Plantas conectadas ao Sistema Interligado Nacional (SIN) estão submetidas a requisitos relacionados à operação e segurança do sistema elétrico
A expansão do setor de biocombustíveis no Brasil está transformando o perfil da indústria sucroenergética e trazendo para o centro do debate um tema que, até pouco tempo atrás, parecia distante do campo: a segurança cibernética.
O crescimento do etanol de milho, a modernização das usinas e a integração entre processos industriais, sistemas digitais e infraestrutura elétrica fazem com que a proteção cibernética deixe de ser apenas uma preocupação da área de tecnologia e passe a ser estratégica para a continuidade operacional.
Para os hackers, o setor sucroenergético apresenta uma vantagem especialmente relevante: a capacidade de transformar uma invasão digital em prejuízo operacional imediato e de grande proporção. Uma usina paralisada deixa de produzir etanol, açúcar e, em alguns casos, energia elétrica, enquanto a matéria-prima continua chegando e precisa ser processada dentro de determinadas janelas.
Essa combinação cria forte pressão sobre as empresas para restabelecer rapidamente as operações, o que pode aumentar o poder de barganha de grupos de ransomware em uma eventual extorsão. Quanto maior a dependência da operação de sistemas digitais e maior o custo de uma parada, maior tende a ser o interesse criminoso por aquele alvo. Têm-se, ainda, ataques cuja intenção é somente sabotar uma planta, sem um motivo financeiro por trás.
O diretor de relações institucionais da TI Safe, Leonardo Cardoso, explica que é justamente na intersecção entre produção de combustível, geração de energia e digitalização que surgem os riscos. Segundo ele, o ambiente regulatório brasileiro tem contribuído para mitigá-los.
“As plantas conectadas ao Sistema Interligado Nacional (SIN) estão submetidas a requisitos relacionados à operação do sistema elétrico e à segurança cibernética”, afirma o analista.
Ele relata que a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) estabelece diretrizes para que os agentes adotem boas práticas, identifiquem e tratem riscos e tenham capacidade de prevenir, detectar, responder e recuperar-se de incidentes. “O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) também mantém controles mínimos de segurança cibernética aplicáveis ao ambiente regulado”, disse.
De acordo com Cardoso, a expansão da geração de energia a partir de biomassa e a maior automação das plantas precisam caminhar lado a lado com investimentos em proteção digital.
“Uma usina moderna reúne sistemas de supervisão, controle, automação, telecomunicações, sensores, redes corporativas e equipamentos responsáveis por processos físicos críticos. O risco ganha dimensão ainda maior com a convergência entre Tecnologia da Informação (TI) e Tecnologia Operacional (TO). Uma invasão iniciada no ambiente corporativo pode, dependendo da arquitetura e das proteções existentes, representar uma porta de entrada para ambientes operacionais”, diz.
Para ele, um episódio ocorrido na Austrália em junho deste ano mostrou concretamente esse risco. A Mackay Sugar, segunda maior produtora de açúcar bruto do país, sofreu um incidente cibernético que interrompeu as operações das usinas de Farleigh e Racecourse.
O ataque afetou o processamento, a colheita e o transporte de cana, levando produtores da região a suspender temporariamente as atividades. Cerca de 1,3 mil propriedades fornecem cana para a empresa. Posteriormente, o grupo de ransomware The Gentlemen reivindicou a autoria, embora a Mackay Sugar tenha informado que ainda investigava a natureza e a extensão do incidente.
O caso australiano funciona como alerta para o Brasil. À medida que as usinas se tornam mais automatizadas, conectadas e relevantes para a produção de energia e combustíveis, cresce também o impacto potencial de uma interrupção cibernética.
“A ameaça pode vir ainda de fornecedores de tecnologia, empresas de logística e outros integrantes da cadeia de suprimentos, que podem representar pontos de entrada ou propagação de incidentes”, afirma o diretor da TI Safe.
Cardoso reforça que o desafio é garantir que a modernização das usinas produza não apenas mais eficiência, produtividade e conectividade, mas também maior resiliência. “Em um setor responsável por produzir combustível, energia e movimentar uma extensa cadeia agrícola e industrial, estar conectado ao mundo digital significa também estar preparado para se defender dele”, diz.