Trading e consultoria aposta que os preços da commodity irão cair no primeiro semestre deste ano; estoques globais em alta devem dificultar fortalecimento do mercado
- Produção global de açúcar em queda: previsão é de déficit para 2019/20, com redução de área plantada na União Europeia e na Tailândia
- Crescimento de intervenções governamentais no mercado de açúcar pode tornar desaceleração da produção mais lenta do que o esperado
- Estoques de açúcar não devem ter uma redução significativa, com relação entre estoque e consumo acima de 20%, o que é considerado excessivo pela consultoria
- Com a atual situação dos estoques e da produção, os preços de açúcar em 2019 não devem aumentar – exceto se algo catastrófico acontecer
As cotações internacionais do açúcar devem permanecer baixas em 2019? Ou o mercado deve viver uma transição para um ambiente mais favorável para as usinas?
É com esses questionamentos que a empresa de comércio e consultoria Czarnikow, especializada na cadeia de fornecimento de açúcar e etanol, inicia um relatório sobre o mercado de açúcar. O documento foi enviado aos clientes da companhia no começo de fevereiro.
“Nós esperamos que os preços atinjam o chão em algum ponto do primeiro semestre de 2019, se é que eles já não o fizeram”, aponta a consultoria, que continua: “Entretanto, atingir o nível mais baixo não é a mesma coisa que estabelecer uma nova tendência de alta”.
Considerando os estoques globais e o nível de intervenção governamental ao redor do mundo, a Czarnikow acredita que o mercado de açúcar deve entrar em um período de “transição instável”. Com isso, os preços devem flutuar entre US$ 0,10/libra-peso e US$ 0,15/libra-peso.
Gráficos e a análise completa da Czarnikow sobre o mercado de açúcar estão disponíveis no conteúdo completo (acesso exclusivo para assinantes).
- Produção global de açúcar em queda: previsão é de déficit para 2019/20, com redução de área plantada na União Europeia e na Tailândia
- Crescimento de intervenções governamentais no mercado de açúcar pode tornar desaceleração da produção mais lenta do que o esperado
- Estoques de açúcar não devem ter uma redução significativa, com relação entre estoque e consumo acima de 20%, o que é considerado excessivo pela consultoria
- Com a atual situação dos estoques e da produção, os preços de açúcar em 2019 não devem aumentar – exceto se algo catastrófico acontecer
As cotações internacionais do açúcar devem permanecer baixas em 2019? Ou o mercado deve viver uma transição para um ambiente mais favorável para as usinas?
É com esses questionamentos que a empresa de comércio e consultoria Czarnikow, especializada na cadeia de fornecimento de açúcar e etanol, inicia um relatório sobre o mercado de açúcar. O documento foi enviado aos clientes da companhia no começo de fevereiro.
“Nós esperamos que os preços atinjam o chão em algum ponto do primeiro semestre de 2019, se é que eles já não o fizeram”, aponta a consultoria, que continua: “Entretanto, atingir o nível mais baixo não é a mesma coisa que estabelecer uma nova tendência de alta”.

Considerando os estoques globais e o nível de intervenção governamental ao redor do mundo, a Czarnikow acredita que o mercado de açúcar deve entrar em um período de “transição instável”. Com isso, os preços devem flutuar entre US$ 0,10/libra-peso e US$ 0,15/libra-peso.
Estoques cada vez mais cheios
Segundo o texto, nos últimos dois anos, o volume nos estoques de açúcar pelo mundo atingiu níveis recordes. Essa tendência de crescimento, aliás, era observada pela companhia desde 2012.
“Acreditamos que se os estoques globais de açúcar são menores que 15% do consumo anual, a cadeia de fornecimento tem o risco de quebrar e isso leva a um aumento no preço. Entretanto, se a relação entre estoque e consumo está acima de 20%, isso é excessivo. Afinal, é caro manter estoques”, aponta.

Conforme os dados apresentados, contudo, a relação ultrapassou a marca de 20% em 2012 – e não ficou abaixo desse valor desde então. “Esta tem sido a força motriz do mercado de açúcar em baixa nesta década”, conclui.
Mudança começou com o Brasil
De acordo com a Czarnikow, o quadro de produção excessiva começou a mudar na safra global 2018/19, especialmente devido a mudanças na região Centro-Sul do Brasil. Nesse caso, foi destacada a flexibilidade do mix de produção das usinas brasileiras – que podem produzir tanto açúcar quanto etanol, dependendo de qual produto oferecer melhor retorno.
Com isso, a companhia observa a mudança no panorama das usinas, que reduziram a produção de açúcar de 36 para 26,3 milhões de toneladas no período de uma safra.

“Ainda que essa diminuição seja bem-vinda, ela não exatamente impediu o crescimento nos estoques globais de açúcar; a produção de outros países foi simplesmente muito alta para que o Centro-Sul conseguisse mudar o quadro sozinho”, pondera.
A raiz do problema
Apesar da queda na produção de açúcar no Brasil, a Czarnikow relata que as causas da produção excessiva ainda não foram resolvidas. “Por todo o mundo, os fazendeiros não estão recebendo os sinais corretos dos preços – o açúcar mais barato não desincentivou mudanças em larga escala nos cultivos de 2019”, alega em relatório.
A previsão da companhia, inclusive, é que a produção na Índia, na Tailândia e na União Europeia siga alta. Segundo os números apresentados, a safra global 2018/19 indiana deve terminar em recorde, com mais de 35 milhões de toneladas. Já Tailândia e Europa devem registrar 15 e 19 milhões de toneladas, respectivamente.

“Nós acreditamos que crescentes intervenções governamentais nos mercados agrícolas sejam parcialmente responsáveis”, analisa.
Para a Czarnikow, essas medidas são uma “resposta natural” para preços baixos, por protegerem a renda dos produtores rurais, um aspecto essencial para muitos governos. “Ironicamente, ao resguardar os fazendeiros dos efeitos do baixo preço de açúcar, os governos estão prolongando a depressão dos preços”, complementa.
Índia e a rentabilidade da cana
Na Índia, por exemplo, o açúcar é juridicamente definido como “commodity essencial”, de modo que o governo possui um grande controle sobre toda a cadeia, do campo às vendas. O preço que as usinas pagam para os fornecedores de cana é determinado pelo Estado, sem qualquer vínculo com o preço internacional do açúcar.

Graças a isso, a Czarnikow aponta que a cana-de-açúcar se tornou a cultura com maior retorno financeiro do país, o que incentiva uma expansão das plantações. “O único ano da última década em que a Índia não produziu açúcar excedente aconteceu após dois anos consecutivos afetados por monções fora do padrão, o que prejudicou o crescimento da cana”, relata a consultoria.
A companhia ainda afirma que a situação não deve mudar em breve. Segundo o relatório, em vez de lidar com o excesso de cana, o governo da Índia tem a esperança de desenvolver uma indústria de etanol em um modelo similar ao do Brasil. Com isso, os preços da cana não devem ser liberalizados em um futuro próximo.
Perspectivas para 2019
Com o suporte dado ao cultivo ao redor do mundo, a Czarnikow acredita que não haverá uma redução na oferta de cana-de-açúcar e beterraba na temporada 2019/20. “Nós podemos identificar apenas dois grandes produtores que podem registrar uma redução significativa de área: a União Europeia e a Tailândia”, afirma em relatório.
Conforme o documento, o preço pago pela beterraba em 2019 será bem mais baixo do que em anos anteriores. Por se tratar de uma cultura anual, o impacto poderá ser sentido de forma mais imediata na produção europeia.
Por sua vez, na Tailândia, a mandioca voltou a ganhar importância – e ela pode ser grande o suficiente para superar os subsídios governamentais pagos pela cana.

“Entendemos que o governo da Tailândia está suficientemente preocupado com a queda nos lucros dos fazendeiros e que estão considerando fazer pagamentos diretos aos fornecedores de cana”, relata a Czarnikow, que continua: “Uma eleição pode acontecer realizada esse ano, o que tornará esses pagamentos politicamente importantes. Os votos rurais detêm um poder desproporcional na Tailândia”.
A consultoria ainda considera que há potencial para uma redução de área na Índia. Isso, porém, dependeria da velocidade com que os produtores serão pagos pela cana neste ano. Documentos consultados pela companhia, a princípio, sugerem que isso está acontecendo mais tarde do que o habitual, o que pode encorajar o cultivo de outras culturas.
O quadro, entretanto, pode sofrer a influência da eleição geral na Índia, prevista para maio. “As projeções atuais são de um parlamento dividido, e os votos dos agricultores podem ser importantes. O primeiro-ministro Modi sugeriu recentemente que o governo deve gastar muito para preservar a renda dos agricultores antes da eleição. Há a chance de que esse gasto inclua pagamentos a produtores de cana-de-açúcar”, relata a Czarnikow.
O clima, a próxima safra e os preços internacionais
Nas regiões onde há poucas chances de redução na área plantada, o sucesso (ou o fracasso) da safra depende do clima. Isso inclui o Brasil.
A Czarnikow aponta que o último trimestre da safra 2017/18 foi de tempo seco na região Centro-Sul, o que prejudicou a produtividade da cana. Como isso se repetiu em dezembro de 2018, os dois anos consecutivos de clima seco na época de crescimento e maturação da cana podem ter consequências.
“Isso pode levar a quedas nas estimativas da safra que começa em abril. Nós atualmente estimamos que 552 milhões de toneladas serão colhidas em 2019, mas a estiagem pode reduzir esse número”, complementa.
De forma similar, a Índia e a Tailândia também registraram chuvas abaixo da média em 2018. Entretanto, a consultoria não acredita que os efeitos serão amplos por enquanto – embora um segundo ano de seca possa comprometer os resultados para 2020.
“Assim, projetamos que a produção global de açúcar na safra 2019/20 fique abaixo do consumo”, afirma e completa: “Essa seria a primeira vez que isso acontece desde 2016/17 e levanta a possibilidade de que os preços de açúcar já chegaram ao patamar mais baixo”.
Para as usinas indianas, que mantém recordes históricos, as exportações devem ocorrer quando o preço internacional ultrapassar o doméstico, fixado em torno de US$ 0,13/libra-peso.
Já para as usinas do Brasil, as exportações devem passar a ser vantajosas para os produtores a preços superiores a US$ 0,15/libra-peso. “Esses dois fatores devem limitar o potencial altista do mercado de açúcar em 2019”, comenta o relatório.
Um recuo na globalização
Para a Czarnikow, o “avanço na globalização” está desacelerando nos últimos anos, uma tendência que deve se manter em 2019. E, ainda que seja muito criticada, a Organização Mundial do Comércio (OMC) deve permanecer ocupada.
A consultoria cita a disputa do Brasil em relação à cota de importação de açúcar imposta pela China e a da queixa australiana sobre os preços históricos da cana-de-açúcar na Índia. Além disso, a companhia acredita que uma nova disputa contra a Índia deve ser aberta, dessa vez em relação à cota de exportação dada aos produtores locais.
A Czarnikow também cita a saída dos Estados Unidos da Parceria Transpacífica. “Isso significa que provavelmente veremos um aumento no fluxo de açúcar australiano para o Japão em 2019, já que a Austrália terá uma vantagem de direitos em comparação com outros fornecedores de açúcar bruto graças à Parceria”.
Já no Reino Unido, novos acordos de comércio devem acontecer com o andamento das negociações sobre a saída da União Europeia, prevista para o final de março. “O que acontecerá ainda é incerto. Nós não sabemos nem quais tarifas serão aplicadas ao comércio de açúcar”, comenta.
Conforme a Czarnikow, o mercado de açúcar do Reino Unido é deficitário, de modo que o país precisará importar a commodity. A lógica, ainda segundo a consultoria, seriam importações da própria União Europeia. Porém, sem um acordo detalhado já firmado, ainda não é claro se esse raciocínio deve prevalecer.
“A fragmentação parcial do mercado global de açúcar em acordos regionais e bilaterais significa que, mais do que nunca, o açúcar está sendo negociado tendo os preços de mercado como referência”, aponta em relatório. Contudo, a forma como isso se relaciona com o mercado físico de açúcar é complexa.
Renata Bossle – NovaCana