Analista da Suno Research detalha o case da sucroenergética; ainda que considere o modelo de negócios positivo, ele não recomendou entrada na oferta inicial de ações
A oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) da Raízen foi a maior do ano na bolsa de valores brasileira até o momento: com um preço por ação de R$ 7,40, a empresa levantou R$ 6,9 bilhões. Apesar disso, o valor do IPO ficou abaixo do estimado anteriormente, entre R$ 10 bilhões e R$ 13 bilhões.
Com uma pegada de sustentabilidade muito forte, a oferta atraiu em maior parte o investidor internacional. O foco principal de aplicação do capital obtido pelo IPO da Raízen será o investimento em etanol de segunda geração (E2G) ou celulósico; inclusive, os planos da companhia já caminham nesta direção.
Em comunicado ao mercado divulgado na última terça-feira, 10, a empresa informou que deverá vender 460 milhões de litros de E2G, por meio de dois contratos, ao longo dos próximos nove anos. Com uma planta de etanol celulósico localizada em Piracicaba (SP), capaz de produzir 42 milhões de litros por safra, a empresa pretende construir uma segunda unidade em Guariba (SP), que poderá atingir até 82 milhões de litros ao ano.
Ainda que a oferta pública de ações tenha sido de sucesso, algumas consultorias não recomendaram a entrada dos investidores no IPO, como a casa de análise financeira Suno Research. Segundo relatório divulgado em 26 de julho, o valor justo por ação da Raízen foi calculado em R$ 7,48. “Nesse sentido, considerando que o piso da faixa é de R$ 7,40, não vemos margem de segurança para recomendar a adesão ao IPO”, detalha.
A publicação ainda completa: “Analisando os múltiplos, observamos que a Raízen negocia a um preço por lucro de 39,4 vezes para 2022 e de 34,5 vezes para 2023, o que consideramos pouco atrativo”. O índice é formado pela relação entre o preço atual de uma ação dividido pelo lucro por ação do ativo.
Ainda assim, a Suno considerou algumas forças do grupo, como a integração e verticalização dos seus negócios, fator que torna a Raízen mais competitiva em relação ao seu controle de custos e o que resulta em um desempenho financeiro mais sustentável.
Além disso, a Raízen tem escala em fabricação de etanol e sua produção de biomassa supera países como China e Estados Unidos, conforme cita a empresa em seu prospecto. Ela também é a que mais produz energia elétrica por biomassa no país, além de operar a segunda maior rede de distribuição de combustíveis no Brasil e na Argentina. Tais fatores, de acordo com a Suno, propiciam um bom poder de negociação junto aos fornecedores. Outra vantagem é a localização estratégica dos ativos da companhia, permitindo que ela esteja próxima de fornecedores e consumidores finais.
Por outro lado, a casa de análise coloca como fatores de risco a exposição à variação dos preços das commodities, a competição acirrada no mercado de distribuição de combustíveis, as alterações nas legislações tributárias e a privatização das refinarias.
O NovaCana conversou com exclusividade com o analista de investimentos da Suno, João Daronco, sobre a visão da casa de análises quanto às ações da Raízen. Confira a entrevista na versão restrita a assinantes.
A oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês) da Raízen foi a maior do ano na bolsa de valores brasileira até o momento: com um preço por ação de R$ 7,40, a empresa levantou R$ 6,9 bilhões. Apesar disso, o valor do IPO ficou abaixo do estimado anteriormente, entre R$ 10 bilhões e R$ 13 bilhões.
Com uma pegada de sustentabilidade muito forte, a oferta atraiu em maior parte o investidor internacional. O foco principal de aplicação do capital obtido pelo IPO da Raízen será o investimento em etanol de segunda geração (E2G) ou celulósico; inclusive, os planos da companhia já caminham nesta direção.
Em comunicado ao mercado divulgado na última terça-feira, 10, a empresa informou que deverá vender 460 milhões de litros de E2G, por meio de dois contratos, ao longo dos próximos nove anos. Com uma planta de etanol celulósico localizada em Piracicaba (SP), capaz de produzir 42 milhões de litros por safra, a empresa pretende construir uma segunda unidade em Guariba (SP), que poderá atingir até 82 milhões de litros ao ano.
Ainda que a oferta pública de ações tenha sido de sucesso, algumas consultorias não recomendaram a entrada dos investidores no IPO, como a casa de análise financeira Suno Research. Segundo relatório divulgado em 26 de julho, o valor justo por ação da Raízen foi calculado em R$ 7,48. “Nesse sentido, considerando que o piso da faixa é de R$ 7,40, não vemos margem de segurança para recomendar a adesão ao IPO”, detalha.
A publicação ainda completa: “Analisando os múltiplos, observamos que a Raízen negocia a um preço por lucro de 39,4 vezes para 2022 e de 34,5 vezes para 2023, o que consideramos pouco atrativo”. O índice é formado pela relação entre o preço atual de uma ação dividido pelo lucro por ação do ativo.
Ainda assim, a Suno considerou algumas forças do grupo, como a integração e verticalização dos seus negócios, fator que torna a Raízen mais competitiva em relação ao seu controle de custos e o que resulta em um desempenho financeiro mais sustentável.
Além disso, a Raízen tem escala em fabricação de etanol e sua produção de biomassa supera países como China e Estados Unidos, conforme cita a empresa em seu prospecto. Ela também é a que mais produz energia elétrica por biomassa no país, além de operar a segunda maior rede de distribuição de combustíveis no Brasil e na Argentina. Tais fatores, de acordo com a Suno, propiciam um bom poder de negociação junto aos fornecedores. Outra vantagem é a localização estratégica dos ativos da companhia, permitindo que ela esteja próxima de fornecedores e consumidores finais.
Por outro lado, a casa de análise coloca como fatores de risco a exposição à variação dos preços das commodities, a competição acirrada no mercado de distribuição de combustíveis, as alterações nas legislações tributárias e a privatização das refinarias.
O NovaCana conversou com exclusividade com o analista de investimentos da Suno, João Daronco, sobre a visão da casa de análises quanto às ações da Raízen.
As ações da Raízen foram precificadas a R$ 7,40, movimentando R$ 6,9 bilhões. Esse valor era o piso da oferta. Como vocês veem esse preço por ação? O que pode fazer esse valor cair ou subir a longo prazo?
Para a nossa modelagem financeira, o preço está bem perto do preço justo da empresa. Não achamos nem muito cara, nem muito barata. Está em um preço justo por ação. Sobre o que pode orientar a cotação a longo prazo, são dois pontos principais correlacionados. O primeiro deles tem a ver com os resultados que a empresa apresentar nos próximos trimestres e anos. Se o lucro crescer, a cotação acompanha e o valuation [valor real da empresa] possivelmente aumenta. O outro ponto é se ela vai conseguir entregar os objetivos que pretende no IPO. A Raízen tem vários projetos interessantes, principalmente ligados a combustível de segunda geração. Esses projetos, se entregues como o prometido, geram um histórico de desempenho interessante. Com isso, acredito que mais pessoas vão comprar o papel, mais pessoas podem ficar interessadas e a cotação pode aumentar.
A Suno considerou a Raízen “qualificada”, mas sua avaliação não foi tida como atrativa. Isso ocorreu pela estimativa de que o valor justo por ação da Raízen seria R$ 7,48, fazendo com que os analistas não recomendassem a entrada no IPO. Algo mudou nessa perspectiva? Vale a pena adquirir as ações da empresa?
Na nossa avaliação, o valor está muito próximo do justo e, para colocar a empresa em alguma carteira, ela precisa ter algum desconto relevante. Se for pegar uma carteira nossa, por exemplo, a pior oportunidade ainda é melhor do que a da Raízen. Assim, preferimos não substituir nenhuma empresa que esteja na carteira e optamos por não entrar no IPO. Mas vemos como uma boa empresa. Eu gosto bastante do modelo de negócios dela, acho que é algo que vai ser muito demandado no futuro. Junta-se a isso o know-how de duas companhias diferentes, Shell e Cosan. Eu gosto bastante, foi só a questão do preço por não ter um desconto razoável, no nosso ponto de vista.
O que o investidor deve observar para manter o papel ou vendê-lo? Como vocês enxergam a valorização da companhia na B3?
O principal ponto é em relação aos projetos. Quando falamos da entrada na bolsa, o ponto chave é a disciplina financeira após o IPO para alocar os recursos. É o mais difícil e o investidor precisa olhar para isso. Se os projetos forem entregues, eu não tenho dúvidas que o lucro da empresa vai subir e, com o aumento do lucro, possivelmente a cotação vai subir. Parte relevante da geração de caixa dela vem do açúcar. É outro ponto em que o investidor precisa ter um pouco de atenção porque o açúcar é uma commodity e o seu preço pode flutuar bastante dependendo das condições de oferta e demanda. Estamos vendo o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) falando que poderemos ter um superávit de produção no mundo e isso pode pressionar um pouco o preço.
Até 3 de agosto, prazo para reserva de ações no IPO, a demanda pelos papéis da Raízen já era três vezes superior à oferta, com procura alta entre investidores estrangeiros. Isso ocorreu porque a companhia se apresentou com o fator sustentabilidade de forma muito forte. O que pode ter atraído o investidor brasileiro?
A Raízen traz uma exposição muito boa, é uma empresa muito verticalizada. Quando falamos de bolsa, tem empresas que estão ligadas ao setor de cana-de-açúcar, como a São Martinho, e tem empresas de distribuição de combustíveis, como BR Distribuidora, mas não tem uma companhia verticalizada e que tenha projetos sustentáveis de longo prazo, como essa questão do etanol de segunda geração. É mais ou menos isso o que deve ter atraído os investidores. A Raízen é uma empresa bastante ligada ao ESG [siga em inglês para aspectos ambientais, sociais e de governança] e temos falado muito disso, o que a torna muito mais forte. Ela está situada no melhor país possível para produzir cana-de-açúcar a meu ver, então, tem uma vantagem competitiva geográfica e as perspectivas são boas para a companhia. Com o passar do tempo, as pessoas vão se preocupar cada vez mais com o aspecto ambiental e, com isso, o etanol pode se tornar ainda mais uma pauta do interesse público.
Mesmo alegando uma grande demanda de papéis, a Raízen decidiu não vender o lote adicional. Qual justificativa a Suno vê para esta posição?
É uma pergunta difícil. Eu não tenho informação deles, mas vejo isso com bons olhos. Parece que acharam que o papel estava tão barato que eles não queriam vender a esse preço. Eles preferiram segurar para capturar esse upside e talvez se desfazer, fazer um follow on [oferta subsequente] a um preço maior, que eles achem justo. Isso aconteceu também com a Boa Safra: ela superou a demanda, mas não foi vendido nenhum outro lote. Eu vejo como algo bem interessante.
Inclusive, já existe uma expectativa que a empresa faça uma oferta subsequente para elevar as fatias das ações. Como vocês enxergam esse movimento?
Teria que esperar para ver o que vai acontecer. Eles acabaram de captar recursos, não vejo a Raízen querendo captar novamente em um período tão curto de tempo. Teria que entender como está a questão da alocação da empresa, se tem muita oportunidade e se eles precisam de mais recursos para acelerar. Mas eu não veria isso em um curto prazo, não entenderia o porquê de eles fazerem isso; talvez para aumentar a questão do free float [percentual das ações de uma empresa que está em circulação na bolsa]. Ainda assim, eles não quiseram vender o lote adicional, então, não vejo um follow on em curto espaço de tempo.
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana