Comparativo entre pesquisa feita pela Conab com mais de 340 usinas de cana-de-açúcar e levantamento do NovaCana mostra visões parecidas para a temporada
As divulgações sobre a safra de cana-de-açúcar realizadas pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) com estimativas de produção, produtividade, área, entre outros indicadores, são um termômetro de como os produtores estão enxergando a atual temporada, uma vez que os dados são obtidos junto às usinas brasileiras.
Em 18 de maio, a entidade divulgou o primeiro levantamento para a temporada 2021/22. O compilado traz a expectativa de que 628,14 milhões de toneladas sejam esmagadas, sendo 574,80 milhões no Centro-Sul. Foram consultadas todas as 347 usinas ativas, conforme dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).
O volume de moagem foi bastante próximo do estimado pelas 22 consultorias e empresas especializadas consultadas pelo NovaCana. Na média, excetuando a Conab, a quantia foi de 575,47 milhões de toneladas; com isso, a diferença entre as duas avaliações ficou em somente 670 mil toneladas.
O movimento é inverso ao que ocorreu na temporada 2020/21, quando o levantamento feito com as produtoras foi mais pessimista do que o esperado pelo mercado, com mais de 19 milhões de toneladas de diferença entre ambos. De todo modo, a atual perspectiva segue o padrão visto desde 2018/19, em que a noção de mercado fica acima da expectativa das usinas.
Assim como no ano passado, o levantamento foi feito em conformidade com as medidas de biossegurança federais, fazendo com que a Conab adequasse sua rotina: algumas viagens foram suspensas, assim como contatos presenciais e visitas às lavouras.
Confira, na versão completa e restrita para assinantes, as comparações de dados e argumentos entre usinas e empresas quanto a produção de cana-de-açúcar, etanol, açúcar e mix de produção.
As divulgações sobre a safra de cana-de-açúcar realizadas pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) com estimativas de produção, produtividade, área, entre outros indicadores, são um termômetro de como os produtores estão enxergando a atual temporada, uma vez que os dados são obtidos junto às usinas brasileiras.
Em 18 de maio, a entidade divulgou o primeiro levantamento para a temporada 2021/22. O compilado traz a expectativa de que 628,14 milhões de toneladas sejam esmagadas, sendo 574,80 milhões no Centro-Sul. Foram consultadas todas as 347 usinas ativas, conforme dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa).
O volume de moagem foi bastante próximo do estimado pelas 22 consultorias e empresas especializadas consultadas pelo NovaCana. Na média, excetuando a Conab, a quantia foi de 575,47 milhões de toneladas; com isso, a diferença entre as duas avaliações ficou em somente 670 mil toneladas.
O movimento é inverso ao que ocorreu na temporada 2020/21, quando o levantamento feito com as produtoras foi mais pessimista do que o esperado pelo mercado, com mais de 19 milhões de toneladas de diferença entre ambos. De todo modo, a atual perspectiva segue o padrão visto desde 2018/19, em que a noção de mercado fica acima da expectativa das usinas.
Assim como no ano passado, o levantamento foi feito em conformidade com as medidas de biossegurança federais, fazendo com que a Conab adequasse sua rotina: algumas viagens foram suspensas, assim como contatos presenciais e visitas às lavouras.
Queda na moagem
A primeira estimativa da Conab indica redução de área e perda de potencial produtivo, especialmente por conta das oscilações climáticas registradas. A expectativa de retração na moagem é de 4% no comparativo com o fechamento da temporada anterior, que foi de 654,53 milhões de toneladas no total, sendo 602,59 milhões somente no Centro-Sul, conforme os dados da Companhia.
O fator clima foi amplamente tratado pelas empresas consultadas pelo NovaCana em dezembro e foi confirmado na sondagem mais recente, de maio, que indicou que a entressafra teve menos umidade do que a média histórica do país.
O economista Haroldo Torres, do Instituto de Pesquisa e Educação Continuada em Economia e Gestão (Pecege), expressou que a seca e os incêndios tiveram impactos na brotação e no desenvolvimento dos canaviais, refletindo em um elevado número de falhas.
Já o relatório da Conab, reforçado por entidades como o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), aponta os preços competitivos do mercado de grãos. O plantio destes produtos apresenta concorrência à cana e os valores elevados encorajam uma migração dos produtores para outras culturas, especialmente soja e milho.
Ainda que as percepções de empresas e consultorias variem quanto ao impacto desses fatores no resultado da temporada 2021/22, dados da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica) mostram que o ritmo do processamento de cana está efetivamente inferior. Na segunda quinzena da safra, a moagem acumulava uma queda de 25,4% ante o mesmo período de 2020/21, consequência direta do menor número de unidades operando.
Conforme o diretor técnico da entidade, Antonio de Padua Rodrigues, “a menor moagem reflete o atraso no início da safra 2021/22 devido à expectativa de quebra na produtividade agrícola da lavoura a ser colhida neste ciclo”.
Padua ainda acrescentou que o estado de São Paulo foi o mais prejudicado e deverá apresentar a maior redução da oferta de cana. “Os dados de abril trazem luz a este fato, as empresas tiveram que rever seu planejamento da safra e atrasar o início da moagem na busca da recuperação da produtividade e da melhor concentração de sacarose”, completou.
No primeiro levantamento de 2021/22, a visão da Conab ficou em consonância com o mercado. Porém, para 2020/21, temporada que fechou com moagem de 605,46 milhões de toneladas no Centro-Sul segundo a Unica, a primeira visão das usinas ficou muito atrás; a projeção era de 578,8 milhões de toneladas, uma diferença de 26,6 milhões ante o resultado. Já a expectativa de mercado foi de médios 598,59 milhões, mais em linha com o número efetivamente registrado, ainda que 6,87 milhões de toneladas abaixo.
Em 2019/20, tanto a perspectiva do mercado como a da Conab ficaram consideravelmente abaixo do resultado da temporada, de 590,36 milhões de toneladas. Enquanto as empresas esperavam 16,73 milhões a menos, as usinas estimavam 23,66 milhões abaixo do que se efetivou.
Açúcar compensa
Assim como foi na moagem, a estimativa das usinas para o direcionamento da matéria-prima é bastante próxima ao que é aguardado pelas consultorias. A Conab aponta que 46,8% do mix de produção será açucareiro, enquanto o levantamento do NovaCana indica que ele será de 46,5%.
Mas o relatório da Conab completa: “Esse percentual pode variar ao longo da safra, dependendo dos preços de mercado do adoçante e do biocombustível”.
Por ora, os valores estão em linha com o fechamento da temporada 2020/21, que teve um mix açucareiro de 46,1%. Para o economista Bruno Freitas, da Datagro, não estão previstas grandes mudanças no direcionamento da matéria-prima no ciclo 2021/22, especialmente devido às precificações dos produtos.
No início da temporada 2020/21, no entanto, as usinas estimavam que a parcela de matéria-prima destinada ao adoçante seria de 41,6%, enquanto a média das consultorias era de 45,1% – ambos abaixo do fechamento. Neste momento, as estratégias comerciais já consideravam os bons preços do açúcar no mercado internacional, mas ainda não estavam inteiramente afetadas quanto à queda na demanda por etanol vista em 2020.

Ainda que o volume produzido tenda a ficar abaixo do da temporada 2020/21, o açúcar segue sendo a grande estrela. Entidades como Pecege e Canaplan reforçaram que uma forma de compensar a projetada elevação de gastos com a produção da cana é obter um maior preço de venda dos produtos.
Assim, com boa parte da exportação de açúcar já com preços fixados em bons patamares, o adoçante acaba ganhando mais espaço no mix das usinas.
O Itaú BBA, em relatório, afirmou que uma virada do mix de produção a favor do etanol não seria viável economicamente para as unidades, embora parte do volume que ainda não está contratado possa levar a um maior direcionamento da cana para o biocombustível se sua rentabilidade aumentar.
Na média, as consultorias estimam que sejam produzidas 35,74 milhões de toneladas de açúcar; já as usinas esperam 35,78 milhões. Ambos os valores estão abaixo das 38,46 milhões de toneladas efetivadas na temporada anterior.
Conforme a analista da StoneX, Rafaela Souza, a esperada redução no comparativo safra a safra se deve tanto a quedas de moagem quanto à pequena diminuição no prêmio do açúcar frente ao etanol. “No entanto, apesar da alta recente do biocombustível, a produção da commodity tende a se manter mais atrativa, ao menos na primeira metade da temporada”, completa.

De acordo com o relatório da Conab, para o ciclo 2021/22, as poucas chuvas seguem preocupando o setor por conta do possível impacto na produtividade dos canaviais. “Na destinação da moagem para açúcar, está prevista uma redução na safra atual, mesmo tendo como suporte a queda na produção do adoçante em alguns importantes países produtores”, afirma o documento, que segue: “As estimativas de baixos preços do etanol neste ano (resultado da baixa demanda interna e queda nos preços do petróleo) poderá, no decorrer da temporada, reverter essa tendência”.
Menos etanol nem sempre é opção
A redução no consumo de etanol devido às medidas de restrição de circulação criadas para combater a pandemia de coronavírus segue sendo um problema.
O relatório da Conab pontua: “Mesmo com algumas unidades tentando maximizar a produção de açúcar, atendendo a opção para o mercado externo em detrimento do etanol, deve ser considerado que nem todas as unidades detêm esta possibilidade tecnológica, cogitando-se inclusive a possibilidade de paralisação dessa atividade por parte de algumas usinas”.
Com isso, as usinas pesquisadas esperam que sejam fabricados 28,36 bilhões de litros do renovável, enquanto a expectativa das consultorias é um pouco maior, de 28,97 bilhões de litros.

Para o sócio-diretor da Job Economia, Julio Borges, a quebra de safra prevista para o Centro-Sul deverá se concentrar no etanol.
Ainda que os preços do renovável venham fortes no início de temporada, como visualiza a analista Ana Zancaner, da Czarnikow, eles não pagarão mais do que o adoçante. Para ela, o valor do açúcar precisaria cair bastante para que a troca para o biocombustível compensasse financeiramente às usinas.
Com esse cenário, a Safras & Mercado reduziu sua estimativa para a produção de etanol entre março e abril. “O ajuste negativo que colocamos foi bem maior no etanol, tanto anidro quanto hidratado. Ele será a válvula de escape do setor nesta safra”, resume o analista da entidade, Mauricio Muruci.
Mudança de perspectiva
O NovaCana também comparou os dados obtidos pela Conab no início das últimas 12 safras com o último levantamento da própria instituição, a fim de visualizar a diferença entre eles.
Em 2020/21, a discrepância na moagem foi de 23,8 milhões de toneladas ou 4,1%: se, no primeiro levantamento, o volume estimado foi de 578,8 milhões, no último, ficou em 602,59 milhões de toneladas. Assim como na temporada 2019/20, a visão inicial foi inferior à final.

Entretanto, na média das 12 temporadas analisadas, as usinas estimaram moagens 9,69 milhões acima do resultado da temporada. Vale destacar que, no início da década, as usinas tiveram expectativas muito maiores ante o que foi efetivado, fator que impacta fortemente a média.
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana
Com reportagem adicional de Rafaella Coury