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Com economia ruim, reestruturação de dívidas se torna mais comum para sucroenergéticas

usj-sao-francisco-190116Crise, recessão, juros. Por mais que as companhias sucroenergéticas queiram surfar em perspectivas otimistas de negócios, elas ainda estão submersas pelas condições adversas da economia

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Crise, recessão, altas taxas de juros. Por mais que as companhias sucroenergéticas brasileiras queiram esquecer esses termos e surfar em perspectivas otimistas de negócios, elas ainda estão submersas pelas condições adversas da economia. Que o digam as usinas que enfrentam processo de recuperação judicial.

Para escapar desse caminho (quase) sem volta ou até mesmo para tentar retornar ao mercado, muitas companhias optam pela reestruturação de suas dívidas, alterando condições previamente estabelecidas de pagamentos e fazendo renegociações. Entre elas estão: Tonon Bioenergia, Odebrecht Agroindustrial, Grupo Virgolino de Oliveira (GVO), Abengoa Bioenergia, Grupo Moreno, Infinity Bio-Energy e USJ Açúcar e Álcool.

Isso, contudo, não muda o fato de que os credores percebem a possibilidade de inadimplência como crescente. No agronegócio, diferente do que acontece em outros setores, a reestruturação não tem sido facilmente associada a uma melhora posterior no valor agregado das companhias.

Saiba mais:
- Vantagens e desafios da reestruturação de dívidas
- Os caminhos adotados pelas empresas do setor
- Impacto da reestruturação de dívidas no valor agregado das companhias

Crise, recessão, altas taxas de juros. Por mais que as companhias sucroenergéticas brasileiras queiram esquecer esses termos e surfar em perspectivas otimistas de negócios, elas ainda estão submersas pelas condições adversas da economia. Que o digam as usinas que atualmente enfrentam um processo de recuperação judicial.

Para escapar desse caminho (quase) sem volta ou até mesmo para tentar voltar ao mercado, muitas companhias optam pela reestruturação de suas dívidas, alterando condições previamente estabelecidas de pagamentos e fazendo renegociações. Isso, contudo, não muda o fato de que os credores percebem a possibilidade de inadimplência como crescente.

“Os custos de empréstimos nominais para empresas brasileiras subiram nos últimos dois anos em resposta à alta da inflação e à percepção de que as condições de crédito domésticas estão piorando”, aponta relatório da agência de classificação de risco S&P Global Ratings.

“Os credores estão demandando retornos mais altos para suportar o maior risco de default”

De acordo com a S&P, de modo geral, está havendo uma forte redução no retorno sobre capital em alguns setores corporativos brasileiros – que ultrapassa as fronteiras do setor sucroenergético. Isso é um reflexo da demanda mais fraca, dos preços mais baixos das commodities e da capacidade excedente, fatores que tornam mais difícil a redução dos custos fixos.

Dessa forma, companhias com um acúmulo de dívidas acabam optando por vender ativos não estratégicos, reduzir as estruturas de custos e minimizar os investimentos. No entanto, nem sempre isso é suficiente e as empresas tem encontrado diversos obstáculos, como a falta de compradores interessados, custos de captação de recursos mais altos e a própria volatilidade do mercado.

A S&P resume o dilema das mais problemáticas: “As perspectivas de recuperação estão diminuindo, o montante de ativos não rentáveis crescendo e as reservas de caixa tornando-se uma carga pesada porque os custos de carregamento sobem quando aumentam os juros sobre a dívida”.

Colapso nos preços das commodities afeta sucroenergéticas

Segundo a agência de classificação de risco, a situação foi provocada pela deterioração da economia e por grandes quedas nos preços das commodities. “A era dos investimentos intensos agravou a oferta excedente em alguns setores, enfraquecendo mais os lucros porque bases mais amplas de ativos elevam os custos fixos, enquanto deixam as estruturas de capital mais alavancadas”, explica.

Como consequência disso, diminuiu o interesse dos investidores internacionais pela dívida corporativa brasileira e os bancos domésticos começaram a se esforçar para reduzir suas exposições a setores problemáticos. E a bola de neve continua, uma vez que isso limita as possibilidades das companhias para rolagem de dívida. Quando as opções de crédito ficam escassas, a reunião com credores para renegociar prazos, juros, formas de pagamento e até garantias acaba se tornando uma das poucas alternativas disponíveis para as companhias altamente endividadas.

No setor sucroenergético, a reestruturação acabou sendo a opção adotada por diversos grupos em situação financeira delicada. Um exemplo é a Tonon Bioenergia que, em junho de 2015, abriu negociações de reestruturação de dívida e novas captações para tentar escapar da recuperação judicial. Embora a iniciativa tenha dado bons resultados em um primeiro momento, ela acabou não sendo o suficiente e a empresa teve que buscar proteção na justiça contra credores.

Nos primeiros meses deste ano, a situação não está sendo muito diferente. Em dificuldades financeiras há alguns anos, o Grupo Virgolino de Oliveira (GVO) chegou a propor a seus credores um desconto de cerca de 70% em seus US$ 735 milhões em títulos. A Abengoa Bioenergia, em fevereiro, na sequência do pedido de recuperação judicial registrado por sua matriz espanhola, decidiu realizar um plano de reestruturação interna que inclui a renegociação das dívidas da companhia.

Dois meses depois, em abril, o Grupo Moreno conseguiu dar prosseguimento às discussões que se arrastavam desde setembro de 2015. A empresa conseguiu um prazo de 18 meses de carência para negociar com seus credores novas condições para uma dívida que soma R$ 1,5 bilhão. Logo na sequência, a Infinity Bio-Energy, que já está em recuperação judicial, decidiu estruturar um novo plano para escapar da falência e retomar as atividades. Contudo, a empresa não conseguiu leiloar suas usinas, que passaram a ser controladas pelos principais credores.

Já a Odebrecht Agroindustrial, que não pagava seus credores desde o ano passado, conseguiu encontrar uma solução recentemente. Com um débito total de R$ 11 bilhões, a empresa recebeu um aporte de R$ 6 bilhões e fez negociações para pagamento em 13 anos. Nos cinco primeiros anos, a sucroalcooleira pagará apenas os juros da dívida com os credores e, nos oito anos seguintes, a companhia pagará a amortização da dívida principal além dos juros.

Outro exemplo de sucesso nas negociações é o da USJ Açúcar e Álcool, que chegou a ter sua nota rebaixada por agências de classificação de risco após deixar de pagar os juros de notas sem garantia. A companhia, no entanto, conseguiu dar prosseguimento às conversas com seus credores e escapou do rótulo do calote.

Para reestruturar dívidas é preciso ter rendimentos

Embora muitas empresas se vejam forçadas a reestruturar seus débitos para evitar processos como os de recuperação judicial, há setores que estão em posição de se beneficiar pela reestruturação de dívidas. Segundo a S&P são concessionárias de serviços de utilidade pública, empresas de varejo e empresas materiais de construção e de transportes.

“Diante de taxas de juros mais altas, aumento da carga de endividamento e encolhimento dos retornos sobre capital, mais empresas brasileiras têm incentivos para buscar planos de reestruturações”, aponta a agência.

Como um exercício do possível impacto de uma reestruturação de dívidas, a S&P considerou um hipotético desconto de 30% nos débitos e apresentou o resultado disso sobre o valor agregado de cada setor. O valor agregado representa o retorno excedente sobre o custo de capital e o cálculo utilizado para determiná-lo foi realizado a partir do retorno sobre o capital (ROC) e do custo médio ponderado de capital (WACC), porém, não foram considerados impostos.

De acordo com o estudo, esse corte de 30% não aumentará a criação de valor significativamente para diversos setores, incluindo agronegócios, metais e mineração, telecomunicações, óleo e gás, construções residenciais e imobiliário. Isso significa que os ROCs medianos nesses setores costumam ser inferiores aos custos de capital.

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“Isso não significa que as empresas desses setores não tenham incentivos para reestruturar. Na realidade, elas poderiam ser forçadas a fazê-lo simplesmente porque para algumas delas a geração de caixa é insuficiente para cobrir os pagamentos de juros da dívida”, complementa a S&P.

Segundo a agência, para esses setores, reestruturar as dívidas poderia proporcionar algum ganho de tempo. “No entanto, para voltarem a criar valor positivo, elas também precisariam reorganizar seus negócios”, sugere. Ou seja, para sair definitivamente da crise, as sucroenergéticas precisarão ir além das negociações com credores, fazendo mudanças em suas estratégias corporativas.

“Embora uma possível reestruturação não implique em uma melhora imediata no valor agregado, algumas empresas podem não ter outras opções”

Além disso, ao analisar os incentivos para reestruturar dívidas – medidos pelo tamanho da melhora no valor agregado, junto com desempenho operacional, alavancagem e custo da dívida –, a S&P elaborou uma tabela de risco de reestruturação para cada setor.

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Nesse caso, as companhias do setor de agronegócios – onde estão inclusas as sucroenergéticas – foram classificadas como tendo uma alta probabilidade de terem reestruturação, um aspecto que já pode ser observado pelos casos em andamento.

Isso significa que, com a reestruturação, as empresas terão uma evolução pequena em seu valor agregado, além de fraco retorno sobre o capital. Ou seja, a reestruturação não é a solução definitiva para os problemas financeiros das sucroenergéticas, mas é um passo que terá que ser dado por muitas companhias.

Renata Bossle – NovaCana

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