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Raízen deve ser a mais prejudicada com a redução das exportações de etanol

usina-fumaca-cana-061213"Todo aquele otimismo nosso na década passada, de que esse biocombustível seria amplamente utilizado em vários países, agora parece uma realidade bem mais distante."
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A Raízen foi a empresa que soube aproveitar melhor o mercado americano de etanol. Em 2013 o Brasil teve a disposição um mercado potencial estabelecido pela Agência de Proteção Ambiental (EPA) de 3,1 bilhões de litros. Por isso, agora que os EUA planejam cortar 68% desta opção para as usinas brasileiras, a empresa controlada pela Cosan aparece como uma das mais prejudicadas nesse provável estreitamento das exportações.

Veja a seguir:
- O impacto da redução das exportações na oferta e no preço do mercado interno de etanol brasileiro
- Como o mercado de açúcar pode ser afetado
- A significativa participação da Raízen no total exportado de etanol pelo Brasil
- Cosan compara a lucratividade entre as vendas para o exterior com o mercado interno
- A empresa "poderia perder sua maior geradora de margem de lucro com o etanol"
- O otimismo da Biosev e seu desafio para 2014
- "Todo aquele otimismo nosso na década passada, de que esse biocombustível seria amplamente utilizado em vários países, agora parece uma realidade bem mais distante."

Principal exportadora de etanol do Brasil, a Raízen Energia pode ser uma das maiores prejudicadas caso o volume de mistura obrigatória de biocombustíveis nos Estados Unidos seja reduzido no ano que vem. A proposta da Agência de Proteção Ambiental (EPA) americana coloca em risco um mercado de US$ 6,4 bilhões para as exportações brasileiras.

Joint-venture entre a petrolífera anglo-holandesa Shell e a brasileira Cosan, a Raízen produziu 2,32 bilhões de litros de etanol na safra 2012/2013. Mais da metade desse volume foi exportado, tendo os EUA como principal destino, segundo Salim Morsy, analista da Bloomberg New Energy Finance radicado em Nova York. De abril de 2012 a março deste ano o Brasil exportou 3,48 bilhões de litros de etanol, sendo 2,29 bilhões de litros somente aos EUA.

A proposta da EPA de reduzir o volume de biocombustíveis que as refinarias americanas devem misturar aos combustíveis derivados do petróleo pode restringir em até 68% a demanda pelo etanol brasileiro de cana no ano que vem, acredita Morsy. Isso afetaria as receitas de exportação da Raízen Energia, que alcançaram R$ 1,97 bilhão no ano fiscal de 2013. A empresa é responsável por produzir pelo menos 40% do etanol que é importado do Brasil pelas refinarias americanas, e seria a maior afetada caso o corte se confirme.

"O negócio de etanol [da Raízen] gira em torno do mercado de exportação, e mais especificamente dos EUA", diz Morsy. A empresa "poderia perder sua maior geradora de margem de lucro com o etanol".

Exportação vantajosa

A Raízen exporta etanol a preços em média 36% maiores que os obtidos com as distribuidoras brasileiras, diz o relatório anual da Cosan para o ano fiscal de 2013. A Cosan é a companhia de energia e infraestrutura presidida pelo bilionário brasileiro Rubens Ometto.

Um assessor de imprensa da Raízen, que pediu para não ser identificado por causa da política interna da empresa, recusou-se a comentar sobre o impacto da proposta da EPA. O relatório da Cosan informa que a empresa de capital fechado obteve um lucro bruto de R$ 1,59 bilhão no ano de 2013, sobre vendas de R$ 8,47 bilhões.

Biocombustível avançado

A proposta publicada pela EPA no mês passado prevê em 2014 uma redução no consumo de biocombustíveis. É a primeira vez que a EPA reduz o requisito total de mistura, o que pode criar um precedente para futuros cortes.

A categoria biocombustíveis avançados do requisito de mistura obrigatória pode ser preenchida com o etanol brasileiro de cana, o que criou um mercado de até 3,1 bilhões de litros (820 milhões de galões) para o combustível em 2013. Segundo Morsy, esse mercado pode encolher para cerca de 985 milhões de litros (260 milhões de galões) no ano que vem, uma redução de 68%. Pelas regras originais da Norma para Combustíveis Renováveis (RFS–Renewable Fuel Standard) da EPA, o volume de mistura compulsória de etanol de cana cresceria gradualmente até 9,46 bilhões de litros (2,5 bilhões de galões) em 2022 (o equivalente a cerca de 40% da atual produção brasileira de cana), segundo previsões da New Energy Finance.

O etanol de cana foi enquadrado como biocombustível avançado pela EPA em 2010. A decisão, aliada a uma seca que cortou pela metade a safra de milho americana no ano passado, ajudou o Brasil a triplicar suas exportações para os EUA, que chegaram a 2,05 bilhões de litros em 2011, segundo Martinho Ono, presidente da brasileira Sociedade Corretora de Álcool (SCA).

A atual lei de mistura prevê a ampliação do uso de biocombustíveis em conjunção com o aumento projetado do consumo de gasolina, que não cresceu tanto quanto os reguladores esperavam. Este ano as refinarias tiveram de misturar tanto etanol na gasolina que o produto está perto de alcançar o chamado teto de mistura, ponto em que há riscos de o teor de etanol causar danos aos motores dos carros americanos.

"Má notícia"

"Definitivamente, [a redução no] volume de mistura é uma má notícia para o etanol brasileiro", diz Renan Pimenta, analista da Intl FCStone, de Campinas (SP). "Os EUA vêm sendo um escoadouro para o etanol brasileiro já há alguns anos, e a proposta da EPA sugere que esse escoadouro será estancado em breve."

Com a demanda americana destinada a minguar, é provável que a Raízen e outras usinas brasileiras vendam mais etanol dentro do país, segundo Tarcilo Rodrigues, diretor da trader brasileira Bioagência.

Para Giovana Araujo, analista do Banco Itaú BBA, um aumento na oferta local de etanol pode levar os preços a caírem até 10%, reduzindo as margens de lucros das usinas. O etanol anidro, que é misturado à gasolina, foi vendido a uma média de R$ 1,39 entre os dias 25 e 29 de novembro no estado de São Paulo, segundo dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/USP).

Opção pelo açúcar

Os produtores de cana também podem optar por aumentar a produção de açúcar, potencialmente agravando uma sobreoferta global do produto. Em julho, a cotação do açúcar despencou para US$ 0,16/libra-peso, a mais baixa dos últimos três anos.

Para Enrico Biancheri, diretor da Biosev, maior processadora brasileira de cana depois da Raízen, a medida da EPA não vai ter um impacto tão grande sobre as exportações para os EUA. Ele acredita numa redução de 300 milhões de litros nas exportações, que ficariam na faixa de 500 milhões de litros em 2014.

"Se você parar para pensar, 300 milhões de litros não são muita coisa perto do nosso consumo", diz Biancheri. "Acho que as pessoas estão superestimando o impacto da mistura obrigatória da EPA."

Segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), em 2012 o país consumiu 17,8 bilhões de litros de etanol. Um volume de 300 milhões de litros seria o suficiente para seis dias de abastecimento.

A Biosev, controlada pela Louis Dreyfus Commodities (LDC), tem motivos para não querer notícias ruins, pois em 2014 vencem as opções de venda lançadas durante seu lançamento de ações. Com uma oferta incomum na bolsa, a empresa deu opções para recomprar as ações dos investidores. Assim a empresa pode ter que desembolsar até 600 milhões, dos 700 que arrecadou.

Demanda extra na Califórnia

Martinho Ono, da SCA, lembra que, se a proposta da EPA for aprovada, as exportações brasileiras podem migrar para a Califórnia, onde há um programa de incentivo ao uso de biocombustíveis eficientes que inclui o etanol de cana. A Norma para Combustíveis de Baixo Carbono (Low Carbon Fuel Standard) da Califórnia pode atrair mais combustível brasileiro do que todos os outros estados americanos juntos.

Embora a demanda pelo combustível na Califórnia possa quase dobrar no ano que vem, chegando a 565 milhões de litros (150 milhões de galões), Morsy, da New Energy Finance, acredita que a Raízen esteja mal posicionada para tirar proveito do programa. O combustível da companhia gera até 14% mais carbono no ciclo de vida do que o etanol produzido por outras empresas como a British Petroleum e a Copersucar.

Com base no preço médio de US$ 2,57/galão em 2013, a expectativa inicial era de que o mercado americano à disposição das usinas brasileiras se ampliasse para US$ 6,4 bilhões em 2014. Aprovada a proposta da EPA, esse mercado encolheria para US$ 668 milhões.

Ono, da SCA, acredita que a aprovação da proposta – que parece provável – pode prejudicar o empenho brasileiro em transformar o etanol numa commodity global.

A medida da EPA "nos preocupa na medida em que o etanol pode não se tornar a commodity negociada internacionalmente que projetávamos", diz Ono. "Todo aquele otimismo nosso na década passada, de que esse biocombustível seria amplamente utilizado em vários países, agora parece uma realidade bem mais distante."

Stephan Nielsen e Lucia Kassai (Bloomberg)
Com informações adicionais e adaptações do NovaCana
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