Reestruturação da Südzucker deixa claro que setor açucareiro europeu deve mudar nos próximos anos, observa analista do Rabobank
Os baixos preços do açúcar no mercado global e as perspectivas nebulosas para a commodity impactaram não só as usinas brasileiras de cana-de-açúcar, mas todas as companhias pelo mundo que atuam com o adoçante.
Em janeiro, por exemplo, a maior produtora de açúcar do mundo, a europeia Südzucker, anunciou uma reestruturação que envolve o fechamento de unidades na Alemanha, na França e na Polônia. O objetivo, conforme reportagem da Reuters, é criar uma economia anual de 100 milhões de euros por meio de uma redução de 700 mil toneladas na capacidade de produção.
Mas a situação da companhia, que levou a uma queda na receita e ao consequente anúncio de reestruturação, tem relação não apenas com o mercado internacional de açúcar. Conforme lembra o gerente do departamento de pesquisa e análise setorial do Rababonk, Andy Duff, em outubro de 2017, a União Europeia acabou com as cotas de produção da commodity, mudando as regras do mercado.
“Não seria surpresa nenhuma se, nas próximas semanas, outras empresas europeias seguissem com iniciativas parecidas [com a da Südzucker], porque ninguém saiu ileso de 2018”, Andy Duff (Rabobank)
Segundo o site da Südzucker, a empresa fabricou 5,9 milhões de toneladas de açúcar em 2017, antes mesmo do incentivo à expansão provocado pelo fim das cotas. Para efeitos de comparação, a brasileira Raízen – maior exportadora de açúcar do mundo – fabricou 4,3 milhões de toneladas da commodity na safra 2017/18.
No texto completo, saiba mais sobre o contexto que levou à reestruturação da Südzucker, as consequências do fim das cotas de produção para o setor açucareiro europeu e as perspectivas para as próximas safras.
Os baixos preços do açúcar no mercado global e as perspectivas nebulosas para a commodity impactaram não só as usinas brasileiras de cana-de-açúcar, mas todas as companhias pelo mundo que atuam com o adoçante.
Em janeiro, por exemplo, a maior produtora de açúcar do mundo, a europeia Südzucker, anunciou uma reestruturação que envolve o fechamento de unidades na Alemanha, na França e na Polônia. O objetivo, conforme reportagem da Reuters, é criar uma economia anual de 100 milhões de euros por meio de uma redução de 700 mil toneladas na capacidade de produção.
Mas a situação da companhia, que levou a uma queda na receita e ao consequente anúncio de reestruturação, tem relação não apenas com o mercado internacional de açúcar. Conforme lembra o gerente do departamento de pesquisa e análise setorial do Rababonk, Andy Duff, em outubro de 2017, a União Europeia acabou com as cotas de produção da commodity, mudando as regras do mercado.
“Até aquele momento, o volume máximo de vendas no mercado doméstico era determinado para cada país e para cada empresa por meio de um sistema de cotas. Era possível produzir acima da sua cota, mas o excedente tinha que ir para fora da União Europeia”, explica Duff em podcast setorial do próprio banco.
De acordo com ele, o sistema de cotas controlava a oferta de açúcar dentro do bloco, ajudando a sustentar preços domésticos em níveis acima dos preços mundiais. Com o fim das cotas, entretanto, os produtores de açúcar passaram a poder vender internamente tanto açúcar quanto quisesse. “Assim, muitas empresas fizeram um esforço para aumentar a produção, na esperança de ganhar uma fatia maior do mercado”, complementa.
“Não seria surpresa nenhuma se, nas próximas semanas, outras empresas europeias seguissem com iniciativas parecidas [com a da Südzucker], porque ninguém saiu ileso de 2018”, Andy Duff (Rabobank)
Segundo o site da Südzucker, a empresa fabricou 5,9 milhões de toneladas de açúcar em 2017, antes mesmo do incentivo à expansão provocado pelo fim das cotas. Para efeitos de comparação, a brasileira Raízen – maior exportadora de açúcar do mundo – fabricou 4,3 milhões de toneladas da commodity na safra 2017/18.
Preços domésticos em queda
Assim, o que aconteceu na União Europeia foi mais um caso de mudanças bruscas na relação entre oferta e demanda. De acordo com Duff, na primeira safra sem as cotas, a produção de açúcar no bloco subiu 23%, o equivalente a quase 4 milhões de toneladas.
Ele ainda relata que o preço doméstico estava em queda desde meados de 2017 em decorrência da expansão da área plantada. “Mas, com o excesso de oferta interna, a queda continuou até chegar ao nível de paridade com [o preço de] exportação”, afirma.
“As empresas europeias que decidiram elevar a produção depois da suspensão das cotas sabiam que a concorrência entre elas seria brutal, mas nunca imaginaram a combinação infeliz desta estratégia com as safras recordes na Índia e na Tailândia”, Andy Duff (Rabobank)
Isto aconteceu justamente em um momento desfavorável para as cotações internacionais de açúcar, causado pelo excesso de oferta global. Assim, conforme o analista do Rabobank, a paridade entre os preços domésticos do adoçante e os valores internacionais significou também um preço de venda abaixo dos custos de produção das companhias europeias.
Perspectivas incertas
Para a próxima safra, Duff acredita que “o pior já passou”. Ainda assim, faz a ressalva de que ainda é cedo para comemorar e que a perspectiva é de uma redução na oferta.
“A segunda safra da época pós-cota, colhida no último trimestre do ano passado, foi impactada pela seca intensa durante o verão europeu. E, agora, na véspera do plantio da safra de 2019/20, a expectativa é que a área plantada caia de 5% a 10%, dado o preço decepcionante da beterraba e a firmeza do preço de trigo”, comenta.
Além disso, o analista aponta que os alívios financeiros para as empresas de açúcar podem demorar para chegar. De acordo com ele, grande parte da produção da safra recentemente fechada já foi precifica – e em níveis baixos.
“Nada vai acontecer logo”, garante e justifica: “No caso da Südzucker, a empresa apontou que as usinas indicadas para fechar só vão fazer isso depois da próxima safra, ou seja, em meados de 2020”.
Além disso, Duff pondera que um fechamento de capacidade não necessariamente significa uma redução de produção, afinal, a matéria-prima pode ser simplesmente direcionada para outra usina da empresa. “Neste caso, o resultado poderia ser uma redução de custo de produção, pelo uso mais intenso de capacidade instalada que fica ativa”, afirma.
Por fim, ele ainda complementa que uma redução da produção local não necessariamente implicaria em uma diminuição das exportações da União Europeia. De acordo com Duff, uma recuperação dos preços internos do bloco provavelmente levaria ao aumento no volume de importações vindas de países com acesso preferencial ao mercado. Ou seja, sem as cotas, o setor açucareiro europeu se tornou rapidamente suscetível às flutuações do mercado global.
Ouça o podcast Foco no Agronegócio
Renata Bossle – NovaCana