NovaCana

Andréa Veríssimo (Unem): “Os mercados ficam felizes por terem segundo fornecedor de DDG”

Diretora de relações internacionais e comunicação da entidade detalha quais são suas apostas para o futuro do etanol de milho, com destaque para a exportação dos demais produtos da destilaria

NovaCana 14 min de leitura

“Um setor que, hoje, chama muita atenção, mas que não foi levado a sério por muita gente no passado”. É assim que a diretora de relações internacionais e comunicação da União Nacional do Etanol de Milho (Unem), Andréa Veríssimo, define o segmento que ela representa ao relembrar os anos anteriores à primeira grande onda de crescimento.

Quase uma década após a inauguração da primeira usina de etanol dedicada exclusivamente ao milho – a unidade da FS em Lucas do Rio do Rio Verde –, a percepção é bastante diferente. “O etanol de milho vem provando que é sustentável, que tem um bom modelo de negócio e que funciona no Brasil”, resume.

A executiva ainda defende que a indústria que processa o grão está disposta a colaborar com o setor de biocombustíveis de uma forma ampla, visando a expansão do mercado dentro e fora do Brasil.

Ela pretende transmitir essa mensagem no painel “O que esperar do avanço do etanol de milho” durante a Conferência NovaCana 2026. O evento acontece nos dias 28 e 29 de setembro, em São Paulo (SP), e as inscrições estão abertas.

Após a apresentação, ela participará de um debate com o gerente de crédito de agronegócio do Itaú BBA, Guilherme Theodoro; e o chefe do departamento de pesquisas do Rabobank, Andy Duff.

A programação da Conferência NovaCana 2026 já está disponível. A seguir, leia a entrevista completa.

A Unem frequentemente destaca o rápido crescimento do etanol de milho que, em 2025/26, correspondeu a 27,3% da produção do Centro-Sul. Você pode falar um pouco sobre essa trajetória?
Como utilizamos milho de segunda safra para a produção de etanol, esse setor trouxe renda para o produtor em um período em que ele estava fazendo a segunda safra, principalmente por uma questão fitossanitária. O agricultor não podia plantar soja e soja de novo: para controle da ferrugem asiática, foi proibido fazer as duas culturas iguais. Então, eles cortavam esse ciclo com o milho para ter uma cobertura de forragem e realizar o controle de nematoides. Antes dessa indústria aparecer, o produtor às vezes tinha aquele monte de milho sem ter onde armazenar. Era um volume gigantesco e eles precisavam de leilão público para poder vender a produção. Quando chega a indústria de etanol de milho, ela passa a ser um demandador regular e o produtor tem um estímulo para uma segunda safra. Economicamente, o etanol é uma atividade muito interessante: tem matéria-prima disponível e capacidade de expansão de produção. Por isso, começamos a ver mais capital vindo para esse setor e agora há uma expansão geográfica. O setor começou no Centro-Oeste e agora tem vários investimentos no Nordeste; também está começando a surgir no Norte e no Sul.


“Estamos com 29 biorrefinarias em funcionamento, 13 que têm autorização de construção e outras 14 que estão aguardando as licenças para começar as construções. Hoje, estamos vendo uma expansão para outras regiões do Brasil”, Andréa Veríssimo (Unem)


Até quando esse ritmo deve permanecer acelerado? Há um limite para esse avanço?
Na verdade, além dessa questão geográfica, tem outros dois movimentos de expansão que eu acho importantes. Vemos empresas de cana se tornando flex, com expansões ou adaptações, para aproveitar o bagaço. Esses projetos são muito sustentáveis, pois usam o resíduo de uma produção para a outra. E o outro aspecto é a expansão dos tipos de matéria-prima. No Nordeste já tem duas empresas usando sorgo, além de mais uma no Mato Grosso do Sul. Rapidamente, já temos novos genomas de sorgo com mais amido; e ele também produz DDG [grãos secos de destilaria]. Isso permite que a expansão para outras áreas, porque o sorgo demanda menos água do que o milho. E, no Sul, uma empresa já em funcionamento está utilizando trigo e uma em construção vai utilizar trigo e triticale. Você me perguntou qual é o limite da expansão. Eu não sei dizer por que ela está acontecendo em várias frentes e as projeções que fazemos é que esse setor dobre na próxima década.

Você já citou o DDG, então, vou aproveitar para entrar nesse assunto. Com a queda nos preços do etanol vista este ano, as vendas de DDG se mostraram essenciais para manter as plantas rentáveis. Qual tem sido o papel desse produto para as companhias que processam o grão?
O DDG tem sido fundamental. Ele tem realmente ajudado na equação financeira. E há muita demanda no mercado interno, pois pode ser usado na alimentação de qualquer espécie: gado de corte, gado de leite, suínos, aves, peixes e até cachorro e gato. Mas, no Brasil, a principal demanda realmente tem sido para a pecuária de corte e de leite. As empresas estão produzindo estudos científicos para ver como o DDG pode se incluir nas dietas de monogástricos, os suínos e as aves.

E no mercado externo? Como está o trabalho para levar esse produto para fora?
Nós temos, junto com a ApexBrasil [Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos], um programa de promoção de exportações do DDG. Agora, isso está sob a minha responsabilidade. Já estamos em um segundo convênio com a Apex e buscamos apresentar e abrir os mercados externos para o produto. Isso foi uma visão estratégica da indústria. Começamos a discutir isso quatro anos atrás. Na época, o DDG estava super bem, o mercado tinha demanda e tinha até fila para comprar. Mas o setor entendeu que tinha que ter essa possibilidade do mercado externo.

Por quê?
Tem vários aspectos que a exportação nos traz. Um deles é que o comprador externo às vezes é mais exigente do que o brasileiro. Várias cadeias produtivas do agro tiveram melhoria no produto aqui dentro depois que passamos a exportar: vinho, maçã e outras frutas. O mercado exterior é exigente e nos faz ter que adotar critérios, certificações e rastreabilidades que aumentam a régua aqui dentro. E ele nos dá um equilíbrio. Se houver algum problema aqui dentro – vamos dizer que o mercado caia muito ou ocorra um grande evento sanitário –, há essa forma de escoamento para o exterior. Além disso, a demanda internacional é muito grande porque apenas os Estados Unidos são um grande produtor e exportador de DDG, dominando esse mercado. Tem outros países que produzem, mas o volume é muito menor. O Brasil já é o segundo maior do mundo. Quando chegamos nesses mercados, eles ficam felizes com a possibilidade de ter um segundo fornecedor; já ouvimos isso no Vietnã, na China. Depender de um fornecedor só é ruim. Como o Brasil é tão respeitado na exportação de várias outras commodities, somos bem recebidos quando apresentamos o DDG.

Ainda nessa questão da exportação. Ao longo dos últimos meses, vimos diversos mercados se abrindo para as exportações de DDG, incluindo países relativamente próximos, como Chile e Costa Rica. Na sua visão, quais são os locais com maior potencial?
Quando nós mapeamos o mercado, a maioria dos destinos apareceu na Ásia. Naquela época, a China ainda nem estava aberta. Aliás, nós tivemos uma reunião com a Cofco e o pessoal de lá falou que só eles teriam uma demanda de 5 milhões de toneladas por ano; um volume acima do que estávamos produzindo. Ou seja, só a demanda dessa empresa era mais do que produzíamos. Como a China está em uma “trade war” com os Estados Unidos desde a primeira gestão do presidente Trump, eles deixaram de comprar muita coisa dos EUA. Então, eles estão com fome por DDG. A China tem uma demanda gigantesca. Mas também há vários outros países, como Vietnã, Tailândia, Nova Zelândia e Turquia. Vamos fazer, em outubro, a primeira missão para Japão e Coreia do Sul, que são dois mercados com potenciais bem interessantes.

Recentemente, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) formalizou as diferentes classificações do DDG. Você pode comentar um pouco sobre a relevância disso?
Na verdade, eu queria contar um pouco da história da criação da normativa. Nós também entendíamos que era importante ter uma padronização, até para impedir que qualquer produto virasse DDG e isso prejudicasse a categoria em si. Era importante ter uma clareza de padrões mínimos, máximos, e os tipos de produtos. Então, foi um trabalho feito a várias mãos, foi bacana. O Ministério da Agricultura disse que não queria fazer uma imposição “top-down”, até porque é um produto novo. Então, a Unem levou servidores do ministério para visitar as biorrefinarias; eles entenderam o processo produtivo e os produtos. E o professor Flávio Portela [Santos, da Esalq-USP], que é uma grande autoridade no setor, fez um estudo muito completo olhando os padrões americanos, porque os Estados Unidos têm os chamados handbooks, os guias. Afinal, não adiantava fazermos uma coisa muito diferente porque o mercado mundial está estabelecido nesses padrões. Ele também fez um estudo do que as empresas brasileiras estavam produzindo. A partir disso, foram vários alinhamentos; tem um comitê técnico na Unem para tratar sobre produtos. Então, o texto foi feito a várias mãos: governo, Unem, academia e empresas; e também teve consulta pública. Assim, todo mundo gostou muito quando saiu a normativa, porque ela ajuda a criar esses critérios, esses padrões, dentro do mercado.


“Antes, o DDG era chamado de coproduto. A partir dessa normativa do Mapa, que foi uma grande vitória, passamos a chamar de produtos da destilaria de etanol de milho. O DDG subiu um nível”, Andréa Veríssimo (Unem)


Nesse sentido, uma coisa que é importante de falar é que o WDG, o grão úmido, é um produto bem diferente porque ele não tem um tempo de prateleira muito grande. Então, ele acaba sendo vendido nas proximidades. Ele é um ótimo produto, mas vai para confinamentos de até uns 50 km de distância, não é um produto que serve para exportação. Devido à umidade, ele é muito perecível.

Indo agora para o etanol. Um consultor do setor observou que a perspectiva de aumento na demanda de anidro com o E32 é de 1 bilhão de litros ao ano, e que essa seria a capacidade de uma única usina da Inpasa, por exemplo. Como a Unem e o setor de etanol de milho como um todo podem atuar para ampliar a consumo, considerando o acréscimo na oferta?
Nós estamos atentos a isso. Apesar de o etanol estar mais barato que a gasolina, o consumidor não está aderindo tanto. Muito embora tenha um carro flex, ele não está fazendo essa decisão na bomba; parece que ele não lembra que poderia fazer essa opção. Então, tanto nós quanto a Unica, estamos olhando para o mercado para entender um pouco mais de onde vem esse comportamento do consumidor e para ver se encontramos mecanismos de ampliação desse consumo. Outra frente de atuação é também o mercado externo. O setor marítimo e o aéreo têm metas de descarbonização bastante grandes: nós sabemos que são mercados futuros muito líquidos e certos. Ao mesmo tempo, há regras nesses mercados que ainda estão sendo estabelecidas. Quanto que emite de carbono? Qual é o índice de mudança de uso da terra? O que estamos fazendo para garantir que esses mercados existam é atuar nessas frentes, porque são grandes organismos mundiais que estão fazendo essas decisões. E o produto do Brasil é diferente; não se pode aplicar os mesmos critérios dos Estados Unidos, por exemplo.

Você pode detalhar essa questão? O que precisa ser observado para diferenciar o produto brasileiro do norte-americano?
Os Estados Unidos têm dois pontos muito diferentes da produção brasileira. Um é que eles usam gás natural para a fábrica funcionar, enquanto nós usamos biomassa, um produto renovável. O gás natural é um produto que vem do petróleo, de fonte fóssil. E eles só têm uma safra por ano; nós temos duas. Alguns países já começam a reconhecer essas diferenças. No setor marítimo, já tivemos alguns reconhecimentos importantes da IMO [Organização Marítima Internacional]. O Japão também reconheceu recentemente o valor de emissão de carbono do etanol de milho do Brasil como menor que o dos Estados Unidos. Mas esses mercados são mais a médio prazo porque também tem os testes – os testes nas máquinas, nos aviões, nos navios. Estamos fomentando esses mercados futuros. Mas também tem um olhar para o momento presente, para ampliar as exportações. Se tiver etanol demais dentro do país, o preço vai cair e isso pode inviabilizar a produção.


“O Brasil mantém uma tarifa de 18% para as importações americanas como uma forma de proteger a nossa indústria nacional. Sem uma tarifa, o etanol americano entra muito barato no país e isso nos prejudica”, Andréa Veríssimo (Unem)


Desde a implantação das primeiras plantas no Centro-Oeste, a logística é apontada como um gargalo para o etanol de milho. Atualmente, o custo para levar o produto aos consumidores é uma preocupação? Por quê?
Eu acho que é um problema no Brasil para qualquer setor. Às vezes, temos mais dificuldade de levar um produto do Centro-Oeste para o Pará do que do Pará para a China. O Brasil é um país continental, mas que não tem ferrovias suficientes, não tem alcooldutos suficientes. Tem muito para melhorar. Hoje, o etanol está com preços mais competitivos nos estados próximos à produção. Se você vai para o Rio Grande do Sul, por exemplo, o preço acaba sendo maior porque ainda não há uma produção local. A logística precisa ser resolvida, mas ela envolve muitos stakeholders diferentes; estamos falando de grandes obras de infraestrutura, de governos e de estratégias de longo prazo. Mas, certamente, é algo que precisa melhorar no Brasil. É um gargalo que existe.

Já que entramos em uma esfera política. Desde o início da expansão do setor, os estados do Centro-Oeste demonstram interesse para a implantação de novas unidades, inclusive com a oferta de incentivos fiscais. Qual é o peso desses benefícios para as decisões das companhias?
Eu não quero especular sobre o que eu não acompanho, mas o que eu posso falar sobre isso é que o governo federal está muito alinhado com as estratégias de combustíveis renováveis. É um governo que se preocupa com toda a transição energética; basta olharmos para a lei do Combustível do Futuro e, agora, para o aumento de mandato para a mistura de 32% como uma resposta ao choque do petróleo no Oriente Médio. Há um alinhamento muito grande, um reconhecimento muito grande desse setor de biocombustíveis. Eu participo de congressos em outros países e, diversas vezes, as pessoas perguntam: “Mas o que têm no Brasil de tão diferente? Como vocês conseguem ter um blend tão alto, ter tantas políticas que fomentam os biocombustíveis?”. E tem a própria diplomacia: em vários eventos, os nossos diplomatas estão presentes. Temos especialistas da área energética no Itamaraty. Agências, organizações, governo, diplomacia, empresários: todo mundo está muito bem alinhado e o crescimento do setor é o resultado disso. A América do Sul – podemos expandir esse olhar – tem uma capacidade fantástica para a produção de matéria-prima para biocombustível, seja para biodiesel, seja para etanol. Incluo a cana também, não só a parte de grãos.


Andréa Veríssimo é uma das palestrantes confirmadas na Conferência NovaCana 2026, que acontece em São Paulo (SP), nos dias 28 e 29 de setembro. Ela participará do painel “O que esperar com o avanço do etanol de milho”, quando serão abordadas questões como o crescimento acelerado e a chegada de novas companhias; o fim da sazonalidade dos preços de etanol; a competição por mercado e impactos regionais; o potencial real do DDG e do DDGS – dentro e fora do Brasil –; a busca urgente pela biomassa; além de desafios logísticos e outros gargalos. Clique aqui e acesse a programação completa.


Renata Bossle – NovaCana

Compartilhar: