Conab, Mapa, IBGE e Unica informam diversos dados discordantes sobre a cana-de-açúcar, diferenças vão além de questões metodológicas
Uma dúvida simples que poderia ocorrer a qualquer um envolvido com o setor sucroalcooleiro: qual foi a produção de cana-de-açúcar em 2006 no estado de, digamos, Minas Gerais?
Fontes oficiais para responder a questão não faltam, o problema é a diversidade de respostas. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) afirma que a produção foi de 32.212.574 toneladas; o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) dá o número de 29.153.432 toneladas, enquanto a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostra em suas tabelas que foram 33.558.000 toneladas produzidas – todos são órgãos ligados ao Governo Federal. Para completar, a União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica) vem com um quarto número: 29.034.000 toneladas.
Como interpretar essa discrepância numérica que, apenas no exemplo aleatório acima, passa de 10% – e, no caso da produção total brasileira de 2011, chega a 31% entre o órgão que divulgou o maior índice (IBGE – 734 milhões de toneladas) e aquele que publicou o menor (Unica – 559 milhões de toneladas)?
Uma dúvida simples que poderia ocorrer a qualquer um envolvido com o setor sucroalcooleiro: qual foi a produção de cana-de-açúcar em 2006 no estado de, digamos, Minas Gerais?
Fontes oficiais para responder a questão não faltam, o problema é a diversidade de respostas. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) afirma que a produção foi de 32.212.574 toneladas; o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) dá o número de 29.153.432 toneladas, enquanto a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) mostra em suas tabelas que foram 33.558.000 toneladas produzidas – todos são órgãos ligados ao Governo Federal. Para completar, a União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica) vem com um quarto número: 29.034.000 toneladas.
Como interpretar essa discrepância numérica que, apenas no exemplo aleatório acima, passa de 10% – e, no caso da produção total brasileira de 2011, chega a 31% entre o órgão que divulgou o maior índice (IBGE – 734 milhões de toneladas) e aquele que publicou o menor (Unica – 559 milhões de toneladas)?
Grande parte das diferenças pode ser entendida pela diferença metodológica entre os órgãos e pelos distintos corpos de pesquisa. Algumas das discrepâncias e imprecisões, no entanto, permanecem misteriosas – ou só podem ser atribuídas à simples confusão. Quem procurar dados sobre a safra de 2006/2007 das regiões e estados no último Anuário Estatístico da Agroenergia divulgado pelo Mapa (2010) não encontrará nada. Simplesmente esqueceram de colocar esse ano nos dados oficiais.
IBGE
De modo geral, os números de produção do IBGE estão sempre acima dos outros órgãos. A diferença começa pelo fato de que o instituto trabalha com anos civis, enquanto Mapa, Conab e Unica pesquisam o ano-safra (que vai de abril a março do ano seguinte, no Centro-Sul). Mas a margem mais alta do IBGE se dá principalmente pelo fato de que o instituto contabiliza toda a cana de determinada região, seja quais forem os fins de produção.
Dessa maneira, na conta do instituto entra a cana utilizada para forragem, aguardente, rapadura e garapa, entre outros. Os outros órgãos somam apenas a cana destinada à fabricação de açúcar e álcool. Assim, um estado como Santa Catarina, que atualmente não possui usinas, aparece com produção de cana-de-açúcar zerada nos dados de Conab, Mapa e Única, mas colheu 532.656 toneladas em 2011, segundo o IBGE. "Hoje, a área plantada no estado reduziu bastante. A cana só é utilizada para produção de cachaça, açúcar mascavo e melado. Também existe um grande consumo de garapa, principalmente no litoral do estado, durante o verão", afirma a Gerência de Agricultura do IBGE.
O instituto também faz levantamentos de área plantada e colhida e de rendimento médio da cana (em toneladas por hectare), mostrando os resultados em tabelas com divisões por estado e regiões do Brasil.
