2ª Geração

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“A gente errou muito”, diz CEO da GranBio sobre etanol de segunda geração

Companhia enfrentou dificuldades com tecnologias, mandatos públicos e equilíbrio financeiro


Globo Rural - Publicado: 28 Jan 2025 - 09:12

Sócio e CEO da GranBio, Bernardo Gradin reconheceu que errou no investimento em etanol de segunda geração (E2G), em conversa com a imprensa à margem do lançamento de seu novo projeto, a Exygen. “A gente errou muito”, afirmou.

“A principal lição foi errar por acreditarmos que as tecnologias estavam prontas”, pontuou. Como primeiro empreendimento de E2G nos trópicos, a GranBio apostou em tecnologias que outras indústrias utilizavam em outras biomassas, como na indústria de madeira. Na época, multinacionais como DuPont e DSM também estavam apostando no E2G.

Porém, a companhia enfrentou dificuldades com a limpeza da biomassa da cana-de-açúcar trazida do campo e com o processo de quebra da lignocelulose.

Outro erro, segundo ele, foi confiar que os mandatos públicos de uso de biocombustível avançado eram o suficiente para garantir mercado. “A Europa e a Califórnia prometiam pagar um prêmio de carbono. A gente dizia que eles iam pagar prêmio, a gente pode produzir em um custo maior porque vai ter preço do prêmio de carbono”, citou.

Porém, dois anos após a construção da Bioflex, em 2015, o preço do petróleo despencou para US$ 42 o barril. Quando isso ocorreu, “o que falou mais alto na Califórnia foi a segurança energética”, disse. O prêmio sobre o carbono, que era de 20%, passou a ser 100%, tornando o biocombustível avançado não competitivo. “Essa foi outra lição: não confiar mais em mandato”, afirmou.

A saída, disse, é garantir um cliente que se comprometa a comprar o produto renovável antes de construir a fábrica.

A terceira lição é sobre equilíbrio financeiro. Ele reconhece que, no início, alavancou muito a GranBio, contratando linhas de financiamento com prazos que ele acreditava que seriam suficientes para que a operação estivesse equacionada e gerando recursos. Porém, as taxas de juros saíram de 4% da época das contratações para 15%.

Para evitar que a pressão financeira volte a ser um problema no projeto da Exygen, os recursos dos investimentos virão basicamente de capital dos acionistas.

A última lição tem a ver com “a vaidade do empresário, que acha que vai dar certo mais cedo”, afirmou.

Em sua visão, faltou à GranBio começar a produção de E2G em escala piloto, para testar a tecnologia, antes de partir para um investimento bilionário – na época, a companhia investiu R$ 1 bilhão. “Tem o risco de engenharia para que aquela tecnologia funcione em escala. A gente menosprezou esse risco”, afirmou.

Segundo ele, agora a GranBio está fazendo diferente. A empresa reformou as peneiras na destilaria, investiu para aumentar um pouco a capacidade de destilação e vai continuar investindo na ampliação da planta. “Uma lição fundamental hoje na GranBio é não pular etapa na escala”, assegura.

A companhia já começou a aplicar essa lógica na planta de combustível sustentável de aviação (SAF) a partir de biomassa que está construindo nos Estados Unidos. Ainda segundo Gradin, o ambiente regulatório no Brasil também é muito mais favorável agora, com a aprovação da lei do Combustível do Futuro e de mudanças no mercado de gás natural.

Ainda assim, a GranBio continuará com a possibilidade de produção do E2G na planta de Alagoas. Segundo ele, o produto só compensa financeiramente quando seu preço está acima de US$ 1.400 a tonelada – atualmente, está abaixo de US$ 1.000 a tonelada.

Camila Souza Ramos
A jornalista viajou a convite da GranBio