Relatório com projeções até 2023/24 enxerga superávit na relação entre produção e consumo apenas em 2018/19
Usualmente, as projeções de consultorias e empresas especializadas para o mercado global de açúcar são para a safra vigente e, no máximo, para as duas temporadas seguintes; dificilmente arriscam-se números para além disso. Entretanto, o Departamento de Recursos de Agricultura e Água do governo da Austrália (Abares) projetou o mercado de açúcar para até seis safras adiante, chegando a 2023/24.
Em relatório, o Abares afirmou que espera um novo superávit entre o consumo e a produção global de açúcar em 2018/19 – ainda que bem menor que o de 2017/18, passando de 9,96 milhões de toneladas para 980 mil toneladas de açúcar. Este cenário gera aumento dos estoques e pressão para baixo nos preços da commodity.
Porém a situação pode mudar nas safras seguintes. Para 2019/20, o departamento espera um déficit de 160 mil toneladas do adoçante. Para as três temporadas seguintes, são projetados déficits de 1,25 milhão, 1,95 milhão e 500 mil toneladas de açúcar, respectivamente. Já para o último ano da projeção, 2023/24, são esperadas 3 milhões de toneladas superavitárias.
Com isso, segundo a entidade, os preços devem permanecer baixos e instáveis na temporada 2018/19, caindo para cU$12,5/lb. “A volatilidade dos preços em curso é esperada a curto prazo devido à crise de liquidez que se desdobra na indústria açucareira indiana. A situação é resultado dos pagamentos atrasados das usinas aos produtores de cana”, expressa.
Por ora, para tentar liquidar os pagamentos, o governo da Índia aumentou os preços domésticos do açúcar e do etanol. “Espera-se que essas medidas reduzam as exportações indianas abaixo da cota de 5 milhões de toneladas imposta pelo governo”, pontua o relatório.
O Abares também espera que as usinas do Brasil aumentem a quantia de cana destinada para a produção de açúcar devido a suposições de preços mais baixos do petróleo e desvalorização do real. “Assumindo as condições sazonais médias até a próxima colheita no Brasil, um aumento nas exportações brasileiras de açúcar deverá compensar as exportações indianas mais baixas”, aponta.
Já para 2019/20, o governo australiano projeta uma recuperação nos preços para cU$13/lb. A perspectiva é que, considerando condições sazonais médias nos principais produtores mundiais, a produção caia para volumes menores que os do consumo, dando maior sustentação aos preços.
Confira, no conteúdo completo, detalhes da análise da Abares quanto ao mercado global de açúcar.
Usualmente, as projeções de consultorias e empresas especializadas para o mercado global de açúcar são para a safra vigente e, no máximo, para as duas temporadas seguintes; dificilmente arriscam-se números para além disso. Entretanto, o Departamento de Recursos de Agricultura e Água do governo da Austrália (Abares) projetou o mercado de açúcar para até seis safras adiante, chegando a 2023/24.
Em relatório, o Abares afirmou que espera um novo superávit entre o consumo e a produção global de açúcar em 2018/19 – ainda que bem menor que o de 2017/18, passando de 9,96 milhões de toneladas para 980 mil toneladas de açúcar. Este cenário gera aumento dos estoques e pressão para baixo nos preços da commodity.
Porém a situação pode mudar nas safras seguintes. Para 2019/20, o departamento espera um déficit de 160 mil toneladas do adoçante. Para as três temporadas seguintes, são projetados déficits de 1,25 milhão, 1,95 milhão e 500 mil toneladas de açúcar, respectivamente. Já para o último ano da projeção, 2023/24, são esperadas 3 milhões de toneladas superavitárias.

Com isso, segundo a entidade, os preços devem permanecer baixos e instáveis na temporada 2018/19, caindo para cU$12,5/lb. “A volatilidade dos preços em curso é esperada a curto prazo devido à crise de liquidez que se desdobra na indústria açucareira indiana. A situação é resultado dos pagamentos atrasados das usinas aos produtores de cana”, expressa.
Por ora, para tentar liquidar os pagamentos, o governo da Índia aumentou os preços domésticos do açúcar e do etanol. “Espera-se que essas medidas reduzam as exportações indianas abaixo da cota de 5 milhões de toneladas imposta pelo governo”, pontua o relatório.
O Abares também espera que as usinas do Brasil aumentem a quantia de cana destinada para a produção de açúcar devido a suposições de preços mais baixos do petróleo e desvalorização do real. “Assumindo as condições sazonais médias até a próxima colheita no Brasil, um aumento nas exportações brasileiras de açúcar deverá compensar as exportações indianas mais baixas”, aponta.
Já para 2019/20, o governo australiano projeta uma recuperação nos preços para cU$13/lb. A perspectiva é que, considerando condições sazonais médias nos principais produtores mundiais, a produção caia para volumes menores que os do consumo, dando maior sustentação aos preços.
Na Índia, é esperado que os pagamentos em atraso das usinas façam os agricultores migrarem para culturas alternativas, como arroz e leguminosas.

Na Tailândia, os preços elevados da mandioca em relação à cana também podem reduzir a área de canaviais no país. Já na União Europeia, o relatório presume que os baixos retornos da beterraba e o aumento dos custos de produção por conta de regulamentações químicas reduzirão a área da cultura.
Consumo cresce menos
O Abares também estima um consumo mais elevado para a atual temporada, de 186 milhões de toneladas, e duas toneladas a mais para o ciclo 2019/20. A entidade espera que, até 2023/24, o consumo esteja em 195 milhões de toneladas.
Desta forma, a expectativa é que o consumo de açúcar por pessoa tenha um aumento de 1% ao ano na perspectiva do Abares, abaixo dos 1,5% vistos na década anterior. O valor é atenuado, principalmente, pela maior conscientização sobre a saúde, que leva à busca por estilos de vida mais saudáveis.
Além disso, o crescimento da demanda será afetado por economias avançadas, como o Japão, que o limitará com a desaceleração do crescimento populacional. Outro fator está nos impostos sobre o açúcar, que, conforme o Abares, tendem a limitar o aumento da demanda. Essas taxas se tornaram lei em nove países nos últimos dois anos: Índia, Irlanda, Filipinas, Portugal, Arábia Saudita, África do Sul, Sri Lanka, Emirados Árabes Unidos e Reino Unido, além de estarem em vias de implementação, em 2019, na Malásia e Tailândia.
Em contrapartida, um maior crescimento na demanda deve ocorrer em países de economia emergente e em desenvolvimento, onde o incremento da renda da população é acompanhado pela urbanização, que gera ampliação industrial e de alimentos e bebidas processadas que levam açúcar.
De olho no futuro
A entidade australiana espera que mudanças na política energética do Brasil com o RenovaBio gerem um aumento na produção de etanol e, com isso, entre 2020 e 2023, haverá um maior declínio nos estoques de açúcar, já que o consumo superaria o que é produzido.
Desta forma, com uma queda nas exportações brasileiras, a expectativa é por preços mais altos do açúcar, o que deve acelerar as respostas à oferta nos países asiáticos, especialmente Tailândia e Índia. “Até o final do período de projeção, a alta produção global começará a pressionar os preços do açúcar”, completa.

Para o Abares, o RenovaBio tem a capacidade para revitalizar os investimentos na indústria brasileira a partir de renovação dos canaviais, uso de novas variedades e integração vertical, resultando em mais produtividade e redução de custos do setor. Os fatos poderiam permitir às usinas a manutenção da produção de açúcar e o atendimento da crescente demanda de etanol simultaneamente, pressionando os preços mundiais.
“O compromisso do governo brasileiro com a redução do carbono já criou sinais positivos para investimentos em biocombustíveis que poderiam limitar o açúcar produção e exportação”, expressa o relatório.
A expectativa é que o preço dos créditos de descarbonização (CBios) aumente a demanda por etanol e incentive a produção do bicombustível. “As políticas de descarbonização do Brasil coincidem com as previsões de uma recuperação econômica, que deve expandir a frota de veículos de combustível flexível do país”, afirma o relatório.
Ainda de acordo com o Abares, mudanças na economia – inclusive no mercado interno de gasolina – também devem incentivar o investimento em capacidade adicional de produção do biocombustível.
Os grandes produtores
Globalmente, a expectativa é que a produção de açúcar chegue a 198 milhões de toneladas em 2023/24. A projeção considera a ausência de reformas políticas substanciais nos principais países produtores de açúcar.

“As políticas de apoio governamental na China, na União Europeia, na Índia, na Tailândia e nos Estados Unidos continuam a resultar em um aumento da produção às custas dos consumidores e contribuintes, cooperando para preços mais baixos e uma queda nas oportunidades de comércio global”, alega o relatório do Abares.
Além disso, a entidade enxerga uma proeminência da Índia no mercado mundial de açúcar, o que seguirá crescendo. Nos últimos anos, o governo indiano apoiou sua indústria açucareira, que tinha custos mais altos do que de outros países, com subsídios aos agricultores e usineiros, ampliando os encargos orçamentários.
“Em janeiro de 2019, os pagamentos atrasados das usinas haviam atingido cerca de 190 bilhões de rúpias indianas, o equivalente US$ 3,7 bilhões”, aponta o relatório. Isso criou uma crise de liquidez que precipitou mudanças nos preços domésticos de açúcar e etanol, que também são controlados pelo governo.
Na Tailândia, conforme o Abares, o governo local iniciou reformas na indústria doméstica de açúcar, fazendo flutuar o preço no varejo e abolindo o sistema de cotas para o produto. No entanto, o apoio à cana e os acordos de participação nos lucros entre usinas e agricultores ainda permanecem em vigor.
Segundo o relatório, os governos indiano e tailandês investiram de forma significativa na expansão da capacidade de produção de etanol das usinas. No médio prazo, a maior flexibilidade para direcionar os volumes de cana-de-açúcar para a produção para um ou outro produto poderia moderar a volatilidade cíclica dos preços mundiais do açúcar.
“Os preços globais do açúcar podem se tornar cada vez mais associados aos preços internacionais da energia e às políticas governamentais de biocombustíveis na Índia e na Tailândia”, afirma o relatório.
Além disso, o Abares argumenta que as tarifas de importação de açúcar bruto seguem protegendo a indústria doméstica da commodity na China. A barreira comercial impede que os consumidores do país acessem importações de custos mais baixos e limita os sinais de preços que ajudariam os produtores chineses a igualar a oferta com a demanda.
Já na União Europeia, a política agrícola do bloco segue incentivando os agricultores da Europa Ocidental a expandir o cultivo de beterraba. Isso já levou a uma disputa com estados-membros que não eram elegíveis ao programa, como França e Alemanha.
Por fim, o relatório explica que a proteção feita pelos Estados Unidos para a indústria doméstica local acontece por meio da combinação de empréstimos de suporte aos preços, cotas de mercado, subsídios para biocombustíveis e barreiras tarifárias.
“O preço artificialmente alto do açúcar nos Estados Unidos foi estimado pelo American Enterprise Institute e custa à economia do país até US$ 1 bilhão ao ano – isso também significa que os consumidores americanos pagam quase o dobro do preço mundial por um quilo de açúcar”, relata o documento.
Força da indústria açucareira australiana
Para a própria Austrália, o Abares espera uma produção estável, atingindo 4,8 milhões de toneladas de açúcar no médio prazo, mas com aumento nas exportações. A produção de cana deverá se manter em torno de 34 milhões no período analisado, com limitações no crescimento da área plantada devido aos baixos preços do açúcar, uso da terra para outras culturas e altos valores da terra.
“A eficiência de processamento da Austrália, a proximidade dos mercados do leste asiático, o mercado direto para refinarias no exterior e acordos de livre comércio continuarão a manter a competitividade da indústria açucareira australiana, apesar da abundante capacidade de produção global e dos baixos preços mundiais”, enumera o relatório.
Além disso, o acordo da Parceria Transpacífico, renovado em 2018, deve melhorar o acesso do açúcar australiano para Canadá, Japão, México e Vietnã: “A eliminação da tarifa do Japão e a redução do imposto sobre o açúcar de alta polaridade deverão melhorar a competitividade dos exportadores da Austrália, com benefícios em todo o setor”.
O Abares também acredita que a regulamentação, ainda em andamento, do mercado de açúcar australiano pode reduzir os incentivos para as usinas de açúcar do país investirem na renovação da infraestrutura. Isso coloca em risco a eficiência futura de processamento e, a médio prazo, pode reduzir os retornos para os produtores de cana.
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Gabrielle Rumor Koster – NovaCana