Levantamento da Nações Unidas proporciona uma visão única (global e nacional) de para onde está indo o dinheiro no mercado de energia renovável. O cenário mostra que a atratividade dos biocombustíveis, incluindo o etanol, nunca foi tão baixa entre diferentes categorias de investidores
Nunca antes o mundo investiu tanto em energia renováveis e tão pouco em etanol e biocombustíveis. As Nações Unidas realizou um amplo levantamento e proporcionou uma visão única (global e nacional) de para onde está indo o dinheiro no mercado de energia renovável.
A organização mapeou mais de US$ 285 bilhões de dólares em investimentos. Para ter uma ideia mais clara de quem está apostando no quê, a entidade separou os investimentos entre os principais países e por fonte de recursos. Assim, é possível saber onde cada grupo colocou seu dinheiro: capital de risco, capital aberto, pesquisa privada, pesquisa governamental e fusões e aquisições.
A seguir:
- Dentro dos biocombustíveis, o que está atraindo os investidores
- As fusões e aquisições no setor de energias renováveis movimentaram mundialmente um valor recorde
- Os biocombustíveis no cenário global: evolução e participação
- As principais apostas de cada fonte de recurso: capital de risco, capital aberto, pesquisa privada, pesquisa governamental e fusões e aquisições.
- Gráficos e tabelas exclusivos resumem os dados
Nunca antes o mundo investiu tanto em energia renováveis. Um amplo levantamento do Programa de Meio Ambiente das Nações Unidas (Unep) mostra que em 2015 foram mais de US$ 285 bilhões de dólares destinados, principalmente, a energia solar e eólica. Na comparação com 2014, esses segmentos tiveram crescimento de 12% e 4%, respectivamente, somando sozinhos US$ 270,6 bilhões.
E os biocombustíveis? Considerados essenciais para que o Brasil atinja suas metas estabelecidas durante a Cop 21, eles receberam apenas US$ 3,1 bilhões de investimentos pelo mundo ao longo de 2015, uma queda de 35% em relação ao ano anterior. Esse valor é o mais baixo já contabilizado pelo estudo, que coleta esses dados desde 2004.
Esta queda segue uma tendência estabelecida a partir de 2008. Na ocasião, o segmento de biocombustíveis registrou um decréscimo de 33% nos investimentos mundiais, passando de US$ 28,3 bi para US$ 18,5 bi.

O Brasil, especificamente, investiu US$ 7,1 bilhões em energias renováveis ao longo de 2015, uma queda de 10% em relação aos US$ 8 bilhões de 2014. A Unep, contudo, não revelou qual é a participação dos biocombustíveis nesse montante.

Nos Estados Unidos e na Europa, segundo a Unep, a maior parte dos investimentos em biocombustíveis se dá por meio de pesquisas no etanol de segunda geração. Dos US$ 3,1 bilhões investidos mundialmente, US$ 2,1 bi ficaram concentrados nos países desenvolvidos, com o restante sendo controlado pelas nações em desenvolvimento – o que inclui o Brasil –, seguindo o padrão dos últimos anos.
Segundo o estudo, muitos investidores foram detidos pela queda no preço do petróleo observada ao longo de 2015, um quadro que foi somado às incertezas políticas nos Estados Unidos e às dúvidas sobre quanto dinheiro precisará ser investido e por quanto tempo. “É significativo que as quatro principais plantas de etanol celulósico nos Estados Unidos tenham sido desenvolvidas por grandes corporações, como a DuPont”, afirma.
Contudo, a Unep não deixa de ressaltar que, embora a capacidade de produção de etanol celulósico nos Estados Unidos fosse de 86 milhões de galões [325,5 milhões de litros] por ano, até o terceiro trimestre de 2015 a produção efetiva era de apenas 1,6 milhões de galões [6 milhões de litros].
Para analisar os investimentos realizados, a Unep separou os projetos dentro de algumas categorias. As relacionadas ao desenvolvimento de tecnologia incluem capital de risco e pesquisa e desenvolvimento, tanto dentro das companhias quanto em nível governamental. Também foram considerados os valores investidos em empresas de capital aberto e com fusões e aquisições.

Investimentos por empresas de capital aberto
Os investimentos das empresas de capital aberto caíram 21%, chegando a US$ 12,8 bilhões em 2015. “As ações dessas companhias viram um terreno de grande volatilidade em 2015, mas, coletivamente, elas acabaram o ano exatamente onde começaram”, resume o relatório.
Assim como nas demais categorias, os investimentos em energia solar mereceram destaque entre estas empresas. Com um crescimento de 21%, eles chegaram a US$ 10,1 bilhões – o segundo recorde consecutivo. Desse total, a norte-americana SunEdison, sozinha, foi responsável por US$ 2 bilhões. Por sua vez, a energia eólica cresceu 69% no último ano, indo para US$ 2 bilhões. Ainda assim, esse valor corresponde a apenas 20% do pico desse segmento, atingido em 2007.
Por sua vez, as empresas de biocombustíveis viram seus investimentos caírem pela metade pelo segundo ano consecutivo. Em 2015, os investimentos nesse segmento via capitais abertos atingiram apenas US$ 292 milhões.

Investimentos de capital de risco e fundos de capital privado
No segundo ano de crescimento em sequência, os investimentos de capital de risco e fundos de capital privado cresceram 34% entre 2014 e 2015, alcançando US$ 3,4 bilhões. Boa parte desse aumento foi motivada pela energia solar, que atingiu seus maiores níveis em sete anos graças às empresas norte-americanas especializadas em painéis fotovoltaicos para residências.
Mesmo com o preço do petróleo em queda, os fabricantes de biocombustíveis de segunda geração conseguiram atrair investimentos. “A grande busca no setor de biocombustíveis ainda é por uma produção em volumes comerciais com culturas não-comestíveis ou resíduos que seja competitiva com etanol de cana-de-açúcar, etanol de milho e combustíveis convencionais”, complementa o documento.
Assim, entre os investimentos de capital privados destacados está o da canadense Enerkem. A companhia assegurou um fundo de US$ 115,4 milhões para uma unidade de etanol celulósico produzido a partir de resíduos domésticos não recicláveis. Localizada em Edmonton, a usina já possui acordo com a administração da cidade para fornecimento de resíduos por 25 anos – e já está em estudo um segundo projeto em Montreal.
Além disso, embora os Estados Unidos sejam os líderes nessa modalidade de investimento, as empresas de energia limpa da Índia também chamaram atenção ao longo do relatório. Entretanto, em sua maior parte, os investimentos indianos foram em negócios orientados para a execução de projetos ao invés do desenvolvimento de tecnologias.

Investimentos na pesquisa e desenvolvimento
O montante investido na área de pesquisa e desenvolvimento (P&D), permaneceu praticamente inalterado em 2015 na comparação com o ano anterior. Foram US$ 9,1 bilhões ao longo do ano, mesmo com os preços em queda dos combustíveis fósseis e as instabilidades políticas. Ainda assim, o resultado foi 23% menor que o pico de US$ 11,7 bilhões estabelecido em 2013.
Especificamente com relação aos investimentos governamentais, P&D teve uma baixa de 3% na comparação com 2014, chegando a US$ 4,4 bilhões. Isso foi compensado por um crescimento equivalente de 3% na área corporativa, que alcançou US$ 4,7 bilhões.
Tradicionalmente, a Europa é líder nessa modalidade, mas o bloco registrou uma queda de 8% nos investimentos. Isso abriu espaço para que a China fosse capaz de desafiar o bloco pela primeira vez ao alcançar US$ 2,8 bilhões após um crescimento de 4%. Em terceiro lugar, os Estados Unidos cresceram 1% e somaram US$ 1,5 bilhões.
Por segmento, a energia solar segue na liderança com US$ 4,5 bilhões (crescimento de 1%), o equivalente a todas as outras modalidades de geração de energia somadas. A energia eólica alcançou US$ 1,8 bilhões, mantendo o resultado de 2014. Já os biocombustíveis caíram 3% e fecharam o ano com US$ 1,6 bilhões.
A princípio, a queda nos preços do petróleo prejudicaria especialmente os biocombustíveis, mas o relatório aponta os menores preços do gás natural também afetaram os investimentos nos segmentos de energia solar e eólica, apertando as principais energias renováveis do mundo. Também houve uma grande queda mundial com relação a subsídios e leilões, especialmente em países como Grã-Bretanha, Alemanha e África do Sul.
“Na prática, a posição do etanol em países como os Estados Unidos e o Brasil está assegurada pelos mandatos de mistura à gasolina, mas não seria surpreendente se a queda do petróleo levasse a alguma hesitação sobre projetos de pesquisa em biocombustíveis no futuro, tanto por companhias quanto governos”, complementa a Unep.
Ainda assim, o relatório acredita que as metas para 2016 da EPA foram capazes de manter o otimismo no país. “Para a maior parte do ano, no entanto, os conflitos de regulamentação afundaram o etanol celulósico perante o mais barato etanol de milho”, relembra. Com isso, empresas como Amyris, Solazyme e Gevo preferiram focar seus esforços em bioquímicos.

Investimentos através de fusões e aquisições
As fusões e aquisições no setor de energias renováveis movimentaram mundialmente um valor recorde de US$ 93,9 bilhões em 2015 – uma alta de 7% em relação ao ano anterior. “Um sinal de como o setor cresceu em termos tanto de vendas anuais quanto de capacidade instalada”, diagnostica o relatório.
Especificamente, a compra ou a incorporação de companhias foi responsável por US$ 19,2 bilhões (alta de 63%), o maior valor desde 2011. Já a compra de fundos privados registrou alta anual de 36%, alcançando US$ 3,5 bilhões.
No entanto, a maior parte do montante ficou a cargo das compras de ativos e dos refinanciamentos, um quadro que já era esperado pela Unep. Ela totalizou US$ 69,3 bilhões no último ano, um valor 3% abaixo do resultado recorde visto em 2014.
Os destaques nessa modalidade de investimento incluíram a compra dos negócios de energia renovável da multinacional E.On na Espanha e em Portugal. Eles foram adquiridos pelo fundo Macquarie por US$ 2,7 bilhões. Além disso, com um investimento de US$ 2 bilhões, a TerraForm Power foi responsável pela aquisição de mais de 90% do portfólio eólico da Invenergy nos Estados Unidos, que possui capacidade total de 1GW.
Além disso, as energias solar e eólica continuam na liderança pelos investimentos. Enquanto todos os diferentes setores registraram altas, as transações envolvendo empresas de biocombustíveis foram as únicas a terem queda em volume na comparação com o ano anterior, de 24%. No total, elas movimentaram US$ 1,7 bilhões em 2015, o menor valor desde 2005.

O estudo completo pode ser acessado aqui (.pdf).
Renata Bossle – NovaCana