A transição para uma economia de baixo carbono depende de investimentos que sejam financeiramente viáveis e de mecanismos que criem demanda por produtos com menor emissão de gases de efeito estufa, segundo o CEO da Yara International, Svein Tore Holsether.
“Não haverá transição verde com números vermelhos”, afirmou Holsether em entrevista a jornalistas brasileiros ao discutir os desafios para reduzir as emissões na cadeia de alimentos.
Segundo ele, projetos-piloto podem demonstrar a viabilidade de novas tecnologias, mas a expansão dessas soluções depende de modelos de negócio capazes de gerar retorno financeiro. “Qualquer empresa pode fazer pequenos pilotos e demonstrar o que é possível. Mas, se quisermos levar isso à escala, precisa ser rentável”, disse.
Para o executivo, empresas, governos e produtores rurais precisam atuar em conjunto para que tecnologias de menor emissão deixem de ser iniciativas pontuais e alcancem escala.
A declaração ocorre em um momento em que a indústria de fertilizantes busca reduzir as emissões associadas à produção de amônia, um dos principais insumos utilizados na fabricação de fertilizantes nitrogenados.
A Yara tem investido em alternativas de menor emissão, como a fábrica inaugurada na Holanda, mas também desistiu recentemente de um projeto de amônia de baixas emissões na Louisiana, nos Estados Unidos, após avaliar que o retorno esperado não era suficientemente atrativo.
Questionado sobre o que a decisão revela sobre o equilíbrio entre a ambição de descarbonização e a disciplina financeira, Holsether afirmou que a existência de um modelo econômico viável é necessária para que os investimentos avancem.
“Agricultores não podem assumir o custo sozinhos”
Para o CEO, a descarbonização da agricultura não pode depender apenas da capacidade de pagamento dos produtores rurais. Em alguns mercados de nicho, segundo ele, já existem modelos em que empresas de alimentos aceitam pagar um prêmio por produtos agrícolas com menor pegada de carbono.
“Para áreas de nicho, é possível quando você se conecta a empresas de alimentos que querem estar na liderança e estão dispostas a pagar um pouco mais pela colheita se ela tiver uma pegada de carbono menor”, afirmou.
Para alcançar uma adoção mais ampla, entretanto, Holsether considera necessários mecanismos regulatórios e incentivos públicos. “Para levar isso à escala, também precisamos de regulamentação. E esse é um chamado para a ação dos governos para apoiar isso”, disse.
O executivo destacou ainda que os agricultores estão entre os grupos mais diretamente expostos aos efeitos das mudanças climáticas, citando eventos extremos como enchentes, secas, ondas de calor e frio. Na avaliação dele, a redução das emissões no setor agrícola está ligada à resiliência do próprio sistema de produção de alimentos.
Demanda por produtos de baixo carbono
Holsether também apontou a necessidade de criar demanda por produtos de menor intensidade de carbono ao longo de toda a cadeia, da produção agrícola ao consumidor final. “Uma empresa não pode fazer isso sozinha. Nenhum governo pode fazer isso sozinho”, afirmou.
Para ele, é necessário considerar a cadeia de valor completa, “começando pelos fertilizantes e sementes até a prateleira do supermercado”. A lógica, segundo o CEO, é conectar os diferentes elos da cadeia para criar condições econômicas para a adoção de práticas de menor emissão.
Os governos, acrescentou, também têm papel na criação de demanda para produtos de baixo carbono. “Eles também têm um papel a desempenhar para criar demanda por produtos de baixo carbono e levar isso à escala”, disse.
Ele ainda complementa: “O Acordo de Paris está aí. Isso foi decidido politicamente. Mas também precisamos de ferramentas políticas para viabilizá-lo”.
Carbono como custo
Outro ponto defendido pelo CEO é a criação de mecanismos que atribuam um custo às emissões de carbono. Para Holsether, políticas climáticas precisam produzir condições de concorrência que não penalizem empresas que investem em redução de emissões.
Ele defendeu que o carbono seja incorporado aos custos das atividades econômicas. Nesse modelo, empresas poderiam optar entre emitir e pagar pelo carbono ou investir em tecnologias para capturá-lo e reduzir suas emissões.
“Precisamos de estruturas que apoiem isso, que criem condições de concorrência equilibradas, com o carbono como um custo para viabilizar essa transição”, disse.
Segundo Holsether, sem esse tipo de mecanismo, empresas que mantêm processos mais poluentes podem ter uma vantagem de custo sobre aquelas que investem para reduzir suas emissões. “A menos que haja um incentivo financeiro, aqueles que continuam poluindo terão uma posição de custo melhor do que aqueles que estão pagando para reduzir [as emissões]”, afirmou.
Gabriella Weiss