Aspectos regionais, motivos para os preços do adoçante continuarem em baixa e detalhes do superávit são traçados no relatório do banco
O segundo superávit global consecutivo na produção de açúcar terá 4,4 milhões de toneladas segundo previsão do banco holandês Rabobank. Em relatório trimestral referente ao setor, o banco aponta suas justificativas para a estimativa de produção de açúcar no ano-safra global 2018/19. Para o ciclo 2017/18, o cálculo é de um excesso de produção de 7,6 milhões de toneladas.
Em relação ao Brasil, a previsão é de uma redução na produção de 4 a 5 milhões de toneladas – mas com impacto mínimo no montante global. Segundo o Rabobank, o Brasil não conseguirá resolver sozinho o desequilíbrio entre oferta e demanda mundial de açúcar a partir da redução da produção do adoçante em detrimento do etanol.
A previsão é que a safra no Centro-Sul resulte em 585 milhões de toneladas de cana e, destas, cerca de 42% serão destinadas para o açúcar.
Na reportagem a seguir os detalhes do relatório completo:
- Rumo dos preços: fatores baixistas e altistas
- Produção asiática alavanca superávit
- Na UE, fim das cotas coloca açúcar em alta
- Relação entre Estados Unidos e México
- Perspectivas para Austrália e Indonésia
O segundo superávit global consecutivo na produção de açúcar terá 4,4 milhões de toneladas segundo previsão do banco holandês Rabobank. Em relatório trimestral referente ao setor, o banco aponta suas justificativas para a estimativa de produção de açúcar no ano-safra global 2018/19. Para o ciclo 2017/18, o cálculo é de um excesso de produção de 7,6 milhões de toneladas.

Em relação ao Brasil, a previsão é de uma redução na produção de 4 a 5 milhões de toneladas – mas com impacto mínimo no montante global. Segundo o Rabobank, o Brasil não conseguirá resolver sozinho o desequilíbrio entre oferta e demanda mundial de açúcar a partir da redução da produção do adoçante em detrimento do etanol.
A previsão é que a safra no Centro-Sul resulte em 585 milhões de toneladas de cana e, destas, cerca de 42% serão destinadas para o açúcar.
Rumo dos preços
Quando o relatório foi elaborado, os valores futuros do açúcar com entrega para abril, maio e junho deste ano estavam cotados na bolsa de Nova York abaixo dos 13 centavos de dólar por libra-peso. Com isso, o banco afirma que “pode ser difícil identificar prontamente novas fontes de sentimentos negativos” – ainda assim, os subsídios indianos à exportação, o desestímulo a culturas alternativas à cana em países asiáticos e uma queda nos preços do petróleo podem conseguir baixar ainda mais as cotações do adoçante.
Em maio do ano passado, o valor na bolsa de Nova York era de pouco mais de 16 centavos de dólar por libra-peso.

Por outro lado, o Rabobank não descarta totalmente a perspectiva de que os preços internacionais do açúcar ainda podem ter espaço para avançar. Para o banco, qualquer sinal de que o rendimento da cana brasileira fique significativamente abaixo do esperado na safra 2018/19, já em andamento no país, pode significar certo suporte para os preços do açúcar.
Outro ponto altista do relatório é a avaliação de que, como a produção em alta em países como Índia e Tailândia já está praticamente certa para a safra 2017/18, há a possibilidade de que produtores optem por mudar para outra cultura em 2018/19. Tal modificação pode ocorrer por conta do clima ou pela diminuição na lucratividade da cana em relação a culturas alternativas. Ao mesmo tempo, em algumas regiões, há perspectivas negativas para os cultivos alternativos, desestimulando a substituição da produção de açúcar.
Produção asiática alavanca superávit
Na contramão da redução de esmagamento da cana nacional, as nações asiáticas estão com suas produções indo de vento em popa. Índia e Tailândia são os países que apresentam melhoras mais acentuadas no cultivo de cana.
A Índia teve o início de esmagamento da cana adiantado e apenas 20% das usinas indianas estavam fechadas em março, ante 80% na comparação anual. O reflexo foi uma produção, até meados de março desse ano, de 27,6 milhões de toneladas, um valor 42% acima em relação ao mesmo período do ano passado (16,01 milhões de toneladas).
A recuperação da região Maharashtra deu fôlego à produção, projetada para atingir os 10 milhões de toneladas de açúcar, mais que o dobro das 4,5 milhões de toneladas produzidas na temporada anterior.
Somando a produção de Maharashtra e Uttar Pradesh – regiões que correspondiam ao equivalente a 69% do esmagamento de cana até março – espera-se um adicional de mais de 3,5 milhões de toneladas de açúcar até o final da safra. Com isso, a estimativa do Rabobank para a produção de açúcar foi revisada para cima para os 31,7 milhões de toneladas, já que a última projeção era de 27,7 milhões de toneladas.
Dessa forma, o banco espera um aumento de 49% na produção do derivado da cana em relação à safra passada, que atingiu de 21,3 milhões de toneladas.
Além disso, a Índia também se aproxima do mercado global ao remover a tarifa de exportação de açúcar de 20% com o objetivo de reduzir a quantidade de adoçante no mercado interno.
Ainda assim, se nenhum subsídio à exportação for apresentado, a expectativa do Rabobank é para poucas exportações do açúcar indiano. O banco calcula que, considerando os atuais preços internacionais, as perdas dos produtores indianos podem ser de US$ 130 a US$ 150 por tonelada.
Já as exportações na Tailândia seguem um caminho semelhante. Nos primeiros dois meses desse ano, elas foram de 1,1 milhão de toneladas, uma queda de 11% em relação ao mesmo período do ano passado.
O Rabobank também revisou para cima sua projeção para a moagem de cana tailandesa, que passou de 110 milhões de toneladas para 118 milhões de toneladas. Com isso, a previsão da produção de açúcar agora é de 13,5 milhões de toneladas em detrimento das 12,6 milhões de toneladas estimadas na última projeção – o valor é 26% superior ao resultado da safra passada, de 10,7 milhões de toneladas.
Por fim, os produtores chineses atingiram, desde o início do ano-safra 2017/18 até o final de janeiro, a soma de 5,5 milhões de toneladas de açúcar. Isso representa um crescimento anual de 13%. Nesse caso, a estimativa do Rabobank é que a produção chegue aos 11,3 milhões de toneladas, valor cerca de um milhão acima da safra anterior.
União Europeia: fins das cotas, açúcar em alta
Desde outubro de 2017, a União Europeia aboliu as cotas de produção de açúcar, assim como os preços mínimos garantidos. O fato gerou um aumento na produtividade, ampliando a área cultivada de beterraba em mais de um quinto em relação à safra 2017/18, segundo o Rabobank. Vale destacar, que a União Europeia produz o açúcar branco, tendo a beterraba como matéria-prima.
De acordo com o banco, a estimativa é de uma produção de açúcar 26% superior à do ano anterior e 3,4 milhões de toneladas acima da média nos últimos cinco anos, atingindo 20,9 milhões de toneladas. O valor está 400 mil toneladas acima do previsto no trimestre anterior.
Ao mesmo tempo, enquanto a produção interna sobe, a importação nos primeiros seis meses de safra atingiu 40% do volume registrado no mesmo período do ano passado.
Já no âmbito da exportação, 1,5 milhão de toneladas de açúcar saíram do país nos primeiros cinco meses de safra e a perspectiva é que uma quantidade ainda maior do derivado da beterraba seja exportada. Isso ocorre mesmo com os preços globais baixos, pois a União Europeia tem ampla disponibilidade de açúcar e também precisa aliviar o excesso de oferta interna.
A Comissão Europeia projetou exportações de 3,3 milhões de toneladas para o ciclo 2018/19.
Em contrapartida, com preços do açúcar dentro do intervalo de 280 a 300 euros por tonelada, as perspectivas de preços médios permanecem de estáveis para negativas, de acordo com o Rabobank. Dessa forma, o banco espera exportações abaixo do ideal, motivadas justamente pelo superávit global do adoçante.
Os preços baixos também significarão preços menores de beterraba para os produtores. Ainda assim, para a safra 2018/19, ao contrário de algumas expectativas de redução de área de produção de beterraba baseada na dinâmica global desfavorável, o Rabobank vê certa estabilidade em relação ao ano anterior.
Conforme o relatório, os rendimentos da matéria-prima do açúcar europeu foram superiores à média de 2017/18, aumentando a expectativa de produção para 2018/19 para entre 19 e 20 milhões de toneladas.
Relação EUA e México
Por sua vez, a situação de oferta e demanda de açúcar nos Estados Unidos está à beira do aperto, segundo o relatório. Com isso, a expectativa é de preços de açúcar firmes no país para este ano e o próximo.
Segundo o Rabobank, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) projetou para safra 2017/18 um aumento de 6% nas importações de açúcar mexicano em relação à safra 2016/17. Contudo, até o momento, a movimentação ainda está 73% abaixo do ritmo no ciclo anterior. “Consequentemente, as refinarias de açúcar dos Estados Unidos estão preocupadas em saber se o México conseguirá atender à demanda”, aponta o documento. Apesar disso, o banco complementa que as indicações são de que o país cumprirá com as obrigações do acordo vigente.
Em junho de 2017, os dois países firmaram um acordo sobre a comercialização de açúcar. Os Estados Unidos se comprometeram a não taxar importações de açúcar mexicano; já o México optou por fazer concessões à indústria de açúcar estadunidense.
O país latino-americano está produzindo cerca de 1% a mais de açúcar do que no ano anterior, atingindo 3,7 milhões de toneladas até março de 2018. A partir de 11 de março, o México conseguiu exportar 450 mil toneladas, principalmente para os Estados Unidos.
Segundo o relatório, as exportações deverão acelerar para liberar a pressão de baixa dos preços do açúcar, com os valores mundiais menos atraentes do que o mercado estadunidense.
O Rabobank ainda traz outros números do USDA, divulgados durante o evento USDA Outlook Forum, com um olhar inicial para o balanço de açúcar nos Estados Unidos para 2018/19. Os estoques finais seriam de 1,61 milhão de toneladas, valor 17,5% abaixo dos estoques finais de 2017/18, quando a relação de estoque/uso era de 12,6%. Isso deve ocorrer, principalmente, pela redução na produção do açúcar de beterraba (-4,4%) e de cana (- 1,3%), enquanto a demanda pelo adoçante deve aumentar em 1,8%.

Austrália e Indonésia
Para a Austrália, o Rabobank projeta uma produção de açúcar de 4,5 milhões de toneladas em 2017 – 6% abaixo do resultado na safra anterior – devido à queda no volume de cana em 9%. Isso acontece porque importantes regiões do plantio de cana, Herbert e Tully, sofreram inundações, mas o banco espera que isso gere impacto mínimo na colheita de cana. Chuvas e bons níveis de armazenamento hídrico devem melhorar as perspectivas da safra em 2018.
Por sua vez, a autossuficiência no mercado de açúcar é um dos objetivos do governo indonésio. O país ofereceu um incentivo de permissão de importação para as usinas de açúcar de até 80% da capacidade. Ela é válida por cinco anos para usinas construídas dentro de Java e por dois anos nas construídas fora da ilha.
Apesar do incentivo, o relatório considera que adquirir terras é um desafio e, por isso, não se espera a autossuficiência para os próximos cinco anos.
A princípio, o país tem perspectiva de aumentar a produção ano a ano. Em 2017/18, ela deverá chegar aos 2,6 milhões de toneladas contra as 2,4 milhões de toneladas registradas em 2016/17. A Indonésia também ofereceu uma licença de importação de 1,8 milhões de toneladas de açúcar, 100 mil a mais em relação ao mesmo período do ano passado.
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana