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Pecege prevê redução de 24% na produção de etanol por conta do coronavírus

Queda na receita deve ser de R$ 0,22 por litro de hidratado; açúcar também sofre impactos

NovaCana 10 min de leitura

Não há setor no mundo que não esteja sendo afetado pela pandemia do coronavírus. O cenário do começo do ano, que parecia otimista para o setor sucroenergético, modificou-se completamente com a guerra de preços entre a Rússia e a Arábia Saudita no mercado de petróleo se somando aos impactos do vírus na economia mundial.

O Programa de Educação Continuada em Economia e Gestão de Empresas (Pecege) analisou como o setor de açúcar e etanol tem se comportado e irá se comportar daqui em diante, considerando a situação atual. O estudo aponta que, como as reações dos mercados têm sido intensas, as projeções de preço e consumo tiveram pioras, especialmente para o etanol.

De acordo com a publicação, a geração de caixa de muitas usinas deve ser afetada com o novo panorama mundial. O rendimento financeiro com o açúcar, por exemplo, será impactado por conta de uma menor demanda. Já a queda no preço do ATR deve atingir diretamente os produtores de cana-de-açúcar.

Para o mercado de etanol, o Pecege vê uma redução de 24% na produção da safra 2020/21, caindo dos atuais 33 bilhões de litros para 25 bilhões. O relatório ainda afirma que a diminuição será mais drástica na produção de hidratado, já que o anidro acompanha o volume de vendas da gasolina.

Além disso, a expectativa é de uma perda de receita de R$ 0,2252 por litro de hidratado em relação a 2019. Assim, os preços do biocombustível devem ficar em patamares semelhantes aos vistos em 2017.

Confira, na versão completa, informações e gráficos com perspectivas de preço e demanda para os mercados de açúcar e etanol.

Não há setor no mundo que não esteja sendo afetado pela pandemia do coronavírus. O cenário do começo do ano, que parecia otimista para o setor sucroenergético, modificou-se completamente com a guerra de preços entre a Rússia e a Arábia Saudita no mercado de petróleo se somando aos impactos do vírus na economia mundial.

O Programa de Educação Continuada em Economia e Gestão de Empresas (Pecege) analisou como o setor de açúcar e etanol tem se comportado e irá se comportar daqui em diante considerando a situação atual. O estudo aponta que, como as reações dos mercados têm sido intensas, as projeções de preço e consumo tiveram pioras, especialmente para o etanol.

De acordo com a publicação, a geração de caixa de muitas usinas deve ser afetada com o novo panorama mundial. O rendimento financeiro com o açúcar, por exemplo, será impactado por conta de uma menor demanda. Já a queda no preço do ATR deve atingir diretamente os produtores de cana-de-açúcar.

Conforme o relatório, a pandemia já tem interrompido o fornecimento de produtos para algumas cadeias de produção, especialmente na área automotiva e de eletrônicos.

20203025 Síntese impactos

Peso do petróleo e da taxa de câmbio

Para o mercado de etanol, o Pecege vê uma redução de 24% na produção da temporada 2020/21, caindo dos atuais 33 bilhões de litros para 25 bilhões. Além disso, o relatório completa que a diminuição será mais drástica na produção de hidratado, já que o anidro acompanha o volume de vendas da gasolina.

Segundo o documento, dois itens são essenciais para analisar as consequências da pandemia para o setor de etanol: o preço do petróleo e a taxa de câmbio. Desde o início de 2020, o petróleo Brent vem sofrendo quedas, tendo acumulado uma redução de 59% até março.

A redução da demanda por conta da exigência de bloqueios para contenção do vírus e a guerra de preços, deflagrada pela relação entre Rússia e Arábia Saudita, são as principais causas do impacto. Por conta disto, o petróleo chegou a seu menor nível de preço de importação dos últimos quatro anos.

20203025 Preço do petroleo taxa cambial

Assim, a Petrobras também reduziu os preços da gasolina ao longo deste ano, tendo acumulado retrações de 40,5%. Conforme o Pecege, ainda há espaço para novas quedas de preço nas refinarias, já que nem todas as reduções do petróleo foram repassadas para o combustível fóssil.

“É inevitável que a retração do preço do petróleo tenha efeito negativo sobre os preços domésticos do etanol: os preços mais baixos da gasolina levarão a um aumento de seu consumo em detrimento do renovável. Aliás, o etanol hidratado vem perdendo competitividade em relação à gasolina nas bombas nas últimas semanas”, detalha o relatório.

Adicionalmente, há uma redução na margem de lucro com a produção de etanol. Para o Pecege, isso deve comprometer a geração de caixa das usinas sucroenergéticas nos próximos meses.

Queda no consumo e nos preços

Como a pandemia deve ter um impacto severo na economia – é estimada uma queda de 0,11% no Produto Interno Bruto (PIB) –, o consumo de combustíveis deve ser afetado. No mercado doméstico, a demanda para o Ciclo Otto normalmente acompanha o crescimento econômico; assim, no atual cenário de quedas, a redução estimada para o consumo é de 3,7%.

20203025 Vendas ciclo otto

Contrastando com 2019 – em que a participação do etanol no consumo foi recorde, alcançando 45,5% do total do Ciclo Otto –, o Pecege estima que 2020 traga uma queda na participação de mercado do etanol, para 37%.

Além disso, os analistas projetam uma perda de receita de R$ 0,2252 por litro de hidratado em relação a 2019. Com isso, os preços do biocombustível ficarão em patamares semelhantes aos vistos em 2017.

As usinas teriam, portanto, uma queda de quase 13% em seus preços líquidos recebidos, com uma redução de R$ 1,747/l para R$ 1,521/l. Para o Pecege, é possível que algumas empresas vivam uma “destruição de margens” para a produção e comercialização do etanol.

Para dar uma noção mais realista do panorama de preços do etanol hidratado, o documento traz uma simulação a partir do preço de R$ 1,38/l para a gasolina, conforme visto na refinaria de Paulínia (SP) em 19 de março.

Considerando a possibilidade de redução no valor em R$ 0,30/l, a fim de atender à paridade de importação, o preço da gasolina na bomba ficaria em R$ 3,66/l, segundo o Pecege. Se o etanol hidratado for comercializado dentro do limite de competitividade do biocombustível – ou seja, a 70% do valor da gasolina –, o preço do renovável na bomba seria de R$ 2,56/l. Por sua vez, o valor líquido recebido pelas usinas seria de R$ 1,52/l.

No final de fevereiro, conforme números do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq-USP, o valor pago às usinas pelo hidratado chegou a R$ 2,14/l; porém, ele tem apresentado queda desde então.

As projeções do Pecege para o etanol de milho não foram divulgadas. A entidade ainda está considerando o impacto de fatores que dificultaram a produção no primeiro trimestre deste ano: a redução do preço do petróleo, que diminui a competitividade do etanol, e o aumento no preço do milho.

Pandemia trava crescimento do açúcar

Antes da disseminação da pandemia do Covid-19, as perspectivas eram de melhora nos preços do açúcar em 2020. Agora, porém, o preço da commodity teve uma forte baixa na bolsa de Nova York.

Conforme o Pecege, existe uma correlação negativa de 0,67 entre os preços da commodity e os avanços da pandemia. Ou seja, quanto mais a contaminação cresce, mais os preços caem, afinal, a tendência de redução nos preços se dá justamente por conta dos impactos econômicos deflagrados pela doença.

20203025 Preços acúçar CasosCOVID

Também há uma expectativa de redução no consumo de açúcar devido à adoção de quarentenas e isolamentos, que podem restringir o consumo.

Ainda assim, a safra brasileira será mais açucareira ante a temporada anterior por conta da desvalorização do etanol. “As usinas que não conseguiram travar antecipadamente o preço do açúcar para a safra 2020/21, bem como aquelas que não possuem cogeração de energia, enfrentarão dificuldades para honrar compromissos financeiros e manter os níveis de investimento no campo e na indústria”, detalha o documento.

Além disso, há um risco potencial ligado aos embarques e ao escoamento do açúcar, caso portos e terminais sejam fechados como medidas para contenção do vírus.

20203025 Preços acúçar

O Pecege ainda lembra que, antes da deflagração da pandemia, os preços internacionais do adoçante estavam melhorando devido à maior produção de etanol pelas usinas brasileiras e à retração produtiva na Índia, na Tailândia e em outros grandes produtores e exportadores, principalmente por conta de adversidades climáticas. Juntos, estes fatores apontavam para um déficit mais acentuado no mercado global de açúcar, pressionando positivamente a cotação do produto.

No Brasil, o panorama positivo era somado ao fato de que o real está desvalorizado perante o dólar. Isso fez com que diversas usinas aproveitassem para fixar preços de açúcar para 2020/21 ou, em alguns casos, estendendo até mesmo para 2021/22.

“Esta conjunção proporcionou, por exemplo, no final de fevereiro de 2020, um preço FOB [Free on Board, quando o comprador assume todos os riscos e custos com o transporte da mercadoria] do açúcar acima de R$ 1.500 por tonelada. Trata-se de um valor que assegura boas margens econômicas para o adoçante frente às safras anteriores”, detalha o relatório.

Preços de ATR menores

Com a queda nos valores para venda de açúcar e etanol, a projeção do Pecege também estima uma redução nos preços do açúcar total recuperável (ATR). Para março, a entidade aponta um valor de R$ 0,6012 por quilograma de ATR – em janeiro, a projeção era de R$ 0,7196/kg.

No contexto anterior, o cenário era de um petróleo cotado a US$ 50 por barril, com etanol competitivo e expectativa de crescimento da economia brasileira de 1,77%, refletindo aumento no consumo do Ciclo Otto. “Em menos de dois meses, as expectativas são de (em termos de projeções) que o preço do ATR derreta em mais de 16%”, completa o relatório.

Com isso, o fornecedor de cana-de-açúcar terá uma remuneração inferior em 2020/21, na comparação com a safra atual.

20203025 ATR janeiroxATR março

Além disso, conforme o documento, destilarias autônomas, usinas com baixa capacidade de produção de açúcar e fornecedores de cana terão uma geração de caixa menor. Isso pode comprometer os investimentos no campo, aumentando a deterioração dos canaviais e reduzindo os ganhos nas próximas safras.

“Com o maior direcionamento do ATR para a produção do açúcar, as agroindústrias precisarão de um maior volume de recursos para capital de giro”, completa o relatório. Essa preocupação também já foi expressa pelas usinas, que colocaram a questão em uma lista de pedidos ao governo federal.

RenovaBio e o coronavírus

Conforme o Pecege, o RenovaBio só deve vigorar, efetivamente, em 2021, o que forçará as usinas sucroenergéticas a novos desafios na safra 2020/21..

Segundo a entidade, o valor do CBio deve cair em momentos de etanol mais competitivo e aumentar em momentos de preço do petróleo baixo. Esse comportamento deve “garantir a competitividade dos biocombustíveis e estimular a sua produção, mesmo em cenários de preços deprimidos do combustível fóssil, tal como vem se observando no primeiro trimestre de 2020”, projeta.

Com isso, a expectativa do Pecege é que o CBio funcione como um agente de equilíbrio competitivo entre combustíveis fósseis e renováveis, tendo o valor necessário para igualar o custo de produção do biocombustível. O valor seria determinado, assim, pelo preço do petróleo, já que ele altera a dinâmica de oferta e competitividade no mercado de combustíveis.

Ainda de acordo com o estudo, isso ocorre, pois os preços mais baixos do petróleo impactam diretamente as usinas e sua geração de valor. “Na sua essência, o RenovaBio proveria o impulso de longo prazo necessário para o etanol e a demanda de energia renovável, caso os preços do petróleo permaneçam em patamares reduzidos”, detalha.

Gabrielle Rumor Koster – NovaCana

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