O fornecimento de etanol celulósico pode ser prejudicado pela falta de unidades que produzam o biocombustível feito a partir de resíduos da cana-de-açúcar em conformidade com a regulação da União Europeia. Mas novas plantas no Brasil, que entrarão em operação ao longo da safra 2024/25, devem aliviar a crise de abastecimento, disse um porta-voz da gigante sucroenergética Raízen.
“Temos mais demanda do que podemos atender agora”, disse o vice-presidente de trading da Raízen, Paulo Neves, à S&P Global Commodity Insights. “A venda destes produtos nos próximos dez anos está totalmente comprometida”, completa.
A produção de etanol celulósico – um produto de segunda geração – envolve a palha da cana, mas também o bagaço e outras matérias-primas residuais, que são geradas durante a produção do combustível de primeira geração. Na Raízen, as usinas de etanol de primeira e segunda geração são integradas.
A tecnologia desenvolvida pela empresa durante os últimos dez anos cumpre os requisitos da União Europeia para energias renováveis, uma vez que a palha e o bagaço da cana são considerados resíduos.
A Raízen estabeleceu como meta ter 20 usinas de etanol de segunda geração até 2030. Atualmente, há cinco unidades em construção, com lançamento previsto entre 2024 e 2025, e mais três em planejamento. Juntas, elas representarão uma capacidade instalada anual para a produção de, aproximadamente, 1,6 bilhão de litros.
Além disso, a Raízen já vendeu 4,3 bilhões de litros de etanol celulósico por meio de contratos de longo prazo. Este volume inclui um acordo assinado com a Shell em 2022, comprometendo-se a fornecer 3,3 bilhões de litros até 2037. Os contratos de longo prazo representam 80% da produção de cada planta.
Por conta disso, novas usinas estão sendo estudadas, mas Neves explica que as obras levam entre seis e 18 meses. “Não há capacidade ociosa disponível para mais açúcar no Brasil, não há capacidade ociosa em nenhum lugar do mundo”, disse.
Segundo o executivo, vários anos de preços baixos do açúcar sufocaram os investimentos e, agora, em meio a um crescimento anual na demanda de 2 milhões de toneladas, não há capacidade disponível. Com este cenário, os preços dispararam ao longo de 2023.
Isto ocorre em meio ao crescente escrutínio na Europa sobre as chegadas de etanol, sejam elas do Brasil ou de outros países. O continente é considerado relevante como destino de exportação do etanol brasileiro, mas está atrás da Califórnia e do Japão.
“Não há outra matéria-prima na regulação europeia que traga a economia que o etanol celulósico traz ou o volume que ele tem para ajudar na descarbonização na Europa”, disse Neves. As cotas de primeira geração, acrescenta, são preenchidas com a produção doméstica; assim, resta apenas a demanda por biocombustíveis avançados.
As taxações para importação também representaram uma barreira à Europa, completa. Os volumes enfrentam uma tarifa de 192 euros por metro cúbico (US$ 204/m³) para material não desnaturado e de 102 euros por metro cúbico para o desnaturado, que não pode ser utilizado em bebidas ou outros produtos para consumo.
As importações de etanol para a Europa desaceleraram nas últimas semanas, sustentando os preços, segundo traders europeus. A Platts, parte da S&P Global, avaliou o Etanol T2 FOB Rotterdam em uma média de 800 euros por metro cúbico durante setembro e outubro, em comparação com uma média de 752 euros por metro cúbico em janeiro.

Esta é uma área a observar. A Comissão Europeia introduzirá vigilância retroativa sobre as importações de etanol para combustível feitas nos últimos três anos. O objetivo é proteger os produtores da União Europeia após a identificação de uma tendência de maiores fluxos para o continente, afirmou um documento legislativo publicado em 15 de setembro.
A decisão se segue a um aumento nas importações de etanol para a UE desde o início da década, com uma alta anual de 45% entre 2021 e 2022, disse a Comissão Europeia.
Os EUA, o Brasil e o Peru foram os três principais exportadores de etanol para o bloco em 2022. As exportações dos EUA e do Brasil para a UE aumentaram 96% e 37%, respectivamente, entre 2021 e 2022, enquanto o Peru registou uma diminuição de 13%.
Thomas Washington e Harry Clyne
Com tradução NovaCana