiga colocar de pé um prospecto com toda a informação disponível para os investidores”, detalha.
Outro ponto importante destacado por Motta é que, para emissão de CRA, a empresa não precisa ser sociedade anônima, uma vez que o emissor é sempre uma companhia securitizadora que já é uma empresa registrada junto à CVM.
No comparativo entre emissões de CRAs ou debêntures por parte das usinas, Licarião acredita que o volume que vêm sendo feito recentemente por meio da segunda é menor.
Dentre as companhias do setor sucroenergético que já foram autorizadas pelo MME para a emissão de debêntures estão: Raízen, Alcoeste, Inpasa, Colombo, Cerradinho, Tereos, Adecoagro, Ipiranga, Melhoramentos, Batatais, Delta Sucroenergia, Zilor, São Martinho e Sonora.
Já quanto às emissões de CRAs, empresas como Copersucar, Neomille (companhia de processamento de milho da Cerradinho), Tereos, Colombo, Cocal, Bioenergética Aroeira e Coruripe são algumas a realizarem algum tipo de transação mais recentemente.
Bastidores das emissões
A CMAA, por meio da usina Vale do Tijuco, fez uma emissão de CRA no final de 2020, no valor de até R$ 180 milhões. Em dezembro daquele ano, a operação recebeu a classificação AA- na escala nacional da agência de classificação de risco S&P Global Ratings.
De acordo com o relato do diretor financeiro da companhia, Jeferson Degaspari, a usina localizada em Uberaba (MG) foi a escolhida para realização da emissão, pois é nela que o grupo concentra a produção e comercialização de açúcar, etanol e energia. “Em virtude de sua capacidade e escala de produção, a unidade tem um fluxo de caixa bem robusto, além de resultados consistentes”, relata.
Ele completa que a emissão, a mais recente do grupo, tinha como objetivo a obtenção de R$ 150 milhões, podendo chegar a R$ 180 milhões, uma vez que é uma regra do mercado de capitais acessar, no máximo, 20% acima do valor nominal do título. “Esse número foi baseado no planejamento financeiro e projeção de fluxo de caixa da CMAA. Mas, quando lançamos a operação, a procura foi superior a R$ 300 milhões”, explica Degaspari.
O diretor financeiro relata que a companhia vem fazendo sucessivas e anuais emissões de CRA desde 2018, além de operações diretas via BNDES para investimentos de longo prazo. “Mais recentemente, fizemos transações com selo verde em virtude da responsabilidade ambiental que sempre norteou as operações do grupo”, completa.
Já as emissões da Coruripe tiveram rebaixamento de rating pela S&P Global Ratings em maio de 2020; na ocasião, três séries de CRAs caíram de BBB- para B-. A captação havia sido feita em novembro de 2019, totalizando R$ 712,7 milhões.
O diretor financeiro da usina Coruripe, Thierry Soret, relata que o rebaixamento da nota ocorreu quando a empresa estava fazendo o alongamento de dívida com um sindicato representante de oito bancos. A negociação teve sucesso e foi finalizada em agosto, porém, em maio, quando houve o rebaixamento, ainda existiam muitas incertezas referentes ao mercado de etanol devido à queda na demanda pelo biocombustível.
“Como esse alongamento era importante para a companhia para a questão de liquidez, por precaução, a S&P rebaixou o rating da empresa e, consequentemente, arrastou essa redução dos ratings dos CRA”, explica Soret, que completa: “A negociação já estava em fase final de aprovação dos comitês dos bancos, mas tinha um que ainda não tinha aprovado”.
Pouco depois, a Moodys, que foi a nova contratada pela empresa para classificação de risco, fez nova avaliação e o rating da Coruripe retornou ao patamar de antes do rebaixamento. Apesar disso, no último dia 30, a agência de classificação de risco divulgou que estava retirando o rating da Coruripe e incluindo-a no rating corporativo Caa1 de empresas, com perspectiva estável.
Após os quatro CRAs já emitidos, a Coruripe tem a intenção de fazer mais uma operação neste ano, mas com um volume menor do que o de 2019. Soret detalha que a empresa também está avaliando um bond em um valor maior para trocar uma dívida grande que possui. “Estamos nos preparando, estruturando a empresa justamente para isso e até acompanhando uma tendência dentro do mercado de capitais que cada vez mais vem ganhando importância no Brasil”, explica o diretor financeiro.
Por sua vez, a Diana Bioenergia fez a sua quarta emissão de debêntures mais recentemente, em abril. Neste caso, o valor movimentado foi de R$ 75 milhões.
Segundo o diretor administrativo e financeiro da Diana Bioenergia, Leonardo Perossi, a emissão foi feita com os bancos Santander e Itaú. O primeiro passo foi a avaliação de crédito da empresa, dos números atuais, passados e projeções. Após isso, foi realizada a preparação da documentação, analisando as licenças da companhia, para passar pelo crivo dos advogados. “É o processo mais demorado, indo de um a dois meses para avaliação”, explica Perossi.
Depois disso, sobram as etapas burocráticas, com assinatura da documentação e registros em órgãos competentes por conta das garantias ofertadas; em seguida, é feita a liquidação da operação.
Perossi destaca que as duas primeiras emissões foram feitas em 2018, com a XP Investimentos, e terceira foi realizada 2019. “Dado o nosso cenário atual de estrutura de capital, operação, liquidez e rentabilidade, provavelmente não iremos fazer nenhuma emissão. Não temos mais necessidade de alongamento das dívidas e estamos com uma estrutura de capital muito adequada para a realidade da companhia”, explica o diretor administrativo e financeiro.
Já a usina Sonora obteve autorização do MME para a emissão de debêntures incentivadas no final de maio. O diretor administrativo e financeiro da empresa, Luca Giobbi, destaca que a proposta foi realizada pensando em operações futuras. “Estamos fazendo uma avaliação de qual seria o melhor modelo de captação, já fizemos algumas emissões de CRAs, CDCA [sigla para Certificado de Direitos Creditórios do Agronegócio] e debêntures, mas só uma foi a mercado, um CRA feito pelo antigo banco Indusval [hoje chamado Voiter]”, relata.
Giobbi completa que a empresa já tem relacionamento com alguns investidores que detém conhecimento das operações. “Queremos tentar criar uma visibilidade maior com essas emissões; a debênture incentivada seria importante para nós”, explica.
Jalles Machado é exemplo de melhoria nas condições
O ideal é que, a cada nova transação, a companhia melhore as condições de negociação dos papéis. A Jalles Machado, que atualmente está na bolsa de valores, já acessava o mercado de dívidas há um bom tempo.
Freitas, da XP Investimentos, banco que fez a emissão de quatro CRAs da Jalles Machado, relata que a primeira emissão pela instrução CVM nº 400 foi feita em 2016, tinha 865 investidores e taxa de juros de 3%. Já na realizada em 2017, o número de investidores cresceu para 1.270 e os juros caíram para 2%. Na de 2018, as condições melhoraram ainda mais, para 2.548 investidores e taxa de 1,4%. Por fim, a última emissão de CRA feita antes do IPO da empresa teve 2.512 investidores e a empresa não precisou apresentar garantias.
Ao longo das emissões, o custo reduziu e o volume financeiro final cresceu: na primeira, a liquidação foi de R$ 67,32 milhões; na segunda, de R$ 135 milhões; na terceira, de R$ 133,3 milhões; e na quarta, de R$ 240 milhões.
Conforme resume Freitas, fica clara a criação de valor. “Lá atrás, praticamente não existiam CRAs de forma geral, o volume era muito pequeno. A Jalles foi uma das estreantes neste mercado, veio cultivando isso ao longo dos anos e sempre melhorando o tripé: prazo, garantias e custo”, completa.
Além disso, o comportamento da Jalles quando as emissões foram feitas melhorou o seu acesso ao mercado de dívidas e, eventualmente, culminou no IPO. “O investidor gostava disso, pois apesar de ela não ter uma obrigação, era muito transparente, tendo site de relação com o investidor e contatos trimestrais”, exemplifica Freitas.
Quem acessa esse mercado?
Ainda que a emissão de títulos seja uma forma vantajosa para adquirir capital, a empresa precisa estar pronta para dar esse passo.
