NovaCana

O problema estrutural dos canaviais e como o BNDES quer resolver

graf-produtividade-cana-graos-160713-mEsqueça os problemas climáticos, o fim das queimadas e a acelerada mecanização. O problema dos canaviais é, fundamentalmente, estrutural e o BNDES está se preparando para tentar resolvê-lo no longo prazo
NovaCana 7 min de leitura
O BNDES avaliou a situação do canaviais e concluiu que existem problemas estruturais que vão além da influência negativa do clima, do fim das queimadas e a acelerada mecanização. Conheça em detalhes quais são esses problemas estruturais e como deve ser a nova linha de financiamento que o banco está preparando nesse momento para corrigir esses problemas.

E mais:
- A "surpreendente" queda na evolução da produtividade encontrada pelo BNDES
- O interesse econômico por trás da pesquisa nos canaviais
- O rendimento teórico máximo da cana-de-açúcar
- Gráfico comparativo da produtividade dos canaviais com outras culturas nos últimos 50 anos
- Produtividade dos canaviais produziu alerta no BNDES
- As soluções para a superação dos gargalos tecnológicos na produção de cana-de-açúcar

Os canaviais brasileiros estão defasados quando se analisa a inovação tecnológica e adoção de novas práticas agronômicas, revela estudo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Os índices de crescimento de produtividade não crescem como no passado e o banco quer ajudar a resolver esse entrave. Para isso deve ser lançada uma linha de crédito de R$ 1 bilhão de reais. O objetivo é promover na área agrícola o mesmo que o setor industrial conseguiu com o Plano de Apoio à Inovação Tecnológica Industrial dos Setores Sucroenergético e Sucroquímico (PAISS).

O projeto foi anunciado pelo vice-presidente do banco, Wagner Bittencourt, durante o Ethanol Summit, no final de junho. "O banco, juntamente com a Finep, está desenvolvendo um novo programa: o PAISS Agrícola, que assim como o voltado para a indústria, vai investir no desenvolvimento de novas espécies, e também desenvolver novos equipamentos e implementos para o setor agrícola, tecnicamente mais avançados e mais produtivos", prometeu.

A linha vem como uma resposta ao diagnóstico elaborado pela área técnica do BNDES que evidenciou o descompasso da evolução da cana-de-açúcar em comparação com os ganhos de produtividade em outras culturas. No mesmo evento, a necessidade de desenvolvimento agrícola foi pautado pelo chefe do Departamento de Biocombustíveis da instituição, Carlos Eduardo Cavalcanti. "O PAISS, quando foi formatado, teve foco nos ativos industriais e no escalonamento, mas o lado agrícola não foi tratado com a devida urgência naquele momento. Agora entendemos que podemos dar um ganho expressivo para o setor agrícola", disse. Segundo ele, a proposta é fazer com que a parte agrícola "se transforme em novo paradigma".

Ganhos de produtividae mundial da cana comparado com os grãos

Embora os representantes do BNDES tenham usado palavras mais brandas, um artigo elaborado pela área técnica da própria instituição sugere a existência de uma crise estrutural na parte agrícola. Veja alguns dos aspectos essenciais no artigo publicado na revista setorial do BNDES.

Produtividade decrescente

O trabalho mostra que o impacto dos chamados fatores conjunturais sobre a produtividade de cana podem ser relativizados. Para além das adversidades climáticas ou da curva de aprendizagem resultante do fim das queimadas e acelerada mecanização, os técnicos apontam questões estruturais, em especial a baixa taxa de tecnologia aplicada aos canaviais. "Ao considerar na análise uma série histórica longa, observa-se queda pronunciada do ritmo de ganhos de rendimento agrícola, bem como a deterioração de importantes indicadores de difusão tecnológica", argumenta o banco.

"Se, por um lado, é amplamente reconhecido o crescimento de produtividade da cultura da cana desde a criação do Proálcool, pelo outro, esse crescimento não vem sendo uniforme ao longo do tempo", aponta a pesquisa. Nos últimos anos, as taxas de incremento foram sendo cada vez mais reduzidas, até se tornarem negativas após a safra de 2009/10. "Há decréscimo nas taxas de crescimento a cada período analisado, o que produz o alerta sobre a performance recente da inovação agrícola. Essa queda é ainda mais pronunciada se as duas últimas safras forem consideradas, quando a produtividade agrícola estagnou-se e, até mesmo, reduziu-se de maneira surpreendente", completa.

Ao comparar o aumento de produtividade da cana com outras culturas ao longo de 50 anos, fica evidente o atraso. Enquanto entre 1961 a 2011 o milho obteve um ganho de 167% e a soja de 129%, a cana-de-açúcar, terceira maior cultura no país, obteve modestos 40% de incremento. Para os autores, "a situação surpreende ainda mais se for considerado o rendimento teórico máximo da cana-de-açúcar". De acordo com duas fontes científicas pesquisadas pelo BNDES, o rendimento teórico máximo da cana pode ser superior a 380 ou a 472 toneladas por hectare. "Mesmo que esses potenciais não sejam plenamente alcançados na prática, eles oferecem uma ideia da dimensão da defasagem tecnológica hoje existente. Na última safra, por exemplo, o rendimento médio foi inferior a 70 t/ha na Região Centro-Sul do Brasil".

tab-prod-periodos-160713

Falta interesse econômico

Além da redução de investimentos, há também fatores que limitam a busca por novas soluções. "Por seu tamanho relativamente pequeno no mundo, a cultura da cana atrai pouco interesse no desenvolvimento de novas tecnologias", constata o estudo. Os altos custos relacionados ao desenvolvimento tecnológico e o restrito mercado da cana-de-açúcar quando comparado aos das culturas de grãos, muito mais abrangentes, inibe investimentos do setor privado. "A lavoura de cana-de-açúcar, em âmbito mundial, com extensão de 26 milhões de hectares, é pequena se comparada com outras culturas predominantes, em especial a de cereais, que ocupa área plantada de cerca de 700 milhões de hectares", explica.

Já o financiamento público para pesquisa e desenvolvimento agrícola no setor canavieiro soma hoje R$ 220 milhões, quantia avaliada como escassa, se considerada que o desenvolvimento de uma única variedade de cana superior comercialmente custa em torno de R$ 150 milhões (e consome dez anos até sua comercialização). Ou seja, o valor total financiado seria suficiente para desenvolver uma única variedade.

Para contornar a defasagem tecnológica, o diagnóstico avalia a necessidade da participação governamental. "Se o setor vier a depender exclusivamente de recursos de mercado, pode ser que eles não venham nos volumes e no tempo que o desenvolvimento da cultura canavieira hoje exige", justifica a análise do BNDES.

Ao mesmo tempo os projetos de maior risco, apoiados por meio de instrumentos não reembolsáveis, são majoritariamente liderados por universidades e instituições de pesquisa que, em tese, têm menor potencial de chegar a soluções de mercado. Por isso, a avaliação é de que o apoio federal "além de ser incompatível com as necessidades do setor, deveria ser redirecionado para rotas tecnológicas de maior potencial, como a transgenia e sistemas mais eficientes de plantio e colheita", assim como "deveria haver um maior equilíbrio na utilização de instrumentos não reembolsáveis entre empresas e instituições de pesquisa/universidades".

Focos para o financiamento

O estudo recomenda algumas soluções para a superação dos gargalos tecnológicos, que tendem a ser priorizadas na linha de crédito. Dois aspectos recebem atenção especial no estudo: a necessidade de variedades transgênicas para ganhos substanciais de produtividade e novas soluções tecnológicas e de manejo para o plantio e colheita mecanizados.

Nesse sentido, há sugestões para que se apoie o desenvolvimento de:
• variedades de cana-de-açúcar voltadas aos ambientes de produção das regiões de fronteira, mais adequadas à mecanização agrícola e com maiores quantidades de biomassa e/ou ATR, enfatizando a utilização de melhoramento transgênico;
• máquinas e implementos para plantio e colheita de cana-de-açúcar, com ênfase na ampliação do uso de técnicas de agricultura de precisão;
• sistemas integrados de manejo, planejamento e controle da produção;
• técnicas mais ágeis e eficientes de propagação de mudas; e
• variedades, máquinas e equipamentos agrícolas e adaptação de sistemas industriais para culturas energéticas compatíveis, complementares ou consorciáveis com o ciclo produtivo da cana-de-açúcar, como cana-energia e sorgo sacarino.

Amanda SchArr – NovaCana
Compartilhar: