Atualização (21/05, às 8h): Ao texto abaixo, foram acrescidas as perspectivas de OIA e Datagro para o balanço global de açúcar.
O mercado global de açúcar está bem abastecido e não possui expectativas de escassez no curto prazo, com os altos preços atuais sendo apoiados pela safra do Brasil e pela grande posição comprada mantida por especuladores, algo que pode mudar em caso de mudança nos indicadores macroeconômicos.
Essa é a visão de operadores e corretores que analisaram o mercado atual do adoçante durante apresentação na Santander ISO Datagro New York Sugar and Ethanol Conference, nesta quarta-feira.
Eles concordaram que os contratos futuros do açúcar bruto negociados na ICE têm como um piso o preço de paridade do etanol com o açúcar para as usinas brasileiras, de cerca de 16,50 centavos de dólar por libra-peso, e um teto em torno de 19 centavos por libra-peso, dependendo de possíveis exportações não subsidiadas da Índia.
“As visões convergem para um intervalo semelhante”, disse o chefe de açúcar da Louis Dreyfus, Enrico Biancheri.
Entre os principais fatores para uma mudança no cenário estão uma deterioração ainda maior da safra brasileira, o que poderia causar pânico nos países de destino da commodity ou uma alteração no panorama macroeconômico nos Estados Unidos e Europa, com o aumento da inflação levando bancos centrais a subir taxas de juros – o que poderia desencadear uma liquidação por parte dos fundos.
“Se o macro reverter, você terá muitas vendas no mercado”, disse o diretor-gerente do Sucden Groupe, Thierry Songeur.
Já o vice-presidente sênior da corretora norte-americana JSG Commodities, Jeff Dobrydney, afirmou que o dólar mais fraco, em conjunto com fundamentos positivos, atraiu muito capital especulativo para os futuros do açúcar. Ele não espera que alguma mudança ocorra em breve.
“O tipo de gasto que nós temos nos EUA não me permite acreditar que haverá uma liquidação guiada pelos fundos no futuro próximo”, disse Dobrydney.
Biancheri acredita que parte do prêmio de risco atualmente embutido no mercado pode desaparecer se a safra do Brasil, no final das contas, não for um “desastre”.
Os operadores afirmaram que os próximos relatórios sobre a situação da safra, que foi afetada pelo tempo seco, trarão mais clareza sobre as perspectivas para o mercado.
Levando em consideração os fundamentos e o preço do açúcar nos mercados, algumas consultorias também aproveitaram o momento para divulgar números para o balanço global de açúcar nesta e na próxima safra.
O diretor executivo da Organização Internacional do Açúcar (OIA), José Orive, espera um déficit “considerável” no balanço global de 2020/21 (outubro a setembro), atingindo 4,2 milhões de toneladas. Ele acredita que os preços mundiais da commodity estão reforçando esta previsão.
Para isso, Orive acredita que a produção global deve encolher pelo terceiro ano consecutivo, atingindo 169,2 milhões de toneladas. Isso se deve, principalmente, à menor safra na Tailândia, à redução na produção de açúcar de beterraba na União Europeia e na Rússia, e à potencial queda na moagem brasileira.
“Assim, a produção global não deve ultrapassar a demanda, assumindo o retorno a um padrão normal dos hábitos de consumo após as primeiras ondas da pandemia de coronavírus”, completa o diretor.
O sócio da Datagro Ivan Melo Filho concorda com o déficit para a temporada corrente, porém menor, de 1,51 milhão de toneladas. Já para 2021/22, ele espera um superávit de 4,81 milhões de toneladas, acima do mais recente levantamento realizado pelo NovaCana, de 1,35 milhão.
“Passaremos de um pequeno déficit para um superávit, o que surpreende, e observaremos como o mercado e os preços vão refletir isso”, comenta Melo Filho. Os motivos para seus números são os superávits esperados na Tailândia, Índia, Austrália e Brasil, enquanto Europa e China apresentarão déficit nas duas safras.
Marcelo Teixeira
Com reportagem adicional de Rafaella Coury – NovaCana