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Usina Itajobi foi utilizada em fluxo de valores investigados na operação Crédito Oculto

Além disso, empresas de baixo capital movimentaram grandes somas, inclusive para pagamentos a funcionários de uma distribuidora

CNN Brasil 7 min de leitura

A decisão da Justiça de São Paulo que autorizou novas medidas de investigação relacionadas à operação Carbono Oculto – gerando a operação Crédito Oculto – descreve um fluxo de R$ 100,1 milhões utilizado na estrutura de financiamento da aquisição da Terrana, uma grande distribuidora de combustíveis.

Entre 24 e 26 de julho de 2024, a usina Itajobi recebeu o valor em quatro operações. Segundo os autos, cada transferência era precedida, por diferença de minutos, por um valor idêntico enviado pela Duvale Distribuidora, que havia recebido os recursos da SM Serviços Empresariais, financiada pela Aster Petróleo.

O dinheiro passou por chamadas “contas bolsão” da BK Instituição de Pagamento antes de chegar à usina Itajobi e, posteriormente, ser direcionado ao fundo Radford.

Em dezembro de 2024, a Entre Investimentos depositou outros R$ 20 milhões em uma conta da usina Itajobi na Credihome. Segundo a decisão, o valor foi integralmente repassado ao Radford, funcionando como uma conta de passagem.

Investigação aponta tentativa de ocultar comprador

Os documentos também descrevem uma estratégia para apresentar formalmente outra pessoa como responsável pela aquisição da Terrana.

Mensagens extraídas do celular do empresário Paulo Narcélio Simões do Amaral indicam, segundo a investigação, que ele foi contratado para participar da negociação e permanecer inicialmente na gestão da distribuidora.

A decisão registra que Paulo Narcélio receberia 0,75% do valor da transação, além de uma remuneração mensal durante três meses. Segundo os autos, o objetivo era “manter a imagem de que a empresa foi comprada por mim”.

As conversas também indicariam que o tomador de decisão da negociação era “Primo”, nome atribuído a Mohamad Hussein Mourad.

Banco Genial aparece na estrutura

O Banco Genial aparece nos autos como parte do núcleo financeiro da operação. A decisão cita Humberto Arthur Tupinambá Neto, então sócio e diretor da instituição, e os irmãos André e Bruno Tupinambá.

Segundo os documentos, a estrutura envolveu o Fundo Radford, que tinha a usina Itajobi como cotista, além das holdings Berna e Branson. Após a deflagração da operação Carbono Oculto, o Banco Genial teria renunciado à administração do fundo, liquidado os Certificado de Depósito Bancário (CDBs) e cedido os créditos ao próprio Radford.

Empresa de baixo capital

Além disso, uma empresa criada com apenas R$ 1 mil de capital social e que movimentou R$ 2,25 milhões teria sido utilizada para pagar funcionários da Terrana. Trata-se da 7Seven Apoio e Serviços Administrativos, aberta em 27 de janeiro de 2025, pouco mais de um mês depois da formação da estrutura de administração da Terrana descrita nos autos.

Segundo a decisão, a empresa movimentou R$ 2,25 milhões por meio da BK Instituição de Pagamento e realizou pagamentos a funcionários da distribuidora. Depois, segundo o Ministério Público, a estrutura foi “desidratada” para ocultar seus vínculos com o grupo investigado.

A discrepância entre o capital social e os valores movimentados é um dos elementos que chamaram a atenção dos investigadores: a empresa tinha apenas R$ 1 mil declarados, mas movimentou mais de duas mil vezes esse valor.

Empresa foi criada após aquisição da Terrana

A criação da 7Seven ocorreu depois que, segundo a investigação, o grupo passou a administrar a Terrana. Em 18 de dezembro de 2024, foi criado um grupo de WhatsApp chamado “Novo direção terrana”, utilizado para tratar da gestão da distribuidora.

De acordo com a decisão, Mohamad Hussein Mourad, conhecido como “Primo”, usava uma linha cadastrada como “Leo” para transmitir instruções a integrantes da administração.

Entre os envolvidos na gestão estavam profissionais responsáveis pelas áreas financeira e contábil. Gustavo Nascimento de Oliveira atuava como CEO e porta-voz do grupo, enquanto Andréia Cristina Alves Borges aparece ligada à área financeira e Gunar Marcondes da Silva, à contabilidade.

Funcionária recebeu R$ 7,6 milhões

A decisão também registra uma movimentação expressiva envolvendo Andréia Cristina Alves Borges. Segundo os autos, ela recebeu R$ 7,6 milhões provenientes da organização investigada. Do total, R$ 5,68 milhões teriam vindo da SM Serviços Empresariais.

A investigação afirma ainda que Borges respondia diretamente ao chamado “chefe”. Os valores aparecem no contexto da estrutura utilizada para administrar a Terrana depois da aquisição.

Outras empresas tinham capital de R$ 1 mil

A 7Seven não foi a única empresa de capital reduzido identificada na investigação. Os autos também apontam as empresas Berna Holdings e Branson Holdings, constituídas com capital social de R$ 1 mil cada. Apesar do baixo capital declarado, as duas participaram de operações financeiras de valores muito superiores.

Segundo a decisão, a Berna emitiu uma Cédulas de Crédito Bancário (CCB) de aproximadamente R$ 60,5 milhões, enquanto a Branson emitiu outra de aproximadamente R$ 99,8 milhões. Os instrumentos foram utilizados dentro da estrutura financeira envolvendo o fundo Radford e o Banco Genial.

Cerca de R$ 500 milhões em conta pessoal

Outro ponto registrado nos autos envolve Rogério Garcia Peres, citado na investigação como responsável pela estruturação societária de parte das operações.

Segundo a decisão, ele movimentou aproximadamente R$ 500 milhões de sua conta pessoal para a Entre Payments. O valor equivaleria a cerca de quatro vezes o patrimônio declarado por ele.

A Entre Investimentos, administrada por Antônio Carlos Freixo Junior, também aparece nos documentos com movimentações bilionárias.

Para o Ministério Público, a utilização de diferentes empresas, fundos e instrumentos financeiros fazia parte de uma estrutura destinada a ocultar a origem dos recursos e os verdadeiros beneficiários da aquisição da Terrana.

A Justiça considerou que havia elementos suficientes para autorizar as medidas cautelares solicitadas pelo Ministério Público. A decisão, porém, trata de uma investigação em andamento e não representa uma conclusão definitiva sobre a responsabilidade criminal dos investigados.

A nova fase da investigação busca aprofundar as conexões financeiras identificadas a partir da Operação Carbono Oculto. A Receita Federal informou nesta quinta-feira, 24, que foram identificadas novas estruturas envolvendo fundos, holdings, empresas e direitos de crédito relacionados à aquisição da distribuidora.

Outros lados

Em nota, o Banco Genial ressaltou que Humberto Tupinambá não atua mais na instituição. Veja o posicionamento na íntegra:

“O Banco Genial esclarece que Humberto Tupinambá não integra a Diretoria e não é sócio da instituição desde maio de 2026, quando ocorreu sua destituição.

Todas as informações relacionadas às operações envolvendo o Fundo Radford, inclusive aquelas relacionadas às empresas Berna e Branson Holdings, que estavam em poder da instituição foram fornecidas pela própria Genial ao Gaeco-SP. Em relação às operações mencionadas, também foram realizadas as comunicações cabíveis ao Coaf, nos termos da legislação e da regulamentação aplicáveis.

No âmbito dessas operações, a Genial atuou dentro das atribuições que lhe competiam, observando os procedimentos, normas e regulamentos aplicáveis, considerando as informações disponíveis à instituição à época.

A partir do conhecimento dos fatos, a instituição adotou medidas adicionais de governança e controle, incluindo a instauração de processo de Inspetoria interna, a revisão da governança das operações de crédito, o afastamento do então diretor dos respectivos processos decisórios e sua posterior destituição. A Genial também contou com o apoio de especialistas externos para a revisão e o aprimoramento de seus processos e controles.

Após a deflagração da Operação Carbono Oculto, a Genial renunciou à administração do Fundo Radford e manteve sua postura de colaboração com as autoridades, fornecendo as informações e os documentos solicitados.

A instituição permanece à disposição das autoridades competentes para colaborar com as investigações e prestar todos os esclarecimentos que se façam necessários”.

Já a defesa de Antonio Carlos Freixo Junior, o Mineiro, informou que não irá se manifestar. A CNN Brasil tentou localizar a defesa de todos os citados.

Adriana De Luca

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