Nas últimas duas semanas estas empresas foram consultadas e as opiniões, dúvidas e divergências entre elas você confere a seguir
As chuvas que antecederam o início da moagem da cana-de-açúcar no Centro-Sul do país e a expectativa de um clima “normal” ao longo dos próximos meses trouxeram uma dose de otimismo para as estimativas da atual safra canavieira.
Em menor ou maior escala, 12 das 13 empresas consultadas pelo portal NovaCana apontam um crescimento na moagem da principal região produtora em relação à safra 2014/15. Diferentemente das apostas feitas no ano passado, que sugeriam uma quebra agrícola média de 4,5%, neste ano, o ponto mais próximo de um consenso no setor indica um crescimento de 16 milhões de toneladas na oferta da matéria-prima.
“É um otimismo ponderado. Vamos ter um aumento da produção de cana, mas ela ainda será insuficiente para lotar as unidades industriais”, analisa o sócio da FG/Agro, Willian Orzari Hernandes.
Para o comparativo das estimativas da safra 2015/16 do portal NovaCana foram compiladas projeções de 13 instituições: Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), Banco Pine e as consultorias Canaplan, Archer Consulting, FG/Agro, INTL FC Stone, Job Economia, Rabobank, Platts Kingsman, Czarnikow, F.O Licht e Agroconsult.
Nas últimas duas semanas estas empresas foram consultadas e as opiniões, dúvidas e divergências entre elas você confere a seguir. E mais:
- Sete gráficos comparando os sete principais indicadores de todas as estimativas das instituições e consultorias.
- Médias dos sete indicadores estimados
- Consultorias avaliam como as medidas de estímulo podem afetar as projeções
- As diferentes visões em relação a recuperação da moagem em 2015/16
As chuvas que antecederam o início da moagem da cana-de-açúcar no Centro-Sul do país e a expectativa de um clima “normal” ao longo dos próximos meses trouxeram uma dose de otimismo para as estimativas da atual safra canavieira.
Em menor ou maior escala, 12 das 13 empresas consultadas pelo portal NovaCana apontam um crescimento na moagem da principal região produtora em relação à safra 2014/15. Diferentemente das apostas feitas no ano passado, que sugeriam uma quebra agrícola média de 4,5%, neste ano, o ponto mais próximo de um consenso no setor indica um crescimento de 16 milhões de toneladas na oferta da matéria-prima.
“É um otimismo ponderado. Vamos ter um aumento da produção de cana, mas ela ainda será insuficiente para lotar as unidades industriais”, analisa o sócio da FG/Agro, Willian Orzari Hernandes.
Para o comparativo das estimativas da safra 2015/16 do portal NovaCana foram compiladas projeções de 13 instituições: Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), Banco Pine e as consultorias Canaplan, Archer Consulting, FG/Agro, INTL FC Stone, Job Economia, Rabobank, Platts Kingsman, Czarnikow, F.O Licht e Agroconsult.
“Vamos ter um aumento da produção de cana, mas ela ainda será insuficiente para lotar as unidades industriais”
Willian Orzari Hernandes — FG/Agro
Moagem: recuperação média de 2,8%
Não fosse a estimativa de 566 milhões de toneladas da Canaplan, a única a projetar uma queda na moagem de cana no Centro-Sul, a premissa de crescimento para a safra 2015/16 seria praticamente uma unanimidade entre as consultorias.
A média das estimativas aponta para 587,33 milhões de toneladas, valor 2,8% superior ao registrado na safra passada, enquanto que a aposta mais otimista, de 617 milhões de toneladas, sinaliza um aumento de 8% no processamento da matéria-prima.
Entre grupos sucroalcooleiros como Bunge e Cosan, a expectativa também é de uma moagem mais elevada devido ao tempo mais favorável para as lavouras. “Neste momento, a gente até está apontando uma moagem mais próxima do topo do guidance do que propriamente no meio do guidance”, afirmou recentemente o presidente-executivo da Cosan, Nelson Gomes. Com oito usinas de açúcar e etanol no Brasil e capacidade de moagem de 21 milhões de toneladas, a norte-americana Bunge estimou recentemente uma moagem de 588 milhões de toneladas no Centro-Sul.

“Se tivermos muitos dias de chuva, aí teremos uma moagem menor. Mas não porque não haverá cana, e sim porque não será possível cortá-la e moê-la”
Patrícia Manso — Platts Kingsman
O aumento do volume de cana marca praticamente todas as projeções em diferentes níveis. Nota-se, no entanto, uma polarização das estimativas, que dividem-se em dois intervalos.
O primeiro, mais baixista, na casa dos 575 a 589 milhões de toneladas, no qual convergem Archer (573,7), F.O Licht (580), INTL FC Stone (582,9), Job Economia (585), Platts Kingsman (585), Rabobank (586) e FG/Agro (589), e o segundo, mais altista, a partir das 590 milhões de toneladas. Neste intervalo, figuram USDA (590), Banco Pine (592), Conab (592,7), Czarnikow (596) e Agroconsult (617).
Os números mostram certa imprevisibilidade quanto à atual safra canavieira, marcada pela diferença de 51 milhões de toneladas entre a projeção mais otimista e a mais negativa. Esta indefinição é 21,9 milhões de toneladas menor que o abismo de 72,9 milhões de toneladas que separava os dois extremos nas estimativas do ciclo anterior.
Clima, açúcar, aquecimento da demanda por etanol e a sinalização de melhores preços para o biocombustível ante as recentes medidas adotadas pelo governo são variáveis constantes nas avaliações.
“Temos incertezas quanto ao clima, mas de uma forma diferente em relação à safra passada. É mais a disponibilidade de cana para a moagem [não mais de disponibilidade de cana no campo]. Se tivermos muitos dias de chuva, aí teremos uma moagem menor. Mas não porque não haverá cana, e sim porque não será possível cortá-la e moê-la”, destaca a diretora de pesquisa agropecuária da Platts Kingsman, Patrícia Manso, ao relativizar as incertezas quanto ao clima.
Rabobank e Canaplan apresentam estimativas opostas em relação ao processamento da matéria-prima, mas concordam quanto ao impacto da seca de 2014/15 no atual ciclo canavieiro.
“A nossa visão é de uma seca forte que terá um impacto nas duas safras (2014/15 e 2015/16). Ela não será limitada apenas a um ciclo”, afirma o estrategista de açúcar e etanol do banco holandês Rabobank no Brasil, Andy Duff.
“O que temos observado é uma expectativa do mercado, como um todo, de uma melhora muito grande dos canaviais com as chuvas de fevereiro e março. No entanto, na nossa análise, o que temos percebido é que em outros anos, como na safra 2011/12, por exemplo, mesmo com chuvas mais intensas, essa reposta do canavial não acontece de uma maneira muito efetiva”, argumenta o analista da Canaplan, Ricardo Inojosa.
A nota dissonante nas projeções de moagem é acompanhada pela ressalva de que as chuvas de verão não são o suficiente para melhorar a produtividade dos canaviais.
“Olhamos muito para a questão do investimento em replantio. Não acreditamos que este clima um pouco melhor vai realmente trazer alguma recuperação aos canaviais em relação ao ano passado. Não acreditamos nisso exatamente pela questão do investimento em replantio”, considera Inojosa. Segundo dados da consultoria, em 2012, por exemplo, o plantio de cana representou 21% da área, em renovação ou expansão. Em 2013 esse percentual caiu para 17% e, no ano passado, foi de apenas 14,4%. Para 2015/16, a expectativa é que o indicador fique na casa dos 14%.
Em termos de produtividade, a Canaplan é pessimista e prevê o nível mais baixo entre as sete entidades consideradas para este comparativo: 71,5 toneladas por hectare de cana (TCH). No polo oposto está a INTL FC Stone, com 77,1 t/ha.
O etanol certamente vai ser uma âncora neste ciclo que está começando agora”
Júlio Maria Borges — Job Economia
A Canaplan trabalha com três cenários: seco, base e úmido. Num cenário de seca, por exemplo, a moagem é ainda menor, de 554,1 milhões de toneladas. Por outro lado, se a atual safra pender para um clima mais úmido, o processamento da matéria-prima é elevado para 577,9 milhões de toneladas.
A Conab, que tradicionalmente revela o otimismo dos usineiros no planejamento da safra, desta vez trouxe estimativas mais ponderadas, mas ainda assim otimistas quando comparadas com a média das consultorias.
A estimativa de ATR médio apresentada pela Conab é a mais alta entre as empresas analisadas, 137,8 kg/ton, e sinaliza uma recuperação de 0,9% na comparação com a safra passada.
No entanto, com a esperada normalidade de chuvas, a tendência é de redução da concentração de açúcar, impulsionada pela seca na temporada passada. A média das projeções aponta para uma redução de 0,5% no indicador, que cai para 135,86 kg/ton. Com exceção da própria Conab e da Agroconsult, que prevê um ATR de 136,9 kg/ton no atual ciclo canavieiro, as demais estimativas situam-se abaixo dos 136,58 kg/ton registrados em 2014/15.

“Com o clima mais úmido [no início de safra], o ATR médio está vindo um pouco pior na comparação com a mesma época do ano passado, o que favorece mais a produção de etanol e menos a de açúcar”, avalia o analista de açúcar e etanol da INTL FC Stone, João Botelho.
Já a oferta de ATR total na safra apresenta diferenças mais significativas.
Da projeção mais otimista, de 84,5 milhões de toneladas da Agroconsult, à mais negativa, de 77 milhões de toneladas da Canaplan, a diferença é de 7,5 milhões de toneladas.

Etanol: a âncora da safra 2015/16
O crescimento da frota flex e as recentes medidas do governo de incentivo à cadeia produtiva, como a volta da Cide, a redução do ICMS em Minas Gerais e o aumento da mistura do etanol anidro na gasolina, pesaram nas avaliações das consultorias, que – com exceção da Canaplan, INTL FC Stone e Banco Pine – esperam um aumento no consumo de etanol hidratado. A Archer é a única a projetar um consumo estável para o hidratado, de 15,38 bilhões de litros, ante os 15,39 bilhões de litros em 2014/15.
“As medidas do governo são um importante suporte e um argumento de que o etanol combustível vai ser uma boa opção nesta safra. O etanol certamente vai ser uma âncora neste ciclo que está começando agora”, avalia o sócio diretor e CEO da Job Economia, Júlio Maria Borges.
A FG/Agro estima uma paridade de preços entre 66 e 67% para o biocombustível na safra 2015/16, percentual semelhante à paridade de 66,5% registrada em 2014/15, nos cálculos da consultoria. “Em termos nominais [sem computar a inflação], a paridade este ano tende a ser melhor. A gasolina subiu quase R$ 0,20, então, o etanol subiria 66 a 67% deste valor, resultando num aumento de R$ 0,17, o que seria muito bom. É bastante margem para o produtor”, analisa Hernandes.
“Houve muitos incentivos ao etanol. É provável que isso se reflita na demanda. Hoje a paridade de preços em MG respondeu muito bem à mudança de ICMS. Minas é o estado com a 3a melhor paridade, só perde para SP e MS”, pontua Botelho, da INTL FC Stone.
Em março e abril do ano passado, a paridade de preços do etanol no estado era de 75,8 e 76,7%, respectivamente. Neste ano, porém, este percentual caiu para 70,8 e 67,5%, na mesma base de comparação.
Etanol total
FG/Agro e Agroconsult são as mais otimistas quanto à produção total do biocombustível. A primeira aponta uma produção de 27,8 bilhões de litros, crescimento de 6,3%, enquanto a segunda estima 28,7 bilhões de litros, alta de 9,8%.
A média das estimativas indica um crescimento de 2,4% na produção de etanol total, que sairia de 26,1 para 26,7 bilhões de litros.

O otimismo da Agroconsult é expresso, entre outros aspectos, pela maior margem que o etanol deverá entregar aos produtores no ciclo 2015/16 na comparação com o açúcar, numa média ponderada entre o anidro e o hidratado. “O açúcar deve entregar às usinas uma margem de 3% e o etanol 9%, isso numa média ponderada entre o anidro e o hidratado. No ano passado, estas margens eram de 9% para o açúcar e 7% para o etanol”, compara o sócio analista empresa, Fábio Meneghin.
“Vamos ter uma demanda firme por etanol combustível, bem melhor do que na safra passada, além de um melhor suporte para os preços. Imaginamos que os preços médios do etanol neste ciclo estejam acima dos preços da safra passada”, confirma Borges, da Job Economia.
A média das estimativas indica uma produção de etanol hidratado estável, com leve crescimento de 0,56%, de 15,39 para 15,47 bilhões de litros. Já o anidro apresenta a maior alta em termos percentuais na comparação entre os dois combustíveis. O crescimento médio é de 5,4%, de 10,7 para 11,3 bilhões de litros, reflexo, principalmente, da demanda adicional de 1 bilhão de litros resultante do aumento da mistura de anidro na gasolina.

Mix mais alcooleiro
Apenas três empresas apontam uma elevação do mix açucareiro, que sairia de 43,02% para 43,4% no caso do Banco Pine, e para 44,5 e 44% no caso das consultorias Czarnikow e Platts Kingsman.
“O real fraco ainda incentiva a indústria a maximizar a produção de açúcar”, justifica a Czarnikow, ao apontar as estimativas para o atual ciclo de cana.
No entanto, a expectativa de um crescimento do percentual de cana destinado à produção de açúcar não é consensual. A maior parte das consultorias vê um mix predominantemente mais alcooleiro, o que é refletido no aumento de 0,26 ponto percentual no mix do etanol, que na média das estimativas sai de 56,98% para 57,24%. O mix de açúcar cai 0,3 ponto percentual de 43,02% para 42,76%.
“Eu diria que existe um pequeno viés alcooleiro neste momento, mas diferente do que ocorreu no ano passado. O viés possui uma intensidade menor do que na safra passada”, pondera o sócio da Job Economia, Júlio Maria Borges, que ainda não fechou as estimativas para a atual safra.

“O mix é para nós a grande incerteza. Estamos trabalhando com um mix de 44% para o açúcar, mas estamos percebendo que a demanda por hidratado está bastante aquecida e, quando comparamos os preços na curva de futuros e fazemos a equivalência, vemos que o rendimento do hidratado em relação ao açúcar, em determinadas alturas da safra, pode mudar um pouco este mix”, considera Patrícia, da Platts Kingsman.
A executiva baseada em Genebra, na Suíça, antevê a possibilidade de reduzir o mix açucareiro e aumentar a parcela de cana destinada à produção de etanol. “Num segundo cenário, há a possibilidade de alteração de 1% no mix, que seria mais alcooleiro. Com isso, perderíamos 700 mil toneladas de açúcar e ganharíamos mais etanol”, calcula.
“A chance de prever o câmbio e errar este ano é forte, diferente do ano passado em que tínhamos eleições e a premissa de que o governo não podia deixar esta bomba estourar. Este ano tudo pode acontecer”
Willian Hernandes — FG/Agro
Câmbio e incertezas no mercado de açúcar
Na visão dos analistas, a principal incerteza quanto ao preço do açúcar no mercado internacional é a taxa de câmbio.
“O preço no mercado externo vai depender fundamentalmente da taxa de câmbio aqui no Brasil. Se a taxa de câmbio ficar relativamente alta, o preço lá fora em dólar deve subir, mas não muito”, avalia Borges.
“O câmbio é uma variável muito difícil de prever. Contudo, é quase certeza que se ele vier pra R$ 2,50, o preço da commodity em centavos de dólar por libra-peso volta para a casa dos 16, 17 cents. A chance de prever o câmbio e errar este ano é forte, diferente do ano passado em que tínhamos eleições e a premissa de que o governo não podia deixar esta bomba estourar. Este ano tudo pode acontecer”, adverte Willian Hernandes, da FG/Agro.
A média das estimativas aponta para uma produção de 32,3 milhões de toneladas de açúcar, elevação de 1,2% em relação a 2014/15.

“A esperança é que vai haver uma reação [dos preços do açúcar], mas vai demorar uns dois ou três meses para que vejamos as evidências disso”
Andy Duff, Rabobank
No polo mais otimista está a Czarnikow, que projeta uma produção de 34 milhões de toneladas de açúcar, volume 6,2% maior que o registrado em 2014/15 e 5% acima da média das estimativas.
“A queda nos preços do açúcar tem sido, em parte, mitigada por um real mais fraco. Para as usinas capazes de fixar os preços mais cedo, o contango - situação na qual o preço do mercado futuro está acima do preço spot esperado para o futuro – tanto para o açúcar quanto para os contratos futuros em reais permitiu que estas usinas garantissem retornos robustos”, disse, recentemente, a empresa em relatório.
No lado oposto das previsões, está a aposta da Canaplan, que calcula uma redução de 1,2 milhão de toneladas de açúcar, de 32 para 30,8 milhões de toneladas.
O elevado nível dos estoques mundiais e os baixos preços do adoçante no mercado internacional são os fatores que limitariam a produção do adoçante.
“Embora o Brasil tenha uma participação grande no mercado, os níveis de estoques estão bem elevados. O que temos visto, em reais, é o açúcar acompanhando muito o preço do etanol no Brasil, que por sua vez acompanha o preço da gasolina. E não tem fugido muito disso neste cenário de estoques ainda altos, que agora sinalizam para um déficit global”, argumenta o analista da Canaplan, Ricardo Inojosa.
Por outro lado, uma recuperação dos preços do produto poderá ocorrer no segundo semestre “caso haja a redução dos estoques no Brasil”.
Andy Duff, do Rabobank, comenta o sentimento do mercado mundial em relação a recuperação dos preços do adoçante.
“O mercado está esperando para ver se a produção global vai reagir [com redução dos volumes], para ver se o ciclo internacional 2015/16 vai reagir, finalmente, a estes preços baixos. Vamos entender se realmente passamos do ponto da virada do ciclo. Há a esperança de que finalmente, ao longo dos próximos doze meses, vamos ver este ponto da virada, mas isso depende muito das decisões em termos de plantio dos produtores em vários países do hemisfério norte, como a Índia e a Tailândia, por exemplo. Estes números, estas impressões, vão sair durante o ciclo. A esperança é que vai haver uma reação [dos preços do açúcar], mas vai demorar uns dois ou três meses para que vejamos as evidências disso”, conclui Duff.
Leonardo Siqueira – NovaCana