Licarião, do Santander CIB, explica que para acessar o mercado de dívida, em geral, a usina precisa ter um porte de médio a grande e um bom histórico de adimplência no setor. “Normalmente, os investidores vão olhar questões de crédito, composição de cana própria, maturidade, porte, se a planta tem flexibilidade para açúcar ou para etanol, se tem ou não cogeração. Alguns são pontos relevantes para crédito e outros são diferenciais”, detalha.
A governança corporativa também é essencial e foi justamente a ausência dela, segundo Freitas, que afastou o agronegócio deste tipo de transação por muito tempo. “É um setor muito pulverizado, com uma menor governança. Ao longo dos últimos anos, as empresas que buscaram melhorar isso começaram a colher bons resultados”, relata.
Motta, do UBS BB, reitera que a empresa deve levar para o mercado toda a estrutura de governança que possui para que os investidores pessoa física possam confiar nela. “Muitas vezes, apesar de serem empresas relevantes no segmento de atuação, normalmente até regionais, não são conhecidas pela maioria dos investidores”, detalha a diretora.
Ela completa que essa preocupação ocorre porque o investidor pessoa física não tem a sofisticação em termos de análise de crédito que o investidor institucional detém, uma vez que não possui uma equipe para esse trabalho. Em resumo, para atrair esses investidores, a companhia interessada deve ter uma estrutura de conselho de administração e de diretoria executiva, além de políticas de crédito claras.
Deste modo, a transparência das informações também é um requisito, assim como considerar a possibilidade de ter um profissional dedicado a fornecer dados ao mercado, de acordo com Motta.
“Quando falamos de uma empresa de capital aberto, se as informações são públicas, os próprios coordenadores conseguem acessá-las para montar um material a respeito da empresa. Já no caso da empresa que ainda não é aberta, depende muito dela produzir materiais a serem levados ao investidor”, detalha a diretora.
As informações, ademais, precisam ter seu nível de veracidade checado, o que é uma exigência regulatória. Nesse sentido, Ceneviva, do UBS BB, destaca a importância de as demonstrações financeiras serem auditadas, o que traz credibilidade aos números.
O ideal, de acordo com Motta, é que os dados sejam auditados por uma das chamadas “big four” – Delloite, EY, PWC ou KPMG – ou por uma empresa conhecida pelo mercado de capitais. Outro fator que ajuda é ter a emissão de rating por uma agência de classificação de risco. “Está tudo vinculado à capacidade do investidor pessoa física olhar para aquela emissão e entender o risco de crédito daquela companhia”, completa.
Freitas também ressalta que custo-caixa baixo e boa política de risco também são necessários para acesso ao mercado de capitais. “É um mercado de commodities agrícolas, volátil, e a empresa precisa trabalhar bem com isso”, explica.
A preparação das usinas
Em geral, estes passos citados pelos especialistas são as principais preocupações das usinas. A Coruripe, por exemplo, vem fazendo ajustes no quesito governança desde a profissionalização da empresa, em 2011. A criação de conselhos e comitês foi uma das implementações, conforme o diretor financeiro da companhia. “Temos três comitês no conselho: um de remuneração de pessoal, um de riscos e auditoria e um agroindustrial”, enumera Soret.
A Sonora tem tomado medidas semelhantes, levando em conta a perenidade da empresa com a capacitação e reposição da gestão. Segundo Giobbi, os comitês estratégicos também são uma realidade, com assessores independentes que auxiliam no melhor gerenciamento dos riscos financeiros e de negócio.
Além disso, pensando no fator transparência, a Coruripe possui demonstrações financeiras auditadas há mais de uma década e mantém um portal de relação com os investidores onde os números podem ser visualizados, incluindo o relatório operacional mensal.
Já a Diana Bioenergia, conforme Perossi relata, passou por uma reestruturação tanto societária quando documental. A companhia também está estruturando um conselho de administração que deve ser formalizado até o final do ano com vistas à melhoria da governança corporativa.
A CMAA também passou por uma reorganização societária que, de acordo com Degaspari, “trouxe mais robustez” ao grupo e também simplificou as demonstrações financeiras, consolidadas na holding. “Hoje, somos três unidades produtoras concentradas no Triângulo Mineiro que, juntas, têm capacidade de moagem de 10 milhões de toneladas de cana”, completa.
Ele acrescenta que a companhia realizou um planejamento de longo prazo para “melhoria substancial” de sua estrutura de capitais. Além da contratação de uma assessoria técnica, a empresa também contratou uma agência de classificação de risco, segundo conta Degaspari. Os contatos trimestrais com os investidores também passaram a fazer parte da rotina.
O diretor financeiro ainda relata que, com base nisso, a CMAA buscou parceiros estratégicos para distribuição dos CRAs, e divulgação da marca perante os investidores. “Hoje, temos em torno de 10 mil investidores, pessoas físicas e jurídicas, que acreditam e investem na CMAA, por meio dos CRAs emitidos anualmente”, conclui.
Diversificação é o melhor caminho
Segundo os especialistas ouvidos pelo NovaCana, a diversificação nos negócios não é necessária apenas quando se fala dos produtos comercializados pelas usinas, mas também quando o tema é captação de recursos.
Uma das formas mais comuns de acesso a crédito pelas empresas é por meio de empréstimos com bancos como, por exemplo, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), ou instituições financeiras privadas.
Mas Degaspari aponta que não é benéfico concentrar os esforços em uma única fonte de recursos. “O mercado de capitais é recente e, antes dele, sempre tivemos importantes parceiros bancários que foram fundamentais para suportar o crescimento contínuo do grupo CMAA”, relata ele.
Além disso, o diretor financeiro detalha que cada forma de captação tem suas características, principalmente quanto a prazos e custos, que se adequam melhor a determinada necessidade da empresa.
Motta, do UBS BB, reitera que é saudável a empresa não ficar limitada a só uma opção de financiamento. Eventualmente, a captação via bancos pode estar a uma taxa mais baixa do que a do mercado de capitais, mas o contrário também pode ocorrer.
“Quando pensamos em um financiamento bancário, a estrutura de preço é dinâmica. Quando a empresa se torna emissora recorrente, tem um custo menor operacional”, Fernanda Motta (UBS BB)
Os altos e baixos podem ocorrer por conta do cenário macroeconômico. Perossi, da Diana Bioenergia, destaca a importância de a empresa não ficar refém de só uma fonte de recursos caso haja reviravoltas de mercado. “No Brasil, tudo muda muito constantemente. Então, é preciso ter um apoio maior para que em algum momento, caso precise, seja possível acessar aquele mercado enquanto o outro está mais apertado”, relata.
O diretor administrativo e financeiro complementa que, no ano passado, com o início da pandemia de coronavírus, o mercado de capitais “retraiu muito”. Por outro lado, os bancos conseguiram dar suporte às empresas. “O governo soltou uma linha via BNDES que ajudou, a FGI [Fundo Garantidor para Investimentos]”, relembra.
A visão é reiterada por Freitas, da XP Investimentos. Ele detalha que, quando a companhia traz a captação via mercado de capitais para o seu dia a dia, ela gera concorrência com os atuais credores – os bancos –, que se tornam mais eficientes.
“Vemos empresas que captam recursos do mercado de capitais e pré-pagam as linhas dos bancos; os bancos voltam no dia seguinte dizendo que a condição melhorou e a companhia consegue melhorar o seu perfil de passivo. Mais para frente, ela faz um novo CRA e entra nesse círculo virtuoso”, Pedro Freitas (XP Investimentos)
De forma geral, os requisitos para o acesso ao mercado de capitais ajudam a empresa a melhorar o perfil do seu passivo, trocando a dívida que é menos eficiente para a companhia – mais curta ou cara –, por uma mais longa, barata e inteligente, de acordo com Freitas.
“Tem empresas que tem, por natureza da operação, um crédito de curto prazo necessário para pagar tradings. Ela consegue acessar, via mercado de capitais, operações com prazos mais longos e fica com essa porta de operação bilateral aberta”, complementa Motta.
Na visão de Perossi, a grande vantagem é obter prazos e taxas melhores em comparação com linhas normais. “Tem o lado mais burocrático, pois há uma exigência muito maior. Já com os bancos, o acesso mais fácil, mas é mais de curto de prazo e mais caro”, compara o diretor administrativo e financeiro da Diana Bioenergia.
Ainda assim, especialmente no caso do BNDES, as vantagens podem superar a do mercado de capitais, dependendo da situação da empresa.Na experiência da usina Sonora, que já precisou de incentivos das operações diretas do banco estatal, isso gerou um relacionamento importante. “[O BNDES] dá prazo e oferece uma taxa de fomento muito melhor que a do mercado”, relata Giobbi.
Ele destaca a importância do prazo de amortização para o negócio sucroenergético, uma vez que o setor exige capital muito intensivo de investimentos recorrentes. “É preciso ter um retorno mais longo dos nossos projetos, pois são investimentos que exigem muita quantidade de capital, como o projeto de cogeração que acabamos de fazer pelo BNDES”, conta.
Giobbi explica que, enquanto em um CRA ou financiamento com um banco comercial o prazo para pagamento é de, no máximo, quatro ou cinco anos, o banco federal pode dar o dobro de tempo. Com isso, as emissões de títulos são mais utilizadas pela Sonora para capital de giro e geração de liquidez. “É para podermos trabalhar o nosso caixa de curto prazo e o nosso plantio, ponto essencial para o nosso negócio”, completa.
A Coruripe, por sua vez, realizou operações indiretas por meio do banco de desenvolvimento entre 2015 e 2019 e, atualmente, possui um limite aprovado para buscar uma possível operação maior. “O BNDES é uma boa opção, pois ele dá prazo e um custo favorável”, pontua.
Além do BNDES, a Coruripe também transaciona com o Banco do Nordeste (BDN) e com o Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG), obtendo uma cesta de opções que inclui tanto mercado de capitais quanto bancos de fomento. Com isso, de acordo com Soret, a empresa consegue balancear custos, garantias e preços.
Os principais destinos dos recursos
De acordo com Freitas, em geral, as empresas usam o valor captado para realizar investimentos em aumento de capacidade industrial ou em ampliação e melhoria do canavial. “É um dinheiro novo para dentro da companhia, que não consome o limite bancário dela”, explica.
Motta completa que, eventualmente, o valor pode ser usado para investimentos em cogeração. “Mas, geralmente, ele é para a atividade e para composição de caixa”, diz. A melhoria de plantas ou investimento em novas unidades são alguns dos usos visualizados por Licarião.
Degaspari, da CMAA, especifica que o capital obtido pela companhia vem sendo aplicado para o suporte de crescimento contínuo, gerando um crescimento médio anual de 20%. Os recursos também são direcionados para máquinas, equipamentos agrícolas e industriais, aumento do canavial, melhorias e modernização de processos.
Outro foco é o de qualificação da carteira de crédito e empréstimos da companhia, com redução dos custos e alongamento dos prazos de vencimento.
A preocupação é semelhante à da usina Coruripe. Segundo Soret, além do aumento do prazo dos débitos, existe o objetivo de reduzir a exposição em dólar. “Com o mercado de capitais, conseguimos um endividamento mais alongado. Não queremos ficar com mais de 20% da dívida travada em dólar, mas hoje esse número é maior”, afirma.
Com os valores obtidos por meio uma debênture incentivada emitida em abril, de R$ 75 milhões, a Diana Bioenergia usou R$ 40 milhões para a melhoria de seu perfil de endividamento, realizando o resgate antecipado das debêntures das três emissões anteriores.
Além disso, a outra parcela foi destinada à gestão ordinária da empresa, ou seja, gastos diários da usina. “Temos a política de caixa mínimo, onde sempre temos um caixa para o ano inteiro de, no mínimo, R$ 50 milhões” explica o diretor administrativo e financeiro da empresa.
De acordo com Perossi, a companhia vem fazendo um trabalho de reestruturação após resultados negativos em 2016 e 2017, tendo reformado 70% dos canaviais em três anos.
Ele ainda completa que, em 2020, foi feita uma reestruturação de aditamento. “Para acessar o mercado de capitais é preciso ter bons números bons e a Diana vem construindo isso”, completa.
Já no caso da usina Sonora, os valores são majoritariamente usados para capital de giro. “Temos uma estratégia muito bem definida para compor os gastos com plantio e tratos culturais, pois trabalhamos com uma cultura com prazo longo de ciclo e precisamos recompor o nosso caixa” detalha Giobbi.
Ele completa que, com isso, a Sonora obtém um indicador de liquidez “significativo” se comparado ao de usinas que têm divulgações públicas, como a São Martinho e a Jalles Machado, que são referências para a empresa. “Estamos indo em uma linha que é a de melhor precificação de taxa possível para os bancos e para os investidores. Todos eles buscam uma liquidez de caixa de, pelo menos, acima de 1,5 vez a 2 vezes”, explica o diretor administrativo e financeiro.
Outros caminhos
Ainda que as debêntures incentivadas e os CRAs sejam as alternativas mais comuns para o setor, existem outras modalidades de acesso a crédito, além de possibilidades que estão por vir.
Motta, do UBS BB, detalha que vem ocorrendo acessos ao mercado de capitais via Fundo de Investimento em Direitos Creditórios (FIDC). Trata-se de dívidas que são convertidas em títulos e que podem ser vendidas a terceiros por meio de securitização. “Majoritariamente, são bancos cedendo carteira, mas já vejo algum acesso diretamente, com compra de recebíveis”, explica a diretora.
Outra novidade para o setor está nos fundos imobiliários voltados para o agronegócio, que são focados em aquisição de terras e arrendamentos para produtores.
Além disso, o mercado começa a expandir. A lei 14.130/2021, dos Fundos de Investimentos das Cadeias Agroindustriais (Fiagro), deve trazer um novo veículo de acesso ao mercado de capitais para o agronegócio especificamente.
“Ela mantém benefícios tributários que se tinha em fundos imobiliários, podendo financiar e fazer aquisição de recebíveis ou de terras com benefícios tributários”, detalha Motta. Embora a regulamentação da CVM ainda esteja pendente, esta é uma modalidade que, segundo ela, o mercado está aguardando “com bastante euforia”.
Motta considera que o Fiagro vai aumentar mais os bolsos de fundos de CRAs que, atualmente, não são realizáveis, devolvendo o benefício tributário. “Hoje ou se faz um FIDC, que vai puramente para o investidor tradicional e que não tem o benefício tributário, ou se faz o CRA diretamente para pessoa física”, explica.
Além disso, pensando no mercado externo, os Climate Bonds Initiative (CBI) também vêm ganhando espaço, ainda que com menos força. Freitas pontua que o setor de bonds teve, do lado dos investidores, uma experiência “muito ruim” com as sucroenergéticas brasileiras.
A recente emissão da FS Bioenergia, foi uma reabertura deste mercado. “Mas é um setor com muito menos profundidade. Além do mercado de bonds não estar tão aberto às empresas do setor sucroenergético, percebemos que elas têm direcionado mais esforços para a captação no mercado local, dado o movimento e as oportunidades”, detalha Freitas, da XP Investimentos.
Licarião, do Santander CIB reitera as experiências negativas de empresas que emitiram bonds e sofreram com o risco cambial. “Hoje em dia, o investidor externo conhece profundamente esse mercado, mas tem resistência ao setor sucroenergético por conta do histórico. O apetite é muito menor”, considera.
De acordo com Licarião, a tendência é que haja cada vez mais operações com selo verde dentro da preocupação ESG, sigla referente a responsabilidades nas áreas ambiental, social e de governança. “Parte das transações que estamos discutindo [no Santander] tem sim esse selo verde. Isto é positivo e a minha visão é que cada vez mais esse mercado vai exigir esse tipo de preocupação e de compromisso das empresas com questões socioambientais. Vale tanto para mercado local quanto externo”, coloca.
Motta ainda aponta que o assunto foi acelerado pela pandemia de covid-19, uma crise sanitária que torna mais urgente o processo de verificação ambiental. “Não vemos ainda uma redução de taxa muito significativa, como tem no mercado europeu, que já faz os green bons há muito mais tempo. Mas vejo cada vez mais investidores com mais apetite para operações verdes e menos apetite para operações não verdes”, assegura.
Ela completa que, se tiver um mercado aquecido de emissões e o investidor precisar escolher entre uma operação verde e outra não, nas mesmas condições, “ele vai optar pela verde”.
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana