
Fiscais encontraram alojamentos com condições inadequadas para alimentação, higiene e descanso
A moradia precária é a marca da vida do trabalhador que é explorado e foi isso que a fiscalização encontrou em plantações de cana-de-açúcar e nos alojamentos onde viviam os trabalhadores rurais contratados para a safra em fazendas no interior de Goiás e Minas Gerais.
Durante a operação, que resgatou mais de 200 homens, migrantes do Nordeste, de condição análoga à escravidão em março, fiscais visitaram 28 alojamentos; em pelo menos metade deles encontraram condições degradantes.
Em um deles, compartilhado por quatro maranhenses que dividem um aluguel de R$ 600, por exemplo, um dos quartos estava com as paredes molhadas e cheias de mofo.
Quem dormia lá era Domingos Pereira de Souza, que já trabalhou no ano passado, durante sete meses, para o intermediário que o havia contratado agora. Voltou porque onde mora falta trabalho e o salário é ainda pior. “Lá a diária está R$ 60, aqui é R$ 80”, justifica.
No banheiro, a ducha que existe é uma lata com furos embaixo. Uma das camas fica ao lado da cozinha, mas o trabalhador diz que, por causa do calor, muitas vezes dorme do lado de fora da casa.
“As condições de alojamento aqui são totalmente irregulares, ao ponto de se tornarem degradantes. Dormir nessas condições é realmente algo inaceitável. É isso que configura a condição análoga de escravo e degradante de trabalho”, explica o auditor fiscal do trabalho, Roberto Mendes.
Em outro alojamento, em Araporã (MG), um grupo de trabalhadores rurais chegou com as roupas completamente molhadas porque estava chovendo na plantação.
“Já entraram na casa e viram a situação da gente aí? A pia de lavar roupa é a pia de lavar panela da gente”, reclama um deles, que diz que terá que usar a mesma bota e o par de meias molhado no dia seguinte se elas não secarem. Ele ainda conta que um dos colegas está doente, com febre e dor no corpo, mas segue trabalhando.
Os trabalhadores que viviam nesses alojamentos haviam sido contratados por um mesmo intermediário, Fredson Souza do Nascimento. Era ele quem fornecia o serviço terceirizado para as fazendas autuadas na operação. Por safra, ele contrata mais de uma centena de trabalhadores temporários, praticamente todos são migrantes do Nordeste.
“Os tomadores, a usina, os fazendeiros, pagam mediante a quantidade de área plantada e, quanto mais eles economizam, quanto menos gastam com o custo da contratação desses trabalhadores, mais obtêm lucro com essa intermediação de mão de obra”, ressalta um dos auditores.
Ele ainda comenta a atuação de “gatos”, nome popular que se dá a esse tipo aliciador de mão de obra. “Fredson é um gato intermediador de mão de obra, não é uma empresa devidamente qualificada para prestar serviço terceirizado”, afirma.