Queda na receita deve ser de R$ 0,22 por litro de hidratado; açúcar também sofre impactos
Não há setor no mundo que não esteja sendo afetado pela pandemia do coronavírus. O cenário do começo do ano, que parecia otimista para o setor sucroenergético, modificou-se completamente com a guerra de preços entre a Rússia e a Arábia Saudita no mercado de petróleo se somando aos impactos do vírus na economia mundial.
O Programa de Educação Continuada em Economia e Gestão de Empresas (Pecege) analisou como o setor de açúcar e etanol tem se comportado e irá se comportar daqui em diante, considerando a situação atual. O estudo aponta que, como as reações dos mercados têm sido intensas, as projeções de preço e consumo tiveram pioras, especialmente para o etanol.
De acordo com a publicação, a geração de caixa de muitas usinas deve ser afetada com o novo panorama mundial. O rendimento financeiro com o açúcar, por exemplo, será impactado por conta de uma menor demanda. Já a queda no preço do ATR deve atingir diretamente os produtores de cana-de-açúcar.
Para o mercado de etanol, o Pecege vê uma redução de 24% na produção da safra 2020/21, caindo dos atuais 33 bilhões de litros para 25 bilhões. O relatório ainda afirma que a diminuição será mais drástica na produção de hidratado, já que o anidro acompanha o volume de vendas da gasolina.
Além disso, a expectativa é de uma perda de receita de R$ 0,2252 por litro de hidratado em relação a 2019. Assim, os preços do biocombustível devem ficar em patamares semelhantes aos vistos em 2017.
Confira, na versão completa, informações e gráficos com perspectivas de preço e demanda para os mercados de açúcar e etanol.
Não há setor no mundo que não esteja sendo afetado pela pandemia do coronavírus. O cenário do começo do ano, que parecia otimista para o setor sucroenergético, modificou-se completamente com a guerra de preços entre a Rússia e a Arábia Saudita no mercado de petróleo se somando aos impactos do vírus na economia mundial.
O Programa de Educação Continuada em Economia e Gestão de Empresas (Pecege) analisou como o setor de açúcar e etanol tem se comportado e irá se comportar daqui em diante considerando a situação atual. O estudo aponta que, como as reações dos mercados têm sido intensas, as projeções de preço e consumo tiveram pioras, especialmente para o etanol.
De acordo com a publicação, a geração de caixa de muitas usinas deve ser afetada com o novo panorama mundial. O rendimento financeiro com o açúcar, por exemplo, será impactado por conta de uma menor demanda. Já a queda no preço do ATR deve atingir diretamente os produtores de cana-de-açúcar.
Conforme o relatório, a pandemia já tem interrompido o fornecimento de produtos para algumas cadeias de produção, especialmente na área automotiva e de eletrônicos.

Peso do petróleo e da taxa de câmbio
Para o mercado de etanol, o Pecege vê uma redução de 24% na produção da temporada 2020/21, caindo dos atuais 33 bilhões de litros para 25 bilhões. Além disso, o relatório completa que a diminuição será mais drástica na produção de hidratado, já que o anidro acompanha o volume de vendas da gasolina.
Segundo o documento, dois itens são essenciais para analisar as consequências da pandemia para o setor de etanol: o preço do petróleo e a taxa de câmbio. Desde o início de 2020, o petróleo Brent vem sofrendo quedas, tendo acumulado uma redução de 59% até março.
A redução da demanda por conta da exigência de bloqueios para contenção do vírus e a guerra de preços, deflagrada pela relação entre Rússia e Arábia Saudita, são as principais causas do impacto. Por conta disto, o petróleo chegou a seu menor nível de preço de importação dos últimos quatro anos.

Assim, a Petrobras também reduziu os preços da gasolina ao longo deste ano, tendo acumulado retrações de 40,5%. Conforme o Pecege, ainda há espaço para novas quedas de preço nas refinarias, já que nem todas as reduções do petróleo foram repassadas para o combustível fóssil.
“É inevitável que a retração do preço do petróleo tenha efeito negativo sobre os preços domésticos do etanol: os preços mais baixos da gasolina levarão a um aumento de seu consumo em detrimento do renovável. Aliás, o etanol hidratado vem perdendo competitividade em relação à gasolina nas bombas nas últimas semanas”, detalha o relatório.
Adicionalmente, há uma redução na margem de lucro com a produção de etanol. Para o Pecege, isso deve comprometer a geração de caixa das usinas sucroenergéticas nos próximos meses.
Queda no consumo e nos preços
Como a pandemia deve ter um impacto severo na economia – é estimada uma queda de 0,11% no Produto Interno Bruto (PIB) –, o consumo de combustíveis deve ser afetado. No mercado doméstico, a demanda para o Ciclo Otto normalmente acompanha o crescimento econômico; assim, no atual cenário de quedas, a redução estimada para o consumo é de 3,7%.

Contrastando com 2019 – em que a participação do etanol no consumo foi recorde, alcançando 45,5% do total do Ciclo Otto –, o Pecege estima que 2020 traga uma queda na participação de mercado do etanol, para 37%.
Além disso, os analistas projetam uma perda de receita de R$ 0,2252 por litro de hidratado em relação a 2019. Com isso, os preços do biocombustível ficarão em patamares semelhantes aos vistos em 2017.
As usinas teriam, portanto, uma queda de quase 13% em seus preços líquidos recebidos, com uma redução de R$ 1,747/l para R$ 1,521/l. Para o Pecege, é possível que algumas empresas vivam uma “destruição de margens” para a produção e comercialização do etanol.
Para dar uma noção mais realista do panorama de preços do etanol hidratado, o documento traz uma simulação a partir do preço de R$ 1,38/l para a gasolina, conforme visto na refinaria de Paulínia (SP) em 19 de março.
Considerando a possibilidade de redução no valor em R$ 0,30/l, a fim de atender à paridade de importação, o preço da gasolina na bomba ficaria em R$ 3,66/l, segundo o Pecege. Se o etanol hidratado for comercializado dentro do limite de competitividade do biocombustível – ou seja, a 70% do valor da gasolina –, o preço do renovável na bomba seria de R$ 2,56/l. Por sua vez, o valor líquido recebido pelas usinas seria de R$ 1,52/l.
No final de fevereiro, conforme números do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq-USP, o valor pago às usinas pelo hidratado chegou a R$ 2,14/l; porém, ele tem apresentado queda desde então.
As projeções do Pecege para o etanol de milho não foram divulgadas. A entidade ainda está considerando o impacto de fatores que dificultaram a produção no primeiro trimestre deste ano: a redução do preço do petróleo, que diminui a competitividade do etanol, e o aumento no preço do milho.
Pandemia trava crescimento do açúcar
Antes da disseminação da pandemia do Covid-19, as perspectivas eram de melhora nos preços do açúcar em 2020. Agora, porém, o preço da commodity teve uma forte baixa na bolsa de Nova York.
Conforme o Pecege, existe uma correlação negativa de 0,67 entre os preços da commodity e os avanços da pandemia. Ou seja, quanto mais a contaminação cresce, mais os preços caem, afinal, a tendência de redução nos preços se dá justamente por conta dos impactos econômicos deflagrados pela doença.

Também há uma expectativa de redução no consumo de açúcar devido à adoção de quarentenas e isolamentos, que podem restringir o consumo.
Ainda assim, a safra brasileira será mais açucareira ante a temporada anterior por conta da desvalorização do etanol. “As usinas que não conseguiram travar antecipadamente o preço do açúcar para a safra 2020/21, bem como aquelas que não possuem cogeração de energia, enfrentarão dificuldades para honrar compromissos financeiros e manter os níveis de investimento no campo e na indústria”, detalha o documento.
Além disso, há um risco potencial ligado aos embarques e ao escoamento do açúcar, caso portos e terminais sejam fechados como medidas para contenção do vírus.

O Pecege ainda lembra que, antes da deflagração da pandemia, os preços internacionais do adoçante estavam melhorando devido à maior produção de etanol pelas usinas brasileiras e à retração produtiva na Índia, na Tailândia e em outros grandes produtores e exportadores, principalmente por conta de adversidades climáticas. Juntos, estes fatores apontavam para um déficit mais acentuado no mercado global de açúcar, pressionando positivamente a cotação do produto.
No Brasil, o panorama positivo era somado ao fato de que o real está desvalorizado perante o dólar. Isso fez com que diversas usinas aproveitassem para fixar preços de açúcar para 2020/21 ou, em alguns casos, estendendo até mesmo para 2021/22.
“Esta conjunção proporcionou, por exemplo, no final de fevereiro de 2020, um preço FOB [Free on Board, quando o comprador assume todos os riscos e custos com o transporte da mercadoria] do açúcar acima de R$ 1.500 por tonelada. Trata-se de um valor que assegura boas margens econômicas para o adoçante frente às safras anteriores”, detalha o relatório.
Preços de ATR menores
Com a queda nos valores para venda de açúcar e etanol, a projeção do Pecege também estima uma redução nos preços do açúcar total recuperável (ATR). Para março, a entidade aponta um valor de R$ 0,6012 por quilograma de ATR – em janeiro, a projeção era de R$ 0,7196/kg.
No contexto anterior, o cenário era de um petróleo cotado a US$ 50 por barril, com etanol competitivo e expectativa de crescimento da economia brasileira de 1,77%, refletindo aumento no consumo do Ciclo Otto. “Em menos de dois meses, as expectativas são de (em termos de projeções) que o preço do ATR derreta em mais de 16%”, completa o relatório.
Com isso, o fornecedor de cana-de-açúcar terá uma remuneração inferior em 2020/21, na comparação com a safra atual.

Além disso, conforme o documento, destilarias autônomas, usinas com baixa capacidade de produção de açúcar e fornecedores de cana terão uma geração de caixa menor. Isso pode comprometer os investimentos no campo, aumentando a deterioração dos canaviais e reduzindo os ganhos nas próximas safras.
“Com o maior direcionamento do ATR para a produção do açúcar, as agroindústrias precisarão de um maior volume de recursos para capital de giro”, completa o relatório. Essa preocupação também já foi expressa pelas usinas, que colocaram a questão em uma lista de pedidos ao governo federal.
RenovaBio e o coronavírus
Conforme o Pecege, o RenovaBio só deve vigorar, efetivamente, em 2021, o que forçará as usinas sucroenergéticas a novos desafios na safra 2020/21..
Segundo a entidade, o valor do CBio deve cair em momentos de etanol mais competitivo e aumentar em momentos de preço do petróleo baixo. Esse comportamento deve “garantir a competitividade dos biocombustíveis e estimular a sua produção, mesmo em cenários de preços deprimidos do combustível fóssil, tal como vem se observando no primeiro trimestre de 2020”, projeta.
Com isso, a expectativa do Pecege é que o CBio funcione como um agente de equilíbrio competitivo entre combustíveis fósseis e renováveis, tendo o valor necessário para igualar o custo de produção do biocombustível. O valor seria determinado, assim, pelo preço do petróleo, já que ele altera a dinâmica de oferta e competitividade no mercado de combustíveis.
Ainda de acordo com o estudo, isso ocorre, pois os preços mais baixos do petróleo impactam diretamente as usinas e sua geração de valor. “Na sua essência, o RenovaBio proveria o impulso de longo prazo necessário para o etanol e a demanda de energia renovável, caso os preços do petróleo permaneçam em patamares reduzidos”, detalha.
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana