A euforia com o etanol celulósico parece ter dado lugar a um otimismo ponderado
A euforia com o etanol celulósico parece ter dado lugar a um realismo ponderado.
Os ambiciosos planos de expansão da nova indústria já não são mais anunciados com tanta convicção e otimismo como há alguns anos. Até mesmo os projetos mais avançados são comentados com parcimônia.
Em um evento realizado em Copenhague, na Dinamarca, em evento voltado a investidores, dois importantes players da indústria apresentaram de forma franca suas visões, aprendizados e apostas para o biocombustível.
Conjuntamente, a anfitriã Novozymes, empresa dinamarquesa de biotecnologia que fornece enzimas para a maioria dos projetos de etanol de segunda geração do mundo, e a Raízen, maior produtora de açúcar e etanol do Brasil, mostraram em 39 slides suas perspectivas sobre a conversão da biomassa em etanol.
A euforia com o etanol celulósico parece ter dado lugar a um otimismo ponderado.
Os ambiciosos planos de expansão da nova indústria já não são mais anunciados com tanta convicção e otimismo como há alguns anos. Até mesmo os projetos mais avançados são comentados com parcimônia.
No início de maio em Copenhague, na Dinamarca, em evento voltado a investidores, dois importantes players da indústria apresentaram de forma franca suas visões, aprendizados e apostas para o biocombustível.
Conjuntamente, a anfitriã Novozymes, empresa dinamarquesa de biotecnologia que fornece enzimas para a maioria dos projetos de etanol de segunda geração do mundo, e a Raízen, maior produtora de açúcar e etanol do Brasil, mostraram em 39 slides suas perspectivas sobre a conversão da biomassa em etanol.
Reajuste de expectativas
Fornecedora de seis das sete unidades em operação comercial com etanol celulósico no mundo, a Novozymes, que promoveu o evento, foi a primeira empresa a reconhecer os problemas e defender os motivos pelos quais ainda “acredita na conversão da biomassa”.
“[Houve] ventos contrários e os prazos foram maiores que os anunciados, mas algumas razões nos levam a crer que estas [dificuldades] serão superadas”, argumenta a fabricante de enzimas ao explicar a sua visão para a tecnologia.
“Novas indústrias levam tempo [para serem erguidas]. É uma maratona e não uma corrida”, admite a empresa ao relacionar o ramp-up prolongado das primeiras usinas ao tempo de aprendizado necessário para o desenvolvimento de uma nova tecnologia.
A principal cliente brasileira da Novozymes no segmento celulósico, seis meses depois de inaugurar sua primeira fábrica, ainda está longe da produção que se previa. A usina da GranBio, instalada no interior de Alagoas em setembro de 2014, até o final do primeiro trimestre não estava estabilizada e enfrentava problemas, ocasionando interrupções da operação.
Já a Raízen, que também utiliza a biotecnologia da dinamarquesa e foi a segunda a anunciar investimentos na produção do biocombustível no Brasil, não garante a expansão da tecnologia, que depende, basicamente, dos resultados a serem gerados pela primeira usina e de “fatores de mercado fora do controle da companhia”.
Mas, se a operação das unidades já instaladas frustrou as perspectivas mais imediatistas, a experiência está ampliando o aprendizado sobre essa nova indústria. As lições aprendidas e a visão da Novozymes para a indústria de etanol de segunda geração (2G) tem uma expressiva síntese:

Capex reduzido com o tempo
A Novozymes acredita que o mundo verá um novo ciclo de investimentos em novas usinas, e o Capex empregado no desenvolvimento da tecnologia — elemento chave para a competitividade do negócio — deve cair para estas usinas de etanol 2G.
“Aprendizados significantes nas primeiras usinas de conversão da biomassa e o exemplo da indústria 1G sugerem que o Capex reduzirá na próxima onda [de usinas]”, explica.
Entre as razões apontadas para uma redução do capital empregado estão plantas otimizadas, desenhos de processo com menos “over-engineering” – produtos e processos, que em geral, são mais complicados e complexos que o necessário, soluções bolt-on que fazem uso de utilidades e infraestrutura já existentes, além do desenvolvimento de novos módulos padrão.
Apesar dos desafios, a Novozymes é otimista em relação ao desenvolvimento de novos projetos ao redor do mundo. “Nós vemos um pipeline sólido de projetos que continua a amadurecer ao redor do planeta”, argumenta.
“Enquanto algumas plantas de conversão da biomassa já estão operando, mais de 20 projetos [2G] estão em desenvolvimento mundialmente (nem todos foram anunciados publicamente)”, cita.
Veja também: Mapa das usinas de etanol celulósico no mundo
A visão da Raízen
Na apresentação conjunta com a Novozymes, a Raízen também comentou seus aprendizados e visão para o etanol celulósico.
A principal ambição da companhia no negócio de etanol, açúcar e cogeração – e que invariavelmente influencia os planos da empresa com o combustível de segunda geração – é expressa de forma simples e objetiva: menor custo de produção por tonelada de cana-de-açúcar.
Fator decisivo na competividade do etanol 2G, a logística da biomassa – do campo à usina – também é vista como um elemento chave na competividade do negócio. “Se a indústria superar os desafios logísticos, as pontas e as folhas [da cana-de-açúcar] poderão ser as principais matérias-primas para o 2G", diz a sucroalcooleira.
O tamanho da oportunidade é expresso pela colheita mecanizada, que cresce significativamente na indústria e elimina a necessidade da queima da palha. “Não queimar [a palha] significa 45 milhões de toneladas de biomassa a mais disponíveis na indústria”.
“Dois processos devem ser selecionados”, sugere. “Trazer a biomassa junto com a cana-de-açúcar [ou adotar um] sistema de colheita em fardos”.
Na apresentação, a empresa controlada pela Cosan e Shell detalha o potencial do aproveitamento da cana-de-açúcar. Segunda a Raízen, caule, folhas secas e as pontas da planta podem ser aproveitadas na conversão da matéria-prima em etanol.
Cogeração e integração com 1G
Em entrevista recente ao portal NovaCana, o vice-presidente da Raízen, Pedro Mizutani, afirmou que a empresa aliará a produção de E2G à cogeração de energia. “Como a gente tem biomassa, nós vamos produzir os dois produtos. Tanto a cogeração quanto o 2G. Biomassa não vai ser problema”, disse.
Na apresentação feita em Copenhague, a empresa voltou a falar na integração da biocombustível com a produção de etanol 1G e a exportação de energia elétrica à rede.
Para obter mais etanol da biomassa, a Raízen precisa aproveitar os açúcares complexos, de 6 carbonos, contidos na celulose, o que deve acontecer a partir de outubro deste ano. Por enquanto, a empresa fermenta somente os açúcares simples, de 5 carbonos, na planta 2G que possui em Piracicaba (SP), junto à usina Costa Pinto.
Licenciamento da tecnologia
No roadmap que descreve a evolução esperada para a iniciativa, a Raízen revela um aspecto até então pouco mencionado do projeto: o licenciamento da tecnologia 2G e a integração com o segmento químico.
Em entrevista ao NovaCana, Mizutani afirmou que “a medida em que o custo de produção e a tecnologia se tornam economicamente viáveis, é possível pensar em expansões para outras usinas”. “Não só para as usinas do nosso grupo, mas, também, para prover tecnologia para outras usinas interessadas a partir do momento em que você atingir o ponto ótimo do custo do E2G”, afirmou.
Aposta semelhante está sendo feita pela Odebrecht Agro, que quer primeiro “desenvolver e amadurecer” o produto para, então, erguer a sua própria usina e/ou vender o seu pacote tecnológico. Já a GranBio optou por uma parceria voltada à produção de bio n-butanol, que será feito a partir da palha e do bagaço de cana-de-açúcar.
Desafios da fermentação
Entre os pontos apresentados como “desafios” estão o desenvolvimento de uma levedura geneticamente modificada capaz de produzir o etanol a partir dos açúcares C5.
A fermentação é uma das etapas mais demoradas na produção do etanol de segunda geração. Além da escolha da levedura mais adequada, o desenvolvimento de equipamentos e processos de propagação das leveduras on-site e a operação destes microorganismos conforme a regulação da CNTBio.
A apresentação na íntegra pode ser acessada aqui (.pdf).
Leonardo Siqueira – NovaCana






