“O processo de recuperação do setor sucroenergético brasileiro, mais do que políticas públicas ou a definição clara de medidas regulatórias, perpassa por um processo de ajuste interno”
“O processo de recuperação do setor sucroenergético brasileiro, mais do que políticas públicas ou a definição clara de medidas regulatórias, perpassa por um processo de ajuste interno”
114 usinas responsáveis por mais de um terço de toda a moagem nacional e 60% dos maiores grupos do Brasil se envolveram numa ampla pesquisa de performance. Apresentado na semana passada, o trabalho conduzido pelo Pecege, programa de economia de gestão da Esalq/USP, organizou os resultados em três regiões: tradicional (SP e PR), expansão (MG, GO, MT e MS) e nordeste (AL e PE).
Os indicadores coletados — e apresentados a seguir — servem para efeito comparativo e identificação do custo antes médias regionais e setoriais, indicando a eficiência em algum elo da atividade.
Não é incomum perceber que muitas usinas desconhecem onde estão e qual é o nível de ineficiência na produção de açúcar e etanol. Este problema é reflexo da falta de informação e desconhecimento dos resultados que as usinas estão obtendo.
A seguir:
- Evolução da dívida sobre a tonelada de cana processada nas últimas 4 safras;
- Cana própria X cana de terceiros: evolução dos custos;
- Preço real do ATR: 2007/08 a 2015/16;
- Custos, preços e margens do açúcar;
- Custos, preços e margens do etanol;
- Custo de processamento da cana: custo da cana, custo industrial e despesas administrativas;
- Rentabilidade nas últimas 4 safras;
- Custo de produção agrícola;
- Receita adicional com venda de energia: custo total em R$ por MWh nas três regiões (tradicional, expansão e nordeste);
- Receita, custos e margem da comercialização de energia.
A produtividade agrícola, cogeração e controle de custos devem ser as respostas para a recuperação do setor sucroenergético. Essa foi a mensagem passada durante o 5º Seminário de Indicadores Econômicos do Setor Sucroenergético, evento realizado pelo Pecege, programa de economia de gestão da Esalq/USP.
Com público formado em sua maior parte por usineiros, a finalidade do evento, segundo o pesquisador responsável pelo trabalho, Haroldo Torres, é auxiliar as empresas em momentos importantes. “Mais do que divulgação e captação dessas informações, nosso objetivo é trazer um pouco dessas discussões para o setor sucroenergético, que carece dessas informações para balizamento e tomada de decisões.”
Ainda segundo Torres, as empresas que participam da amostra demonstraram bastante interesse nos indicadores de performance, o que significa maior preocupação com as ineficiências da cadeia. “Esses indicadores servem para o efeito comparativo e identificação do custo antes médias regionais e setoriais, indicando a eficiência em algum elo da atividade”, apontou.
Com participação de 114 indústrias, a amostra da pesquisa corresponde a mais de um terço de toda moagem nacional e 60% dos maiores grupos do Brasil. As indústrias analisadas estão localizadas em três regiões: tradicional (SP e PR), expansão (MG, GO, MT e MS) e nordeste (AL e PE).
Haroldo Torres apresentou os resultados consolidados da safra 14/15 e algumas previsões da 15/16 – com números coletados até setembro – sob o peso de 260 milhões de toneladas de cana-de-açúcar na plateia. E foi enfático ao falar que o bom andamento do setor depende mesmo é da indústria. “É importante perceber que o processo de recuperação do setor sucroenergético brasileiro, mais do que políticas públicas ou a definição clara de medidas regulatórias, perpassa por um processo de ajuste interno”, ponderou.
Sinais de melhora, mas nem tanto
Sem perder tempo, o pesquisador foi direto ao cerne da questão: preço do ATR e produtividade. Desde o início do levantamento, na safra 07/08, até o fechamento da safra passada, observou-se queda de 9,7% na produtividade média dos canaviais pesquisados. O preço do ATR demorou um pouco mais para cair, diminuindo a partir da safra 11/12, sendo que na safra anterior alcançou valor equivalente ao período 09/10. Para ele, esses números finais são fruto da mecanização e adversidades climáticas.
Ainda assim, os resultados preliminares para a safra atual podem trazer algum alívio ao setor, mas sem grandes expectativas. “O que eu gostaria de enfatizar aqui é um início de recuperação dos indicadores do setor. Mas preciso pontuar: a produtividade ainda se encontra abaixo da média histórica”, reforçou. Considerados os valores da pesquisa, essa média histórica é de 81,76 t/ha. A previsão atual com os dados consolidados até setembro deste ano, é de 81 t/ha para 15/16, ante 76,45 t/ha da anterior.
Quanto ao preço do ATR, a safra anterior registrou R$ 0,50 por kg do produto, ante R$ 0,51 da média história. A previsão atual é de R$ 0,53.

Ao mesmo tempo, os custos parecem entrar em fase de controle pelas empresas. Torres observa que as usinas têm realizado diversos cortes visando o controle desses valores, que é um dos fatores críticos para uma recuperação de sucesso. Ele acredita que a lição de casa das sucroenergéticas está sendo bem-feita no sentido de identificar as ineficiências, o que traz projeções positivas – ainda que pequenas – para o fim da safra atual após um grande período negativo. O crescimento projetado na margem econômica ante a safra anterior é de 6,97%, o que deve gerar rentabilidade de 1,32% para 15/16.

Mesmo com os números levemente maiores, ainda há problemas a serem resolvidos. Torres lembra que a cana-de-açúcar ainda apresenta níveis de aumento produtivo bem menores em relação a outras culturas e que é justamente essa produtividade que guiará a evolução do setor. “Mesmo que marginal, é um sinal de recuperação puxado pela produtividade”, comentou.
Custos, preços e margens
A melhora nos indicadores ainda não traz diminuição dos custos. Porém, como são puxados pelo aumento da produtividade, acabam compensando a elevação dos valores ligados à produção. Em 14/15 uma tonelada de cana própria consumiu R$ 89,03 na região tradicional; R$ 86,92 na de expansão e R$ 96,01 no nordeste. Para 15/16, a previsão é de R$ 91,51 e R$ 88,12 para as duas primeiras regiões. Os números do nordeste ainda não podem ser previstos dada a diferença do período de safra no local.
Se pelo lado ruim os custos aumentaram, pelo lado bom, subiram abaixo da inflação. O IPCA acumulado de abr/15 a set/15 (período da coleta de dados para a previsão da safra atual) foi de 3,67%. Os aumentos de custos, por sua vez, foram de 2,79% (tradicional) e 1,38% (expansão).

A justificativa é a mesma que para a perda de qualidade: mecanização. A colheita com máquinas aumenta a quantidade de impurezas da cana processada; o plantio, por sua vez, aumenta o gasto com muda e reduz a área de colheita. Esses fatores impactam diretamente nos custos das usinas. No centro-sul, inclusive, é o fator que tem maior impacto nos custos: 47% na região tradicional e 56,4% na de expansão.
A energia elétrica foi o único produto lucrativo para as usinas na safra passada e, para Torres, apesar de a capacidade de cogeração atual corresponder a apenas 14,5% da capacidade total, tem sido a salvação de algumas usinas. Todas as regiões apresentaram preços bastante superiores aos custos totais de cogeração. Na safra 14/15, na região tradicional, o preço de venda correspondeu a 3,8 vezes o valor dos custos; 2,43 vezes na de expansão e 11,6 vezes no nordeste.

“É um produto que tem gerado margem positiva ao redor de R$ 8,21 por tonelada de cana [na região tradicional]. Tem sido uma salvaguarda para o setor. Quando a gente olha para bioeletricidade, é o produto que aumenta as receitas”.

Açúcar e etanol não apresentaram os mesmos bons resultados. Para o adoçante, tanto no branco como no VHP, a região nordeste ficou com as melhores margens, ainda assim, negativas, de -0,3% e -9,8%, respectivamente. Em todas as regiões analisadas os preços dos açúcares foram suficientes para cobrir apenas os custos operacionais efetivos, ou seja, sem inclusão dos gastos com terra e capital.

O etanol tem uma situação ainda mais complicada. Novamente no nordeste, as margens foram as menos piores, com -11,5% para o anidro e -12,8% para o hidratado. No entanto, a região foi a única que conseguiu cobrir os custos operacionais totais. Todas as outras apresentaram resultados suficientes para cobrir apenas os custos operacionais efetivos, ou seja, insuficientes para dar conta da depreciação. Os valores com terras e capital também não foram cobertos. Ainda assim, como é um produto de alta liquidez, a venda do combustível gerou mix mais alcooleiro no período visando a geração de caixa.

Em nove safras custo da cana duplicou
O maior contribuinte para alcançar a situação atual foi o aumento dos custos de processamento da cana de açúcar. Desde o início do acompanhamento, na safra 2007/08, esse valor cresceu 87,3%. A matéria-prima vem sendo o principal componente desse custo desde então e hoje corresponde a quase 70% do que é gasto com processamento.

Outro dado interessante é a participação da cana própria e da cana de fornecedores no montante. A cana própria é, historicamente, mais cara que a de terceiros. Mas, para a safra 15/16, atingiu o maior valor já registrado, embora ainda permanece custando 27,7% mais em relação à matéria-prima terceirizada.

Impacto da dívida
Estima-se que o valor da dívida setorial chegue a R$ 90 bilhões. “É um setor endividado e atrelado ao dólar. [Com] uma dívida que tem impacto direto na estrutura de custos, com pagamento de juros ao redor de R$ 23 por tonelada de cana apenas para amortização”, afirmou o pesquisador do Pecege.
Os dados coletados mostram que de 2011 a 2015, o valor dessa dívida cresceu 45,2%, superando a casa dos R$ 23 por tonelada na safra 14/15. No mesmo período, outro indicador cresceu de maneira preocupante: a dívida líquida sobre o faturamento. Na safra 11/12, esse valor correspondia a 98,4% do faturamento das empresas. Na safra passada, o número chegou a 118,8%.
Em outro levantamento realizado pelo Pecege, com 155 empresas, 25,1% têm uma despesa financeira líquida de até R$ 10 por tonelada de cana; 38,1%, estão entre R$ 10 e R$ 20 por tonelada; 7%, entre R$ 20 e R$ 30 e para 29,8% dessas empresas, a despesa está acima de R$ 30 por tonelada. “É um indicador pessimista, esse endividamento”, lamentou Torres.

Isso fez com que o setor deixasse de investir em itens necessários para crescer, o que culminou em canaviais velhos, rendimento agrícola abaixo do potencial (e que deve continuar assim até a próxima safra dada a baixa taxa de renovação) e perda de valor dos ativos.
“É reflexo da migração para outras culturas. Há sinais de recuperação, embora marginais, no açúcar e no etanol. Mas, em função dos constantes aumentos dos custos de produção, o setor não obteve margens positivas e sofreu com as deteriorações das margens econômicas”, justificou o pesquisador.
Necessidade de ajustes
Com um cenário um pouco mais otimista adiante, medidas como apostar no potencial da cogeração e melhorar ainda mais o controle e a gestão de custos. Em ambos os casos, já é possível notar atitudes sendo tomadas, como contratação de linhas voltadas para retrofit de cogeração e os cortes realizados pelas indústrias.
No curto prazo, Torres defende que essas são as melhores ações a serem tomadas. Ele espera que diante dos indicadores apresentados pelo Pecege, as empresas percebam onde podem melhorar.
“Esperamos que sirvam para análise de cada empresa ante a média regional e setorial. É um setor que tem muito a crescer, pujante, com possibilidade de geração de combustível renovável, de utilizar sua capacidade instalada para cogeração. Temos um cenário de aumentos crescentes dos custos de produção, mas há sinais de recuperação, principalmente pela produtividade”, completou.
Jorge Mariano – NovaCana