Açúcar: Mercado

Déficit mundial de oferta e clima no Brasil impulsionam rali de seis meses no açúcar


Investing - 13 fev 2020 - 10:31 - Última atualização em: 18 fev 2020 - 12:18

A realidade não tem sido nada fácil para as commodities ultimamente, mas os investidores que acreditaram no açúcar em bruto conseguiram obter retornos superiores aos de quase todas as outras matérias-primas nos últimos seis meses.

O desempenho do açúcar em bruto negociado em Nova York só fica atrás do paládio, um dos metais mais caros do mundo, usado na fabricação de catalisadores automotivos.

No fechamento desta terça-feira a 15,35 centavos por libra, o contrato futuro do açúcar em bruto com vencimento mais próximo na ICE Futures dos EUA apresentava uma valorização de 14,4% no ano. Já o contrato futuro de paládio subia 18,4%, apenas 4% a mais, apesar do seu início arrebatador em 2020.

Lado a lado com o paládio

Em fevereiro, o açúcar está lado a lado com o paládio, já que ambos apresentam ganhos de cerca de 8,5%. E o adoçante está quase igualando outro feito do metal precioso usado em catalisadores automotivos: a valorização mensal.

Desde agosto, o açúcar vem gerando retornos todos os meses aos investidores. Se o cenário se repetir em fevereiro, este será o sexto mês seguido de valorização, a maior sequência de ganhos do produto em quase 15 anos.

A última vez em que o açúcar teve um desempenho tão bom assim foi entre maio de 2005 e janeiro de 2006, quando subiu nove meses sem parar.

Mas, o que está por trás do desempenho do açúcar desta vez? Tudo tem a ver com o temor de uma produção menor, principalmente na Índia e na Tailândia, grandes produtores de cana-de-açúcar.

Déficit mundial de açúcar

“Os futuros do açúcar estão apresentando sólidos ganhos por causa de notícias de que o déficit de produção mundial pode aumentar ainda mais”, escreveu Eric Scoles, estrategista de commodities da RJO Futures, em Chicago, em um comentário na terça-feira. Scoles prosseguiu:

“O petróleo voltou a ganhar força, o que dá suporte ao açúcar, devido ao seu uso na produção de etanol.”

As condições climáticas adversas enfrentadas por produtores de açúcar na Índia e Tailândia – países que ocuparam a primeira e a quarta posição na produção mundial do produto no ano passado respectivamente – estão fazendo os preços subir desde o ano passado.

Outro fator que tem contribuído para a valorização do produto nesta semana é o repique nos preços do petróleo, que haviam sido devastados pelo coronavírus, responsável por eliminar um quinto da sua demanda mundial.

Ajuda do etanol

Os preços mais altos do petróleo ajudam o açúcar, na medida em que um dos seus produtos derivados mais importantes é o etanol, biocombustível misturado à gasolina. O uso do etanol como aditivo nos combustíveis automotivos é obrigatório tanto no Brasil, grande produtor de cana, quanto nos Estados Unidos.

“Os moinhos brasileiros continuam favorecendo o etanol no mix de produção, embora os atuais preços altos do produto tornem mais econômica a abertura de mais instalações de processamento de açúcar do que de etanol”, declarou Jack Scoville, analista do Price Futures Group, em Chicago.

O analista disse ainda que a oferta de açúcar vem dando suporte ao rali desde agosto. “Notícias indicam que a Índia está apresentando condições de cultivo relativamente boas e ainda possui grandes estoques do ano passado. No entanto, parece que essas ofertas não estão sendo disponibilizadas, apesar dos preços mundiais relativamente fortes”, declarou Scoville, que disse ainda:

“A melhora do clima no Brasil pode gerar boas condições para as lavouras do país. Os produtores estão vendendo cana para os moinhos, mas a safra já está quase terminando, portanto vai começar a faltar oferta. A Tailândia também pode ter menos oferta neste ano, devido à área reduzida de plantações e precipitações erráticas durante a estação de monção.”

Então, até quanto vai durar essa corrida de alta? A Perspectiva Técnica Diária do Investing.com tem recomendação de “Forte Compra” para o açúcar em bruto, estabelecendo resistência imediata em 15,40 centavos.

Mas, como o contrato futuro com vencimento mais próximo já está quase rompendo a importante resistência de 15,30, é possível que haja “um grande potencial de alta” até 16 centavos, ou mesmo 17 centavos, segundo Scoles, da RJO Futures.

Poucos sinais de desaceleração

“Do ponto de vista técnico, estamos vendo um grande padrão de fundo duplo no gráfico mensal, que é um indicador extremamente altista”, escreveu.

Apesar da possibilidade de prosseguimento do rali, também pode haver alguma realização de lucro no caminho, escreveu Scoles, dizendo ainda:

“É possível que vejamos uma rejeição no ponto de suporte, com forte correção, o que representa um risco para quem já está comprado no açúcar.”

“Mas muitos analistas sugerem que o mercado ainda está muito forte, de modo que uma correção pode ser uma boa oportunidade para quem quer entrar no mercado. O timing será muito importante”.

Barani Krishnan