Executivos reuniram-se no país árabe para a conferência anual da indústria
O problema da sobrecapacidade foi o centro das atenções na edição deste ano da Platts Kingsman Dubai Sugar Conference, que mais uma vez reuniu executivos dos setores de produção, refino e comercialização de açúcar do mundo todo.
Estoques crescentes, cotações baixas e margens de lucro negativas vêm afligindo o mercado de açúcar nos últimos anos, e só agora o setor lentamente começa a enfrentar o problema.
Há um velho adágio no mundo das commodities que diz: em tempos de cotação alta, ninguém quer ver o governo se intrometendo no mercado; mas tão logo os preços caem, todo o mundo corre pedir ajuda para o estado.
Por Jonathan Kingsman
O problema da sobrecapacidade foi o centro das atenções na edição deste ano da Platts Kingsman Dubai Sugar Conference, que mais uma vez reuniu executivos dos setores de produção, refino e comercialização de açúcar do mundo todo.
Estoques crescentes, cotações baixas e margens de lucro negativas vêm afligindo o mercado de açúcar nos últimos anos, e só agora o setor lentamente começa a enfrentar o problema.
Um executivo de um grupo usineiro estimou que a capacidade anual de moagem de cana no Centro-sul brasileiro, principal região produtora do país, caiu de 615-620 milhões de toneladas há alguns anos para 580-585 milhões de toneladas, uma diferença de quase 6%. Outro previu que ela deve continuar caindo até 500-520 milhões de toneladas até o fim da crise. O Brasil é líder mundial na produção de açúcar.
As recentes joint-ventures entre Cargill e Copersucar, e da chinesa Cofco com o grupo Noble foram outro tema de discussão entre os delegados. O plano da brasileira Raízen de paralisar as atividades de uma de suas usinas de cana também foi comentado.
Há um velho adágio no mundo das commodities que diz: em tempos de cotação alta, ninguém quer ver o governo se intrometendo no mercado; mas tão logo os preços caem, todo o mundo corre pedir ajuda para o estado.
“O governo agora é o nosso acionista mais importante”, disse um produtor à reportagem. “Quando tenho uma hora livre, agora, eu não gasto falando com funcionários, clientes ou agricultores; uso para fazer lobby com o governo e pedir proteção.”
Esse apoio estatal, porém, está distorcendo o mercado. Na China, o governo tentou e não conseguiu sustentar os preços internos do açúcar recorrendo ao acúmulo de estoques, e recentemente criou um sistema de licenciamento para limitar importações. Na União Europeia, alguns países voltaram a subsidiar seus produtores de beterraba.
Enquanto isso, na Índia, para incentivar a produção o governo estabeleceu preços mínimos elevados para a cana-de-açúcar. Esta semana, para se livrar da “montanha de açúcar” resultante dessa política, a expectativa é que anuncie um subsídio para a exportação de açúcar não refinado no valor de quase US$ 65 por tonelada.
Após quatro anos de produção maior que o consumo, o que 2015 reserva para o mercado de açúcar? As opiniões parecem divergir.
Numa apresentação, a Sucden argumentou que a intervenção estatal pode distorcer os sinais emitidos pelas cotações e incentivar os agricultores a continuar produzindo, principalmente na Índia. A trader de commodities, com sede em Paris, prevê outro excedente global de produção este ano, mas deu a entender que o quadro para 2016 será mais equilibrado.
Numa discussão em um dos painéis, um executivo da Bunge mostrava preocupação com o fato de que, com as cotações mais baixas do petróleo, os usineiros brasileiros pudessem destinar mais cana para a produção de açúcar e menos para etanol. Outros analistas esperam que a demanda se equipare à produção este ano e preveem um déficit produtivo no ano que vem.
Qualquer que seja o quadro, os últimos quatro anos com produção de sobra significam que não deve faltar açúcar no mundo tão cedo.
Nas palavras de um operador, embora a cotação mundial tenda a despencar, qualquer recuperação dos preços poderia traduzir-se num cenário de “andar mergulhado no melaço”.
Jonathan Kingsman é fundador da consultoria em açúcar Kingsman e atualmente consultor da Platts, uma divisão da McGraw Hill Financial.
Texto publicado no Financial Times com tradução e adaptação NovaCana