Esqueça os problemas climáticos, o fim das queimadas e a acelerada mecanização. O problema dos canaviais é, fundamentalmente, estrutural e o BNDES está se preparando para tentar resolvê-lo no longo prazoO BNDES avaliou a situação do canaviais e concluiu que existem problemas estruturais que vão além da influência negativa do clima, do fim das queimadas e a acelerada mecanização. Conheça em detalhes quais são esses problemas estruturais e como deve ser a nova linha de financiamento que o banco está preparando nesse momento para corrigir esses problemas.
E mais:
- A "surpreendente" queda na evolução da produtividade encontrada pelo BNDES
- O interesse econômico por trás da pesquisa nos canaviais
- O rendimento teórico máximo da cana-de-açúcar
- Gráfico comparativo da produtividade dos canaviais com outras culturas nos últimos 50 anos
- Produtividade dos canaviais produziu alerta no BNDES
- As soluções para a superação dos gargalos tecnológicos na produção de cana-de-açúcar
Os canaviais brasileiros estão defasados quando se analisa a inovação tecnológica e adoção de novas práticas agronômicas, revela estudo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Os índices de crescimento de produtividade não crescem como no passado e o banco quer ajudar a resolver esse entrave. Para isso deve ser lançada uma linha de crédito de R$ 1 bilhão de reais. O objetivo é promover na área agrícola o mesmo que o setor industrial conseguiu com o Plano de Apoio à Inovação Tecnológica Industrial dos Setores Sucroenergético e Sucroquímico (PAISS).
O projeto foi anunciado pelo vice-presidente do banco, Wagner Bittencourt, durante o Ethanol Summit, no final de junho. "O banco, juntamente com a Finep, está desenvolvendo um novo programa: o PAISS Agrícola, que assim como o voltado para a indústria, vai investir no desenvolvimento de novas espécies, e também desenvolver novos equipamentos e implementos para o setor agrícola, tecnicamente mais avançados e mais produtivos", prometeu.
A linha vem como uma resposta ao diagnóstico elaborado pela área técnica do BNDES que evidenciou o descompasso da evolução da cana-de-açúcar em comparação com os ganhos de produtividade em outras culturas. No mesmo evento, a necessidade de desenvolvimento agrícola foi pautado pelo chefe do Departamento de Biocombustíveis da instituição, Carlos Eduardo Cavalcanti. "O PAISS, quando foi formatado, teve foco nos ativos industriais e no escalonamento, mas o lado agrícola não foi tratado com a devida urgência naquele momento. Agora entendemos que podemos dar um ganho expressivo para o setor agrícola", disse. Segundo ele, a proposta é fazer com que a parte agrícola "se transforme em novo paradigma".

Embora os representantes do BNDES tenham usado palavras mais brandas, um artigo elaborado pela área técnica da própria instituição sugere a existência de uma crise estrutural na parte agrícola. Veja alguns dos aspectos essenciais no artigo publicado na revista setorial do BNDES.
"Se, por um lado, é amplamente reconhecido o crescimento de produtividade da cultura da cana desde a criação do Proálcool, pelo outro, esse crescimento não vem sendo uniforme ao longo do tempo", aponta a pesquisa. Nos últimos anos, as taxas de incremento foram sendo cada vez mais reduzidas, até se tornarem negativas após a safra de 2009/10. "Há decréscimo nas taxas de crescimento a cada período analisado, o que produz o alerta sobre a performance recente da inovação agrícola. Essa queda é ainda mais pronunciada se as duas últimas safras forem consideradas, quando a produtividade agrícola estagnou-se e, até mesmo, reduziu-se de maneira surpreendente", completa.
Ao comparar o aumento de produtividade da cana com outras culturas ao longo de 50 anos, fica evidente o atraso. Enquanto entre 1961 a 2011 o milho obteve um ganho de 167% e a soja de 129%, a cana-de-açúcar, terceira maior cultura no país, obteve modestos 40% de incremento. Para os autores, "a situação surpreende ainda mais se for considerado o rendimento teórico máximo da cana-de-açúcar". De acordo com duas fontes científicas pesquisadas pelo BNDES, o rendimento teórico máximo da cana pode ser superior a 380 ou a 472 toneladas por hectare. "Mesmo que esses potenciais não sejam plenamente alcançados na prática, eles oferecem uma ideia da dimensão da defasagem tecnológica hoje existente. Na última safra, por exemplo, o rendimento médio foi inferior a 70 t/ha na Região Centro-Sul do Brasil".

Já o financiamento público para pesquisa e desenvolvimento agrícola no setor canavieiro soma hoje R$ 220 milhões, quantia avaliada como escassa, se considerada que o desenvolvimento de uma única variedade de cana superior comercialmente custa em torno de R$ 150 milhões (e consome dez anos até sua comercialização). Ou seja, o valor total financiado seria suficiente para desenvolver uma única variedade.
Para contornar a defasagem tecnológica, o diagnóstico avalia a necessidade da participação governamental. "Se o setor vier a depender exclusivamente de recursos de mercado, pode ser que eles não venham nos volumes e no tempo que o desenvolvimento da cultura canavieira hoje exige", justifica a análise do BNDES.
Ao mesmo tempo os projetos de maior risco, apoiados por meio de instrumentos não reembolsáveis, são majoritariamente liderados por universidades e instituições de pesquisa que, em tese, têm menor potencial de chegar a soluções de mercado. Por isso, a avaliação é de que o apoio federal "além de ser incompatível com as necessidades do setor, deveria ser redirecionado para rotas tecnológicas de maior potencial, como a transgenia e sistemas mais eficientes de plantio e colheita", assim como "deveria haver um maior equilíbrio na utilização de instrumentos não reembolsáveis entre empresas e instituições de pesquisa/universidades".
Nesse sentido, há sugestões para que se apoie o desenvolvimento de:
• variedades de cana-de-açúcar voltadas aos ambientes de produção das regiões de fronteira, mais adequadas à mecanização agrícola e com maiores quantidades de biomassa e/ou ATR, enfatizando a utilização de melhoramento transgênico;
• máquinas e implementos para plantio e colheita de cana-de-açúcar, com ênfase na ampliação do uso de técnicas de agricultura de precisão;
• sistemas integrados de manejo, planejamento e controle da produção;
• técnicas mais ágeis e eficientes de propagação de mudas; e
• variedades, máquinas e equipamentos agrícolas e adaptação de sistemas industriais para culturas energéticas compatíveis, complementares ou consorciáveis com o ciclo produtivo da cana-de-açúcar, como cana-energia e sorgo sacarino.
Amanda SchArr – NovaCana
E mais:
- A "surpreendente" queda na evolução da produtividade encontrada pelo BNDES
- O interesse econômico por trás da pesquisa nos canaviais
- O rendimento teórico máximo da cana-de-açúcar
- Gráfico comparativo da produtividade dos canaviais com outras culturas nos últimos 50 anos
- Produtividade dos canaviais produziu alerta no BNDES
- As soluções para a superação dos gargalos tecnológicos na produção de cana-de-açúcar
Os canaviais brasileiros estão defasados quando se analisa a inovação tecnológica e adoção de novas práticas agronômicas, revela estudo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Os índices de crescimento de produtividade não crescem como no passado e o banco quer ajudar a resolver esse entrave. Para isso deve ser lançada uma linha de crédito de R$ 1 bilhão de reais. O objetivo é promover na área agrícola o mesmo que o setor industrial conseguiu com o Plano de Apoio à Inovação Tecnológica Industrial dos Setores Sucroenergético e Sucroquímico (PAISS).
O projeto foi anunciado pelo vice-presidente do banco, Wagner Bittencourt, durante o Ethanol Summit, no final de junho. "O banco, juntamente com a Finep, está desenvolvendo um novo programa: o PAISS Agrícola, que assim como o voltado para a indústria, vai investir no desenvolvimento de novas espécies, e também desenvolver novos equipamentos e implementos para o setor agrícola, tecnicamente mais avançados e mais produtivos", prometeu.
A linha vem como uma resposta ao diagnóstico elaborado pela área técnica do BNDES que evidenciou o descompasso da evolução da cana-de-açúcar em comparação com os ganhos de produtividade em outras culturas. No mesmo evento, a necessidade de desenvolvimento agrícola foi pautado pelo chefe do Departamento de Biocombustíveis da instituição, Carlos Eduardo Cavalcanti. "O PAISS, quando foi formatado, teve foco nos ativos industriais e no escalonamento, mas o lado agrícola não foi tratado com a devida urgência naquele momento. Agora entendemos que podemos dar um ganho expressivo para o setor agrícola", disse. Segundo ele, a proposta é fazer com que a parte agrícola "se transforme em novo paradigma".

Embora os representantes do BNDES tenham usado palavras mais brandas, um artigo elaborado pela área técnica da própria instituição sugere a existência de uma crise estrutural na parte agrícola. Veja alguns dos aspectos essenciais no artigo publicado na revista setorial do BNDES.
Produtividade decrescente
O trabalho mostra que o impacto dos chamados fatores conjunturais sobre a produtividade de cana podem ser relativizados. Para além das adversidades climáticas ou da curva de aprendizagem resultante do fim das queimadas e acelerada mecanização, os técnicos apontam questões estruturais, em especial a baixa taxa de tecnologia aplicada aos canaviais. "Ao considerar na análise uma série histórica longa, observa-se queda pronunciada do ritmo de ganhos de rendimento agrícola, bem como a deterioração de importantes indicadores de difusão tecnológica", argumenta o banco."Se, por um lado, é amplamente reconhecido o crescimento de produtividade da cultura da cana desde a criação do Proálcool, pelo outro, esse crescimento não vem sendo uniforme ao longo do tempo", aponta a pesquisa. Nos últimos anos, as taxas de incremento foram sendo cada vez mais reduzidas, até se tornarem negativas após a safra de 2009/10. "Há decréscimo nas taxas de crescimento a cada período analisado, o que produz o alerta sobre a performance recente da inovação agrícola. Essa queda é ainda mais pronunciada se as duas últimas safras forem consideradas, quando a produtividade agrícola estagnou-se e, até mesmo, reduziu-se de maneira surpreendente", completa.
Ao comparar o aumento de produtividade da cana com outras culturas ao longo de 50 anos, fica evidente o atraso. Enquanto entre 1961 a 2011 o milho obteve um ganho de 167% e a soja de 129%, a cana-de-açúcar, terceira maior cultura no país, obteve modestos 40% de incremento. Para os autores, "a situação surpreende ainda mais se for considerado o rendimento teórico máximo da cana-de-açúcar". De acordo com duas fontes científicas pesquisadas pelo BNDES, o rendimento teórico máximo da cana pode ser superior a 380 ou a 472 toneladas por hectare. "Mesmo que esses potenciais não sejam plenamente alcançados na prática, eles oferecem uma ideia da dimensão da defasagem tecnológica hoje existente. Na última safra, por exemplo, o rendimento médio foi inferior a 70 t/ha na Região Centro-Sul do Brasil".

Falta interesse econômico
Além da redução de investimentos, há também fatores que limitam a busca por novas soluções. "Por seu tamanho relativamente pequeno no mundo, a cultura da cana atrai pouco interesse no desenvolvimento de novas tecnologias", constata o estudo. Os altos custos relacionados ao desenvolvimento tecnológico e o restrito mercado da cana-de-açúcar quando comparado aos das culturas de grãos, muito mais abrangentes, inibe investimentos do setor privado. "A lavoura de cana-de-açúcar, em âmbito mundial, com extensão de 26 milhões de hectares, é pequena se comparada com outras culturas predominantes, em especial a de cereais, que ocupa área plantada de cerca de 700 milhões de hectares", explica.Já o financiamento público para pesquisa e desenvolvimento agrícola no setor canavieiro soma hoje R$ 220 milhões, quantia avaliada como escassa, se considerada que o desenvolvimento de uma única variedade de cana superior comercialmente custa em torno de R$ 150 milhões (e consome dez anos até sua comercialização). Ou seja, o valor total financiado seria suficiente para desenvolver uma única variedade.
Para contornar a defasagem tecnológica, o diagnóstico avalia a necessidade da participação governamental. "Se o setor vier a depender exclusivamente de recursos de mercado, pode ser que eles não venham nos volumes e no tempo que o desenvolvimento da cultura canavieira hoje exige", justifica a análise do BNDES.
Ao mesmo tempo os projetos de maior risco, apoiados por meio de instrumentos não reembolsáveis, são majoritariamente liderados por universidades e instituições de pesquisa que, em tese, têm menor potencial de chegar a soluções de mercado. Por isso, a avaliação é de que o apoio federal "além de ser incompatível com as necessidades do setor, deveria ser redirecionado para rotas tecnológicas de maior potencial, como a transgenia e sistemas mais eficientes de plantio e colheita", assim como "deveria haver um maior equilíbrio na utilização de instrumentos não reembolsáveis entre empresas e instituições de pesquisa/universidades".
Focos para o financiamento
O estudo recomenda algumas soluções para a superação dos gargalos tecnológicos, que tendem a ser priorizadas na linha de crédito. Dois aspectos recebem atenção especial no estudo: a necessidade de variedades transgênicas para ganhos substanciais de produtividade e novas soluções tecnológicas e de manejo para o plantio e colheita mecanizados.Nesse sentido, há sugestões para que se apoie o desenvolvimento de:
• variedades de cana-de-açúcar voltadas aos ambientes de produção das regiões de fronteira, mais adequadas à mecanização agrícola e com maiores quantidades de biomassa e/ou ATR, enfatizando a utilização de melhoramento transgênico;
• máquinas e implementos para plantio e colheita de cana-de-açúcar, com ênfase na ampliação do uso de técnicas de agricultura de precisão;
• sistemas integrados de manejo, planejamento e controle da produção;
• técnicas mais ágeis e eficientes de propagação de mudas; e
• variedades, máquinas e equipamentos agrícolas e adaptação de sistemas industriais para culturas energéticas compatíveis, complementares ou consorciáveis com o ciclo produtivo da cana-de-açúcar, como cana-energia e sorgo sacarino.
Amanda SchArr – NovaCana