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Mercado de etanol californiano é alternativa para usinas brasileiras em momento de crise

Preços, logística e câmbio são alguns dos fatores que chamam a atenção das usinas brasileiras interessadas em programa do estado norte-americano

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Com a redução na demanda doméstica por biocombustíveis, o que tem impacto direto nos preços, muitas usinas procuram alternativas para garantir sua rentabilidade. Priorizar a fabricação de açúcar em detrimento do etanol – decisão, em alguns casos, tomada antes mesmo da crise instituída pela pandemia de covid-19 –, é uma destas oportunidades. Outra delas é a exportação do biocombustível.

Para aproveitar o mercado externo de etanol, uma das melhores opções disponíveis para as usinas é a Califórnia. O governo do estado oferece um prêmio por créditos de descarbonização de forma semelhante à proposta pelo RenovaBio: o Padrão de Combustíveis de Baixa Emissão de Carbono (LCFS), programa desenvolvido pelo Conselho de Qualidade do Ar da Califórnia (Carb) e vigente há nove anos. E as unidades que têm interesse em participar precisam passar por um processo de certificação.

No caso das sucroenergéticas brasileiras, a questão vai além do ingresso no programa. Para saber se a exportação é vantajosa entram na conta fatores como o câmbio, o preço no mercado interno, a arbitragem com o açúcar e a capacidade logística, além do prêmio oferecido pelo programa.

O grande argumento em relação à exportação, obviamente, é financeiro. Quando o produtor brasileiro decide exportar para a Califórnia, tendo sua rota cadastrada no programa, ele tem acesso a um prêmio referente aos créditos de carbono. Atualmente, o valor de um crédito está próximo a US$ 170, conforme o sócio fundador da Green Domus, Felipe Bottini.

Com o dólar acima de R$ 5, este valor chega a quase mil reais por crédito. “Fazendo uma conta simples, na qual mil litros de etanol geram um crédito, eu estou transformando mil litros em mil reais, ou seja, um real por litro. É um valor muito significativo. Para o RenovaBio, estimamos entre 15 e 20 centavos por litro, então a Califórnia traz um ganho maior,” detalha Bottini.

O CEO da SCA Trading, Martinho Ono, também destaca o câmbio, que ele considera como “extremamente desvalorizado” e favorável à exportação. Ele ainda ressalta que os preços do etanol no mercado interno estão muito baixos. “Ano passado, com o etanol valorizado internamente e com o câmbio não tão atrativo, já exportamos um bom volume”, lembra.

Porém ainda fica a dúvida se o mercado americano de fato precisará de tanto etanol. “Este ano, você tem uma outra conta. O etanol produzido no Brasil e exportado para os EUA remunera mais do que o mercado interno brasileiro? Sim. Mas é mais do que o açúcar? A conta já começa a complicar. É melhor você colocar o ATR para o etanol no Carb ou para o açúcar?”, questiona.

Confira, na versão completa (exclusiva para assinantes), a opinião de analistas sobre as vantagens e desvantagens da exportação para a Califórnia e outras estratégias que podem ser vantajosas para as usinas neste momento.

Com a redução na demanda doméstica por biocombustíveis, o que tem impacto direto nos preços, muitas usinas procuram alternativas para garantir sua rentabilidade. Priorizar a fabricação de açúcar em detrimento do etanol – decisão, em alguns casos, tomada antes mesmo da crise instituída pela pandemia de covid-19 –, é uma destas oportunidades. Outra delas é a exportação do biocombustível.

Para aproveitar o mercado externo de etanol, uma das melhores opções disponíveis para as usinas é a Califórnia. O governo do estado oferece um prêmio por créditos de descarbonização de forma semelhante à proposta pelo RenovaBio: o Padrão de Combustíveis de Baixa Emissão de Carbono (LCFS), programa desenvolvido pelo Conselho de Qualidade do Ar da Califórnia (Carb) e vigente há nove anos. E as unidades que têm interesse em participar precisam passar por um processo de certificação.

No caso das sucroenergéticas brasileiras, a questão vai além do ingresso no programa. Para saber se a exportação é vantajosa entram na conta fatores como o câmbio, o preço no mercado interno, a arbitragem com o açúcar e a capacidade logística, além do prêmio oferecido pelo programa.

O grande argumento em relação à exportação, obviamente, é financeiro. Quando o produtor brasileiro decide exportar para a Califórnia, tendo sua rota cadastrada no programa, ele tem acesso a um prêmio referente aos créditos de carbono. Atualmente, o valor de um crédito está próximo a US$ 170, conforme o sócio fundador da Green Domus, Felipe Bottini.

Com o dólar acima de R$ 5, este valor chega a quase mil reais por crédito. “Fazendo uma conta simples, na qual mil litros de etanol geram um crédito, eu estou transformando mil litros em mil reais, ou seja, um real por litro. É um valor muito significativo. Para o RenovaBio, estimamos entre 15 e 20 centavos por litro, então a Califórnia traz um ganho maior,” detalha Bottini.

Em 2019, o Brasil exportou aproximadamente 1,9 bilhão de litros de etanol, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Deste volume, 1,2 bilhão foi destinado para os Estados Unidos e, de acordo com o CEO da SCA Trading, Martinho Ono, 750 milhões de litros foram encaminhados para o programa californiano.

Conforme Ono, os volumes de exportação poderiam ter sido ainda maiores não fosse um incêndio que ocorreu em um dos portos da Califórnia, limitando as exportações a partir de outubro. “Nós vínhamos em um patamar de 150 milhões de litros de etanol anidro durante o período entre maio até outubro. Depois desse incêndio, caiu”, relata.

Segundo os dados divulgados pela ANP, os volumes mensais foram superiores a 100 milhões de litros entre maio e outubro do ano passado, chegando a superar os 200 milhões em agosto. Em novembro, a quantia caiu para 90,7 milhões e, em dezembro, para 66,21 milhões.

Não há fontes oficiais que apontem a quantia exata de etanol brasileiro que foi para o estado californiano. Segundo o Carb, o volume consumido de etanol de cana-de-açúcar e de melaço foi de 739,09 milhões de litros em 2019. Deste total, a maior parte é proveniente do Brasil.

Certificacao california exportacao br consumo eua

Já os volumes de exportação de etanol brasileiro para os Estados Unidos variam entre os dados brasileiros e estadunidenses. A Agência de Informação de Energia (EIA, na sigla em inglês) divulgou que 738,35 milhões de litros de etanol brasileiro foram importados pelo país no ano passado, quase 40% a menos do que o declarado pela ANP.

Uma possível explicação para o volume divulgado pela agência americana ser menor do que o da brasileira está no fato de que a EIA não contabiliza o produto que é reprocessado no país e novamente exportado para mercados como o Japão.

É vantajoso? Depende

O mercado de etanol da Califórnia pode ser uma opção para as usinas brasileiras, mas isso depende de diversas variáveis.

Segundo Martinho Ono, o câmbio é uma delas. Atualmente, ele está desvalorizado, o que favorece a exportação. Outro ponto é que os preços do etanol no mercado interno estão muito baixos. “Não sei se o mercado vai continuar com os valores que praticamos desde a segunda quinzena de março e no primeiro mês da safra [abril]: preços lá na lona. O etanol brasileiro ficou muito barato. Não é normal estarmos vivendo algo assim”, relembra.

Portanto, levando em conta a valorização cambial e o prêmio oferecido pelo programa californiano, Ono considera que, atualmente, a arbitragem é boa. “Ano passado, com o etanol valorizado internamente e com o câmbio não tão atrativo, já exportamos um bom volume”, lembra.

Porém não é apenas isso que compõe o cenário. Fica a dúvida se o mercado americano de fato precisa de tanto etanol no atual momento. Afinal, mesmo com a remuneração mais vantajosa, é difícil prever o apetite do mercado externo pelo biocombustível brasileiro.

“Todas as projeções que o mercado fez são anteriores à covid-19 e não sabemos o que vai acontecer. Mas sabemos que a demanda por biocombustíveis caiu no mundo inteiro e que o preço está caindo. Tem a questão da competitividade”, completa Bottini.

Assim, se o etanol brasileiro continuar sendo mais barato que o americano, o profissional acha que segue existindo uma janela de oportunidade para o primeiro, ainda que com depressão de preços. Ele também considera que o setor estadunidense de etanol enfrenta problemas por conta da gestão atual, que não o favorece a nível nacional.

Por outro lado, conforme Ono, a exportação exige um investimento logístico e nem todas as usinas estão preparadas para exportar um volume maior do que o visto em 2019. Há empresas que precisam alugar espaços de tancagem no porto e, em alguns casos, possuem compromissos com navios para levar o produto, o que torna o processo complexo. “Por isso, eu não vejo um estímulo acentuado de usinas querendo exportar”, declara.

Uma estratégia usada por algumas companhias, ainda de acordo com ele, é procurar outras usinas certificadas e realizar o embarque do produto de forma conjunta, reduzindo custos logísticos.

Exportação de etanol ou de açúcar

Ainda de acordo com Ono, o etanol a ser enviado para o mercado californiano depende da capacidade produtiva das usinas e do atendimento ao mercado brasileiro. No ano passado, o profissional considerava a transação válida, já que a produção de etanol estava maximizada e a perspectiva de lucro – combinada com a perspectiva de menos produto no Brasil, melhorando o preço doméstico –, era vantajosa. Em resumo, a estratégia de exportação estava reforçada porque o etanol já estava remunerando bem no Brasil, inclusive mais que o açúcar.

“Este ano, você tem uma outra conta. O etanol produzido no Brasil e exportado para os EUA remunera mais do que o mercado interno brasileiro? Sim. Mas é mais do que o açúcar? A conta já começa a complicar. É melhor você colocar o ATR para o etanol no Carb ou para o açúcar?”, questiona e esclarece: “Depende da fixação [de preço] feita. E eu digo que, provavelmente, a usina vai preferir o açúcar”.

O analista também observa que o número de empresas que exporta etanol não é tão elevado, destacando grandes grupos como Raízen, Cofco, Biosev e BP Bunge. Além destas companhias, outras 26 têm rotas certificadas no programa, de acordo com o Carb.

“De 2013 para cá, as exportações têm se concentrado em poucos players no Brasil. As tradings que tínhamos na década passada acabaram desaparecendo; hoje, temos a Raízen e a Copersucar com mais de 80% do mercado”, pontua Ono.

Além disso, o executivo afirma que estas empresas também são grandes produtoras de açúcar, ou seja, podem optar pelo adoçante caso ele seja economicamente mais vantajoso, ao invés de realizar a exportação de etanol.

“Para mim, na melhor das hipóteses, nós vamos repetir a exportação que fizemos no ano passado, que foi na ordem de 700 a 750 milhões de litros [para o Carb]. Eu não vejo mais que isso. No total, voltar a fazer um bilhão, 1,1 bilhão de etanol para exportação”, considera o CEO da SCA.

De qualquer modo, segundo Ono, as usinas que têm oportunidades pontuais de enviar o produto para o mercado externo devem fazê-lo. “Tem que aproveitar este momento em que o mercado interno está com pouca demanda e preço depreciado. Se tiver a oportunidade de exportação, faça”, completa o CEO da SCA.

Para ele, o envio para o mercado externo também é uma oportunidade para reduzir a pressão interna. “Isso não é para todo mundo, nem todos estão certificados e têm a oportunidade de exportar, mas para quem tem, creio que é o que tem que ser feito. Onde o usineiro tiver margem melhor, deve fazer a sua liquidez”.

Estratégias para enfrentar a crise

Ono ainda enxerga que as usinas estão tomando boas decisões dado o momento de crise. “Retroagindo para fevereiro, no início da pandemia, o setor estava otimista para este ano e o produtor ia ter muita dificuldade de escolher a distribuição do ATR para o açúcar ou para o etanol”, lembra e completa: “De repente, a coisa mudou totalmente, com o preço do petróleo derretendo e demanda reprimida, e o produtor que tinha alguma esperança de vender etanol acabou recuando”.

Desta forma, o executivo acredita que o caminho é a maximização da produção de açúcar. O principal argumento é a diferença nos preços, mas é preciso observar se haverá demanda e logística para colocar o produto no mercado.

Quanto ao etanol, Ono estima que as usinas podem passar o primeiro trimestre da safra sem realizar vendas. Como este deve ser o período de maior depressão na demanda e nos preços, a estratégia pode se mostrar mais vantajosa. “Adiante me parece que vai ter melhor remuneração do que no início da safra. Não tem muita magia, acho que essa é a regra que está na mão de tudo mundo”, considera.

Ainda assim, há muitas questões que tornam difícil prever o comportamento do mercado. “Uma pergunta feita diariamente é qual será a demanda por etanol e gasolina no mercado interno. Tudo está conectado ao processo de quando nós vamos voltar da pandemia e como vamos voltar em relação à atividade de consumo”, detalha Ono, que completa: “Todos estão falando que teremos um novo jeito e ambiente de viver”.

Conforme o analista, a maior preocupação coletiva com a qualidade do ar e com o meio ambiente, dada a melhora decorrente do período de isolamento, valoriza os biocombustíveis. Ainda assim, a retração do consumo é tida como certa, independentemente do país.

“A demanda de biocombustível vis-à-vis com a produção, especialmente americana e brasileira, como líderes do processo, vai ser reduzida em relação ao período anterior à pandemia. Se levarmos a proporcionalidade disso, poderíamos dizer que temos pouco espaço para crescer em termos de demanda de biocombustível”, completa.

Mas Ono ainda relembra que, no Brasil, a situação é um pouco diferente, uma vez que a matéria-prima pode ser dividida entre dois produtos. A safra 2019/20, por exemplo, foi mais alcooleira, pois o açúcar estava com preços depreciados. “Este ano, nós estamos com a régua invertida e o açúcar será maximizado”, diz.

Ele destaca que, se o Brasil estivesse com o mesmo nível de produção do ano passado, a situação das usinas seria bem mais difícil, pois haveria uma maior quantidade de biocombustível disponível no mercado.

Ono também observa que existe um mercado crescente de álcool hidratado para fins de higiene, algo que pode chamar a atenção das usinas. “Estamos vendendo a matéria-prima a ser processada para finalidade de saúde. É um mercado novo”, expressa.

Gabrielle Rumor Koster – NovaCana

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