Ainda não está definido se, como, quando e quanto os produtores receberão pelos créditos emitidos pelas usinas participantes do RenovaBio
Ainda não está definido se, como, quando e quanto os produtores receberão pelos créditos emitidos pelas usinas participantes do RenovaBio
A participação dos produtores independentes de cana-de-açúcar na renda adicional trazida pelo RenovaBio – se é que essa parcela existirá – ainda é um assunto em terreno pantanoso para o setor.
Até o momento, não há qualquer dado oficial que determine como as usinas poderiam repartir os ganhos que tiverem com a comercialização dos créditos de descarbonização (CBios). Porém, já existem possibilidades como um bônus, um percentual sobre o preço vigente da tonelada de cana ou até mesmo um valor fixo.
A mais recente atualização do modelo do Conselho dos Produtores de Cana-de-Açúcar, Açúcar e Etanol do Estado de São Paulo (Consecana-SP) até cita o RenovaBio, mas não fornece diretrizes sobre como será o repasse dos ganhos com o programa para os fornecedores. Mesmo que já tenham sido realizadas reuniões entre as entidades interessadas.
Em maio deste ano, a Comissão Nacional de Cana-de-Açúcar da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) levou a questão para o diretor do departamento de biocombustíveis do Ministério de Minas e Energia (MME), Miguel Lacerda de Oliveira. O argumento da entidade foi que, nos casos das usinas que adquirem matéria-prima de terceiros, estes também têm direito à remuneração, já que práticas mais sustentáveis no processo de produção interferem diretamente na nota fornecida pela RenovaCalc.
“O produtor vai ter esse custo [para emitir menos carbono], mas não participará dos ganhos financeiros gerados pelos CBios que forem emitidos pelas usinas. Ele contribui efetivamente para essa valorização e também merece ser remunerado”, afirma o assessor técnico da comissão de cana-de-açúcar da CNA, Rogério Avellar.
Leia, na versão completa, mais detalhes sobre como as entidades estão analisando a questão da remuneração dos produtores e esboços de como a precificação pode ocorrer.
A participação dos produtores independentes de cana-de-açúcar na renda adicional trazida pelo RenovaBio – se é que ela existirá – ainda é um assunto em terreno pantanoso para o setor.
Até o momento, não há qualquer dado oficial que determine como as usinas poderiam repartir os ganhos que tiverem com a comercialização dos créditos de descarbonização (CBios). Porém, já existem possibilidades como um bônus, um percentual sobre o preço vigente da tonelada de cana ou até mesmo um valor fixo.
A mais recente atualização do modelo do Conselho dos Produtores de Cana-de-Açúcar, Açúcar e Etanol do Estado de São Paulo (Consecana-SP) até cita o RenovaBio, mas não fornece diretrizes sobre como será o repasse dos ganhos com o programa para os fornecedores. Mesmo que já tenham sido realizadas reuniões entre as entidades interessadas.
Em maio deste ano, a Comissão Nacional de Cana-de-Açúcar da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) levou a questão para o diretor do departamento de biocombustíveis do Ministério de Minas e Energia (MME), Miguel Lacerda de Oliveira. O argumento da entidade foi que, nos casos das usinas que adquirem matéria-prima de terceiros, estes também têm direito à remuneração, já que práticas mais sustentáveis no processo de produção interferem diretamente na nota fornecida pela RenovaCalc.
“O produtor vai ter esse custo [para emitir menos carbono], mas não participará dos ganhos financeiros gerados pelos CBios que forem emitidos pelas usinas. Ele contribui efetivamente para essa valorização e também merece ser remunerado”, afirma o assessor técnico da comissão de cana-de-açúcar da CNA, Rogério Avellar.
Por sua vez, o consultor da União Nordestina dos Produtores de Cana (Unida), Gregório Maranhão, considera que o RenovaBio foi bem recebido pelos fornecedores de cana, mas ainda há a necessidade de um maior entendimento sobre como o crédito de carbono é afetado pelas práticas agrícolas.
De acordo com ele, isso é necessário até mesmo para a cana própria das usinas, mas, principalmente, para a vinda de fornecedores. A entidade congrega oito entidades de classe vinculadas à produção de cana-de-açúcar.
A União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica) não quis se pronunciar. Via assessoria, a entidade apenas esclareceu que o tema ainda será debatido por um grupo técnico de diversas entidades.
Além ser debatido pela CNA e pela Unida, o tema também foi alvo de discussões na Associação dos Plantadores de Cana da Paraíba (Asplan).
Em abril deste ano, a entidade abordou o assunto durante um encontro com produtores de três estados. A estimativa foi que a remuneração seria de R$ 2,37 por tonelada de cana vendida para as usinas. O valor, no entanto, foi considerado baixo pelos produtores na comparação com o ganho elevado que o RenovaBio trará para a indústria.
O presidente da Asplan, José Inácio de Morais, espera que a remuneração seja mais bem avaliada, uma vez que o programa ainda está em fase de implantação. Ele reiterou a importância do RenovaBio, mas acredita que há muito a se avançar na discussão quanto à remuneração referente aos créditos.
Em entrevista ao NovaCana, Morais afirma que a Asplan está realizando várias reuniões com as entidades associadas ao RenovaBio, como a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), para esclarecer a questão. Ele também relata sua preocupação com o fato de que a lei do programa não trata sobre a remuneração da cana vinda de produtores independentes.
“Tem várias exigências, pré-requisitos necessários para podermos participar do RenovaBio. O produtor de cana vai ter que apresentar um diagnóstico completo da sua atividade e não vejo nenhuma remuneração”, afirma.
“O produtor vai ser cobrado sobre tudo – adubo, fertilizante, fonte de combustível, parte trabalhista e ambiental. Mas quanto ele vai receber?”, José Inácio de Morais (Asplan)
O profissional também ressalta que quase metade da cana nordestina usada nas usinas é originária do produtor independente. “Esse produtor não tem nenhuma garantia em relação ao RenovaBio, quanto vai ser [de remuneração] e se ele terá acesso. Vamos entrar só com as obrigações?” expressa.
Além disso, Morais afirma que o valor do prêmio poderia chegar a até R$ 4,00 por tonelada de cana vendida – acima dos R$ 2,37/t estimados inicialmente.
O gestor executivo da Organização de Plantadores de Cana da Região Centro-Sul do Brasil (Orplana), Celso Albano de Carvalho, também considera “incorreto e injusto” que o produtor não seja remunerado, uma vez que a usina terá uma renda adicional sobre a matéria-prima.
“Hoje, com a atividade canavieira tendo um custo de produção próximo a R$ 100 por tonelada de cana e um preço de venda de R$ 80/t, qualquer oportunidade de renda e alternativa de solução é bem-vinda”, defende.
No Nordeste, apenas 44 usinas operam atualmente. De acordo com Gregório Maranhão, elas atuam com um sistema pulverizado de pequenos produtores de cana, que chegam a 20 mil. Do total, 90% produzem até mil toneladas de cana, ou seja, um volume pequeno.
Para o consultor da Unida, uma forma de precificar o quanto esses produtores devem receber por CBio emitido seria identificar o valor médio da cana padrão em determinado momento da safra, o que pode ocorrer mês a mês ou bimestralmente: “Por exemplo, a cana de Pernambuco teve, nos meses de outubro e novembro, um determinado padrão, com certa quantia média de sacarose e de crédito de carbono capturável”.
A periodicidade é importante, de acordo com ele, devido à dificuldade de medir a qualidade da matéria-prima, justamente por conta da pulverização dos produtores, que dispõem de diferentes carências estruturais.
Maranhão ainda enxerga que as entidades de classe devem representar os interesses dos associados tanto em relação à aferição dos créditos de carbono quanto no processo de liquidação de pagamento destes créditos. Ele usa como exemplo o modelo do Consecana, em que ocorre a apuração do teor de sacarose na cana que, por consequência, vai remunerar o produtor. “Mas eu acho que ainda estamos muito longe desse estágio operacional”, completa.
O próprio Consecana, por sua vez, trabalha para cumprir essa demanda relacionada ao RenovaBio. Celso Albano de Carvalho, da Orplana – membro do Consecana –, explica que, após a inclusão do RenovaBio no documento de atualização do modelo Consecana, foi criada uma câmara técnica com profissionais focados em entender qual o direito proporcional dos produtores de cana em relação aos CBios.
O gestor relata que há grandes chances de que a responsabilidade da precificação recaia sobre o modelo Consecana. Por hora, a ANP e as empresas certificadoras ainda não decidiram se consideram pertinente que o produtor tenha um direito proporcional ao ativo – mas ele acredita que isso pode ocorrer.
“Nos antecipamos e, neste período de atualização, o Cosecana quer estar alinhado a isso [precificação do CBio para produtor independente]. A câmara técnica fará reuniões para discutir como seriam as soluções para desenvolver essa tecnologia”, explica.
Por hora, ele possui uma visão própria de como a cana poderia ser remunerada. Sua proposta seria realizar um fluxo de monitoramento da cana que sai do campo, de modo a identificar a matéria-prima que vem de terceiros, e aplicar a RenovaCalc a fim de ver quanto de direito eles teriam pelo CBio. “Além disso, tentar identificar como pode ser acrescentada, na lei do RenovaBio, uma forma de remunerá-lo”, expressa.
Assim, para o gestor, é a partir da análise do ciclo de vida que deve ser feito o cálculo da participação dos produtores nos rendimentos com CBios. “É um trabalho de rastreamento das cadeias de produção, tentando ser justo com quem também contribui com a sua matéria-prima bruta para gerar o produto final”, explica.
Conforme Carvalho, o estudo deverá unir esforços de certificadoras, corretoras, ANP e instituições responsáveis por desenvolver a RenovaCalc. Ele ainda complementa que a melhor maneira de remuneração seria por meio de instituições financeiras, já que os CBios serão negociados em bolsa de valores.
Carvalho relata que está participando também de reuniões com a CNA. “Acredito que seremos chamados para participar de uma comissão de estudos junto à entidade para entender esse processo”, relata.
A união se deve, principalmente, porque o RenovaBio vai além do etanol e é preciso ter um panorama de todos os produtores envolvidos e que podem requerer parte na remuneração. Isso envolve a venda de matérias-primas para outros biocombustíveis, como o biodiesel, que pode ter fontes variadas.
“Não podemos pensar só no lado do etanol de cana. Vai aparecer a dúvida, por exemplo, do pecuarista que produz o boi e extrai o sebo usado na produção do biodiesel. Ele vai questionar: quanto de direito eu tenho?”, diz.
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana