Documento aprofunda como o país pretende cumprir as metas estabelecidas na COP 21 e traz uma perspectiva de produção de etanol acima da previsto pelo mercado
As usinas de etanol e o governo estão em uma disputa há anos. O setor produtivo vem pedindo uma política de estado de longo prazo que permita que novos investimentos sejam feitos. O mais perto que o setor havia conseguido chegar de um comprometimento do governo foi com os objetivos do Brasil na COP 21.
Pelo compromisso feito na conferência do clima, o governo estabelecia que o etanol manteria sua participação na matriz energética brasileira em 2030. Projeções feitas pelo NovaCana mostravam que o Brasil teria que produzir cerca de 50 bilhões de litros de etanol para que essa meta fosse cumprida. Cálculos da Unica chegaram no mesmo valor.

O problema é que o governo não disse como essa meta seria atingida. A situação difícil que o setor sucroenergético vem vivendo na última meia década tem estrangulado os investimentos em novas usinas e no aumento do cultivo de cana-de-açúcar no Brasil. Por esse motivo, muitos desconfiam da capacidade do país de cumprir essa determinação.
Essa desconfiança seria ainda mais elevada se as usinas soubessem que o governo trabalha com uma meta ainda maior. A projeção oficial para a produção de etanol no Brasil em 2030 é de 54 bilhões de litros, um volume 8% acima do projetado pelas entidades privadas. Mas dessa vez o governo mostrou de onde virá todo esse volume que representa um crescimento de mais de 75% sobre a produção da última safra.
O documento traz ainda qual será a proporção de uso de etanol hidratado, anidro e gasolina para os próximos anos e quanto o Brasil produzirá de cana-de-açúcar até 2030.
Veja também:
- Participação do etanol de primeira e de segunda geração no crescimento da produção
- Projeção para o crescimento da moagem total do país
- Perspectivas de mercado para etanol anidro e etanol hidratado
- Discordâncias com relação ao gap do Ciclo Otto
- O setor sucroenergético dentro das metas da COP 21
As usinas de etanol e o governo estão em uma disputa há anos. O setor produtivo vem pedido uma política de estado de longo prazo que permita que novos investimentos sejam feitos. O mais perto que o setor havia conseguido chegar de um comprometimento do governo foi com os objetivos do Brasil na COP 21.
Pelo compromisso feito na conferência do clima, o governo estabelecia que o etanol manteria sua participação na matriz energética brasileira em 2030. Projeções feitas pelo NovaCana mostravam que o Brasil teria que produzir cerca de 50 bilhões de litros de etanol para que essa meta fosse cumprida. Cálculos da Unica chegaram no mesmo valor.

O problema é que o governo não disse como essa meta seria atingida. A situação difícil que o setor sucroenergético vem vivendo na última meia década tem estrangulado os investimentos em novas usinas e no aumento do cultivo de cana-de-açúcar no Brasil. Por esse motivo muitos desconfiam da capacidade do país de cumprir essa meta.
Essa desconfiança seria ainda maior se as usinas soubessem que o governo trabalha com uma meta ainda maior. A projeção oficial para a produção de etanol no Brasil em 2030 é de 54 bilhões de litros, um volume 8% acima do projetado pelas entidades privadas. Mas dessa vez o governo mostrou de onde virá todo esse volume que representa um crescimento de mais de 75% sobre a produção da última safra.
Como o Brasil vai consumir 54 bilhões de litros de etanol
A projeção do governo para o cumprimento dos objetivos traçados na COP21 foi feita pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE), que é vinculada ao Ministério de Minas e Energia. Nessa projeção estão contempladas todas as variáveis que influem na demanda de etanol no país, bem como de onde sairá a produção de 54 bilhões de litros.
A primeira premissa utilizada pela EPE é que o Brasil continuará usando o percentual de 27% de mistura de etanol anidro na gasolina. O órgão também aponta que o aumento na produção de etanol será acompanhado por uma maior predominância dos veículos flex fuel na frota do país. Com isso, o consumo de combustíveis no ciclo Otto apresentará uma queda na participação da gasolina e um aumento na participação total do etanol. A participação do biocombustível que foi de 34% em 2014, iria para 41% em 2025 e, posteriormente, chegaria a 45% em 2030.

A diminuição na parcela da gasolina no mercado do ciclo Otto afetará a proporção de demanda de anidro e de hidratado. Em 2014, o consumo de etanol hidratado foi 22,4% maior que o de anidro. Em 2030 a expectativa é que ele seja 113,1% maior. Assim, a demanda de anidro deve aumentar em 40,8%, indo de 7,6 bilhões de litros de gasolina equivalente em 2014 para 10,7 bilhões de litros em 2030, o consumo de hidratado deve subir 145,2%, passando de 9,3 para 22,8 bilhões de litros entre 2014 e 2030. Somados, os números apresentados pela EPE alcançam uma demanda total de etanol de 26,9 bilhões de litros em 2025 e de 33,5 bilhões de litros em 2030.

Como os cálculos da EPE foram realizados em gasolina equivalente, a relação volumétrica real entre os dois combustíveis será ainda mais pronunciada, já que o etanol hidratado possui um poder calorífico menor que o anidro. Caso uma usina decidisse produzir etanol na mesma proporção exigida pela demanda dos combustíveis, em 2030, seria necessário fabricar 69% de hidratado e 31% de anidro. Em 2014, essa relação era 56% para o hidratado e 44% de anidro.
A produção
Para atender toda essa demanda, mais do que usinas com capacidade de moagem e produção, será preciso cana-de-açúcar. E, segundo o órgão governamental, a produção deve crescer aproximadamente 47% até 2030, chegando a 1,074 bilhão de toneladas de cana.
Mas mesmo todo esse crescimento na produção não seria suficiente para atender a demanda de etanol. Será preciso que a destinação de ATR também aumente. Em 2014, 35,7% do ATR de toda a cana-de-açúcar moída no país virou etanol. Esse percentual, segunda a EPE, subirá para 38,7% em 2030, o equivalente a 416 milhões de toneladas de caldo de cana.

Segundo a estimativa, todo esse caldo produzirá 51 bilhões de litros de etanol em 2030. O restante da demanda seria atendido com a produção de etanol de segunda geração.
Conforme a EPE, a produção de E2G começará a ter volumes consideráveis somente a partir de 2023, crescendo até 2,5 bilhões de litros em 2030. Quando adicionado ao etanol de primeira geração, esse montante providenciará o volume total de 54 bilhões de litros de etanol em 2030.
Devido aos arredondamentos realizados, entretanto, a conta não fecha por uma diferença de 500 milhões de litros. No documento apresentado, não fica claro se a produção de etanol de primeira geração será de 51,5 bilhões ou se o volume total será de 53,5 bilhões de litros.

Produção x demanda: o gap do Ciclo Otto
Esse detalhamento que a EPE fez das metas estabelecidas na COP21 não ressalta a discrepância entre a oferta e a demanda de combustíveis do ciclo Otto. Caso a produção de 54 bilhões de litros de etanol seja atingida em 2030, esse volume seria insuficiente para atender a demanda total desse tipo de combustível.
Em 2030 serão demandados, segundo os cálculos da EPE, 41,8 bilhões de litros de gasolina. Atualmente, a capacidade de produção brasileira de gasolina é de 29 bilhões de litros e acredita-se que ela deve permanecer assim pelas próximas décadas, uma vez que não há planos de investimentos em refinarias de gasolina. Diminuindo a oferta interna de gasolina pela demanda, encontra-se a necessidade de importação de 12,8 bilhões de litros de gasolina em 2030, pelos números da EPE.

Além disso, o gap da oferta de combustível do ciclo Otto tem apresentado variações dependendo do órgão do governo.
Durante o NovaCana Ethanol Conference, realizado ao final de junho, o diretor do departamento de combustíveis renováveis do MME, Ricardo Dornelles, estimou que o déficit de combustíveis deverá atingir 7,63 bilhões de litros em gasolina equivalente em 2025. Para o mesmo ano a EPE prevê um déficit de 9,3 bilhões de litros de gasolina.
Nesse caso, a estimativa total de consumo combustíveis é de 68,9 bilhões de litros, um volume 5,7% maior que os 65,2 bilhões de litros previstos pela EPE. Os dados do MME também apostam em uma demanda maior por etanol anidro (14,3, ante 9,8 bilhões de litros) e menor por etanol hidratado (15,9 ante 17,1 bilhões de litros).
Essa previsão é mais otimista que a divulgada na mesma ocasião pelo diretor da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), Aurélio Amaral. De acordo com ele, o gap deve atingir 23,68 bilhões de litros de gasolina equivalente em 2030.
Embora não tenha divulgado os dados por tipo de combustível, Amaral estimou um consumo de 74,7 bilhões de litros – um volume muito próximo dos 75,3 bilhões de litros esperados pela EPE.

Apesar da discordância no volume, é consenso no governo que haverá importação de gasolina na próxima década. Mesmo com a produção de 54 bilhões de litros de etanol, o país seria obrigado a suprir sua demanda com combustível produzido em outros países. Assim, um maior incentivo ao etanol – ainda nesta década – poderia ajudar a reduzir essa deficiência e evitar que bilhões de reais pesem contra a balança comercial brasileira.
Renata Bossle – NovaCana