Mapa
Os dados fornecidos pelo Mapa sobre a produção de cana-de-açúcar voltada à fabricação de açúcar e etanol são considerados os oficiais, utilizados inclusive para estabelecer cobrança de impostos entre os usineiros. No Anuário Estatístico da Agroenergia, cuja última edição foi divulgada em 2010, há os resultados das safras de cana de açúcar desde 1948, também mostrando divisão por estado e regiões do país (Centro-Sul e Nordeste). O Mapa recebe quinzenalmente os resultados das operações de cada usina e assim contabiliza o que de fato vai sendo processado e o que foi produzido.
Como o Mapa não afere a área plantada de cana-de-açúcar, costumava copiar os índices de produtividade (em tonelada por hectare) do IBGE. Os resultados eram imprecisos, já que os índices de rendimento médio calculados pelo instituto também levam em conta áreas de plantação com muito menos tecnologia agregada do que os espaços utilizados pelas usinas. Em 2004, para corrigir a distorção, o Mapa determinou que a Conab, um órgão subordinado ao ministério, passasse a fazer o levantamento das áreas com cana-de-açúcar exclusivamente voltadas ao processamento em usinas.
Conab
Três vezes por ano, técnicos da Conab realizam uma pesquisa com todas as usinas do país. Por amostragem, fazem uma estimativa de produção, produtividade e área plantada de cana-de-açúcar.
"A Conab realiza este trabalho justamente para atender o Mapa, que deseja conhecer com a devida antecedência, antes de apurar, qual a estimativa da safra. Eles querem saber o futuro, e é desse futuro que estamos atrás", afirma o técnico da Gerência de Avaliação de Safras da Conab, Airton Camargo.
Somadas às três estimativas anuais de produção, o número da Conab deveria bater com os dados finais do Mapa. Camargo admite que, nos primeiros anos de pesquisa, havia discrepâncias grandes com relação aos dados do ministério, mas os números estão cada vez mais próximos. O técnico da Conab afirma que houve ajustes metodológicos e um amento de participação dos produtores participantes da pesquisa, que hoje atinge 100% das usinas. Pequenas diferenças ainda persistem, segundo Camargo, porque "algumas usinas fecham, outras produzem um pouco aquém ou além da expectativa", gerando discrepâncias entre a projeção e os dados finais.
Desde 2004, para calcular os índices de produtividade da cana-de-açúcar no país, o Mapa utiliza seus próprios dados quanto à produção, mas os divide pela área plantada estimada pela Conab. Assim, há três fontes oficiais sobre a produtividade de cana no Brasil, todos diferentes: IBGE, Mapa e Conab.
Unica
Organização privada, a Unica também disponibiliza em seu site dados sobre a produção de cana-de-açúcar no país, com a apresentação de uma série histórica iniciada em 1980. Para contabilizar os dados do Centro-Sul, a Unica utiliza como base os livros-caixa das usinas, assim como o Mapa. Segundo o Gerente de Economia e Análise Setorial da Única, Luciano Rodrigues, "a princípio não deveria haver diferença" entre os dados de sua entidade e os do ministério. Pequenas discrepâncias são atribuídas ao fato de uma ou outra "pequena usina" frequentemente atrasar o envio do relatório. Quanto aos dados da produção no Norte-Nordeste, a Unica diz que usa como fonte os dados do Mapa.
Conferindo os dados, no entanto, a reportagem percebeu diferenças que passam longe de pequenas. Na safra 1995/1996, por exemplo, a Unica afirma que a produção do Norte-Nordeste foi de 47 milhões de toneladas de cana-de-açúcar; segundo o anuário do Mapa, produziram-se 26 milhões de toneladas (45 pontos percentuais a menos).
Apresentado às diferenças pela NovaCana, Rodrigues afirmou que é "impossível" uma produção de apenas 26 milhões de toneladas no Nordeste e considerou que há erro na formulação do anuário do Mapa.
O NovaCana fez contato com o Mapa por telefone e e-mail, mas não teve resposta até o fechamento desta matéria.
Os dados detalhados de produção e produtividade de cada órgão podem ser acessados nos endereços abaixo:
Mapa
Anuário Estatístico da Agroenergia 2010
Evolução da produtividade e da produção de cana-de-açúcar
Unica
Histórico de produção e moagem
IBGE
Base de dados das culturas
Conab
Série histórica de área, produção e produtividade
André Simões - NovaCana