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O que muda para a Jalles Machado após o IPO, segundo agências de classificação de risco

S&P Global subiu nota da sucroenergética após oferta inicial de ações; já Fitch Ratings manteve classificação, mas acredita em elevação próxima

NovaCana 12 min de leitura

Com uma arrecadação de R$ 741,5 milhões em sua oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês), a Jalles Machado chamou a atenção da bolsa de valores para o agronegócio e, mais especificamente, para o setor sucroenergético. A entrada da companhia na B3 também fez com que ela fosse reavaliada por agências de classificação de risco.

A S&P Global Ratings, em relatório publicado no último dia 8, elevou a classificação da companhia, que passou de BB para AAA na escala nacional. Segundo a agência, a mudança foi motivada pela liquidez mais forte e pela baixa alavancagem da Jalles Machado após o IPO. Além disso, a perspectiva para a sucroenergética é estável, ou seja, a S&P não acredita que a nota será alterada em breve.

“Esperamos que a Jalles mantenha sua sólida eficiência operacional e flexibilidade, com baixo custo caixa de produção e portfólio de produtos de maior valor agregado, enquanto cresce organicamente e por meio de aquisições, financiada pelos recursos do IPO”, declara a S&P, no relatório.

Em um segundo documento, publicado em 10 de fevereiro, a agência ainda subiu a nota de três operações da Jalles Machado, que também chegaram à classificação AAA na escala nacional. Tratam-se de emissões de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) com vencimentos em abril e julho de 2021, e fevereiro de 2026. Em todos os casos, a sucroenergética é a única devedora.

A Fitch Ratings, por sua vez, optou por manter a nota da companhia, classificada como A+ na escala nacional. Entretanto, a perspectiva de crédito foi alterada de estável para positiva, indicando que pode haver uma elevação na próxima análise.

“A perspectiva positiva reflete a conclusão da oferta primária de ações da Jalles Machado, a qual permitirá à companhia financiar o seu plano de expansão, ao mesmo em que mantém indicadores de crédito conservadores para o setor”, afirma a Fitch. “A estratégia de crescimento da empresa fortalecerá seu modelo de negócios, com o aumento de escala de produção e maior diversificação geográfica”.

Leia mais no texto completo (exclusivo para assinantes):

- Destinação dos recursos e impactos nas finanças da companhia
- Projeções das agências para a Jalles Machado
- Análise de liquidez, dívida e alavancagem
- Características que favorecem a sucroenergética
- Perspectivas para o setor de açúcar e etanol

Com uma arrecadação de R$ 741,5 milhões em sua oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês), a Jalles Machado chamou a atenção da bolsa de valores para o agronegócio e, mais especificamente, para o setor sucroenergético. A entrada da companhia na B3 também fez com que ela fosse reavaliada por agências de classificação de risco.

A S&P Global Ratings, em relatório publicado no último dia 8, elevou a classificação da companhia, que passou de BB para AAA na escala nacional. Segundo a agência, a mudança foi motivada pela liquidez mais forte e pela baixa alavancagem da Jalles Machado após o IPO. Além disso, a perspectiva para a sucroenergética é estável, ou seja, a S&P não acredita que a nota será alterada em breve.

“Esperamos que a Jalles mantenha sua sólida eficiência operacional e flexibilidade, com baixo custo caixa de produção e portfólio de produtos de maior valor agregado, enquanto cresce organicamente e por meio de aquisições, financiada pelos recursos do IPO”, declara a S&P, no relatório.

Em um segundo documento, publicado em 10 de fevereiro, a agência ainda subiu a nota de três operações da Jalles Machado, que também chegaram à classificação AAA na escala nacional. Tratam-se de emissões de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs) com vencimentos em abril e julho de 2021, e fevereiro de 2026. Em todos os casos, a sucroenergética é a única devedora.

A Fitch Ratings, por sua vez, optou por manter a nota da companhia, classificada como A+ na escala nacional. Entretanto, a perspectiva de crédito foi alterada de estável para positiva, indicando que pode haver uma elevação na próxima análise.

“A perspectiva positiva reflete a conclusão da oferta primária de ações da Jalles Machado, a qual permitirá à companhia financiar o seu plano de expansão, ao mesmo em que mantém indicadores de crédito conservadores para o setor”, afirma a Fitch. “A estratégia de crescimento da empresa fortalecerá seu modelo de negócios, com o aumento de escala de produção e maior diversificação geográfica”.

Destino dos recursos

Segundo a Fitch, a expectativa é que os recursos obtidos com o IPO sejam totalmente utilizados no financiamento do plano de expansão da Jalles Machado, o que inclui ampliar a capacidade de moagem da usina matriz, em Goianésia (GO), em 1 milhão de toneladas de cana-de-açúcar por safra. O grupo ainda possui a unidade Otávio Lage, localizada no mesmo município.

Além disso, o plano também envolve a compra de uma terceira planta, com capacidade de moagem de até 3 milhões de toneladas. Conforme o relatório, a aquisição deve ser realizada em região diferente da que a Jalles Machado já opera e a nova usina deve apresentar um mix de originação de cana mais equilibrado.

“O IPO viabilizará o crescimento”, declara a S&P. Conforme descrito pela agência, nos próximos três anos, a Jalles Machado destinará pouco mais da metade dos recursos para expandir a capacidade de moagem e o valor remanescente será utilizado para a compra de uma usina em outro estado.

“Isso aumentará a escala e a diversificação geográfica da Jalles, embora os níveis historicamente elevados de eficiência operacional possam ser ligeiramente afetados enquanto a empresa ajusta as operações da nova usina”, observa a agência.

Atualmente, a Jalles Machado possui uma capacidade de moagem de 5,4 milhões de toneladas por safra. Com a nova usina e a expansão prevista, conforme cálculos da Fitch, este volume pode chegar a até 9,4 milhões de toneladas.

“Ambos os investimentos, se concretizados, permitirão à Jalles Machado elevar sua capacidade de moagem, além de maior diversificação geográfica, fortalecendo a sua geração de caixa e reduzindo riscos climáticos na produção canavieira”, conclui a Fitch.

O relatório da agência reforça que a Jalles Machado possui um portfólio equilibrado e se beneficia da presença de produtos de alto valor agregado, como açúcar orgânico e cristal de marca – este último, com presença no varejo regional.

A análise da S&P vai na mesma direção: “Fatores sociais beneficiam o perfil de crédito da Jalles em maior grau do que seus pares, visto que a empresa é uma das poucas produtoras de açúcar orgânico no mundo – um produto de nicho com alto prêmio de preço sobre o tradicional”. Segundo a agência, este posicionamento compensa um possível declínio no consumo de açúcar não orgânico no futuro. Além disso, a S&P acredita que a sucroenergética tem alta flexibilidade para mudar seu mix de produção para o etanol.

A Fitch ainda observa que a Jalles Machado atua com incentivos fiscais concedidos pelo estado de Goiás. Com isso, a companhia obtém descontos em impostos estaduais, além de ter custos mais baixos para o arrendamento de terras na comparação com São Paulo.

Projeções para a Jalles Machado

Segundo a Fitch, a Jalles Machado deve registrar Ebitda (lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização) de R$ 715 milhões em 2020/21 e de R$ 745 milhões em 2021/22, com margens Ebitda em cerca de 68%. Estes resultados representam uma tendência de crescimento ante o Ebitda de R$ 558 milhões e a margem de 63% registrados em 2019/20.

Com isso, o fluxo de caixa livre da companhia deve ser de R$ 152 milhões em 2020/21. Entretanto, a estimativa é que este resultado passe a ser negativo em mais de R$ 100 milhões na safra seguinte devido aos investimentos em expansão.

As projeções, segundo a agência, incorporam investimentos de aproximadamente R$ 640 milhões em 2021/22 e de R$ 530 milhões em 2022/23. O cenário da Fitch, entretanto, não considera a potencial aquisição de uma usina.

Ainda segundo os números apresentados pela Fitch, a Jalles Machado deve reportar, em 31 de março de 2021, uma dívida de curto prazo de R$ 529 milhões, uma dívida líquida de R$ 115 milhões e uma alavancagem líquida de 0,2 vez. “A Fitch acredita que a Jalles Machado usará sua satisfatória capacidade de refinanciamento para amortizar parte da dívida que vence até setembro de 2022, estimada em mais de R$ 700 milhões”, completa.

Além disso, estes resultados projetados são considerados melhores em comparação com a alavancagem de 1,7 vez registrada entre 2016/17 e 2019/20, e com a dívida ajustada de R$ 1,6 bilhão contabilizada em 30 de setembro de 2020.

“O risco cambial é bem administrado, uma vez que aproximadamente 25% da receita provêm do açúcar orgânico exportado e os pagamentos de principal e juros até 2025/26 estão protegidos por uma combinação de ativos e derivativos denominados em dólares”, aponta a Fitch, que completa: “Historicamente, a Jalles Machado tem bom acesso a financiamentos de longo prazo, tanto no mercado bancário doméstico quanto no de capitais, sem necessidade de garantias reais”.

A perspectiva da S&P, por sua vez, é de que a Jalles mantenha o índice de dívida ajustada sobre Ebitda entre 1 vez e 1,5 vez. A agência ainda espera uma geração interna de caixa sobre dívida acima de 45% e um fluxo de caixa operacional livre sobre dívida “ligeiramente positivo”, mesmo com os investimentos em expansão projetados para os próximos três anos.

Segundo a S&P, a Jalles Machado tem mantido uma liquidez resiliente que será reforçada pelo IPO. Conforme o relatório, a sucroenergética tem um “colchão de liquidez confortável” para lidar com a volatilidade do setor, o que teria possibilitado o alongamento gradual dos vencimentos de dívida mesmo em meio à pandemia de covid-19.

“O IPO fortalecerá ainda mais a liquidez da empresa, com caixa mais do que suficiente para cobrir os vencimentos dos próximos quatro anos. Isso nos levou a alterar nossa avaliação de liquidez da Jalles para adequada”, afirma.

No campo, a expectativa da Fitch é que o rendimento agrícola da sucroenergética siga em linha com a média histórica. A agência ainda espera moagens de 5,4 milhões de toneladas de cana em 2020/21 e 2021/22, o que representa crescimento frente às 5,1 milhões de toneladas vistas na safra passada.

“No entender da Fitch, os produtos de alto valor agregado da Jalles Machado, combinados ao seu forte desempenho operacional e ao foco na produção de açúcar, lhe permitiram reduzir as pressões em seu fluxo de caixa das elevadas volatilidades causadas pela pandemia de coronavírus em boa parte da produção em curso”, expressa o relatório.

Pelas projeções da agência, a companhia destinará 48% de sua sacarose para a produção de açúcar em 2020/21 e 52% em 2021/22, além de comercializar “com prêmios atraentes” volumes “relativamente elevados” dos açúcares branco e orgânico no varejo. “A produção de açúcar orgânico deve chegar a 1,8 milhão de sacas a partir do exercício fiscal de 2021”, estima.

O relatório da S&P também considera um mix de produção açucareiro. “Esperamos que a Jalles continue maximizando a produção de açúcar, pois seu diferencial de preços em relação ao etanol continua favorável, embora os preços do etanol continuem robustos devido à desvalorização do real e à recuperação do petróleo”, afirma.

A agência ainda complementa que, embora o setor esteja sujeito a condições climáticas adversas, a Jalles Machado mitiga os riscos de estiagem com sua capacidade de irrigação.

Perspectivas para o setor

De acordo com a Fitch, o setor sucroenergético como um todo deve apresentar melhoria em 2021. Pelas projeções da agência, os preços internacionais do açúcar ficarão, em média, em cerca de 13,5 centavos de dólar por libra-peso em 2021, ante os 13 centavos vistos em 2020.

“Os elevados patamares de precificação do açúcar já negociados pelas usinas e a manutenção de uma moeda local enfraquecida devem continuar beneficiando a geração de Ebitda dos produtores brasileiros”, aponta.

Já a S&P projeta uma inflação de 3,9% em 2021 e de 3,5% em 2022, o que deve afetar os custos com mão de obra. Ao mesmo tempo, a taxa de câmbio deve ser, em média, de R$ 5,30/US$ em 2021 e de R$ 5,17/US$ em 2022.

Estas condições econômicas e as fixações de preço e câmbio já negociadas pelas usinas devem possibilitar preços médios de açúcar VHP de R$ 1.270/t em 2020/21 e de R$ 1.610/t em 2021/22. Por sua vez, o branco será negociado por valores em torno de R$ 1.400/t e R$ 1.750/t nas duas safras em questão. E o orgânico – produto comercializado pela Jalles Machado – deve ser negociado por, aproximadamente, R$ 3.200/t em 2020/21 e R$ 3.500/t em 2021/22.

Além disso, a S&P projeta preços médios do etanol anidro e hidratado para 2020/21: R$ 2,00 e R$ 2,14 por litro, respectivamente. Segundo a agência, estes valores devem variar de acordo com os preços internacionais do petróleo e a taxa de câmbio média.

Para a Fitch, haverá uma recuperação dos preços do petróleo em 2021 – para US$ 45/barril –, o que deve elevar a competitividade do etanol. Ao mesmo tempo, a flexibilização das medidas de distanciamento social deve contribuir para o aumento da demanda por combustíveis. “À medida em que os fundamentos do setor se fortalecerem, as condições de crédito deverão se tornar mais favoráveis para as companhias”, complementa.

Outro aspecto que deve impactar o setor de açúcar e etanol, segundo a S&P, é o andamento do programa RenovaBio. “O programa mede a sustentabilidade das operações das empresas, remunerando as usinas por meio de certificados (CBios) de acordo com a quantidade de emissões de carbono para cada litro de biocombustível produzido”, descreve.

Renata Bossle – NovaCana

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