Consulta feita pela Conab com as unidades produtivas aponta para menos cana e mais etanol do que as projeções de empresas e consultorias ouvidas pelo NovaCana
Com quatro levantamentos por safra, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) divulga dados que expressam como será a atual temporada de cana-de-açúcar na perspectiva das usinas. As informações são compiladas com base nos dados fornecidos aos técnicos da Conab pelas próprias companhias em operação; mais de 340 unidades participam do estudo.
Os primeiros números da entidade para 2020/21 foram divulgados no último 5 de maio. A estimativa é de uma produção de 630,7 milhões de toneladas de cana em todo o país, com 578,8 milhões advindas da região Centro-Sul.
O montante esperado para a região, porém, contraria uma otimista expectativa inicial de produção para a temporada, calcada principalmente nas condições climáticas favoráveis.
Assim como aconteceu nas duas safras anteriores, a moagem da primeira pesquisa da Conab é menor que a obtida no primeiro levantamento de estimativas feito pelo NovaCana, baseado nas opiniões de consultorias e empresas especializadas. Isso pode indicar que o atual aparente pessimismo do setor não está, necessariamente, associado à crise que se instaurou nesta temporada.
Para o ciclo 2020/21, o levantamento feito pelo NovaCana, com 21 empresas e excluindo os dados da Conab, chegou a uma média de moagem de 598,59 milhões de toneladas, contrastando com as 578,80 milhões de toneladas estimadas pela pesquisa do governo. A diferença entre as duas perspectivas é de 19,79 milhões, a maior das últimas três safras.
Vale destacar que os dados foram coletados junto às usinas na segunda quinzena de março – período mais crítico na crise de demanda e de preços. O período coincidiu com a fase do maior número de recomendações de isolamento social, que levaram a um baque no consumo de combustíveis, incluindo até mesmo alegações de força maior por parte das distribuidoras para o não cumprimento de contratos de compra de etanol.
Neste ano, seguindo as recomendações federais e da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o combate à pandemia de coronavírus, os contatos presenciais e as visitas às lavouras para coleta de dados foram suspensos e substituídos por comunicação via meios eletrônicos. Ainda assim, a Conab acredita que seu levantamento não foi prejudicado.
Por sua vez, o compilado feito pelo NovaCana se deu ao longo do mês de abril, com uma atualização no início de maio. Neste momento, o cenário já havia sido analisado pelas empresas e estava mais consolidado.
Confira, na versão completa, os comparativos entre as expectativas de mercado e das usinas para moagem, mix de produção e fabricação de açúcar e etanol.
Com quatro levantamentos por safra, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) divulga dados que expressam como será a atual temporada de cana-de-açúcar na perspectiva das usinas. As informações são compiladas com base nos dados fornecidos aos técnicos da Conab pelas próprias companhias em operação; mais de 340 unidades participam do estudo.
Os primeiros números da entidade para 2020/21 foram divulgados no último 5 de maio. A estimativa é de uma produção de 630,7 milhões de toneladas de cana em todo o país, com 578,8 milhões advindas da região Centro-Sul.
O montante esperado para a região, porém, contraria uma otimista expectativa inicial de produção para a temporada, calcada principalmente nas condições climáticas favoráveis.
Assim como aconteceu nas duas safras anteriores, a moagem da primeira pesquisa da Conab é menor que a obtida no primeiro levantamento de estimativas feito pelo NovaCana, baseado nas opiniões de consultorias e empresas especializadas. Isso pode indicar que o atual aparente pessimismo do setor não está, necessariamente, associado à crise que se instaurou nesta temporada.
Para o ciclo 2020/21, o levantamento feito pelo NovaCana, com 21 empresas e excluindo os dados da Conab, chegou a uma média de moagem de 598,59 milhões de toneladas, contrastando com as 578,80 milhões de toneladas estimadas pela pesquisa do governo. A diferença entre as duas perspectivas é de 19,79 milhões, a maior das últimas três safras.
Vale destacar que os dados foram coletados junto às usinas na segunda quinzena de março – período mais crítico na crise de demanda e de preços. O período coincidiu com a fase do maior número de recomendações de isolamento social, que levaram a um baque no consumo de combustíveis, incluindo até mesmo alegações de força maior por parte das distribuidoras para o não cumprimento de contratos de compra de etanol.
Neste ano, seguindo as recomendações federais e da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o combate à pandemia de coronavírus, os contatos presenciais e as visitas às lavouras para coleta de dados foram suspensos e substituídos por comunicação via meios eletrônicos. Ainda assim, a Conab acredita que seu levantamento não foi prejudicado.
Virada nas perspectivas
Conforme o diretor técnico da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica), Antonio de Padua Rodrigues, em entrevista ao Broadcast Agro no início do abril, houve uma quebra de expectativas em relação à safra 2020/21, uma vez que o sentimento era positivo até fevereiro.
Porém ele ainda acredita que existe a possibilidade de uma maior disponibilidade de matéria-prima a ser colhida, devido às condições climáticas favoráveis observadas desde o início do ano. A visão é reforçada por consultorias como FG/A e INTL FCStone.
Mesmo assim, esta não é a primeira vez em que a expectativa das usinas foi menor do que a do mercado. Em 2019/20, a Conab estimava 566,70 milhões de toneladas em um primeiro momento, enquanto o levantamento feito pelo NovaCana logo no início da temporada, com 21 empresas e excetuando a Conab, apontava para 573,63 milhões de toneladas produzidas. A diferença entre as perspectivas era de 6,93 milhões de toneladas.
Em 2018/19, a diferença entre as expectativas foi ainda menor, 4,03 milhões de toneladas. Enquanto a estimativa média de mercado era de 584,23 milhões de toneladas, a das usinas era de 580,20 milhões.

Por outro lado, em 2017/18, as usinas esperavam uma moagem maior ante as perspectivas do mercado, com 598 milhões de toneladas de cana. Já o levantamento com consultorias especializadas apostava em 589,27 milhões.
Mix mais doce, mas nem tanto
Em relação ao direcionamento da cana-de-açúcar, também há certa divergência entre mercado e usinas, pois estas esperam por uma produção de açúcar menor do que a constatada pelo compilado do NovaCana.
Enquanto o levantamento da Conab estima que 41,6% da cana-de-açúcar será destinado para o adoçante em 2020/21, a projeção média de mercado foi de 45,1%. A diferença indica que as usinas esperam por uma flexibilização menor da produção ante as perspectivas das consultorias.
Em 2019/20, conforme divulgado pela Unica, este índice foi de 34,3%, ou seja, bem menos açucareiro do que as atuais projeções.

Com este mix, a produção de açúcar estimada pelas usinas é de 31,85 milhões de toneladas; já as consultorias esperam por cerca de 34,70 milhões. Ambas as perspectivas estão acima do montante registrado na safra passada, quando foram produzidas 26,21 milhões de toneladas da commodity.
Segundo o relatório da Conab, o resultado considera o impacto da crise no mercado de combustíveis, com a queda de preços e de demanda de etanol. Para a companhia, o cenário estimula um aumento na produção de açúcar em 2020/21 a fim de maximizar as exportações.
“No exterior, há um vácuo no mercado resultante tanto de problemas de produção na Tailândia, segundo maior exportador mundial, quanto da decisão de alguns países de restringir as exportações para priorizar o mercado interno, como ocorre, por exemplo, na América Central. Na Índia também há problemas nos embarques, que estão sendo afetados pela pandemia”, detalha o relatório.

Conforme o levantamento do NovaCana, existe um consenso de que o mix em 2020/21 será mais açucareiro. Há até mesmo a possibilidade que sejam atingidos níveis recordes, até mais de 10 pontos percentuais acima da safra anterior, quando 34,3% da matéria-prima foi destinada para a produção commodity.
O gerente de consultoria e análise de mercado da Czarnikow, Henrique Akamine, explica que, desde o início do ano, o cenário sinalizava um “enfraquecimento” da demanda de combustíveis e um maior foco na produção de açúcar. De acordo com ele, os preços da commodity vistos nos últimos meses proporcionaram bons retornos para as usinas, estimulando a fixação de negociações para a safra.
Porém este movimento se intensificou e, atualmente, o gerente acredita que as companhias maximizarão sua produção de açúcar. O objetivo é mitigar os riscos da volatilidade nos preços do etanol e das incertezas macroeconômicas do momento.
Etanol em queda
Por sua vez, a produção de etanol esperada pelas usinas é de 30,08 bilhões de litros, enquanto a média de mercado é de 26,71 bilhões. No início de abril, momento mais próximo da coleta de dados feito pela Conab, a S&P Global Platts estimava uma produção pouco acima de 27 bilhões de litros.
Conforme a companhia, com a redução no consumo doméstico, a preocupação passa a ser o escoamento do produto. Embora as exportações possam ser um caminho, a Platts não acredita que elas terão um incremento significativo, justamente pela falta de demanda também no mercado externo.
Além disso, os volumes projetados são inferiores ao resultado da temporada 2019/20, quando foram produzidos 33,26 bilhões de litros. De acordo com a Unica, este foi o maior volume de etanol já produzido em uma safra.
Inclusive, ambas as perspectivas iniciais para 2019/20 foram inferiores ao resultado, embora fossem próximas entre si: 29 bilhões de litros na expectativa do mercado e 28,48 bilhões na visão das usinas.

De acordo com o relatório da Conab, além dos efeitos das medidas de isolamento sobre a demanda, o mercado também sofre o impacto da desvalorização dos preços internacionais do petróleo. Afinal, ao reduzirem os preços da gasolina nos postos, eles pressionam os valores do etanol nas usinas.
“Apesar de uma mudança de estratégia prevista para esta safra, as empresas não podem prescindir do mercado nacional de etanol, que agora enfrenta uma pressão adicional com o colapso das cotações do petróleo”, detalha o documento, que prossegue: “A maior preocupação do setor no momento é a redução nas vendas de etanol, tanto nas unidades de produção quanto nos postos, devido à queda nos preços da gasolina e na demanda”.
Conforme o levantamento feito pelo NovaCana, a redução vai existir e deve pressionar as receitas e margens das usinas, conforme apontado pelo Rabobank e pelo Instituto de Pesquisa e Educação Continuada em Economia e Gestão (Pecege).
“No momento em que muitas empresas se encontram com dificuldades financeiras, o etanol era o ativo de geração de caixa em termos de liquidez e [a mudança no mix] é um ponto negativo”, declara o gerente de projetos do Pecege, Haroldo Torres.
Em relação ao etanol de milho, a expectativa de produção do levantamento da Conab foi maior do que a visão do mercado. Enquanto a primeira espera por 2,7 bilhões de litros, a média das empresas consultadas pelo NovaCana foi de 2,1 bilhões de litros. Em ambos os casos, há um crescimento ante a produção de 1,62 bilhão de litros registrada em 2019/20.
De acordo com o Rabobank, mesmo que haja usinas lutando para manter suas operações, as empresas com capacidade para investir estariam indo além do essencial e pensando na diversificação, o que pode envolver uma maior produção com o grão, “para melhor enfrentar as incertezas inerentes do negócio no futuro”.
Expectativas pessimistas
O NovaCana comparou os dados obtidos pela Conab no início das últimas onze safras com o último levantamento a fim de visualizar a distância entre eles.
Em 2019/20, a expectativa melhorou entre o primeiro e o quarto levantamentos, passando de 566,7 milhões de toneladas para 589,9 milhões de toneladas – uma diferença de 23,2 milhões ou de 4,9%.

Além disso, enquanto as expectativas iniciais divulgadas entre 2016/17 e 2018/19 ficaram acima seus resultados, em 2019/20, o cenário se inverteu. Na safra passada, as usinas esperavam por uma moagem inferior à que a se efetivou.
Apesar disso, na média das últimas 11 temporadas, as unidades estimaram, no início de cada safra, uma moagem 13,03 milhões de toneladas acima do resultado.
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana
Com reportagem adicional de Rafaella Coury