Trabalhadores

Trabalhadores

Trabalhador grava agrotóxico sendo jogado sobre ele e os companheiros em canavial

Lucas, de 22 anos, usou o celular para gravar a cena, que aconteceu em fazenda de multinacional em Porteirão (GO), e mostrou as imagens para os auditores do Ministério do Trabalho durante fiscalização no local


G1 - Publicado: 04 Mai 2023 - 09:20

Um vídeo gravado por um trabalhador acabou servindo como prova para ajudar ele e mais de 200 colegas que foram resgatados em março durante uma grande operação realizada em fazendas da zona rural de Goiás, acompanhada de perto pelo Profissão Repórter.

Lucas, de 22 anos, usou o celular para registrar quando um avião da fazenda em que trabalhava, em Porteirão (GO), despeja agrotóxico bem perto de onde ele e os companheiros trabalhavam.

“Ainda quer que a gente trabalhe ainda, em uma desgraça dessa. Estão pondo veneno, jogando o veneno aqui. Nós trabalhando e jogando veneno aqui. Molhou todo mundo de veneno, o avião jogando veneno por cima da gente aqui”, reclama ele nas imagens.

Migrante do Nordeste, Lucas deixou a esposa e os dois filhos pequenos em casa, em União do Piauí, para trabalhar nos meses de safra.

Questionado por que resolveu gravar, ele afirma: “Porque isso aí é molecagem. A gente sai de longe, deixa a família da gente, está confiando que vai voltar para casa. Aí faz uma covardia daquela ali com a gente. Chega, Deus me livre, a gente morre! Como é que vai voltar para casa?”.

Depois que o agrotóxico foi jogado sobre a plantação, os trabalhadores relataram que todos sentiram dor de cabeça e coceira no corpo. Lucas também gravou os efeitos e tudo foi mostrado aos auditores do Ministério do Trabalho, que questionaram os funcionários da multinacional que é dona da fazenda.

Segundo o gestor de operações agrícolas da BP Bunge, Uatila da Silva Barbosa, a aplicação só deveria acontecer se não tiver ninguém usando a área. “Se tiver alguém na área, não pode”, afirma ao auditor fiscal.

Questionado sobre o vídeo, ele disse que não sabia do ocorrido e repetiu a pergunta para um funcionário da empresa terceirizada, responsável pela contratação dos trabalhadores. “Sei. Colocaram até no grupo”, disse o outro.

Além disso, na chegada ao local da operação, um carro branco esperava as viaturas da polícia e as seguiu pelo trajeto, o que levantou a suspeita de que a informação de que haveria operação acabou vazando.

Segundo o delegado da Polícia Federal Vitor Bueno Cardoso, o motorista do veículo era o filho do proprietário, que já havia estado nos alojamentos dos trabalhadores no dia anterior.

“Tentaram alterar um pouco aí, inclusive nos alojamentos. Uma barraca foi montada hoje pelos empregadores”, contou.