Após anos baixas cotações do açúcar, repressão dos preços domésticos da gasolina e eventos climáticos negativos, 2016 trouxe um alívio ao setor de açúcar e etanol na visão do banco Rabobank
Após anos de dificuldades agravadas pelas baixas cotações de açúcar, a repressão dos preços domésticos da gasolina e vários eventos climáticos negativos, 2016 finalmente trouxe um alívio ao setor de açúcar e etanol na visão do banco holandês Rabobank.
Em estudo sobre as perspectivas para o setor sucroenergético na próxima safra, a instituição faz um balanço sobre o ano que chega ao fim e o que a atual temporada deixa de herança para o mercado no ciclo 2017/18.
A instituição parte da premissa de que as empresas brasileiras encerraram 2016 com melhores níveis de receita e margem do que nos anos anteriores – e este é um dos fatores que constroem as perspectivas do banco para a próxima temporada.
“As usinas conseguirão, de modo geral, reduzir sua alavancagem em 2017. Porém, mesmo com uma redução de endividamento, parece que há pouco entusiasmo no setor para uma nova onda de expansão”
Confira a seguir:
- Os principais movimentos do mercado na safra 2016/17
- Expectativa de déficit, produção e consumo mundial de açúcar
- Taxa de renovação dos canaviais no Centro-Sul na safra 2017/18
- Comportamento dos preços do açúcar
- Fatores altistas e baixistas para o mercado internacional de açúcar
Após anos de dificuldades provocadas por, dentre outros motivos, as baixas cotações de açúcar, a repressão dos preços domésticos da gasolina e vários eventos climáticos negativos, 2016 finalmente trouxe um alívio ao setor de açúcar e etanol na visão do banco holandês Rabobank.
Em estudo sobre as perspectivas para o setor sucroenergético na temporada nacional 2017/18, a instituição faz um balanço sobre o ano que chega ao fim e o que a atual temporada deixa de herança para o mercado no próximo ciclo.
O banco afirma que, no Brasil, os preços firmes de etanol no primeiro trimestre de 2016 e na safra 2016/17 no Centro-Sul, combinados com as elevadas cotações de açúcar em dólar e um câmbio ainda relativamente fraco, resultaram em uma das melhoras safras dos últimos anos em termos de receita e margem. A instituição parte da premissa de que as empresas brasileiras do setor encerraram 2016 com melhores níveis de receita e margem que nos anos anteriores.

Por outro lado, houve uma queda na produtividade em muitas regiões, principalmente a partir de agosto de 2016 – o que também levou a safra a terminar mais cedo do que o esperado –, o que provavelmente gerou um aumento do custo por tonelada de matéria-prima. Mas, de acordo com banco, a disseminação dessa notícia serviu tanto para apoiar os preços internacionais de açúcar como para apertar ainda mais o mercado doméstico de etanol.
“Diante da melhora das perspectivas para a produção mundial de açúcar, o Rabobank voltou a reduzir suas estimativas em dezembro para o déficit na oferta mundial do adoçante na safra 2016/17”

Temporada global
Inicialmente, a percepção do Rabobank era de que o déficit de 7 milhões de toneladas no ano-safra internacional 2015/16 fosse praticamente replicado em 2016/17. No entanto, diante da melhora das perspectivas para a produção mundial de açúcar, o Rabobank reduziu suas estimativas de déficit em dezembro. De acordo com o banco, a demanda deverá superar a oferta em 5,5 milhões de toneladas nesta temporada, volume 23,6% inferior ao apontado anteriormente.

A revisão do banco no fim do ano passado, além da redução das estimativas de déficit realizadas por outras instituições ligadas ao comercio global de açúcar, ligaram o sinal de alerta dos produtores para um potencial superávit na produção.
O banco chegou a afirmar na ocasião que “parece haver um consenso preliminar de que 2017/18 verá um aumento na produção de açúcar que poderia trazer a situação global de oferta e demanda de volta ao equilíbrio”. Mesmo com as novas perspectivas, o banco sustenta que os preços internacionais devem permanecer elevados no futuro imediato.
As recentes quedas na cotação do adoçante não deverão ser consideradas uma “derrota” para esse mercado, segundo a análise, já que a safra global 2016/17 está em andamento e há muitas incertezas para 2017/18.
Safra 2017/18 no Centro-Sul brasileiro
Como já previsto por empresas especializadas do setor, segundo o Rabobank, a renovação dos canaviais no Centro-Sul tende a aumentar na próxima temporada. Nos anos anteriores, desafios climáticos e margens espremidas do setor resultaram em taxas de replantio bem abaixo dos 17% necessários para manter estável a idade média do canavial. Outra visão que está em sintonia com outras instituições do setor é que, com mais replantio, a área total colhida na safra 2017/18 deve ser menor que a registrada em 2016/17.

Além disso, em decorrência das taxas baixas de renovação vistas em anos anteriores, a cana a ser colhida em 2017/18 terá, na média, uma idade superior a dos canaviais colhidos em 2016/17. Esse fato sozinho não seria suficiente para gerar expectativa de menores produtividades em 2017/18 em comparação ao rendimento verificado em 2016/17, no entanto, quanto mais velha a cana, maior a vulnerabilidade da planta a condições climáticas desafiadoras, doenças e pragas.
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Além disso, o banco também aponta que a produtividade média da safra 2016/17 foi inflada pela alta proporção da cana bisada colhida, especialmente no começo da safra. Como a expectativa é de que não sobrará cana da safra 2016/17 para ser colhida, o efeito da cana bisada deve passar a ser pouco relevante na produtividade média da cana em 2017/18.
Para completar, em 2015, as chuvas em excesso atrapalharam a colheita e a moagem da matéria-prima. Já, em 2016, o clima mais seco contribuiu para o avanço rápido dos trabalhos no campo e a ausência de cana bisada na temporada que se inicia em março.
Em resumo, a previsão preliminar é de que a área colhida no Centro-Sul em 2017/18 deva ser menor que em 2016/17, e, embora não seja possível prever se o clima deve ou não favorecer o desenvolvimento da lavoura, as chances da produtividade média em 2017/18 superar o desempenho da safra anterior parecem ser baixas. Assim, no Centro-Sul, a expectativa do Rabobank é de que a safra 2017/18 seja menor que 2016/17.
Mix açucareiro
É altamente provável que o setor continue a maximizar o uso da cana para a produção de açúcar em 2017/18, em detrimento do etanol. O banco aponta três razões para que isso aconteça.
Em primeiro lugar, muitas empresas já aproveitaram da combinação favorável dos fundos e do “forward curve” do câmbio para fixar uma proporção das vendas de açúcar para 2017/18. Além disso, projeções dos fundamentos do mercado internacional de açúcar ainda apontam para um mercado apertado, especialmente na primeira parte do ano de 2017.
Em segundo lugar, com o fim da desoneração do PIS/Confins de etanol, a partir de 1º de janeiro de 2017, a competitividade do combustível frente ao açúcar deve diminuir. Essa medida, segundo o Rabobank, deve impactar diretamente as contas das usinas, pois o banco enxerga a chance de repasse deste imposto (R$ 0,12/litro) ao consumidor final como baixa.
Por último, o preço alto de açúcar tem estimulado as empresas a montarem projetos de aumento de capacidade de cristalização nas usinas. Em geral, estas iniciativas são de tamanho modesto, custo relativamente baixo e execução rápida. Dessa forma, pelo menos uma parte está planejada para entrar em produção já durante a safra 2017/18. Embora seja difícil apontar até qual ponto todos estes projetos vão aumentar a capacidade máxima de produção de açúcar no Centro-Sul, as estimativas sugerem uma faixa adicional da ordem de 1 a 2 milhões de toneladas.
Estoques de etanol apertados
A menor disponibilidade de cana em 2017/18, aliada ao maior percentual da cana moída destinada ao açúcar, sugere que a produção de etanol em 2017/18 não deva atingir os mesmos volumes de 2016/17, podendo, inclusive, haver um recuo no total produzido. Isso, por sua vez, indica que o mercado de etanol, já previsto para encerrar o ano-safra de 2016/17 com estoques reduzidos, tenha todas as chances de seguir apertado ao longo de 2017/18.

Além disso, com a nova política de precificação da gasolina da Petrobras, parece que a época de incertezas ao redor de intervenção governamental no preço da gasolina acabou. Ao invés disso, o setor agora irá enfrentar as incertezas dos mercados de petróleo e do câmbio, já que é a combinação destas duas variáveis que determinará, em grande parte, o preço da paridade de importação.
Indústria: fortalecendo para o longo prazo
Após duas safras de resultados positivos (2016/17 e 2017/18) e contando com uma expansão do investimento no campo para aumentar a taxa de plantio e maiores investimentos no trato cultural, as usinas conseguirão, de modo geral, reduzir sua alavancagem em 2017.
Porém, mesmo com uma diminuição de endividamento, parece que há pouco entusiasmo no setor para uma nova onda de expansão. Os anos complicados que seguiram o “boom” de investimentos realizado há uma década parecem estar frescos na memória do setor.
“O setor continua se mostrando bastante heterogêneo e, mesmo com os preços bons de 2016, existem empresas com finanças precárias. Para tais companhias, o caminho para a robustez financeira passa por capitalização”
Dessa maneira, muitas empresas têm priorizado o desenvolvimento de uma estrutura financeira mais sólida. O objetivo é conferir mais robustez no futuro frente a possíveis novas crises de preço, instabilidades no mercado financeiro e outros desafios recorrentes no setor de commodities.
Claro que, no caso das empresas que já entraram em 2016 comm uma situação financeira relativamente boa, a melhora da estrutura financeira virá por meio de fluxo de caixa. O Rabobank afirma a visão de que setor continua se mostrando bastante heterogêneo e, mesmo com os preços bons de 2016, existem empresas com finanças precárias. Para tais companhias, o caminho para a robustez financeira passa por capitalização (por acionistas ou por terceiros).
Como elementos-chave dessa maior robustez da indústria, o Rabobank aponta: estrutura de capital forte, ou seja, diminuição da dívida e da alavancagem; maior liquidez para enfrentar possíveis solavancos no mercado financeiro; e boas margens, sustentadas por operações eficientes e custos baixos.
Para o banco, esta combinação de características é importante para tornar a empresa atrativa do ponto de vista de crédito, conferindo um custo financeiro menor e acesso ao financiamento facilitado, mesmo nos momentos de estresse econômico.
Produtores independentes: ganho de fôlego
Enquanto as usinas estavam abaladas, o fornecedor enfrentou a mesma tempestade de preços baixos, clima irregular e crédito apertado, discorre o Rabobank. A jornada tem sido ainda mais complicada para os produtores independentes de cana-de-açúcar que, dentre outros fatores, têm que enfrentar um menor leque de fontes de financiamento e a maior aproximação da taxa de juros do crédito oficial à taxa livre.
“A necessidade de investir fortemente no replantio da cana em 2017 vale tanto para os fornecedores quanto para as usinas”
A lucratividade da cana na safra 2016/17 foi afetada pela queda da produtividade que atingiu várias regiões na segunda parte da safra. Em compensação, a notícia desta queda provavelmente ajudou a sustentar o mercado internacional de açúcar, dando apoio ao preço por unidade de ATR, que deve ultrapassar significativamente as cotações da safra anterior.
A necessidade de investir fortemente no replantio da cana em 2017 vale tanto para os fornecedores quanto para as usinas. “O perigo de esperar mais tempo é que, com uma eventual reação de produção ao redor do mundo, o mercado de açúcar possa perder apoio em 2018”, sinaliza o banco.
A perspectiva de preços atraentes de açúcar e etanol na safra 2017/18 sugere que a nova safra deve proporcionar um alto preço médio do ATR. Assim, 2017 representa a janela de oportunidade para investimentos na capacidade produtiva no campo.
Texto do Rabobank com gráficos e edição adicional do NovaCana

