Nos últimos cinco anos as condições do mercado e do clima foram determinantes para que as usinas se tornassem mais eficientes. Foi uma questão de vida ou morte para a maioria das unidades
Aproveitar ao máximo tudo que a cana oferece ao entrar na usina é o cenário perfeito de qualquer unidade produtiva. E é também sinônimo de eficiência. Quem consegue minimizar o desperdício está em um patamar alcançado por poucos no mercado sucroenergético.
Um estudo realizado pela USP com usinas de todo o País apontou que de 355 unidades pesquisadas, apenas 11 foram consideradas eficientes. A pesquisa levou em conta justamente a quantidade de açúcar e álcool que as empresas conseguiam produzir a partir da quantidade de cana que entrava na linha de produção.
Uma usina eficiente é aquela que consegue processar toda a cana que a empresa dispõe dentro de um período definido aproveitando praticamente todo o ATR que vêm do campo. “Esse é o sonho de qualquer um”, admite o diretor industrial da Usina Alta Mogiana, Fernando Vicente.
Plantas mais modernas e bem controladas conseguem atingir níveis superiores a 95% de eficiência, valor que é uma boa média entre as mais mellhores do setor.
Aproveitar ao máximo tudo que a cana oferece ao entrar na usina é o cenário perfeito de qualquer unidade produtiva. E é também sinônimo de eficiência. Quem consegue minimizar o desperdício está em um patamar alcançado por poucos no mercado sucroenergético.
Uma usina eficiente é aquela que consegue processar toda a cana que a empresa dispõe dentro de um período definido aproveitando praticamente todo o ATR que vêm do campo. “Esse é o sonho de qualquer um”, admite o diretor industrial da Usina Alta Mogiana, Fernando Vicente. Hoje a usina trabalha com um índice de eficiência na casa dos 93%. Segundo Vicente, o número poderia ser maior, mas a realidade envolve muitas particularidades.
Essas particularidades afetam diretamente o nível de eficiência de cada empreendimento. No caso da Alta Mogiana, a necessidade de produzir açúcar branco de alta qualidade e etanol anidro faz com que seja preciso abrir mão de eficiência em busca do melhor produto. Assim, a busca por melhores resultados não é deixada de lado, mas trabalhada dentro dos parâmetros estabelecidos.
Vicente explica que essa linha guia é estabelecida pelo departamento comercial. Dependendo de o que a empresa quer vender, a usina será mais ou menos eficiente. Uma fábrica que faça apenas açúcar VHP, por exemplo, será mais eficiente porque tem menos etapas no processo. Ou seja, quanto menos processado for o produto, maior pode ser a eficiência. Mesmo assim, há quem não esteja em sua melhor fase.
Um estudo realizado pela USP com usinas de todo o País apontou que de 355 unidades pesquisadas, apenas 11 foram consideradas eficientes. A pesquisa levou em conta justamente a quantidade de açúcar e álcool que as empresas conseguiam produzir a partir da quantidade de cana que entrava na linha de produção.
Apesar dos dados serem de 2012, o cenário não mudou muito desde então. O diretor da Alta Mogiana explica que a busca por eficiência começa justamente na entrada da cana na usina e que é preciso conhecer esse processo detalhadamente para não haver discrepâncias futuras.
Lá o controle é realizado por meio de um equipamento de cromatografia capaz de especificar a quantidade de ATR da matéria-prima recebida. Dessa forma, pequenas variantes podem ser detectadas e ajustadas nos guidances de produção.
“Se recebo cana com informação de que tem 14% de ATR, mas o equipamento mostra que tem 14,3%, tenho uma diferença. Pode parecer pouco, mas para quem busca melhoria de eficiência de 0,5% a 1%, é uma diferença tremenda”, diz Vicente.
Eficiência começa no campo
Mas se engana quem pensa que uma usina é eficiente por si só. Toda a cadeia da cana influencia diretamente o que acontece no chão de fábrica. A começar pela capacidade de moagem.
Números da Esalq em parceria com a John Deere mostram que o desempenho de colhedoras chega a cair 72,1% devido a fatores externos como limitações de velocidade e tempos perdidos. Em suma, uma máquina com potencial para retirar 2.040 toneladas diárias do campo tem sua capacidade reduzida para 588 toneladas.
Esses fatores aliados à plantios e preparos de solo mal realizados – que afetam diretamente a produtividade do canavial – podem interferir na quantidade de cana que chega à usina, que pode ser menor do que a esperada.
Existe também o problema da contaminação da matéria-prima. O fato de matérias minerais e vegetais chegarem ao processo junto com a cana atrapalha o cálculo da quantidade de ATR recebida e compromete etapas seguintes do processo.
A questão da matéria-prima de qualidade é absolutamente crucial para o bom rendimento da usina.
Na Fermentec, empresa especializada em engenharia industrial e processos de fermentação, são realizadas pesquisas com esse foco. O presidente da empresa, Henrique Amorim, diz que a indústria precisou aprender muito para lidar com a colheita mecanizada por causa das impurezas. “Tem um aumento de fibra, o que diminui a extração. E a folha da cana tem um ácido que prejudica a clarificação do açúcar e aumenta o consumo de insumos.”
Conhecendo o processo
Para que haja de fato algum ganho de eficiência é preciso conhecer a fundo como a usina funciona. Amorim, da Fermentec, relata que é comum observar a realização de projetos de engenharia industrial sem conhecimento profundo do processo de uma usina de cana-de-açúcar. “Se não se sabe muito bem o que precisa ser feito, o projeto não vai ser adequado. E tem projetos que trazem dificuldades muito grandes até para fazer o básico”, explica.
Detalhes como pontos mortos na usina, diâmetro de tubulações, curvas, posições de válvulas, podem ser cruciais. E caso não sejam considerados da maneira correta, representarão perdas no futuro. Uma usina pode até aumentar sua produção, mas não quer dizer que ficou mais eficiente.
Plantas mais modernas e bem controladas conseguem atingir níveis superiores a 95% de eficiência, valor que de acordo com Amorim é uma boa média entre as mais eficientes do setor. Ainda assim, são valores bastante difíceis de se atingir na prática. “Se pegar peso por peso, quem faz só açúcar já sai ganhando e atinge valores 5% a 8% superiores comparados a quem faz álcool”, explica.
O empresário ainda lembra que nos últimos cinco anos as condições do mercado e do clima foram determinantes para que as usinas se tornassem mais eficientes. “Devido aos preços do açúcar e álcool, quem não melhorasse sairia logo do mercado”, afirma.
Um dos grandes avanços foi a melhora na extração das moendas. Números da Fermentec mostram que moendas bem operadas alcançam níveis de extração de 97%, semelhantes aos resultados de usinas com difusores, que hoje alcançam 98%.
Leveduras personalizadas
Um dos avanços mais recentes na busca por plantas que aproveitem ao máximos seus insumos é a criação de leveduras personalizadas.
Apesar de serem introduzidas no processo manualmente, muitas usinas não têm ideia de qual é a levedura responsável pela fermentação dos açúcares da cana no processo industrial. “Tem gente que começa o processo com levedura de pão, sem controle nenhum”, comenta Fernando Vicente.
O trabalho é iniciado pesquisando quais as leveduras presentes na fermentação. A partir daí, é selecionada aquela que apresenta os melhores resultados e criam-se condições ideais para que se reproduza e se mantenha ativa ao longo do restante da fabricação.
“O que não se mede não se gerencia”, exclama Henrique Amorim. Ele diz isso porque mesmo com a introdução de uma levedura especifica na fabricação, o ambiente eventualmente acaba sendo dominado por leveduras selvagens que, em sua maioria, são ruins.
Ao selecionar o material correto, as taxas de permanência variam de 85% a 100%, o que beneficia a conversão, visto que é possível saber quanto as leveduras conhecidas são capazes de fermentar, prevendo o resultado do processo. “Se não se conhece a levedura não tem como programar e não se tem ideia do que pode acontecer com o rendimento”, afirma Amorim.
Ainda assim, existe risco de algo dar errado. Fernando Vicente lembra que não é a usina que escolhe o fermento, mas o fermento que escolhe a usina. Todo o trabalho é realizado para que esse fermento ideal permaneça por ali.
Nesse sentido, pode-se dizer que em algum grau a eficiência das usinas depende um pouco da sorte. Mas é uma sorte muito bem calculada e baseada em trabalhos minuciosos para alcançar o mais alto nível de rendimento. É um grande trabalho de gerenciamento de riscos. “Mesmo controlando essa variável, não há garantia de que vai se manter. A gente minimiza o risco, mas não elimina”, admite o diretor industrial.
Jorge Mariano – NovaCana