Após o início da temporada mundial de açúcar 2022/23, em setembro, consultorias e empresas especializadas já têm números mais consistentes para o saldo da produção
O mercado internacional de açúcar está vivenciando uma sequência de safras com excedente de produção em relação ao consumo. Das 16 empresas consultadas pelo NovaCana em fevereiro, a expectativa média é que 4,26 milhões de toneladas superavitárias sejam registradas no ciclo 2022/23.
Ainda assim, um equilíbrio entre produção e consumo é estimado pelo banco BTG Pactual. Em seguida, a menor perspectiva é da hEDGEpoint Global Markets, que prevê um superávit de 1,1 milhões de toneladas no período.
A analista de açúcar e etanol da empresa, Lívea Coda, relata que a consultoria considerou uma redução recente de perspectiva de Índia e Tailândia a partir de conversas com participantes do mercado e empresas parceiras. Em entrevista ao NovaCana, ela diz que qualquer pequena alteração do Brasil, em uma quinzena, já teria potencial de gerar um possível déficit.
“Com 1 milhão de tonelada [de superávit], temos certa sensibilidade; pode virar para um lado ou para outro. Nossa visão está um pouco mais altista para preços, então, estamos um pouco pessimistas do que possa ocorrer com o superávit e o nosso viés é de baixa”, Lívea Coda (hEDGEpoint)
Porém, essa não é uma perspectiva unânime entre as consultadas. A S&P Global Commodity, por exemplo, estima que 3,77 milhões de toneladas sobrarão no ciclo 2022/23.
Já a FG/A reduziu sua expectativa anterior de superávit de 5 milhões de toneladas para 3 milhões de toneladas. Os motivos foram as maiores incertezas sobre a safra indiana, os impactos prováveis na Tailândia e os resultados de outros produtores.
Para a StoneX, que prevê 5 milhões de toneladas de superávit, a alta produtiva na Ásia deve se fortalecer: os menores volumes exportados pela Índia devem ser substituídos parcialmente pelos despachos tailandeses. O superávit promete vir com mais intensidade no segundo semestre do ano, momento em que as exportações brasileiras são maiores. As informações foram divulgadas em relatório lançado no final de janeiro e assinado pelos analistas Filipe Cardoso, Marcelo Di Bonifácio e Rafael Borges.
O volume, entretanto, está levemente abaixo da visão da empresa divulgada em novembro dado o cenário incerto para a produção indiana, que não parece ser capaz de ultrapassar a do ciclo 2021/22. Ainda assim, a revisão segue um viés otimista para a safra 2023/24 de cana-de-açúcar do Centro-Sul brasileiro (abril a março), que tem chance de impactar o comércio internacional de forma considerável e com influência baixista para os preços futuros.
Já a consultoria com a maior expectativa de superávit é a Green Pool, com 8,4 milhões de toneladas.
Para o ciclo que se encerrou, 2021/22, dez empresas estimaram 960 mil toneladas de superávit, com números oscilando entre um déficit de 3,9 milhões de toneladas e um saldo positivo de 7,11 milhões de toneladas.
Confira, na versão completa e exclusiva para assinantes NovaCana, apontamentos e perspectivas para 2022/23 e 2023/24 a partir da visão de:
- Abares
- Agroconsult
- BTG Pactual
- Czarnikow
- FG/A
- Green Pool
- hEDGEpoint
- ISO
- Itaú BBA
- Pecege
- S&P Global Commodity
- Rabobank
- Safras & Mercado
- StoneX
- TRS
- USDA
O mercado internacional de açúcar está vivenciando uma sequência de safras com excedente de produção em relação ao consumo. Das 16 empresas consultadas pelo NovaCana em fevereiro, a expectativa média é que 4,26 milhões de toneladas superavitárias sejam registradas no ciclo 2022/23.
Ainda assim, um equilíbrio entre produção e consumo é estimado pelo banco BTG Pactual. Em seguida, a menor perspectiva é da hEDGEpoint Global Markets, que prevê um superávit de 1,1 milhões de toneladas no período.
A analista de açúcar e etanol da empresa, Lívea Coda, relata que a consultoria considerou uma redução recente de perspectiva de Índia e Tailândia a partir de conversas com participantes do mercado e empresas parceiras. Em entrevista ao NovaCana, ela diz que qualquer pequena alteração do Brasil, em uma quinzena, já teria potencial de gerar um possível déficit.
“Com 1 milhão de tonelada [de superávit], temos certa sensibilidade; pode virar para um lado ou para outro. Nossa visão está um pouco mais altista para preços, então, estamos um pouco pessimistas do que possa ocorrer com o superávit e o nosso viés é de baixa”, Lívea Coda (hEDGEpoint)
Porém, essa não é uma perspectiva unânime entre as consultadas. A S&P Global Commodity, por exemplo, estima que 3,77 milhões de toneladas sobrarão no ciclo 2022/23.
Já a FG/A reduziu sua expectativa anterior de superávit de 5 milhões de toneladas para 3 milhões de toneladas. Os motivos foram as maiores incertezas sobre a safra indiana, os impactos prováveis na Tailândia e os resultados de outros produtores.

Para a StoneX, que prevê 5 milhões de toneladas de superávit, a alta produtiva na Ásia deve se fortalecer: os menores volumes exportados pela Índia devem ser substituídos parcialmente pelos despachos tailandeses. O superávit promete vir com mais intensidade no segundo semestre do ano, momento em que as exportações brasileiras são maiores. As informações foram divulgadas em relatório lançado no final de janeiro e assinado pelos analistas Filipe Cardoso, Marcelo Di Bonifácio e Rafael Borges.
O volume, entretanto, está levemente abaixo da visão da empresa divulgada em novembro dado o cenário incerto para a produção indiana, que não parece ser capaz de ultrapassar a do ciclo 2021/22. Ainda assim, a revisão segue um viés otimista para a safra 2023/24 de cana-de-açúcar do Centro-Sul brasileiro (abril a março), que tem chance de impactar o comércio internacional de forma considerável e com influência baixista para os preços futuros.
Já a consultoria com a maior expectativa de superávit é a Green Pool, com 8,4 milhões de toneladas.

Para o ciclo que se encerrou, 2021/22, dez empresas estimaram 635 mil toneladas de superávit, com números oscilando entre um déficit de 3,9 milhões de toneladas e um saldo positivo de 7,11 milhões de toneladas.
Visões para ciclo 2023/24
Cinco empresas já arriscaram números para o ciclo 2023/24. S&P Global Commodity e Czarnikow, estimaram 4,57 milhões e 5,5 milhões de toneladas superavitárias, respectivamente. A Agroconsult, por sua vez, espera um superávit levemente inferior, de 3,1 milhões de toneladas, assim como a TRS, de 3,02 milhões de toneladas.
Já a hEDGEPoint estima que haja um déficit de 2,9 milhões de toneladas na temporada. Com isso, a média é de 2,66 milhões de toneladas de produção acima do consumo.

Segundo Coda, esse valor é especialmente baseado no clima. “Temos um crescente percentual de probabilidade de El Niño, o que tornaria as monções do Hemisfério Norte menores, o período fica mais seco. Isso pode atrapalhar o desenvolvimento vegetativo da cana e impedir que se tenha uma recuperação relevante de produtividade”, detalha.
Além nisso, a analista da hEDGE não visualiza uma recuperação relevante na Europa por conta do veto aos defensivos agrícolas neonicotinoides no continente. Ainda que os países da União Europeia tenham certa autonomia para decidir se vão adotar alguma exceção à regra ou não, a França – um dos três principais produtores – já informou que irá acatar a decisão.
Assim, Coda espera que, mesmo com o Brasil maximizando a produção de açúcar e tendo uma continuidade dos bons resultados, a menor produção no Hemisfério Norte poderia gerar déficit.
Por sua vez, a Czarnikow detalha, em relatório de 14 de fevereiro assinado pelo analista Tabasoom Watak, que os estoques de açúcar estão em vias de aumentar, pois o ciclo 2023/24 deve ser o quarto seguido de superávit global.
A produção estimada pela companhia para a temporada é de 183,5 milhões de toneladas de açúcar, com 4,5 milhões de toneladas a mais ante 2022/23, no segundo maior desempenho já registrado.
“Acreditamos que isso se deva ao aumento da disponibilidade de cana no Centro-Sul do Brasil, bem como às usinas maximizando a produção de açúcar em detrimento do etanol, em oposição a 2022/23, quando as usinas começaram com foco no biocombustível”, detalha o relatório.
Já a demanda estimada pela Czarnikow é de 178 milhões de toneladas. “O consumo global de açúcar está crescendo a uma taxa de 1,3% em 2023/24, um pouco mais rápido que o crescimento populacional de 1%”, detalha e completa: “O aumento da demanda pode ser atribuído ao incremento em muitos países em desenvolvimento da Ásia e da África”.
Brasil e seu “max sugar”
Ainda que algumas empresas tenham estimado valores para a temporada 2023/24, é o ciclo 2022/23 que está no radar no momento.
“No Brasil, estamos otimistas com valores. Para essa safra [2023/24, de abril a março], estamos projetando 595 milhões de toneladas de cana e tem a possibilidade de ser ainda mais, chegando em 600 milhões e atingindo uma produção de 36,7 milhões de toneladas de açúcar”, detalha Coda, da hEDGEPoint.
Para ela, uma boa moagem a partir da segunda quinzena de março contribuiria para a estimativa de 1,1 milhão de toneladas de superávit feita pela consultoria.

Segundo a StoneX, considerando o calendário internacional 2022/23 (outubro a setembro), o Centro-Sul deve fabricar 37,99 milhões de toneladas de adoçante bruto, representando uma alta anual de 30,2%.
A consultoria acredita que, em março de 2023, existe forte possibilidade de a moagem ficar acima da média para o mês. Muitas usinas devem poder colher em uma área que não foi mexida devido ao excesso de chuvas, cenário que já é esperado por boa parte do mercado.
“Para 2023/24 (abril a março), o crescimento da área e da produtividade, que deve ser beneficiada pelas chuvas que incidiram no Centro-Sul na segunda metade de 2022, devem colocar ainda mais cana no mercado”, aponta em relatório.
A StoneX também espera um maior direcionamento da matéria-prima para a fabricação do adoçante. De acordo com os analistas, os contratos futuros de açúcar negociados em Nova York estão sendo sustentados com um prêmio de mais de 300 pontos ante o etanol.
Na região Norte-Nordeste, as expectativas também são otimistas, conforme a StoneX. A consultoria estima 3,1 milhões de toneladas para o ciclo global, resultado 11,4% acima do período anterior.
O aumento foi motivado pela maior produtividade dos canaviais. A estimativa para a moagem 2022/23 (setembro a agosto) foi revisada para 58,2 milhões de toneladas na região, incremento de 3 milhões de toneladas em relação ao projetado em novembro de 2022.
“Por outro lado, o ATR [açúcar total recuperável] vem registrando valores abaixo de 120 quilos por tonelada nos principais estados (Alagoas e Pernambuco)”, completa o documento. O relatório atualizou a concentração de ATR para o fechamento de 2022/23 no Norte-Nordeste para 126,7 kg/t.

Conforme o BTG Pactual, os produtores brasileiros de açúcar geralmente possuem alguma flexibilidade para alterarem o seu mix de produção. “No cenário atual, ainda mais considerando nossas expectativas de que a disponibilidade de cana-de-açúcar melhorará, esperamos que a produção brasileira de açúcar aumente significativamente na próxima safra, de 35,4 milhões para 40,6 milhões de toneladas”, completa o banco em relatório.
Chuvas atrapalham a Índia
Na Ásia, segundo a StoneX, as safras estão a pleno vapor nos principais países produtores. Expectativas iniciais davam conta de que a disponibilidade de cana seria favorável, com os principais exportadores registrando aumentos na área de cultivo. Os preços atrativos para o açúcar no mercado internacional e a demanda fortalecida também fomentaram esse cenário.
Entretanto, o clima, que antes parecia positivo, começou a prejudicar a planta em alguns locais devido ao prolongamento do fenômeno La Niña, que tende a causar mais chuvas do que o normal nas regiões sul e sudeste da Ásia.
Na Índia, a estimativa da StoneX é que sejam fabricadas 35,8 milhões de toneladas de açúcar branco, com estabilidade frente a 2021/22. Neste caso, a expectativa é inferior à divulgada anteriormente.
“Eles informaram que as monções do meio do ano passado se estenderam por mais tempo do que deveriam. Em setembro e outubro ainda tinha bastante chuva e algumas regiões alagaram; isso é bastante prejudicial para a cana”, completa a analista da hEDGEPoint, que estima uma fabricação de 34,1 milhões de toneladas no país em 2022/23.
Além disso, os produtores esperam não somente uma redução de produtividade, mas um encerramento precoce da safra. “Eles começaram atrasados e estão moendo em ritmo bastante acelerado. Víamos um crescimento na moagem anual, mas isso é reflexo do aceleramento para terminar a safra um pouco antes e não ter problema com a cana que foi alagada”, detalha Coda.
A StoneX reitera em relatório que as precipitações acima do normal no país vêm preocupando o mercado. “Por mais que a safra 2022/23, segundo a Associação das Usinas de Açúcar da Índia (Isma, na sigla em inglês), esteja 4% à frente de 2021/22, muitas notícias têm sido desanimadoras, uma vez que as chuvas acima do normal entre setembro e novembro teriam prejudicado a produtividade dos canaviais, especialmente no estado de Maharashtra”, afirma.
Conforme a consultoria, levando em conta a indicação de um número maior de usinas em operação, o ciclo pode durar entre 45 e 60 dias a menos do que o anterior. “Pelo acompanhamento da temporada indiana, já pôde ser observado o pico produtivo na primeira quinzena de janeiro, fazendo com que, daqui para frente, os números percam fôlego até meados de abril”, detalha.
A StoneX ainda visualiza estoques de passagem apertados para 2022/23 e menos embarques na temporada, mesmo se a produção for maior. Isso deve ocorrer pois, em 2021/22, a Índia exportou cerca de 11 milhões de toneladas de açúcar, um recorde histórico. A demanda elevada, entretanto, levou os estoques finais do ciclo passado para 5,5 milhões de toneladas, menor valor desde 2016/17.
“O governo indiano liberou a primeira fase das exportações que, teoricamente, será dividida em duas, em cerca de 6,15 milhões de toneladas de açúcar, das quais mais de 5,5 milhões já estão comprometidas para embarques, e quase 2 milhões de toneladas já foram exportadas”, complementa o documento.
Em fevereiro, de acordo com a consultoria, será discutida a possibilidade de uma nova cota. Caso ela ocorra e dependendo do volume, a perspectiva de produção deve se manter otimista, uma vez que uma quebra tende a baixar as exportações com vias de garantir o abastecimento doméstico.
O Pecege complementa com a perspectiva de que a Índia deve reduzir seus estoques em 1,6 milhão de toneladas, visando o momento favorável de preços. Conforme o instituto, o incremento nos despachos tailandeses e brasileiros pode mitigar a escassez de açúcar indiano no primeiro semestre de 2023.
Clima também afeta Paquistão e Tailândia
No Paquistão, por sua vez, a StoneX informa que as chuvas em excesso causaram alagamentos, sendo que a província de Sindh foi uma das regiões mais afetadas. Uma entidade governamental paquistanesa (ICIMOD, na sigla em inglês) disse que 2,5 milhões de hectares dos 4,9 milhões de hectares agricultáveis em Sindh foram diretamente afetados pelas inundações.
A região agrega 31% da área de cana do país, afetando 61% da safra ou 10,5 milhões de toneladas da biomassa na província, conforme relatório da entidade. A StoneX espera, portanto, que 7,44 milhões de toneladas (valor em branco) de açúcar sejam produzidas no Paquistão em 2022/23, queda anual de 7%.
Já na Tailândia, ainda de acordo com a StoneX, as chuvas também foram acima da média, beneficiando os canaviais em um primeiro momento. Porém, algumas regiões sofreram com as precipitações e adiaram por duas semanas o início da colheita.
Ainda assim, no geral, a safra foi iniciada dentro do período normal e segue adiantada no comparativo com o ano passado. “Até o dia 17 de janeiro, a Tailândia colheu 34,6 milhões de toneladas de cana e produziu 3,6 milhões de toneladas de açúcar, 3,3% e 9,3%, respectivamente, acima de 2021/22”, compara a StoneX.
De acordo com a companhia, a estimativa produtiva para 2022/23 é de 11,2 milhões de toneladas de adoçante tipo bruto, alta anual de 10,9%, com 105 milhões de toneladas de cana disponíveis.
Já a visão da hEDGEPoint é que 10,8 milhões de toneladas sejam produzidas no país.
China em alta
No território chinês, a StoneX visualiza uma produção maior do que a da temporada 2021/22, que fechou em 9,56 milhões de açúcar branco. Assim, são esperadas 9,8 milhões de toneladas em 2022/23.
De acordo com a consultoria, o andamento da safra aponta para um crescimento por conta da recuperação na área de cultivo. “Por outro lado, o clima seco atingiu diversas regiões produtoras importantes, prejudicando a fornecimento hídrico nos arredores do Rio Yangtze, mais ao sudeste chinês”, ponderam os analistas.
Inicialmente, a StoneX esperava uma produção em torno de 10,3 milhões de toneladas, algo que foi revisado ao longo dos últimos meses. “Até o final de dezembro, a colheita da beterraba sacarina chegava próxima do fim, registrando uma recuperação de açúcar aquém do esperado”, completa o documento.
Europa sem recuperação
Na União Europeia e no Reino Unido, a StoneX estima que sejam fabricadas 16 milhões de toneladas de açúcar, queda anual de 8%. Os principais produtores, França e Alemanha, tiveram um início precoce da colheita da beterraba sacarina no intuito de reduzir as perdas de produtividade motivadas pelo clima extremamente seco.
“As compras por parte das processadoras foram adiantadas e, sob custos de produção elevados por conta da valorização do gás natural, tiveram pouca flexibilidade ao longo dos últimos meses”, detalha o documento. A produção de açúcar na União Europeia, portanto, não deve ultrapassar as 15 milhões de toneladas; o volume é somado a cerca de 950 mil toneladas do Reino Unido.
Na Rússia, a safra 2022/23 deve atingir 6,2 milhões de toneladas, levemente abaixo do estimado em novembro pela consultoria, mas 7,4% acima do ciclo anterior. De acordo com o documento da StoneX, “o avanço da safra 2022/23 frustrou levemente o produtor e as usinas, que têm coletado menor recuperação de açúcar das beterrabas frente ao esperado”.
Até o começo de janeiro, o país já havia finalizado a colheita do tubérculo, em cerca de 48 milhões de toneladas, mas apenas 40,8 milhões foram processadas até agora, resultando em 5,6 milhões de toneladas do produto.
Estabilidade australiana
Na Austrália, devem ser produzidas 4,2 milhões de toneladas de açúcar bruto, 1,9% acima de um ano antes. Segundo o Conselho das Usinas Australianas de Açúcar (ASMC, na sigla em inglês), até a primeira semana de janeiro de 2023, foram produzidas 4,1 milhões de toneladas de açúcar.
Assim, a entidade local estima que o país ainda deve colher cerca de 1,4 milhão de toneladas de cana até o fechamento de 2022/23. “A safra foi atrasada no país por conta do excesso de chuvas no principal estado produtor, Queensland”, completa a StoneX.
Além disso, de acordo com a consultoria, a etapa final do período de colheita está acima da média e deve durar mais tempo que o usual.
Estados Unidos e México
Nos Estados Unidos, a expectativa da StoneX é que sejam fabricadas 8,4 milhões de toneladas de açúcar em 2022/23, uma discreta alta de 1,3% no comparativo safra contra safra.
“O final da colheita da beterraba sacarina e surpresas positivas na moagem de cana no sul do país fizeram com que o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA, na sigla em inglês) revisasse para cima a estimativa de produção de açúcar no relatório de janeiro,” complementa a consultoria em seu relatório.
Já para a Czarnikow, a produção de açúcar nos Estados Unidos deve ficar abaixo de 8 milhões de toneladas em 2022/23. Esta seria a primeira vez que isso ocorre desde 2019/20, quando as condições de congelamento limitaram fortemente a colheita de beterraba.
“Nesta temporada, as condições mais frias e úmidas também prejudicaram os produtores de beterraba em Minnesota, Idaho, Dakota do Norte e Michigan”, pontua o relatório. A trading enxerga que a produção total de beterraba sacarina deve cair 300 mil toneladas, para 4,2 milhões de toneladas.
“Para os principais estados produtores de cana-de-açúcar do sul, Flórida, Louisiana e Texas, a safra de cana foi melhor, embora a produção ainda esteja prevista para encolher cerca de 100 mil toneladas de 2021/22 para 3,5 milhões de toneladas”, expressa o relatório.
Já no México, a expectativa da StoneX é de que 6 milhões de toneladas do adoçante sejam fabricadas em 2022/23, queda anual de 3%.
Até o dia 7 de janeiro de 2023, de acordo com a empresa, a moagem de cana totalizava 11 milhões de toneladas, cerca de 12% atrás ante o mesmo período do ano passado. “Era esperado que o país enfrentaria problemas na produtividade no ciclo atual, uma vez que o clima seco não foi benéfico para os canaviais nos últimos meses”, detalha o relatório.
Outro problema foi a perda de área por conta dos custos elevados com fertilizantes. Ainda há espaço para reduções produtivas no país caso a produtividade da cana continue como está até o momento. De acordo com a StoneX, no acumulado, são 72,4 toneladas de cana por hectare contra 79,2 t/ha registradas no mesmo período no ciclo passado.
Preços firmes
Para o BTG Pactual, os preços do açúcar têm se mostrado “surpreendentemente resilientes” nos últimos meses. “O início precoce da temporada de chuvas no Brasil levou a atrasos na moagem de cana-de-açúcar, enquanto a safra da Índia também frustrou, reduzindo a oferta no curto prazo e levando a um dinâmica de oferta e demanda mais apertada”, destaca o banco, em relatório do final de janeiro.
O cenário também abriu uma janela favorável para as usinas fazerem fixação de preços para a próxima safra, permitindo que as cotações realizadas sigam favoráveis, de acordo com o BTG.
“Como o Brasil retoma a moagem de cana em abril e é esperada uma disponibilidade de cana-de-açúcar mais forte, vemos uma oferta maior de açúcar e uma demanda equilibrada globalmente”, completa.
Observando que o adoçante está sendo comercializado com um prêmio de aproximadamente 35% em relação ao biocombustível, o banco não prevê grande alta nos preços no próximo ano. Mas as perspectivas de médio prazo são consideradas atraentes, com a Índia provavelmente desviando até 6 milhões de toneladas de açúcar para produzir etanol a partir de 2025, o que aumenta a previsão de preço do açúcar no longo prazo para 17 centavos de dólar por libra-peso.
“Historicamente, as oscilações de oferta e demanda se traduziram rapidamente em preços mais baixos, mesmo que momentaneamente, devido aos estoques de açúcar mais altos em todo o mundo”, BTG Pactual
Conforme Coda, da hEDGEPoint, perspectivas de exportação devem ter influência nos preços. A consultoria prevê um aumento bastante relevante na produção de soja e milho e, consequente, incrementos nas exportações.
“Sabemos que o mercado de grãos tem mais margem do que o de açúcar e acabam tendo preferência na exportação, uma vez que é mais rentável. O lado mais fraco estoura e, assim como aconteceu no ano passado, o que provavelmente ocorreria é uma alteração da sazonalidade de exportação do Brasil. Isso pode dar bastante suporte para preço também”, complementa.
De acordo com ela, uma alteração da sazonalidade de exportação geraria um aperto bastante forte no segundo trimestre e estimularia o preço a aumentar de forma significativa nesse momento. “Teríamos açúcar a 21 centavos de dólar ou mais”, afirma.
Para o Pecege, em relatório lançado em janeiro, quedas nos preços da commodity são esperadas somente para meados de 2023, quando deve ocorrer a recuperação do superávit global.
“A safra internacional 2022/23 deve consolidar uma valorização marginal da commodity, mantendo-se em patamares elevados”, visualiza. Assim, com a expectativa favorável de produção do Centro-Sul brasileiro, a perspectiva do instituto é que o preço só deve recuar no segundo semestre do ano.
Já a Fitch Ratings espera que os preços internacionais do açúcar continuem altos e tenham média de 17,5 centavos de dólar por libra-peso em 2023, representando uma redução sutil em relação à média de 18,5 centavos de dólar por libra-peso. “Os produtores brasileiros devem continuar se beneficiando dos altos preços do açúcar em reais em 2023, uma vez que posições atrativas já foram fixadas pelos produtores”, completa o relatório lançado no final do ano.
Produção, consumo, estoques
Os estoques finais de açúcar devem crescer para 78,9 milhões de toneladas, com a relação entre estoque e uso se posicionando em 41,4% no ciclo 2022/23, de acordo com a StoneX.
Já a demanda global deve ter crescimento de 1,1% frente a 2021/22, reflexo da manutenção de um mercado físico fortalecido para o açúcar. “A inflação nas principais economias e as taxas de juros pelo mundo permanecem no radar dos agentes, uma vez que suas dinâmicas tendem a direcionar (ou retirar) capital financeiro especulativo ao mercado de commodities, o que afeta diretamente os preços do adoçante”, completa o relatório.
A StoneX estima que serão produzidas 195,5 milhões de toneladas de açúcar em 2022/23 e consumidas 190,5 milhões de toneladas. Para o Rabobank, a produção global deve atingir 191,8 milhões de toneladas e o consumo chegará a 188,3 milhões de toneladas. Já a Czarnikow tem uma visão mais baixista no comparativo, em que 179 milhões de toneladas do adoçante devem ser fabricadas enquanto 175,7 milhões serão demandadas.

A expectativa do Pecege é que a safra 2022/23 deve ser de 183,2 milhões de toneladas, com leve avanço de 1,1%, o que garante o terceiro superávit consecutivo. Já os estoques finais, conforme o instituto, devem cair de 44,5 milhões de toneladas para 38,6 milhões de toneladas entre 2021/22 e 2022/23.
Uma análise histórica e perspectivas
O BTG Pactual relembra que, nas últimas duas décadas, o Brasil e a Índia foram os maiores agentes de oscilação dos estoques globais da commodity. “De 2000 a 2010, com o ressurgimento do mercado de etanol por conta da introdução de carros bicombustíveis, o Brasil ‘removeu’ várias toneladas de oferta do mercado de açúcar para produzir etanol”, detalha o relatório.
Já no período de 2010 a 2015, o governo começou a subsidiar os preços da gasolina e o etanol se deteriorou, aumentando a produção de açúcar e gerando cinco anos seguidos de superávit global. De 2015 para cá, Brasil e Índia comandaram a maior parte do das oscilações na oferta global do adoçante.
“Embora o Brasil vá mais uma vez comandar uma recuperação da oferta na próxima temporada, achamos que esse cenário mudará em breve. Não acreditamos que o Brasil ou a Índia terão muito mais capacidade de produção de açúcar para adicionar, com o último potencialmente removendo a produção de açúcar do mercado, enquanto a demanda cresce a uma taxa de cerca de 1% ao ano”, complementa o BTG Pactual.
O banco aponta que os produtores brasileiros não aumentam de forma significativa a sua capacidade produtiva há dez anos, com o incremento vindo majoritariamente de mudanças no mix de produção. “Na safra 2023/24, acreditamos que o mix brasileiro será direcionado para perto do máximo de produção de açúcar. Então, de certa forma, as 5,1 milhões de toneladas que esperamos que o Brasil traga para o mercado estão próximas do máximo possível”, explica o relatório.
O banco também olha para o outro lado do mundo. Com o roteiro de transição energética firmado pelo governo indiano, o que inclui a antecipação do prazo para a mistura de 20% de etanol na gasolina vendida no país até 2025, além do lançamento gradual do E20 a partir de abril de 2023, o BTG espera que a maior produção de etanol reduza a fabricação de açúcar.
“Uma parte significativa da produção adicional de etanol virá do processamento da cana-de-açúcar, portanto, menos cana provavelmente será usada para produzir açúcar. O governo indiano estima um adicional de 2,44 bilhões de litros de etanol de cana por ano até 2025, o que acabaria por significar 4,1 milhões de toneladas de açúcar a menos para exportação a cada ano”, detalha.
Na Índia, a produção da cana é altamente subsidiada, sendo uma fonte de intensa volatilidade dos preços do açúcar. “Até certo ponto, o novo mandato do etanol da Índia poderia desempenhar um papel semelhante ao do Brasil ou mesmo dos EUA, que transformou profundamente a forma como o açúcar e o milho eram precificados”, enxerga o banco.
Sem Brasil e Índia como fornecedores marginais de açúcar, o BTG espera que os preços se movam para um nível que acomodasse melhor os custos de produção de outros países. “Os custos de produção estimados da maioria dos países estão próximos ou acima de 20 centavos de dólar”, pontua o documento.
NovaCana DATA
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana