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Linha de crédito do BNDES para estocagem de etanol terá impacto limitado, diz Fitch

Em relatório, agência de classificação de risco argumenta que financiamentos não devem ser acessíveis para empresas em dificuldades financeiras

NovaCana 9 min de leitura

A aprovação de um pacote de financiamentos do (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) BNDES para o setor sucroenergético, anunciada em 4 de junho, deve trazer um pequeno alívio apenas às empresas de açúcar e etanol mais orientadas ao biocombustível, segundo relatório publicado pela agência de classificação de risco Fitch Ratings.

“A queima de caixa tem sido alta para os produtores brasileiros durante o início da safra 2020/21 e a linha de crédito de R$ 3 bilhões para financiar o armazenamento de etanol, se totalmente desembolsada, não atende suficientemente às necessidades atuais do setor”, complementa.

Ainda de acordo com a Fitch, a nova linha do BNDES não deve ser acessível para empresas em dificuldades, pois a liquidez bancária permanece concentrada nas companhias com melhor saúde financeira. Além disso, os bancos parceiros devem concentrar o crédito nas empresas com as melhores métricas de suas carteiras.

“O auxílio pode beneficiar não mais que 10% da produção total de 28 bilhões de litros de etanol que se espera produzir em 2020/21”, aponta o relatório, que segue: “É improvável que ele chegue às empresas em dificuldades financeiras, pois a linha de crédito foi projetada para incluir bancos privados”.

A Fitch argumenta que o reembolso de dois anos e o período de carência de 12 meses aumentam a atratividade da linha em tempos de condições de crédito mais difíceis no Brasil. Ainda assim, a maior parte dos emissores classificados pela agência teria boa capacidade de negociação e risco de refinanciamento abaixo da média, sendo menos provável que elas se beneficiem dos termos e condições do BNDES para o auxílio financeiro.

“Para o setor, o auxílio financeiro tem potencial para suportar os preços do etanol ao ajudar as empresas a manter níveis de estoque elevados e evitar a venda de etanol nos preços atuais”, analisa, mas pondera: “Já as empresas com flexibilidade financeira adequada, que optaram por manter os estoques de etanol e maximizar a produção de açúcar, podem acabar obtendo ganhos menores com as vendas de etanol no final da safra em curso”.

Saiba mais sobre a análise da Fitch Ratings no texto completo (exclusivo para assinantes).

A aprovação de um pacote de financiamentos do (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) BNDES para o setor sucroenergético, anunciada em 4 de junho, deve trazer um pequeno alívio apenas às empresas de açúcar e etanol mais orientadas ao biocombustível, segundo relatório publicado pela agência de classificação de risco Fitch Ratings.

“A queima de caixa tem sido alta para os produtores brasileiros durante o início da safra 2020/21 e a linha de crédito de R$ 3 bilhões para financiar o armazenamento de etanol, se totalmente desembolsada, não atende suficientemente às necessidades atuais do setor”, complementa.

Ainda de acordo com a Fitch, a nova linha do BNDES não deve ser acessível para empresas em dificuldades, pois a liquidez bancária permanece concentrada nas companhias com melhor saúde financeira. Além disso, os bancos parceiros devem concentrar o crédito nas empresas com as melhores métricas de suas carteiras.

“O auxílio pode beneficiar não mais que 10% da produção total de 28 bilhões de litros de etanol que se espera produzir em 2020/21”, aponta o relatório, que segue: “É improvável que ele chegue às empresas em dificuldades financeiras, pois a linha de crédito foi projetada para incluir bancos privados”.

A Fitch argumenta que o reembolso de dois anos e o período de carência de 12 meses aumentam a atratividade da linha em tempos de condições de crédito mais difíceis no Brasil. Ainda assim, a maior parte dos emissores classificados pela agência teria boa capacidade de negociação e risco de refinanciamento abaixo da média, sendo menos provável que elas se beneficiem dos termos e condições do BNDES para o auxílio financeiro.

“Para o setor, o auxílio financeiro tem potencial para suportar os preços do etanol ao ajudar as empresas a manter níveis de estoque elevados e evitar a venda de etanol nos preços atuais”, analisa, mas pondera: “Já as empresas com flexibilidade financeira adequada, que optaram por manter os estoques de etanol e maximizar a produção de açúcar, podem acabar obtendo ganhos menores com as vendas de etanol no final da safra em curso”.

Desta forma, a Fitch acredita que a maioria das empresas poderia ter feito um melhor uso da linha de crédito se ela tivesse sido anunciada assim que a demanda e os preços dos combustíveis começaram a entrar em colapso, no final de março. “O ambiente operacional se tornou mais benigno recentemente, à medida que o aumento dos preços internacionais do petróleo e a valorização do real impulsionaram os preços do açúcar”, completa.

Entretanto, o relatório aponta que, se o atual ambiente de demanda fraca de etanol persistir durante o segundo semestre de 2020, várias usinas poderão ser forçadas a interromper as atividades de colheita ou vender etanol a preços bastante baixos. Um dos principais motivos seria a redução da capacidade de armazenamento ociosa, que ficaria em níveis mínimos.

Por mais que o consumo de etanol deva se recuperar quando as regras de isolamento social forem relaxadas, a Fitch espera que as vendas do biocombustível caiam pelo menos 10% em 2020/21 na comparação com 2019/20. O cálculo se baseia no colapso da demanda registrado em abril e maio e na contração de 6% esperada para o PIB brasileiro em 2020.

Pouco impacto para grandes empresas

Para os produtores brasileiros de açúcar e etanol classificados pela Fitch – Raízen, Biosev, Jalles Machado e Santo Angelo –, o pacote financeiro do BNDES foi considerado neutro. Segundo o relatório, estas empresas têm flexibilidade acima da média do setor em seu mix de produtos, além de uma capacidade de armazenamento suficiente para suportar o período de baixa demanda por combustíveis e baixos preços de etanol.

A única exceção seria a USJ Açúcar e Álcool – atualmente classificada em default restrito –, que não teria condições financeiras de manter os custos mais altos associados à produção de açúcar.

Para a Fitch, as sucroenergéticas classificadas pela agência devem priorizar a produção de açúcar, reduzindo sua exposição ao etanol. “Esses emissores são capazes de direcionar em média 60% de toda a sacarose para a produção de açúcar e sua flexibilidade os torna menos expostos aos negócios de etanol”, complementa.

Desta forma, a Fitch espera que a Usina Santo Angelo tenha um mix de produção açucareiro de 65% e a Jalles Machado registre 55%, enquanto a Raízen Energia e a Biosev fiquem em 60%. “Esses números se comparam favoravelmente à média da indústria, para a qual a Fitch espera um mix máximo de açúcar de 45%, colocando, portanto, essas empresas em uma posição favorável para se beneficiarem de preços atrativos para o açúcar”, assegura.

Assim, a perspectiva da agência para o setor envolve um crescimento de mais de 10 pontos percentuais no direcionamento da matéria-prima para a fabricação de açúcar. Em 2019/20, a média do indicador para o Centro-Sul foi de 34,33%.

O relatório também aponta que as usinas classificadas pela agência apresentaram boas posições de hedge de açúcar, permitindo que elas possam enfrentar as pressões de curto prazo decorrentes do cenário de demanda deprimida e baixos preços de etanol. Como base, a Fitch supõe que essas empresas tenham coberto a produção de açúcar esperada para a safra 2020/21 em níveis acima de R$ 1.300/t.

Em relação ao mercado de etanol, a Fitch relata que a capacidade de armazenamento e a priorização da fabricação de açúcar pelas empresas classificadas impedirão que os estoques de etanol destas companhias atinjam a capacidade máxima, mesmo em um cenário de baixa demanda.

“A usina Santo Angelo, com a menor capacidade de moagem da lista, pode armazenar até 80 milhões de litros de etanol, o que é uma capacidade de armazenamento suficiente”, assegura. Ainda de acordo com a Fitch, a Jalles Machado possui uma capacidade de estocagem “adequada”, enquanto Biosev e Raízen seriam beneficiadas por um grande espaço de armazenamento.

Perspectivas para o mercado de açúcar e etanol

Segundo a Fitch, o cenário para os produtores de etanol permanecerá difícil em 2020. A perspectiva da agência é que os preços do petróleo Brent atinjam uma média de US$ 35/barril ao longo do ano, abaixo dos US$ 65/barril de 2019. Isto deve limitar a probabilidade de aumentos significativos nos preços do etanol.

Ainda assim, o quadro já foi pior. A Fitch cita que, no momento, os preços internacionais do açúcar bruto estão sendo negociados acima de 12 centavos de dólar por libra-peso, um aumento de 17% nos últimos 30 dias. Já os preços do petróleo Brent subiram 40%, para US$ 41/barril. Por sua vez, o real teve uma valorização de 14% no mesmo período.

Conforme os analistas da agência, o cenário mais positivo para o petróleo beneficiou o etanol, embora os preços permaneçam abaixo dos registrados de 2019. Em São Paulo, os preços do etanol hidratado nas usinas atingiram, em média, R$ 1,41/litro desde o início da temporada, ante a média de R$ 1,73/litro vista no mesmo período de 2019.

Em relação ao açúcar, a Fitch supõe que mais de 80% de todas as exportações da commodity esperadas para 2020/21 já tenham sido fixadas e considera um preço médio de 13,5 centavos de dólar por libra-peso. Estes números são considerados favoráveis em comparação com o volume de 40% fixado no mesmo período do ano anterior.

Para completar, a agência espera posições de hedge ainda mais altas em 2021/22, com preços próximos a R$ 1.400/t. Isso seria possível porque boa parte das usinas teria se beneficiado da fraqueza do real ante o dólar, registrada em abril e maio de 2020.

“As companhias com presença de açúcar de alto valor agregado no mix devem se beneficiar ainda mais. É o caso da Jalles Machado e seu açúcar orgânico e da Raízen e da Biosev, que possuem uma produção relevante de açúcar branco”, detalha.

A Fitch ainda observa que preocupações relacionadas a gargalos logísticos no Brasil e no exterior devido à pandemia de coronavírus fizeram com que o prêmio pelo açúcar branco brasileiro saltasse para aproximadamente US$ 140/t no final de maio de 2020 – valor bem acima da média histórica de US$ 70/t. Embora os prêmios tenham caído recentemente, eles seguem sendo negociados a valores atrativos, de US$ 113/t.

Renata Bossle – NovaCana

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