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Em 10 anos, milho pode ultrapassar cana na produção de etanol, diz CEO da Millenium

Eduardo Lima fala sobre os planos da companhia, os projetos em andamento e reforça aposta em usinas com negócios diversificados, o que pode incluir até o confinamento de gado

NovaCana 12 min de leitura

Com empreendimentos no Brasil e no exterior, a Millenium Bioenergia está criando uma espécie de consórcio integrador, formado por companhias que atuam em torno da produção e do desenvolvimento do setor sucroenergético e de commodities. Com isso, a companhia se posiciona como um grupo voltado ao etanol de milho, mas que optou por desenvolver o mercado antes de iniciar as operações em sua primeira unidade.

Uma das apostas da empresa é o modelo total flex, onde as usinas podem produzir biocombustível à base de cana-de-açúcar e de milho durante todo o ano – ele se difere do flex convencional, onde o uso do grão estaria restrito à entressafra de cana de açúcar. Segundo o CEO da Millenium, Eduardo Lima, a estratégia pode ser replicada em usinas no mundo inteiro com alta eficiência, utilizando tecnologia brasileira.

“A visão foi desenvolver um modelo de negócio e abordagem de mercado para que, no futuro, nós tivéssemos preparados para mostrar para o mercado o que ninguém conhecia ainda. Sabíamos que o Brasil tinha um potencial enorme”, afirma e justifica: “Os Estados Unidos plantam milho durante meio ano, enquanto o Brasil tem duas safras, além do grão brasileiro ser de melhor qualidade”.

De acordo com ele, até 2014, a companhia tentava convencer as usinas de cana-de-açúcar a produzir o etanol de milho na entressafra. Depois, entretanto, a Millenium resolveu investir em seus próprios projetos.

A otimização, presente neste modelo de negócio que a empresa busca desenvolver, permite que as duas unidades industriais (cana e milho) utilizem uma única estrutura que engloba a parte corporativa, manutenção, destilaria, cogeração, armazenagem, tancagem, utilização de resíduos, mão-de-obra e logística.

“Uma vantagem é que – ao contrário da cana, que precisa estar ao lado da usina – o milho pode ser estocado. Ele é commodity. Eu não preciso plantar um pé de milho para produzir etanol. Eu posso comprar de qualquer lugar e vai compensar”, explica.

“Enquanto a cana-de-açúcar tem dois coprodutos, o milho tem cinco. Um dos nossos projetos vai fornecer gás carbônico para uma unidade da Coca-Cola”, Eduardo Lima (Millenium Bioenergia)

No texto completo, exclusivo para assinantes, confira a entrevista completa com Eduardo Lima.

Com empreendimentos no Brasil e no exterior, a Millenium Bioenergia está criando uma espécie de consórcio integrador, formado por companhias que atuam em torno da produção e do desenvolvimento do setor sucroenergético e de commodities. Com isso, a companhia se posiciona como um grupo voltado ao etanol de milho, mas que optou por desenvolver o mercado antes de iniciar as operações em sua primeira unidade.

Uma das apostas da empresa é o modelo total flex, onde as usinas podem produzir biocombustível à base de cana-de-açúcar e de milho durante todo o ano – ele se difere do flex convencional, onde o uso do grão estaria restrito à entressafra de cana de açúcar. Segundo o CEO da Millenium, Eduardo Lima, a estratégia pode ser replicada em usinas no mundo inteiro com alta eficiência, utilizando tecnologia brasileira.

“A visão foi desenvolver um modelo de negócio e abordagem de mercado para que, no futuro, nós tivéssemos preparados para mostrar para o mercado o que ninguém conhecia ainda. Sabíamos que o Brasil tinha um potencial enorme”, afirma e justifica: “Os Estados Unidos plantam milho durante meio ano, enquanto o Brasil tem duas safras, além do grão brasileiro ser de melhor qualidade”.

De acordo com ele, até 2014, a companhia tentava convencer as usinas de cana-de-açúcar a produzir o etanol de milho na entressafra. Depois, entretanto, a Millenium resolveu investir em seus próprios projetos.

A otimização, presente neste modelo de negócio que a empresa busca desenvolver, permite que as duas unidades industriais (cana e milho) utilizem uma única estrutura que engloba a parte corporativa, manutenção, destilaria, cogeração, armazenagem, tancagem, utilização de resíduos, mão-de-obra e logística.

“Uma vantagem é que – ao contrário da cana, que precisa estar ao lado da usina – o milho pode ser estocado. Ele é commodity. Eu não preciso plantar um pé de milho para produzir etanol. Eu posso comprar de qualquer lugar e vai compensar”, explica.

“Enquanto a cana-de-açúcar tem dois coprodutos, o milho tem cinco. Um dos nossos projetos vai fornecer gás carbônico para uma unidade da Coca-Cola”, Eduardo Lima (Millenium Bioenergia)

A seguir, confira a entrevista exclusiva com Eduardo Lima, CEO da Millenium Bioenergia.

Embora tenha sido fundada em 2014, a Millenium ainda não tem uma usina em operação. Quais têm sido as maiores dificuldades encontradas nos projetos desenvolvidos?
A principal dificuldade é a falta de uma cultura projetual no Brasil. Você traz recursos para o projeto usando como própria garantia o próprio projeto. Os bancos brasileiros estão acostumados a emprestar dinheiro para quem já tem dinheiro. As instituições financeiras não olham para a proposta, o que gera um histórico gigantesco de projetos que deram problemas, como atrasos de obras, equipamentos de baixa qualidade, dinheiro indo para situações irregulares. Nessas negociações, os projetos são secundários e os bancos não olham questões ambientais, estruturais e, principalmente, o básico. Desde 2015, a gente está em uma batalha para criar um ambiente de negócios propícios para o que fazemos, que não está na cultura brasileira, mas que lá fora, nos Estados Unidos e na Ásia, é normal.

Como funciona este modelo que vocês estão propondo?
Você pega o projeto, a área e dá tudo como garantia. Pegando contratos take-or-pay [acordos comuns no mercado de insumos, que obrigam o comprador a pagar mesmo em caso de desistência] para venda futura, como um contrato de etanol de 10 anos, o banco pode dar 5% de antecipação e já terei dinheiro. Hoje, nós estamos tratando e trabalhando a captação de recursos de fora, pois os juros estão muito atrativos; tem muito dinheiro sobrando e há mais espaço do que em um banco federal ou mesmo uma instituição privada brasileira.

Um dos objetivos da Millenium é a consolidação do modelo de operação total flex. A empresa já afirmou que com uma única indústria composta por duas unidades de processamento é possível até mesmo duplicar os ganhos. Quais são as projeções de crescimento para a adoção desse modelo, especialmente a médio e longo prazo?
Isso é possível se os usineiros de cana abrirem os olhos e o bolso para esta possibilidade, investissem, buscassem financiamento e viabilizassem tecnologias eficientes. Não adianta você pegar uma usina, fazer uma adaptação e querer que a unidade tenha grande expressão financeira. Mas se os usineiros optarem por investir, como a São Martinho está fazendo, o modelo total flex iria mudar o perfil de sustentabilidade financeira de todas as usinas. Uma destilaria pequena, que está morrendo por falta de recursos, pode contar com a alta eficiência o etanol de milho: a vida financeira dela muda. Isso muda o mercado. O Brasil teria chances incríveis de ser o maior produtor de etanol do mundo. Olhando para as usinas de etanol de cana que estão com sérios problemas financeiros, o governo poderia ajudar com linhas de financiamento para adaptações com tecnologias eficientes. Mas existe uma falta de vontade e de visão dos governantes e empresários.

Mas a questão do maior rendimento não é apenas por conta da maior produção de etanol, exato? Os coprodutos entram na conta.
Quando a usina é total flex, ela é uma planta de alta eficiência de etanol de milho e de alta rentabilidade. Você vai ter o DDGS [grão seco de destilaria] de qualidade superior, com 42% de proteína, que compete com o farelo de soja, com 48%. O farelo de soja é a segunda comodity agrícola mais vendida e exportada, mas o DDGS é até superior ao farelo, pois tem uma digestibilidade muito maior; todo produtor de frango, suínos ou gado sempre opta pela melhor proteína. O preço do DDGS vai bater em torno de 60% a 70% o valor do farelo de soja.

De acordo com dados da própria Millenium, no começo do ano, o preço da saca de milho para que uma usina seja competitiva no modelo flex era de até R$ 32, enquanto no total flex seria de até R$ 60. Hoje, o milho está acima destes patamares. O produto ainda pode ser considerado competitivo?
O milho está caro, chegou a R$ 90 reais a saca. Mas eu não diria que a dificuldade é o milho porque, se a companhia tem recursos e os colocou em um projeto de alta eficiência como o nosso ou o da FS Bioenergia, ela tem uma eficiência que permitirá ter lucro mesmo com o milho caro. Atualmente, com o milho e o etanol caros, nosso lucro está maior que em 2017, quando a saca do milho custava R$ 22. Hoje, com o preço do grão entre R$ 60 e R$ 70, o etanol também valorizou.

A aposta da Millenium é no uso conjunto de cana e milho. Uma unidade dedicada apenas ao grão compensa?
Não podemos nos apegar à visão de fazer algo só para o milho, pois isso é uma barreira para muitos usineiros de cana entrarem no mercado. Você não pode pensar em trabalhar só com o grão, precisa pensar no contexto de projetos integrados. Muitas usinas norte-americanas têm o confinamento de gado junto. Pensa bem: se eu estou produzindo ração animal, faz todo sentido colocar o animal ao meu lado, pois existe uma logística no transporte do DDGS. Uma usina de etanol de milho com a criação de gado ao lado economiza US$ 18 milhões com o secador de DDGS, que não será necessário, pois pode usar o produto úmido, o WDG [grão úmido de destilaria], que será distribuído direto para a alimentação dos animais. Você não terá mais o secador, a logística e o caminhão de transporte para longas viagens, gerando benefícios financeiros.

“Quando um projeto de etanol de milho é integrado ao gado, o lucro global do empreendimento é multiplicado por dois. A diversidade acaba sendo muito maior e, por isso, traz mais segurança. Você tem mais produtos para agregar valor e não fica na dependência do etanol e do açúcar”, Eduardo Lima (Millenium Bioenergia)

A União Nacional do Etanol de Milho (Unem) acredita que o Brasil deve produzir mais de 8 bilhões de litros de etanol de milho em 2028. Na última safra, com 2,65 bilhões, ele teve uma participação de cerca de 9% dentre a produção total do biocombustível. Considerando esse crescimento prospectado, qual o espaço que o etanol de milho pode tomar no mercado interno?
Nos próximos cinco anos, o milho tem potencial de aumentar a produção de etanol no país em 30%. Com a estabilização do preço do grão, ele pode ultrapassar a produção de etanol de cana dentro de 10 anos.

Atualmente, há poucos investimentos greenfield envolvendo a cana-de-açúcar, justamente pelas inseguranças do setor. Comparando com o retorno de investimento das usinas dedicadas totalmente ao milho, o investimento em unidades que trabalham com o grão em conjunto com a cana seria realmente vantajoso?
Cada caso é um caso. No Norte não se planta cana, apenas o milho; em uma região como essa é mil vezes melhor ter uma usina só de etanol de milho. Olhando por outro lado, se você tem a possibilidade de pegar uma usina existente e a transformar em total flex, isso é excelente. Quando a usina é apenas de milho, ela pode ficar em qualquer lugar, pois o grão é uma commodity, chegando a preço competitivo em todo mundo. Podemos colocar uma usina em qualquer lugar que tenha a rota do milho.

Mas a localização tem importado nos projetos anunciados. Mato Grosso chama atenção para a indústria do etanol de milho devido aos preços competitivos do grão e a facilitação de acreditações relacionadas à sustentabilidade. A própria Millenium conta com um projeto na região, em Jaciara.
Todas as outras usinas existentes de etanol de milho estão no norte do Mato Grosso, mas nós estamos a duas horas da capital, que é o maior mercado consumidor, e a uma hora do porto seco Rondonópolis. O etanol de Jaciara vai ficar para consumo interno do estado, este é o nosso foco. Devido à proximidade com a capital, o custo do nosso produto vai ser muito mais competitivo do que para quem está no norte do estado.

A empresa também está trabalhando em uma unidade no estado Queensland, na Austrália, com o modelo total flex. A princípio, foi divulgada a expectativa de que o investimento, de aproximadamente US$ 200 milhões, tenha retorno no prazo de cinco anos. Como está o andamento deste projeto?
O projeto sofreu uma desaceleração devido à pandemia de covid-19, mas agora está retomando. Ele será no condado de Burdekin, que tem muitos produtores de cana, com uma produção de 8 milhões a 9 milhões de toneladas por ano e quatro usinas. Nós, com o modelo total flex, precisamos de apenas 700 mil toneladas, uma pequena fração desta quantidade, para obtermos a sustentabilidade da biomassa necessária. Como na região tem pouco milho, vamos fomentar, levando até mesmo produtores brasileiros interessados em plantar milho para nosso fornecimento. Também vamos vender o DDGS para os grandes fornecedores de gado, entre eles a JBS. Vamos replicar toda a tecnologia brasileira neste projeto.

Quais são os próximos projetos que a Millenium visa desenvolver? Já tem algo encaminhado?
Estamos fazendo o registro da Millenium Bioenergy Europe Ltd, com sede em Londres. Além disso, enxergamos um nicho muito forte que é investir em usinas que estão em leilão, em recuperação judicial. Como é um ativo já implantado, é mais fácil um greenfield e há mais chances de fazer linha de financiamento e estruturação. Se eu consigo recuperar esta usina, reformar e pôr o etanol de milho, é uma revolução do mercado. Este é o caso da São Fernando, mas já estamos participando de outras tratativas com usinas de etanol de cana em recuperação judicial; temos intenção de comprar ou fazer parcerias.

Atualmente, não tem como falar da produção de etanol sem citar o RenovaBio. A Millenium pretende ingressar no programa futuramente? E quais são as perspectivas com o programa?
Sim. Temos um objetivo audacioso de superar a marca das usinas de etanol de cana graças ao conceito zero waste [em tradução livre, “lixo zero”], intrínseco a nossos projetos. Estamos certos de que receberemos as maiores qualificações, principalmente pelo trabalho que faremos de acompanhamento da matéria-prima desde sua originação.

Lucas Vasconcelos – NovaCana

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