Em entrevista ao NovaCana, diretor industrial da companhia detalha planos para E2G, biogás e cogeração
Com a ideia de economia circular cada vez mais presente no dia a dia das usinas, produzir biogás é um objetivo para várias empresas do setor sucroenergético. Para além de açúcar, etanol e energia, outros bioprodutos – especialmente os vindos dos resíduos nem sempre aproveitados – tornaram-se presentes na agenda das companhias, incluindo o etanol celulósico ou de segunda geração (E2G).
A Raízen, que concentra 35 usinas no país, está apostando fortemente tanto no biogás quanto no E2G e tem planos ousados para os próximos anos. Para atingir o objetivo de 20 plantas de etanol celulósico até o início da próxima década, por exemplo, existe muito trabalho pela frente, mas a companhia diz estar preparada.
O NovaCana falou com exclusividade com o diretor industrial da Raízen, Juliano Oliveira, que há quatro anos faz parte da equipe da gigante sucroenergética, sendo também responsável pelos projetos de expansão da companhia. Oliveira atuou 17 anos no setor automobilístico e por mais cinco na área de máquinas e equipamentos da General Electric.
Confira, na versão completa e exclusiva para os assinantes NovaCana, detalhes dos planos da Raízen na área industrial e seus objetivos futuros.
Com a ideia de economia circular cada vez mais presente no dia a dia das usinas, produzir biogás é um objetivo para várias empresas do setor sucroenergético. Para além de açúcar, etanol e energia, outros bioprodutos – especialmente os vindos dos resíduos nem sempre aproveitados – tornaram-se presentes na agenda das companhias, incluindo o etanol celulósico ou de segunda geração (E2G).
A Raízen, que concentra 35 usinas no país, está apostando fortemente tanto no biogás quanto no E2G e tem planos ousados para os próximos anos. Para atingir o objetivo de 20 plantas de etanol celulósico até o início da próxima década, por exemplo, existe muito trabalho pela frente, mas a companhia diz estar preparada.
O NovaCana falou com exclusividade com o diretor industrial da Raízen, Juliano Oliveira, que há quatro anos faz parte da equipe da gigante sucroenergética, sendo também responsável pelos projetos de expansão da companhia. Oliveira atuou 17 anos no setor automobilístico e por mais cinco na área de máquinas e equipamentos da General Electric.
A seguir, confira a entrevista completa.
Recentemente, a Raízen recebeu benefícios fiscais para a construção de uma planta de biogás anexa à usina Costa Pinto, em Piracicaba (SP), com previsão de término em outubro deste ano e investimentos de R$ 257,25 milhões. Como está o andamento desse projeto?
Sobre o cronograma, estamos mantendo a finalização para outubro. Produzimos biogás de duas tecnologias: uma tem lagoas de biodigestão com vinhaça da cana e a outra tem biodigestores verticais, que usam a torta de filtro. Falando um pouco da obra, estamos super adiantados com as lagoas; está 100% dentro do cronograma. E como temos uma planta de etanol de segunda geração, muito provavelmente já geraremos gás de vinhaça em outubro. Tem também a torta de filtro, que é capaz de produzir na safra e na entressafra – com isso, não precisa nem ter aqueles 30 dias de parada. Além disso, os biodigestores verticais estão um pouquinho mais para frente no cronograma, mas isso não quer dizer que não vamos produzir. Na sequência, entramos com eles, que usam a torta e, então, a produção ocorre até se não tiver vinhaça, na entressafra. A capacidade de processamento de torta desses biodigestores verticais é até maior do que a capacidade de geração de torta. Então, é possível equacionar isso em diferentes momentos.
“Quando temos uma planta de 1G, temos disponibilidade de vinhaça somente na safra, mas quando temos uma planta de etanol de segunda geração, há disponibilidade também na entressafra”, Juliano Oliveira (Raízen)
Qual deve ser a capacidade produtiva dessa usina? E o destino deste biogás?
Ela será muito semelhante à da unidade Bonfim, que é de 23 mil metros cúbicos de gás. Na Bonfim, pegamos esse gás e geramos energia elétrica. Na Costa Pinto, vamos vender ele como gás natural. Quando você pega as propriedades do biogás, elas são muito semelhantes ao gás natural: o poder calorífico, a queima. Então, é possível colocar no duto e vender normalmente. O tamanho da produção tem muito a ver com a moagem da usina – a Bonfim e a Costa Pinto têm moagens parecidas. Elas vão ter tanto geração de torta como geração de vinhaça e 70% do gás vem da vinhaça; mais ou menos o quanto se processa de cana é o quanto se tem de gás. Uma usina muito maior terá mais produção de gás.
Conforme a ex-CEO da Raízen Geo Biogás, Raphaella Gomes, a Raízen tem como objetivo possuir uma unidade de biogás em cada uma de suas unidades. O plano se mantém? Se sim, como esse plano deve ocorrer?
Quando olhamos o nosso parque de bioenergia, temos a intenção de fazer toda a economia circular, mas o plano do biogás está avançando em um ritmo um pouquinho mais lento do que o E2G, até mesmo na questão dos contratos a futuro. Eu não saberia dizer como está o ritmo das contratações, mas posso dizer que temos isso mapeado e que já temos estudos em várias plantas. Em Barra Bonita (SP), já tem um estudo adiantado de engenharia para a implementação: será nossa maior planta de biogás, pois é a com maior moagem. As lagoas de biodigestão seriam duas vezes maiores do que as que estamos construindo na Costa Pinto. Comercialmente, eu não sei dizer como ela está, mas estamos estudando engenharia, design e construção. Nas unidades Rafard e Univalem já temos uma pré-engenharia pronta, mas a Barra Bonita é a usina com a engenharia mais adiantada para o biogás. Os planos estão bem concretizados quando falamos de E2G e estamos trabalhando nas engenharias do biogás.
Em maio do ano passado a companhia informou o investimento de R$ 2 bilhões em duas unidades de E2G, integradas às usinas Univalem, em Valparaíso (SP), e Barra, em Barra Bonita (SP). Como está o andamento dessas unidades?
Queremos começar a operar com essas duas plantas em 2024. Já estamos com toda a engenharia pronta, com os equipamentos-chaves contratados, com a terraplanagem feita. Estamos começando a entrar com a parte civil agora.
Além disso, a Raízen divulgou em novembro do ano passado que irá construir mais cinco plantas de E2G, totalizando investimentos de R$ 6 bilhões e chegando a sete novas plantas. Também foi anunciado que todas estarão em operação até a safra 2027/28, com capacidade de produção de 696 milhões de litros. Este plano se mantém?
Sim. A empresa está totalmente aderente ao cronograma. O planejamento não muda, com duas unidades sendo lançadas todo ano. A Costa Pinto será a planta um; a Bonfim, a dois; a Barra, a três; e Univalem, a quatro. Estamos trabalhando na engenharia das plantas cinco a oito. Fechando o contrato de engenharia e desdobrando a análise de terreno, tem o projeto de drenagem e terraplanagem. Isso não se vê refletido no campo, mas toda a parte de engenharia já está adiantada.
“Serão 20 unidades de etanol de segunda geração; esse é o nosso plano. Uma está operando, oito estão vendidas e temos nove no pipeline de construção”, Juliano Oliveira (Raízen)
Quanto da produção de E2G já está comprometida em contratos de venda?
O contrato das cinco plantas que fechamos com a Shell dá 3,3 bilhões de litros. Ainda assim, na Barra, na Univalem e na Bonfim, teremos outros clientes. O contrato de Shell é de 3 bilhões de euros, o maior em volume, abrangendo 70% a 80% da produção quando consideramos todas as plantas. Mas temos outros contratos menores, destinados principalmente para a Europa, sendo que 80% do volume já está garantido com a venda em contratos de longo prazo, com duração de sete a dez anos.
Qual é o tamanho do mercado de E2G que vocês visualizam para o futuro?
A nossa visão é muito otimista porque, quando olhamos os compromissos ambientais que foram assumidos, principalmente pelas grandes potências, na Europa, nos Estados Unidos e na Ásia, não existe uma solução que consiga entregar essa redução de carbono. E, quando analisamos a nossa solução do etanol de segunda geração, é ela que se consegue transportar; não tem problema de logística para fazer a entrega, como ocorre com o gás, por exemplo. O E2G é um produto com uma baixíssima emissão de carbono, é um biocombustível que não compete com comida, então, temos uma solução que vai ser muito difícil dos nossos concorrentes replicarem.
“Estamos no momento correto, com o mundo demandando soluções limpas para a mudança da matriz energética. Temos a cana-de-açúcar, que entendemos ser a planta correta e mais eficiente. Além disso, estamos no local correto, pois o Brasil nos ajuda com o clima”, Juliano Oliveira (Raízen)
Temos dois acionistas que acreditam muito nisso; tanto a Cosan quanto a Shell acreditam na mudança, na transição energética. Temos, ainda, a planta com a melhor eficiência energética. Nós também temos uma demanda crescente no mundo por soluções para transformar a matriz energética, onde a nossa solução de etanol de segunda geração consegue atender esse vácuo que existe no mercado. A expectativa é superpositiva.
A Raízen busca firmar parcerias com outros grupos para “compartilhar” a tecnologia de produção do E2G?
Começamos algumas frentes de licenciamento da nossa tecnologia, tanto com a própria Shell quanto com alguns parceiros externos e já tivemos algumas discussões internamente também. Mas isso ainda está caminhando, está no começo. A área de desenvolvimento e a área de engenharia estão comigo. Vamos precisar dar todo o suporte para essa fonte de crescimento, mas, por enquanto, ainda está fase de discussões comerciais para o licenciamento da tecnologia. É uma frente que também vamos explorar.
Quais são as novidades da Raízen em relação à cogeração de energia? Existem projetos novos em andamento?
Na Univalem, estamos implementando uma planta de etanol de segunda geração e, juntamente, estamos colocando uma caldeira nova para um contrato de cogeração que ganhamos. O projeto é de R$ 200 milhões e a previsão de entrega é para o final de 2023. Queremos começar a produção de E2G e, na sequência, iniciar o contrato, vamos gerar um pouco no mercado à vista e, depois, no contrato. Entramos em vários leilões no ano passado, mas o que temos de sólido é esse projeto da Univalem. Estamos trabalhando também em dois projetos de geração distribuída, onde vamos colocar mais uma turbina e um gerador, mas com vapor existente para conseguir suprir essa demanda. Não estamos investindo com a mesma velocidade vista no etanol de segunda geração, mas, fazemos aportes quando participamos de um leilão com preço interessante ou fechamos geração distribuída, que está muito interessante. São cargas pequenas, com gerador de 5 MW a 10 MW; a produção é baixa, mas estamos olhando e capturando as boas oportunidades do mercado.
Com tantos projetos em andamento de cogeração, E2G e biogás, há matéria-prima suficiente para a Raízen investir em todos esses produtos?
Temos trabalhado para conseguir uma maior disponibilidade de biomassa e podermos aproveitar todas as oportunidades, tanto para cogerar quanto para a produção de etanol de segunda geração. Queremos também ter a flexibilidade para ter as escolhas corretas no momento correto – uma vez que nos comprometemos com contratos, temos que entregar. Mas, obviamente, quando começamos a ter um excedente de matéria-prima, temos a flexibilidade de produzir um pouco mais no mercado à vista, tanto etanol de segunda geração quanto energia elétrica. Isso vai variar de acordo com o prêmio que a estivermos recebendo.
Atualmente, como está a estratégia da empresa em relação ao uso dos resíduos?
Hoje, quando olhamos tudo que aprovamos, temos capacidade de gerar biomassa para atender os nossos contratos e até um pouco de à vista. Temos trabalhado em algumas frentes. Por exemplo, no recolhimento de palha, vamos conseguir um fôlego extra para ter essa opcionalidade no futuro, se quisermos capturar alguns preços do à vista. Eu posso dizer que a Raízen, quando comparada com o setor, traz um pouco mais de biomassa quando colhe a cana, uma impureza vegetal um pouco maior; isso, no fim do dia, traduz-se em mais biomassa para nós. Se pegarmos o passado e até o benchmarking com outros grupos, eles acabam recolhendo menos palha e trazendo menos com a cana. O problema é que, quando você traz mais matéria com a cana, acaba perdendo um pouco da capacidade da moenda e perdendo um pouquinho de capacidade na extração. Mas, para nós, é a solução de melhor custo e eficiência para termos o balanço correto de biomassa para as nossas unidades.
Em novembro do ano passado, a Raízen previu elevar a moagem de cana em 2023/24 para cerca de 80 milhões de toneladas, ante 74 milhões de toneladas previstas em 2022/23, após investimentos ao longo dos últimos três anos. Você pode falar um pouco sobre esses aportes?
Fizemos investimentos em plantio e no trato do nosso canavial. Saímos de dois anos muito secos e entramos em um ano em que esperamos – o setor como um todo –, uma produtividade maior. Indo para a indústria, que é a minha área, temos trabalhado muito forte na recuperação dos nossos ativos. Temos dois indicadores que avaliamos: o aproveitamento industrial e a disponibilidade industrial. A disponibilidade envolve quanto tempo o equipamento está disponível para que eu possa usar seu aproveitamento e quanto de fato eu passei de cana nele; estamos fechando essa safra com o melhor indicador dos últimos dez anos. Conseguimos ser assertivos no nosso planejamento de manutenção. Nos últimos anos, temos padronizado todas as nossas inspeções para ter uma visão holística dos nossos bioparques e tomar a decisão correta. Conseguimos colocar o recurso no lugar correto para resolver os problemas que mais afligiam.
Você mencionou ter atingido o melhor indicador em dez anos.
Sim. Terminamos esse ano com 97,5% de disponibilidade industrial e quase 96% de aproveitamento industrial. Estamos bem-preparados para essas 80 milhões de toneladas de cana previstas. A área agrícola está fazendo a parte dela, o clima está ajudando, e investimos bastante nos ativos em manutenção, aplicando dinheiro da forma correta para tirar qualquer gargalo na área industrial.
Você pode explicar como funciona o projeto SER+, que tem o objetivo de eliminar desperdícios na produção? Qual é o ganho financeiro que vocês pretendem alcançar e que tipo de ações já foram implantadas nas usinas?
Às vezes é um pouco difícil de mensurar essas coisas, mas buscamos fazer um cálculo dos ganhos e, esse ano, eles foram acima de R$ 70 milhões por conta das ações implementadas de padronização e melhoria contínua. Em um dos nossos bioparques, os operadores, o pessoal da manutenção da usina, desenharam um projeto para melhorar o controle da produção de etanol neutro, com termômetros e controladores. Derrubamos a sangria do hidratado de 30% para 15%. Quando falamos em um adicional de receita por venda do neutro, e o hidratado estava com preço péssimo, são quase R$ 10 milhões.
“Nós temos praticamente 9 mil pessoas em nossos bioparques. Se tivermos 9 mil pessoas pensando em como podemos melhorar o nosso processo, teremos uma alavanca excepcional”, Juliano Oliveira (Raízen)
O programa SER+ reconhece e valoriza as pessoas. Essas ideias nos ajudam ou na economia de custo ou com ganhos de receita porque estamos conseguindo trazer mais valor para o produto fabricado. É difícil computar algumas melhorias, mas estamos conseguindo com as principais. Eu acredito que foi muito mais de R$ 70 milhões de ganhos, pois não conseguimos pegar tudo. A mentalidade é de otimizar o trabalho no dia a dia. Imagina o valor que vamos trazer para a nossa operação ao trazer uma maior confiabilidade, uma maior segurança, uma melhor padronização. Com isso, ganharemos muito ao longo dos anos.
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana