Em seu relatório de perspectivas para o setor sucroenergético, publicado no final do ano passado, a agência de classificação de risco Fitch Ratings citou dez tópicos de atenção para 2023. Entre eles: a disponibilidade de fontes de financiamento, a perspectiva de geração de caixa, a redução da alavancagem líquida e as limitações para fusões e aquisições.
“Embora o cenário operacional não deva se deteriorar em 2023, a potencial volatilidade dos mercados financeiros, juntamente com as elevadas taxas de juros, pode limitar o acesso a linhas de crédito e pressionar a liquidez das companhias com maiores riscos de refinanciamento”, alertava a companhia.
No mesmo documento, a Fitch também estava ciente de que todos estes pontos precisam levar em conta uma característica do setor: a heterogeneidade. Afinal, enquanto algumas companhias têm acesso a diversas fontes de financiamento e podem se beneficiar do atual momento de preços elevados, outras seguem em dificuldade de obter recursos e frequentemente dependem de liquidez mais imediata nas vendas.
Estas e outras especificidades das sucroenergéticas devem ser abordadas com profundidade na Conferência NovaCana 2023, que acontece em São Paulo (SP) nos dias 4 e 5 de setembro. O painel sobre saúde financeira, investimentos, margens, liquidez, consolidação e diversificação já tem os seguintes palestrantes confirmados: Thiago Duarte, analista de equity do BTG Pactual; Manoel Pereira de Queiroz, superintendente de agronegócio do Banco Alfa; e Guilherme Bellotti de Melo, gerente de agronegócio do Itaú BBA.
Por enquanto, como os resultados referentes a 2022/23 ainda não foram apresentados por boa parte das empresas, vale a pena dar uma nova olhada em como as companhias encerraram a temporada anterior. Em setembro, um levantamento do NovaCana trouxe 20 indicadores de desempenho de 24 sucroenergéticas – a seguir, confira cinco deles.
A capacidade das empresas para gerar caixa pode ser medida por meio da relação entre o Ebitda (lucro antes dos juros, impostos, depreciação e amortização) e a moagem. O resultado é referente a quanto a companhia ganha por tonelada de cana moída – assim, quanto mais alto o indicador, melhor o desempenho.
Neste quesito, dentre as companhias analisadas pelo NovaCana, a Jalles foi a que apresentou o maior número em 2021/22, com um Ebitda de R$ 205,01 por tonelada de cana moída. Em seguida, o segundo melhor resultado no quesito ficou com a CerradinhoBio, com R$ 203,86/t, um aumento anual de 60,8%.

Apenas estas duas companhias tiveram desempenhos acima dos R$ 200/t, outras 13 obtiveram ganhos entre R$ 100/t e R$ 200/t e cinco ficaram abaixo de R$ 100/t. Em uma média simples das 20 empresas analisadas, o ganho foi de R$ 138,94/t, consideravelmente acima da média de um ano antes, que não atingiu R$ 100/t.
A campeã disparada em receita em 2021/22 foi a Raízen Energia, com ganhos de R$ 50,37 bilhões. O número também rendeu à companhia a maior relação entre receita e moagem, de R$ 661,38/t, valor 26,7% acima dos R$ 522,22/t de um ano antes. O processamento da sucroenergética foi de 76,16 milhões de toneladas na temporada.
O segundo melhor desempenho, por sua vez, foi da CerradinhoBio, que obteve R$ 496,99 de receita por tonelada de cana. A companhia teve uma alta anual de 149,2%.

Este indicador operacional mensura o quanto as empresas receberam com as vendas dos seus produtos no comparativo com a sua matéria-prima esmagada. Dentre as 24 empresas avaliadas, oito delas tiveram performances acima de R$ 300/t e as outras 16 ficaram acima de R$ 200/t.
Já no comparativo entre os custos dos produtos vendidos e a moagem, ou seja, o quanto as empresas gastaram na fabricação dos seus produtos em relação à matéria-prima disponível, a Melhoramentos teve o valor mais favorável, de R$ 134,53/t.
A Jalles, segunda colocada dentro da amostra, apresentou um desempenho de R$ 136,12/t – ainda assim, o montante demonstrou um aumento anual de 10% no comparativo anual.

Das 24 empresas, 16 delas tiveram despesas inferiores a R$ 200/t. A Raízen foi a que apresentou os gastos mais elevados, de R$ 601,9/t, ficando 30,1% acima dos R$ 462,49/t de um ano antes.
O resultado líquido de uma empresa – que, diferentemente do Ebitda, considera juros, impostos, depreciações, amortizações e demais itens que a empresa enxerga como não pertinentes para avaliar o seu desempenho operacional – também é importante em uma análise de indicadores.
Em 2021/22, o melhor desempenho em relação à moagem foi o da Santa Lúcia, com uma relação de R$ 125,88/t. Um ano antes, o valor foi de R$ 53,34/t; portanto, houve um aumento de 136,02%.

A seguir, está a CerradinhoBio, com R$ 97,33/t. No ano anterior, o valor foi de R$ 52,86/t e, portanto, o número passou por uma ampliação de 84,15%.
O comparativo entre a posição da dívida líquida no encerramento da safra e a moagem demonstra o peso do endividamento frente ao desempenho dos canaviais.
Em 2021/22, a Santa Lucia demonstrou o melhor resultado, com R$ 13,73/t. A Jalles veio em seguida, com R$ 27,44/t.

Dentro da amostra, seis empresas contabilizaram dívidas inferiores a R$ 100/t. Outras 14 ficaram com débitos entre R$ 100/t e R$ 200/t.
Saiba mais sobre a saúde financeira das sucroenergéticas na sexta edição da Conferência NovaCana, que será realizada em São Paulo nos dias 4 e 5 de setembro de 2023. As inscrições já estão abertas e a programação completa está disponível no site do evento.
Renata Bossle e Gabrielle Rumor Koster – NovaCana