Bagaço ou palha? Matéria-prima ideal gera opiniões opostas entre os pioneiros do etanol de segunda geração no Brasil

Enquanto a indústria sucroalcooleira discute o potencial da palha e do bagaço como matérias-primas para a produção do etanol de segunda geração (E2G), a GranBio e o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), que lideram os estudos sobre o novo combustível no país, já têm suas apostas iniciais.
Enquanto a indústria sucroalcooleira discute o potencial da palha e do bagaço como matérias-primas para a produção do etanol de segunda geração (E2G), a GranBio e o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), que lideram os estudos sobre o novo combustível no país, já têm suas apostas iniciais.
A GranBio, que em breve deverá inaugurar a primeira planta de etanol celulósico do hemisfério sul, vê na palha uma relevância maior. No início de suas atividades, a empresa imaginou que o bagaço da cana seria abundante e estaria disponível a um custo baixo. Mas não foi exatamente o que aconteceu.
"A palha assumiu uma relevância muito maior. Mas pode ser a palha da cana, do trigo ou do milho, como é o caso dos Estados Unidos. Na Itália, por exemplo, uma de nossas parceiras usa uma espécie de capim", disse o gerente de desenvolvimento de processos da GranBio, Márcio Rebouças. Ele e outros profissionais do setor participaram de um fórum que discutiu os desafios desta nova indústria, que tem potencial para se consolidar no país e avançar sobre o mercado do etanol de primeira geração.
No caso da GranBio, o preço da matéria-prima faz com que a palha tenha um potencial competitivo maior. "O bagaço tem o seu valor energético, e nesta crise que a indústria enfrenta, o valor dele é ainda mais relevante, pois se trata de uma matéria-prima cara", conta.
A utilização do bagaço para geração de energia elétrica está crescendo no setor. Especialistas apostam que a sobrevivência das usinas depende obrigatoriamente da capacidade de produzir bioeletricidade.
No entanto, a BioFlex, primeira planta de E2G da companhia, pode usar tanto o bagaço, como a palha para produzir o combustível. Outra opção sendo estudada para o futuro é a utilização de novas variedades de cana, como a cana energia, que tem mais fibra e pode ser plantada em áreas degradadas. A unidade está localizada em São Miguel dos Campos, em Alagoas, e já está em sua fase final de comissionamento e pré-partida. Segundo Rebouças, a usina deve entrar em operação no final deste semestre ou início do próximo.
Custo: colheita e transporte da palha
O executivo também informou que a empresa mantém parceria com várias usinas para o recolhimento mecanizado da palha. "Somos responsáveis por entrar no campo e colher o resíduo."
Apesar desta experiência inicial, colher e transportar a palha em escala comercial continua sendo um desafio que a GranBio terá que aprimorar. "O custo da colheita e do transporte [da palha] impactará na competitividade do projeto. É preciso olhar não só para a tecnologia do processo, mas também para a parte agrícola", defende.
O gerente de desenvolvimento reconheceu que há discussões a serem aprofundadas, como o tempo ideal em que o resíduo deve ficar no campo até ser recolhido.
O valor da matéria-prima é tão importante quanto o processo de pré-tratamento, apesar dos gargalos de natureza tecnológica, como a obtenção e a quebra de açúcares fermentáveis a partir do material lignocelulósico.
"O preço da matéria-prima é primordial para a competitividade desta indústria. O que vai permitir ao E2G dar um salto é garantir que esta palha chegue à usina a um preço competitivo", reforça.
Não por acaso, os Estados Unidos, que também estão na corrida pelo etanol celulósico, enfrentam problemas em relação ao custo da matéria-prima. "Nos Estados Unidos e na Europa ela chega a preços muito altos. O processo precisa ser muito mais competitivo para que a indústria como um todo seja viável", acredita Rebouças.
Em relação ao potencial de produção do E2G a partir da palha, a pesquisadora Márcia Mutton, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus Jaboticabal, calcula que uma tonelada do material pode produzir até 287 litros de etanol. A estimativa é teórica, mas aponta o potencial de produção do biocombustível.
CTC: segurança no bagaço
Na visão do assessor técnico da presidência do CTC, Jaime Finguerut, ambas as possibilidades são viáveis e enfrentam desafios. Contudo, para ele, a palha ainda não traz segurança. "O sistema de colheita e armazenamento torna a palha uma matéria-prima mais arriscada. O bagaço, por sua vez, já está pronto para o uso. A palha precisa de um condicionamento que ainda gera dúvidas", compara.
Não há consenso
Para Rebouças, da GranBio, o custo mais baixo do bagaço, como a empresa havia projetado no início de suas atividades, não é um fato em todo o país. "Pode ser verdade em locais isolados, mas não é a realidade nacional", diz. Mesmo assim, o ex-executivo da Braskem acredita que não há um consenso na indústria sobre qual será a matéria-prima do E2G.
Opinião compartilhada por Finguerut. "Temos desafios dos dois lados. O que eu acho que vai acontecer é que a cana vai evoluir para trazer mais fibra. A gente acredita que a cana energia não é uma realidade para os próximos cinco anos. [A cana energia] não é um processo tão fácil de integrar como o bagaço e a palha", diz.
Quem, contudo, tiver o bagaço disponível, poderá se beneficiar da maior quantidade de fibra presente na cana energia. "Tendo um pouquinho mais de fibra, [os produtores poderão] dobrar, triplicar a quantidade de bagaço disponível. Eu acredito que o bagaço é mais fácil de usar. Quanto à palha, temos que aprender a recolhê-la, armazená-la e processá-la. O bagaço é mais fácil e já está lá", analisa o assessor técnico.
Além disso, a curva de aprendizado deve ser mais complicada se a matéria-prima escolhida for a palha. "Nós vamos ter que aprender muito para fazer a palha ser, digamos, utilizável como o bagaço, que é totalmente lavado, picado, apertado, etc", acredita o profissional do CTC.
O CTC, que deve inaugurar em breve uma planta de demonstração de E2G em São Manoel (SP), tem condições de processar tanto a palha como o bagaço. "Temos planos de recolher a palha, mas ainda não executamos isso. Provavelmente vamos levar a palha para lá, experimentalmente", avalia Finguerut.
Leonardo Siqueira – NovaCana