Instituto enxerga necessidade de mudanças na gestão de custos para que usinas possam melhorar margens
Uma safra de custos de produção elevados e preços estáveis em relação ao ciclo passado: este é um breve panorama do que espera os produtores de açúcar e etanol na temporada que irá se iniciar oficialmente em abril. O cenário foi detalhado pelo Instituto de Pesquisa e Educação Continuada em Economia e Gestão (Pecege) durante o primeiro Expedição Custos Cana de 2022.
Segundo o economista do instituto, Haroldo Torres, a safra 2022/23 irá “subir meio degrau em termos de preços, para não dizer que caminha para a estabilidade”. É um alerta para que os usineiros fortaleçam o controle e a gestão dos gastos com produção, com foco na recuperação e produtividade dos canaviais. “Isso leva a uma diluição do custo fixo, garantindo entrega de margem positiva”, declara.
Torres destaca que muitas usinas perceberam que precisam maximizar o nível de utilização da capacidade instalada da indústria, com a expansão baseada em novas variedades. Para isso, é necessário priorizar o manejo, olhando para insumos e para processos que estimulem a longevidade e produtividade dos canaviais, além de buscar o aumento do açúcar total recuperável (ATR).
O economista ainda relembra que a destilação de etanol, que foi crescente entre 2017/18 e 2019/20, caiu nas duas temporadas posteriores. “Viemos ladeira abaixo na produção de etanol, principalmente pela valorização dos preços do açúcar no mercado internacional”, detalha.
Além disso, o ciclo 2021/22 teve o pior desempenho da década em decorrência principalmente da seca, das geadas e dos incêndios – e as usinas irão carregar as consequências para a safra que se inicia. “Estamos com o canavial atrasado em praticamente um mês. No final da segunda quinzena de março, já teríamos usinas iniciando a sua safra. Mas o calendário foi deslocado para a metade final de abril”, diz.
Outra questão para o rol de problema dos produtores são canaviais com bastantes falhas, especialmente por conta dos incêndios. Desde outubro, com a intensificação de chuvas, houve um aumento substancial das ervas daninhas em uma lavoura que ainda não tinha se formado completamente.
“Temos que começar a fazer uma oração para o final da safra. A preocupação fica com a primavera. Se for chuvosa e as usinas não conseguirem colher a cana, há o risco de precisar bisar”, acrescenta, referindo-se à prática de deixar para colher a cana apenas na temporada seguinte.
Para ele, o planejamento de colheita desta temporada está “muito comprometido e bagunçado” em razão dos desafios vistos na safra passada.
Saiba mais sobre as perspectivas do Pecege no texto completo (exclusivo para assinantes):
- Análises de câmbio
- Estimativas para preços de açúcar e etanol
- Consumo de combustíveis
- Impactos do cenário macroeconômico
- Mercado de CBios
Uma safra de custos de produção elevados e preços estáveis em relação ao ciclo passado: este é um breve panorama do que espera os produtores de açúcar e etanol na temporada que irá se iniciar oficialmente em abril. O cenário foi detalhado pelo Instituto de Pesquisa e Educação Continuada em Economia e Gestão (Pecege) durante o primeiro Expedição Custos Cana de 2022.
Segundo o economista do instituto, Haroldo Torres, a safra 2022/23 irá “subir meio degrau em termos de preços, para não dizer que caminha para a estabilidade”. É um alerta para que os usineiros fortaleçam o controle e a gestão dos gastos com produção, com foco na recuperação e produtividade dos canaviais. “Isso leva a uma diluição do custo fixo, garantindo entrega de margem positiva”, declara.
Torres destaca que muitas usinas perceberam que precisam maximizar o nível de utilização da capacidade instalada da indústria, com a expansão baseada em novas variedades. Para isso, é necessário priorizar o manejo, olhando para insumos e para processos que estimulem a longevidade e produtividade dos canaviais, além de buscar o aumento do açúcar total recuperável (ATR).
O economista ainda relembra que a destilação de etanol, que foi crescente entre 2017/18 e 2019/20, caiu nas duas temporadas posteriores. “Viemos ladeira abaixo na produção de etanol, principalmente pela valorização dos preços do açúcar no mercado internacional”, detalha.
Além disso, o ciclo 2021/22 teve o pior desempenho da década em decorrência principalmente da seca, das geadas e dos incêndios – e as usinas irão carregar as consequências para a safra que se inicia. “Estamos com o canavial atrasado em praticamente um mês. No final da segunda quinzena de março, já teríamos usinas iniciando a sua safra. Mas o calendário foi deslocado para a metade final de abril”, diz.
Outra questão para o rol de problema dos produtores são canaviais com bastantes falhas, especialmente por conta dos incêndios. Desde outubro, com a intensificação de chuvas, houve um aumento substancial das ervas daninhas em uma lavoura que ainda não tinha se formado completamente.
“Temos que começar a fazer uma oração para o final da safra. A preocupação fica com a primavera. Se for chuvosa e as usinas não conseguirem colher a cana, há o risco de precisar bisar”, acrescenta, referindo-se à prática de deixar para colher a cana apenas na temporada seguinte.
Para ele, o planejamento de colheita desta temporada está “muito comprometido e bagunçado” em razão dos desafios vistos na safra passada.
Câmbio desvalorizado – mas com limites
Considerando o panorama externo que influencia o setor sucroenergético, a taxa de câmbio é um dos fatores preponderantes, aponta o Pecege. Ainda que, no início de fevereiro, o real tenha começado a se valorizar, o histórico do período foi diferente.
Desde o início de 2020, com a chegada da pandemia de covid-19, a moeda nacional teve uma grande desvalorização, relata Torres. Além disso, quando o impacto inicial se arrefeceu e as taxas cambiais dos países emergentes começaram a retomar para os níveis pré-pandêmicos, isso não ocorreu no Brasil.
Por aqui, o real se manteve em um patamar de “desvalorização expressiva”, de acordo com o economista. “Neste momento, estamos na casa dos R$ 5,20/US$ e projetamos um cenário de ligeira desvalorização da taxa de câmbio no Brasil ao longo de 2022, porém no patamar inferior ao observado na safra passada”, diz Torres.
A principal motivação é o conflito entre Rússia e Ucrânia. O economista explica que, quando há instabilidade no mercado global, a tendência é que os investidores fujam para ativos seguros – notadamente, a moeda americana.
“Acreditamos que, por um lado, esse movimento continue por uma aversão ao risco no mercado mundial. Por outro, no Brasil, há a questão fiscal e é ano eleitoral, que é tipicamente de estresse para o câmbio”, acrescenta.
Menos cana do que o mercado espera
A potencial valorização do real deve levar a um achatamento do potencial de receita com as vendas de açúcar.
Torres lembra que, na safra 2021/22, a produção da commodity começou em linha com a temporada anterior e se reduziu drasticamente a partir do segundo semestre. “No etanol, a diferença foi mais drástica. O anidro foi o produto com maior produção e onde crescemos”, relata.
Ele completa que o choque negativo ocorreu sobre o hidratado, que perdeu competitividade em relação à gasolina, fazendo a relação de preços entre os combustíveis aumentasse em quase oito pontos percentuais.
“Este é o panorama em que iniciamos a safra 2022/23. Os cenários agrícola, macroeconômico e global estão estressados”, declara.
O economista recorda que o Brasil saiu de uma produção de 32 milhões de toneladas do adoçante em 2020/21 para 26 milhões em 2021/22. “O país tirou um volume substancial de açúcar no mercado internacional. Porém, a Tailândia incorporou praticamente 6 milhões de toneladas a mais”, pondera.
Isso fez com que a produção mundial se mantivesse praticamente estável, mas ainda acima da demanda por açúcar, levando a uma pressão negativa sob os preços da commodity.
Ele acrescenta que, no Brasil, com as chuvas de outubro a janeiro bastante satisfatórias, algumas tradings começam a ficar mais otimistas quanto à safra 2022/23 e já esperam uma recuperação potencial; outro fator baixista para os preços.
“Os fundos especulativos estão reduzindo as suas posições compradas, o que significa que o mercado está imaginando que não há espaço para valorização do preço do açúcar. Mas é possível ter uma surpresa neste cenário”, diz Torres.
Ainda que consultorias, tradings e empresas do setor tenham elevado suas projeções de oferta de cana-de-açúcar para algo em torno de 575 e 580 milhões de toneladas, o instituto aponta que os preços podem ficar tensionados se o Centro-Sul não entregar, de fato, este volume – algo o que é considerado provável pelo Pecege.
Conforme a projeção apresentada, a moagem deve ser de, no máximo, 550 milhões de toneladas. O valor está próximo da média das 21 empresas consultadas pelo NovaCana em levantamento feito no começo de fevereiro.
Preços caminham para estabilização
Desta forma, os preços do açúcar – que chegaram a 19 centavos de dólar por libra-peso – começaram a recuar nos primeiros meses de 2022.
A visão do Pecege é de que os contratos futuros do adoçante serão negociados na casa dos 17,75 centavos de dólar, seguindo uma trajetória decrescente e se estabilizando. “O produto pode sofrer algum solavanco a depender do que vier na safra do Centro-Sul”, destaca Torres.
Com a taxa de câmbio projetada pelo Pecege, o patamar do preço do açúcar para 2022/23 ficaria em torno de R$ 2.120 por tonelada. Apesar da estabilidade, o economista considera o nível de preço ainda “bastante interessante” para os produtores.
Já no mercado interno, ele acredita que há espaço para valorização do açúcar cristal, ainda que “muito aquém” do cenário visto no ano passado. O economista lembra que o preço do produto avançou 43% entre 2020/21 e 2021/22, mas projeta uma taxa de crescimento de 9% para a próxima temporada, chegando a R$ 131,44 por saca de 50 quilos em São Paulo.
Estoques de etanol elevados
Torres pontua dois “sustos” que podem ocorrer com o mercado de açúcar. O primeiro deles, é a estimativa de produção elevada do Centro-Sul não se efetivar, gerando um solavanco de preço. O outro vem do mercado de etanol. “Estamos cerca de dez pontos percentuais a menos [no nível] de fixação do açúcar do que há um ano; ou seja, foi reduzido”, observa.
Ele complementa que o petróleo aquecido e o real desvalorizado podem levar a um aumento da produção de etanol, com o direcionamento de mais matéria-prima para o biocombustível.
Ao analisar o mercado do renovável, Torres avalia os estoques do produto: eles estavam, em 2021/22, abaixo da safra 2020/21. Já o volume armazenado no primeiro bimestre deste ano, por outro lado, superou o do ciclo passado.
“É o maior nível de estoque, comparativamente, com as últimas quatro safras. Isso ocorreu porque as vendas do hidratado despencaram. O fato, por outro lado, traz um alento para se ter uma entressafra mais longa e começar a safra relativamente mais tarde”, pondera.
De maio de 2021 em diante, o consumo do hidratado caiu sistematicamente, atingindo o menor nível de vendas das últimas cinco safras em janeiro, segundo Torres. Já o anidro começou a temporada em um patamar de vendas elevado em função da demanda por gasolina.
Consumo de combustíveis e o petróleo
Considerando o cenário para a safra 2022/23, o economista pontua que deve haver um crescimento marginal no consumo de combustíveis. Isso ocorre por conta da redução do consumo no pico da pandemia, que foi seguida por um aumento e caminha, atualmente, para a estabilidade. Outra variável é o Produto Interno Bruto (PIB), que deve crescer em 2022, conforme Torres, a uma taxa menor do que a do ano passado.
A visão do Pecege também se baseia grandemente no preço do petróleo. “Batemos a barreira dos US$ 100 por barril, mas cremos que este preço começará a arrefecer à medida que tenhamos a liberação de estoques dos Estados Unidos e a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) conseguindo avançar na oferta, mas isso não é um movimento rápido”, acredita.
Com isso, o instituto espera que haja uma redução do preço do óleo no mercado internacional, mas os valores devem seguir acima das médias desde 2014. “Isso vai elevar o preço do diesel nas operações mecanizadas”, pontua Torres.
Por outro lado, se a Petrobras continuar a aplicar sua política alinhada com o mercado internacional, é possível que ocorra um cenário de preços “bastante confortável” para o etanol no mercado doméstico.
Pela projeção do Pecege, o preço líquido PVU (sem frete, a retirar na unidade de produção) do anidro deve fechar esta safra em R$ 3,58 por litro e para a próxima em R$ 3,59/L. Já o hidratado deve ficar em R$ 3,16/L na média do ciclo 2021/22 e em R$ 3,20/L em 2022/23. “Há um ligeiro aumento no hidratado se a Petrobras seguir com a mesma política, especialmente em um ano eleitoral em que tudo pode acontecer”, destaca Torres.
Se estas previsões para os preços de açúcar e etanol se confirmarem, o Pecege acredita que o segundo semestre de 2022 poderá ser de oportunidades para o hidratado, especialmente considerando a relação de preço entre ele e o VHP. “Isso é algo que não acontecia ao longo das últimas safras de forma substancial”, afirma Torres.
Matéria-prima estável
Em relação ao valor da cana apontado pelo Consecana-SP, o Pecege projeta um preço de R$ 1,2076/kg para a matéria-prima em 2022/23.
Torres acredita, ainda, que o setor irá fechar o ciclo 2021/22 pagando em torno de R$ 1,1912 por quilo de ATR no estado de São Paulo. “O valor significa um aumento de 53% em relação à safra passada [2020/21]. Isso elevou o preço de cana de terceiros e do arrendamento”, detalha.
“A safra 2021/22 foi uma das mais atípicas, pois tivemos o custo da cana de fornecedor mais oneroso do que custo de produção da cana própria, além do choque vindo de arrendamento”, complementa.
Preço do CBio não deve permanecer alto
Torres também observa que houve um aumento nos preços dos créditos de descarbonização (CBios), do RenovaBio, no segundo semestre de 2021. “Já em 2022, temos um cenário diferente. Ao invés de recuar, o preço se manteve no patamar elevado no início do ano”, aponta o economista.
Embora o mercado tenha registrado um excedente de 10,4 milhões de CBios em 2021, a visão do Pecege para 2022 é de que a oferta será de 44,1 milhões de títulos, já considerando o saldo deixado. Isso levaria a um excesso de oferta de 8,1 milhões, ou seja, a uma queda no saldo final.
A estimativa inicial do Pecege é de preços relativamente mais altos para os CBios, de R$ 39,8 por crédito na média anual de 2022 – em 2021, ele ficou em R$ 39,32. “Este ano, o excesso de oferta será menor do que no ano passado. Isso gerará preços mais elevados”, declara Torres.
Ainda assim, o economista aponta que os CBios bateram a casa dos R$ 100 nos primeiros meses do ano, fator que pode demonstrar uma mudança de estratégia das distribuidoras, adiantando as suas compras. “Porém acreditamos que é um cenário pontual, com o preço do CBio se acomodando para um nível marginalmente acima da safra passada”, complementa.
Torres enxerga que não há fundamento em termos de oferta e demanda que justifique uma permanência drástica deste nível de valores elevados. “Inclusive, em tempos de petróleo elevado, o próprio mercado garante competividade para o etanol, não sendo necessário preços tão elevados de CBios”, diz.
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana