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[Opinião] Açúcar está tão longe, mas tão perto dos 21 centavos de dólar por libra-peso

StoneX 11 min de leitura

Por Marcelo Di Bonifacio Filho*

O mercado de açúcar subiu por todo o “board” na última semana, dessa vez tanto em dólares quanto em reais. O contrato futuro de açúcar com vencimento em março de 2027 fechou em 20,85 centavos de dólar por libra-peso (60 pontos, ou 3% de valorização) na última sexta-feira, 16.

Já as telas de julho de 2027 e outubro de 2027 (importantes para o ciclo 2027/28 no Centro-Sul) valorizaram 52 e 44 pontos, respectivamente. O cenário evidencia uma curva cada vez mais invertida: o spread entre março e julho chegou a bater 144 pontos na terça-feira, 13.

Os preços em reais no mercado spot (sem prêmio de exportação, mas com polarização) tiveram uma alta de R$ 110/t, agora acima de R$ 2.400/t, e os contratos de 2027/28 já operam acima de R$ 2.200/t. Assim, eles apresentam relevante estímulo à fixação por parte das usinas brasileiras diante de margem atrativa e maior rentabilidade frente ao etanol, tanto no spot quanto pela curva futura.

A valorização do açúcar em reais se deu não somente pela elevação da curva futura na bolsa de Nova York, mas também pela desvalorização da moeda brasileira frente ao dólar durante a semana, ao contrário da semana anterior, que ainda refletia o primeiro turno das eleições presidenciais no Brasil.

O período eleitoral, por si só, traz uma volatilidade implícita, e certamente poderíamos ver novamente o dólar acima de R$ 5 no curto prazo, pelo menos momentaneamente, a depender dos resultados do segundo turno.

Chamo a atenção para dois pontos importantes para a desvalorização do real na semana:

  1. Cenário externo de aversão ao risco, com a escalada de conflitos geopolíticos pelo mundo, e contexto inflacionário nos Estados Unidos, que deve trazer aumento dos juros americanos no médio prazo
  2. Pesquisas de segundo turno têm mostrado diminuição da distância entre Lula e Flavio Bolsonaro, apesar de as chances ainda serem maiores para a vitória da oposição ao atual governo petista

Nesse sentido, com a correção no par real-dólar, a alta do contrato nº 11 (açúcar bruto) em Nova York foi motivada por fatores próprios, embora estes sigam apontando na mesma direção dos últimos meses. Ou seja, não tivemos novidades expressivas, mas continuamos em um cenário de reafirmações constantes sobre a percepção de aperto no mercado de açúcar, especialmente no médio prazo.

Algo que mudou na semana foi o patamar de preços, com o contrato para março de 2027 fechando duas vezes acima de 21 centavos de dólar por libra-peso (e tocando a máxima intradiária de 21,29 centavos de dólar por libra-peso na quarta-feira).

Na sexta-feira, 16, a tela de março de 2027 viu um movimento relevante de correção, chegando a tocar 20,50 centavos de dólar por libra-peso e a cair 3,1% no dia, indicando que os 21 centavos de dólar tendem a funcionar como resistência no curto prazo.

Contudo, considerando que ainda não entramos no período efetivo de entressafra no Centro-Sul e que as safras no Hemisfério Norte ainda estão começando, há, sim, espaço para a continuidade das altas, a depender do apetite dos fundos – não somente do apetite, vale dizer, mas da capacidade desses players de manter o elevado posicionamento comprado daqui para a frente.

Sobre os fundos, os dados da CFTC indicaram que, na semana de 6 a 13 de outubro, esses agentes aumentaram para 228,7 mil lotes o posicionamento líquido comprado, chegando a um recorde histórico na posição comprada bruta, de 425,7 mil lotes, superando o registrado no final de setembro de 2016.

Entendo que os especuladores encontram certo limite psicológico do lado comprado, mas ainda têm espaço para a cobertura de posições vendidas; entretanto, aumenta a exposição do mercado a uma reavaliação dos fundos, que poderiam liquidar parte desse posicionamento caso, por exemplo, algum fundamento se altere ou haja mudança em algum fator macroeconômico.

O petróleo Brent, nesse sentido, tocou US$ 110 por barril na sexta-feira, certamente ajudando a sustentar os preços do açúcar, e a tendência parece ser de fortalecimento do óleo bruto, dada a escalada dos conflitos não só no Irã, mas também na Ucrânia e na Rússia.

Índia: baixista ou altista?

Uma importante definição divulgada na sexta-feira foi o primeiro leilão das empresas comercializadoras de petróleo da Índia relativo à oferta de etanol para mistura no ciclo 2026/27 (novembro-outubro), que totaliza cerca de 11 bilhões de litros, mas não inclui etanol de melaço B ou de caldo de cana, ou seja, o biocombustível proveniente do “desvio de açúcar”.

Essa medida já vinha sendo antecipada pelo mercado, uma vez que a safra de cana deve registrar queda significativa e a produção total de açúcares pode não ultrapassar 29 milhões de toneladas, ficando muito próxima do consumo anual de açúcar branco indiano.

Tal notícia tende a soar baixista, afinal, as usinas indianas sairão de um desvio de 3 milhões de toneladas de açúcar para etanol em 2025/26 para zero na temporada seguinte. Nosso número de setembro mostrava uma produção de 29 milhões de toneladas de açúcar, com um desvio de 1 milhão de toneladas, ou seja, a oferta do adoçante poderia até crescer de 28,1 milhões de toneladas em 2025/26 para 29 milhões de toneladas em 26/27.

Entretanto, pelas estimativas atualizadas que vêm sendo divulgadas por órgãos estaduais indianos, é bastante provável que a produção total seja menor do que 29 milhões de toneladas. Ouvi, nesta semana, casas projetando uma oferta de apenas 26,5 milhões de toneladas, o que, acredito, ainda seria uma quebra muito forte; ainda acredito em 28 milhões de toneladas.

Outro ponto, que não diz respeito diretamente ao balanço global de açúcar, será a capacidade de a Índia cumprir o E20 na temporada 2026/27. Até setembro de 2026, dentro do ciclo 2025/26, o volume de etanol recebido pelas comercializadoras de petróleo era de cerca de 82% do total alocado nos leilões, com 9,9 bilhões de litros e 20% de mistura.

Restando apenas um mês da temporada 2025/26, é possível que a demanda por mistura fique perto de 11,1 bilhões de litros (abaixo do total alocado, de 12 bilhões de litros), mas em nível similar ao do primeiro leilão de 2025/26.

Desse total no ciclo corrente, 4,1 bilhões de litros vieram do milho e 2,2 bilhões de litros, do arroz – sendo 2,7 bilhões de litros provenientes do desvio de açúcar para etanol. Isso significa que, no mínimo, os grãos terão de compensar esses 2,7 bilhões de litros das usinas de cana, e esse será um grande desafio.

A Corporação de Alimentos da Índia (FCI) liberou cerca de 7,2 milhões de toneladas de arroz para a fabricação de etanol no ciclo 2026/27, acima das 5,2 milhões de toneladas de 2025/26, o que corresponderia a um aumento de apenas 1 bilhão de litros em relação à temporada atual.

Restaria ao milho, majoritariamente, preencher essa lacuna, algo extremamente desafiador, uma vez que as estimativas do USDA e do International Grains Council (IGC) indicam que a safra do cereal na Índia cairá para 50 milhões de toneladas em 2026/27, ou 5 milhões de toneladas abaixo de 2025/26, por conta dos efeitos negativos do El Niño neste ano.

As estimativas para o arroz também não parecem animadoras, com quedas previstas entre 4% e 5%, embora o cenário para esse grão seja menos preocupante devido ao elevado acúmulo de estoques na última safra.

No geral, entendo que a notícia do desvio zero de açúcar para etanol na Índia apenas reforça o cenário de escassez de matéria-prima no país para a fabricação do biocombustível e não deve gerar um efeito tão significativo na oferta interna de açúcar.

Será um grande desafio para o país cumprir o E20, considerando que a demanda por etanol é estável ou pode ter uma alta residual (natural, em razão do crescimento do mercado de combustíveis), e dificilmente o “desvio zero” evitará que a Índia precise importar açúcar novamente em algum momento de 2027.

Centro-Sul em alerta

Os dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) publicados ao final da quinta-feira, 15, com as informações relativas à segunda quinzena de setembro, trouxeram um volume de moagem de 38,6 milhões de toneladas no período, 1,2 milhões de toneladas abaixo do ano passado, apesar de um número similar de dias perdidos na comparação.

O resultado veio abaixo da expectativa da Inteligência da StoneX, que estava mais próxima de 42 milhões de toneladas de cana. Além da moagem, o teor de açúcar total recuperável (ATR) continua bastante depreciado em relação ao ano passado, alcançando um acumulado de apenas 134 kg/t, três quilos abaixo de 2025/26.

Apesar da moagem e do ATR abaixo do esperado, o mix açucareiro se recuperou e alcançou 53,1%, alta quinzenal de 3,8 pontos percentuais, uma vez que a segunda quinzena de setembro foi mais seca em comparação com a anterior e os preços vêm justificando maior destinação da matéria-prima ao adoçante.

Finalmente, o mix de produção de açúcar supera o de 2025/26, mas o acumulado ainda está em 47%, 5,2 pontos percentuais abaixo do ano passado. Os destaques foram os crescimentos do mix nos estados de São Paulo e de Minas Gerais, que atingiram 61% e 57,1%, respectivamente, no período.

Sobre os números para a safra 2026/27 (abril a março), pensando em um acumulado de 482 milhões de toneladas de cana até o final de setembro, 1,6% abaixo de 2025/26, precisaríamos de pelo menos 125 milhões de toneladas de cana moída neste último trimestre de 2026 para chegarmos em 635 milhões de toneladas (nossa estimativa).

Com isso, o Centro-Sul deve virar o ano com 607 milhões de toneladas no acumulado. Assim, o fechamento da temporada ficaria na conta da antecipação do início de 2027/28 e do quanto as usinas conseguirão (decidirão, ou estarão dispostas a) moer no primeiro trimestre de 2027.

Em um cenário hipotético, considerando que o período de outubro a dezembro será bastante chuvoso, dos 92 dias disponíveis, as usinas podem contar com cerca de 45 dias perdidos de colheita – ante uma média de dez anos de 31 dias, pelos nossos cálculos, levando em conta a extensão da safra até dezembro, como acontecerá neste ano.

Mesmo nessa hipótese, ainda é possível moer essas 125 milhões de toneladas, ficando bem longe da máxima do trimestre, observada em 2013/14, de 152 milhões de toneladas, ou da registrada em 2015/16, de 148 milhões de toneladas.

Em síntese, acredito ser precipitado pensar em uma moagem de 610 milhões de toneladas, por exemplo, sendo um volume acima de 620 milhões de toneladas o mais provável atualmente, e creio que as 630 milhões de toneladas serão alcançadas.

Do lado do ATR, será difícil atingirmos os 136 kg/t estimados em setembro, e o indicador pode até ficar mais próximo de 134 kg/t, ou até abaixo. Em 2015/16, por exemplo, o ATR acumulado até o final de setembro estava em 132,3 kg/t, fechando o ciclo em 130,5 kg/t no final de março. Em contrapartida, nosso mix, estimado em 46,1%, pode ficar entre 46,5% e 46,8%, compensando parte das perdas para o açúcar.

De todo modo, para atingir o nosso número de produção de açúcar, de 38 milhões de toneladas na temporada 2026/27, o Centro-Sul enfrentará o desafio de alcançar a cifra de 9,1 milhões de toneladas entre outubro e março.

Embora possível, esse resultado esbarra muito mais no ATR do que na moagem ou no mix, na minha opinião. Na média das últimas 15 safras, a oferta açucareira entre outubro e março foi de 7 milhões de toneladas, com a máxima em 2012/13, de 10,1 milhões de toneladas.

Diante das previsões de chuva para outubro e da potencial revisão na recuperação de sacarose, eu, particularmente, não descartaria uma produção de 37,5 milhões de toneladas. Também acho bastante exageradas as projeções de 36 milhões de toneladas que estão “pipocando”, as quais talvez estejam apostando em uma moagem mais próxima de 600 milhões de toneladas e/ou em um ATR e um mix ainda piores.

No final das contas, os resultados da safra, a piora já consolidada do ATR e as previsões de chuva dão respaldo às altas recentes do açúcar bruto em Nova York e ao comportamento dos fundos especulativos, que seguem fortemente comprados no açúcar.

Fica a ver se os dados de moagem de outubro e novembro serão capazes de corrigir o mercado (o que confirmaria que a escalada para os 21 centavos de dólar libra-peso estaria precificando uma quebra mais exagerada na produção de 2026/27), ou se esse trem do Centro-Sul já partiu e os agentes seguem olhando para outras variáveis.

* Marcelo Di Bonifacio Filho é economista e analista de inteligência de mercado na StoneX


Textos opinativos não necessariamente traduzem o posicionamento do NovaCana. A publicação visa estimular o debate e proporcionar uma variedade de pontos de vista para os leitores.

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