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USJ terá duas safras no vermelho e lucro só em 2017/18, prevê Fitch

usj grupo usina 080715Se as previsões da agência de classificação de risco Fitch Ratings estiverem certas, a sucroalcooleira terá, sem considerar o efeitos dos impostos, uma perda milionária de três dígitos no exercício atual

NovaCana 9 min de leitura

A USJ Açúcar e Álcool (USJ) pode amargar duas safras de prejuízo, se as previsões da agência de classificação de risco Fitch Ratings estiverem certas. A agência prevê que a sucroalcooleira terá uma perda antes dos impostos milionária de três dígitos no exercício atual, e, que reduzirá sensivelmente o déficit em 2015/16. Mas, lucro mesmo só em 2017/18, segundo a projeção.

Nesta safra, a liquidez da USJ piorou no primeiro trimestre. A dívida de curto prazo aumentou 4%, enquanto a posição de caixa caiu 43%. No entanto, considerando o endividamento total, a Fitch acredita que a USJ deve conquistar uma redução gradual da dívida líquida, até alcançar o patamar de R$ 1 bilhão em 2017/18.

A Fitch fez uma série de previsões sobre o desempenho da sucroenergética de Araras (SP): partindo desde 2013/14 até a safra 2017/18, o trabalho traz o histórico do desempenho financeiro da empresa e as previsões sobre os resultados estimados para a safra atual e as duas temporadas seguintes.

No texto a seguir, os detalhes das análises e todas as projeções apresentadas em gráficos.

- Moagem e fluxo de caixa

- Estratégias de venda e mix de produtos das usinas

- Motivos da alavancagem da USJ permanecer alta

- Perfil da dívida e risco cambial

- Risco de inadimplência

A USJ Açúcar e Álcool (USJ) pode amargar duas safras de prejuízo, se as previsões da agência de classificação de risco Fitch Ratings estiverem certas. Em relatório analítico publicado este mês, a agência projeta que a sucroenergética com sede em Araras (SP) só voltará a registrar lucro antes dos impostos em 2017/18.

De acordo com o documento, considerando os resultados antes dos impostos, a USJ deve registrar um prejuízo elevado na atual safra, de R$ 103,3 milhões. No ano seguinte, entretanto, esse valor deve ser minimizado. Ainda assim, a companhia só deve voltar a registrar um resultado positivo antes dos impostos em 2017/18, quando alcançará R$ 43 milhões.

USJ 1 lucro antes impostos

Esse resultado é diretamente relacionado às despesas brutas com juros, que devem aumentar na atual safra. Nos próximos anos, a USJ deve amortizar parte das dívidas e, consequentemente, diminuir esses gastos.

USJ 2 despesa juros

Melhora fluxo de caixa

Apesar da tendência de prejuízo contábil, nem tudo é negativo para a safra 2015/16. A empresa, que foi rebaixada pela Fitch em maio (de B para CCC), deve apresentar melhora na geração de fluxo de caixa livre (FCF) nesse ano fiscal em comparação com o anterior, devido, principalmente, ao maior processamento de cana-de-açúcar e investimentos menores.

Devido ao clima mais favorável e chuvas abundantes no início de 2015, a Fitch espera que a USJ registre uma moagem de 3,3 milhões de toneladas de cana-de-açúcar desta safra, 8% a mais do que as 3 milhões de toneladas processadas em 2014/15.

Ainda segundo o relatório, a redução dos investimentos à metade do valor aplicado na temporada passada é outro fator positivo para fluxo de caixa. Os aportes devem ser reduzidos a R$ 105 milhões no exercício atual, o que é considerado uma melhora em relação aos R$ 229 milhões registrados ciclo passado.

A maior parte dos investimentos da safra passada foram relativos à manutenção industrial e agrícola, totalizando R$ 104 milhões. Também foram aplicados R$ 89 milhões em uma nova caldeira e ativos industriais relacionados e R$ 27 milhões em aquisições de terras de um grande fornecedor de cana-de-açúcar com dificuldades financeiras.

USJ 3 investimentos 201415

No ciclo 2015/16, em andamento, a posição de caixa da empresa caiu 43%, indo de R$ 202 milhões em março para R$ 117 milhões em junho. O principal motivo para isso foi a realização de duas injeções de capital, no total de R$ 84 milhões, na SJC Bioenergia, joint venture com a Cargill, além da aquisição, no valor de terras e canaviais de um fornecedor, também no valor de R$ 27 milhões.

Para o futuro não são esperadas grandes movimentações porque os investimentos na nova usina da SJC foram finalizados.

Receita e lucro operacional avançam

Apesar da expectativa de que os preços do açúcar e do etanol permanecerão sob pressão a curto prazo e da queda de 7,7% na receita líquida durante o ano fiscal de 2015, a agência projeta aumentos para as próximas safras. O crescimento médio anual projetado para a receita líquida é de 11,9%, com destaque para a safra 2016/17.

USJ 4 receita liquida

Essa perspectiva da Fitch é mais positiva que a apresentada em julho por outra agência de classificação de riscos, a Standard & Poor’s. Na ocasião, a agência também rebaixou os ratings atribuídos à sucroalcooleira, refletindo a liquidez mais fraca da companhia.

Outro aspecto positivo é a projeção de lucro operacional. O fraco resultado apontado na safra 2014/15 deve ter pequena melhora no ano fiscal atual, para R$ 66,1 milhões, apresentando 18,4% de crescimento em relação ao ano anterior. Os resultados devem crescer em ritmo maior a partir de 2016/17, para na safra seguinte dobrar o ganho em comparação com a safra atual, atingindo R$ 132,2 milhões

USJ 5 lucro op

A Fitch também acredita que a USJ manterá um Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) crescente, com melhora sutil, de 2%, já na safra 2015/16 e aumentos mais expressivos nas duas temporadas de seguintes, quando são esperadas altas de 23% e 12%.

A margem Ebitda deve passar por oscilações menores, com pequena retração na temporada atual e recuperação nas seguintes, até alcançar uma margem de 50%, em 2017/18. Isso significa que a companhia deve manter seu grau de rentabilidade e direcionar uma parcela de seu lucro operacional para a amortização das dívidas. Lembrando que, quanto maior a margem Ebitda, mais rentável é a operação.

USJ 6 Ebitda

Mix seguirá açucareiro

Vale observar, contudo, que a agência considerou que a USJ manterá um mix fortemente açucareiro, de 66% para o açúcar e 34% para etanol no período, com o preço do açúcar sendo projetado a 13 centavos de dólar por libra-peso em 2015/16, 15 centavos em 2016/17 e 16 centavos em 2017/18.

O relatório ainda aponta que o perfil de negócios da USJ se baseia em um mix de produtos diferenciado. “A produção da companhia prioriza o açúcar cristal, que é vendido a empresas de alimentos e bebidas financeiramente fortes. A usina da companhia está estrategicamente localizada próxima a empresas de alimentos e bebidas, corredores de exportação e centros consumidores. As vendas de etanol estão concentradas em etanol anidro e industrial, com preço estabelecido maior que o do etanol hidratado”, analisa.

Dívidas e risco cambial

Segundo a Fitch Ratings, a liquidez da USJ piorou no primeiro trimestre da safra 2015/16. A dívida de curto prazo aumentou 4% – indo para R$ 296 milhões no primeiro trimestre, em comparação com os R$ 284 milhões registrados em 31 de março de 2015, data que marca o final da temporada anterior.

Por sua vez, a dívida total ajustada da empresa, de acordo com a metodologia da Fitch (que considera o capital híbrido), totalizou R$ 1,5 bilhão em 30 de junho, o que significa uma redução de 5% frente a R$ 1,6 bilhão em 31 de março. Essa queda, segundo a agência, deve permanecer ao longo desta e das próximas duas safras, de modo que a dívida prevista para 2017/18 será 14,6% maior que o montante registrado no balanço fiscal de 2014 e 14% menor que o registrado em 2015, chegando a R$ 1 bilhão.

USJ 7 divida total

Atualmente, a dívida total ajustada da USJ consiste principalmente das seguintes obrigações: US$ 275 milhões em notas seniores sem garantia, com vencimento em 2019; linhas de capital de giro; acordos de arrendamento de terras, segundo a metodologia da Fitch, e garantias emitidas em favor do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), sob acordos de empréstimos com a SJC; pagamentos antecipados de exportações e outras linhas de crédito comerciais; empréstimos subsidiados do Finame e do Finem.

USJ 8 composição divida

O relatório ainda atenta para o risco cambial. A dívida em dólar da USJ representa 78% do saldo de balanço. O risco cambial, entretanto, está diluído a longo prazo, pois a maior parte do débito consiste de US$ 275 milhões de notas seniores sem garantia, com vencimento em 2019. Os pagamentos de cupom de curto prazo da empresa estavam protegidos por instrumentos de hedge em 30 de junho de 2015, cujo valor nominal totalizou US$ 19 milhões (R$ 59 milhões).

Ainda assim, esse é apontado como o principal motivo de a alavancagem da USJ permanecer alta. Quanto maior é o grau de alavancagem operacional, maiores são os riscos, pois o resultado fica sensível a qualquer variação na receita bruta – tanto para mais como para menos.

USJ 9 alavancagem

Segundo o relatório, os riscos de inadimplência aumentaram em ritmo maior do que a capacidade da empresa em monetizar seu estoque de terras. A vantagem da USJ, nesse caso, é que a sucroenergética possui R$ 1,1 bilhão em terras próprias – 90% das quais desoneradas. A Fitch não acredita que as terras sejam vendidas na safra atual.

Além disso, as taxas de juros dos bancos com os quais a USJ mantém relacionamento aumentaram. Em contrapartida, os bancos não têm exigido garantias para negócios de até um ano, mantendo canaviais, inventários e a usina da USJ livres de taxas, podendo ser usados como garantia para novos empréstimos bancários.

Mesmo com a redução da nota, a USJ foi retirada da lista de análise negativa, o que significa que a posição da empresa não deve cair novamente em breve. “As principais preocupações relacionadas à liquidez da USJ não mudaram significativamente desde a última ação de rating, mesmo em face da deterioração do ambiente macroeconômico brasileiro e dos riscos de inadimplência na indústria”, aponta o relatório da Fitch Ratings.

Ainda segundo o documento, a disponibilidade de financiamentos de capital de giro tem se tornado mais escassa para empresas brasileiras de açúcar e etanol, um fator motivado pela reestruturação de outras empresas do setor.

Renata Bossle – NovaCana

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