O banco destacou as características de concorrência entre as empresas para analisar o futuro do mercado no curto prazo
O setor sucroenergético possui as forças necessárias para retomar a sua competitividade, segundo o principal agente financiador das usinas brasileiras. Na análise do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), apesar de “um longo caminho a ser percorrido”, a indústria canavieira conta com os fundamentos e características fundamentais para a retomada do seu desenvolvimento.
O banco destacou as características de concorrência entre as empresas para analisar o futuro sucroenergético no curto prazo. Veja a seguir:
- A heterogeneidade das empresas do setor impedirá o aproveitamento das oportunidades
- Os fatores mais importantes na concorrência entre as usinas
- As vantagens da formação de cluster regionais
- Retomada das fusões e aquisições estará ligada a estratégias concorrenciais
- O conceito das biorrefinarias, apontado como o futuro do setor, está estimulando a concorrência entre as empresas
O setor sucroenergético possui as forças necessárias para retomar a sua competitividade, segundo o principal agente financiador das usinas brasileiras. Na análise do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), apesar de “um longo caminho a ser percorrido”, a indústria canavieira conta com os fundamentos e características fundamentais para a retomada do seu desenvolvimento.
Em documento publicado nesta quarta-feira (03) o banco apresenta as perspectivas de investimentos e os panoramas para os diferentes segmentos da economia brasileira. Para as usinas de açúcar e etanol o constante crescimento da frota de veículos flex e o aumento das pressões ambientais são as bases que permitirão um crescimento sustentado da demanda potencial pelo biocombustível.
No polo negativo “a forte pressão altista sobre os custos de produção é a principal fragilidade do setor”. A fraqueza é explicada por fatores conjunturais, como a baixa renovação de canaviais e as adversidades climáticas verificadas nos últimos anos. No entanto, são os elementos estruturais, relacionados principalmente ao ritmo lento e insatisfatório de investimento tecnológico na área agrícola a industrial, que estão na alçada do banco, os principais problemas.
“Quando se analisa a curva de produtividade de longo prazo, verifica-se uma clara redução dos incrementos ao longo dos anos, sugerindo a influência de fatores de caráter estrutural”, justifica a análise. Desde o início de 2013, quando publicou um estudo sobre a “crise estrutural” do setor, a instituição vem externando sua preocupação com a estagnação tecnológica aplicada aos canaviais.
Para reverter o problema o banco criou, junto com a Finep, o PAISS Agrícola, programa de financiamento para a inovação e desenvolvimento de tecnologias agrícolas e adaptação de sistemas industriais do setor canavieiro.
A análise evidencia que o BNDES se mantém firme na convicção de que a recuperação do setor virá pela evolução tecnológica. A avaliação considera que para as usinas o “ativo mais estratégico é a própria cana-de-açúcar”, uma planta com ciclos curtos e elevada produção de biomassa. A mira está na inovação:
“Isso faz com que as usinas de cana sejam receptoras naturais das novas tecnologias de conversão de biomassa em outros produtos, como outros biocombustíveis e químicos renováveis”.
Mesmo produto, empresas diversas
Ao mesmo tempo em que exalta o potencial de produção e de diversificação da indústria, o banco pondera que “é incerta a apropriação dos potenciais ganhos pelas empresas do setor”. Esta dúvida em relação aos benefícios que as usinas podem conseguir no futuro reside na heterogeneidade entre as companhias que comandam o setor produtivo.
Com grupos econômicos que concentram desde 10% do mercado até empresas que contam com uma única unidade produtora, as diferenças se estendem do tamanho à natureza de atuação e saúde financeira. “Hoje, convivem no setor empresas petrolíferas, de energia, tradings e familiares. Algumas delas apresentam altos índices de endividamento”, comenta o documento.
Mas, se por um lado as empresas são muitas e diferentes entre si, os produtos por elas fabricados indeferem de uma para outra. Por isso, o que distingue o açúcar ou etanol feito por uma companhia daquele fabricado pelos seus pares é o preço.
“Não há significativa diferenciação de produto ou de marca por parte das usinas, que são tomadoras de preços. A competitividade setorial reflete o vetor de custos das empresas, fundamentado basicamente na esfera agrícola da produção”.
Assim, a concorrência é determinada principalmente pelo custo e qualidade da matéria-prima. Em áreas com alta concentração de usinas, a disputa pela cana faz com que os grupos de maior pujança econômica formem cluster regionais. A estratégia de concentrar unidades em áreas próximas funciona como forma de demarcação territorial.
“Além de garantir o suprimento de cana-de-açúcar, os clusters também funcionam como barreiras à entrada, já que são obstáculos à expansão geográfica da produção”, aponta a análise.
Segundo o documento, para os grupos sem força econômica para rejeitar propostas de fusões e aquisições, o processo de consolidação se mostram como uma saída, ao passo que viabilizam um contexto mais competitivo para os novos entrantes.
“Para grupos menores, especialmente para aqueles que atravessam dificuldades financeiras, as operações de fusão e aquisição tornam-se soluções mais recorrentes para seus problemas. Desse modo, por meio de compras de grupos já estabelecidos, novos entrantes conseguem se inserir competitivamente no setor, aliando a estratégia de formação de clusters à estratégia de bloqueio do avanço regional de seus concorrentes”, explica o banco.
Biorrefinaria
O banco completa a análise sobre as forças e fraquezas do setor reforçando o aspecto tecnológico como um elemento na busca de maior competitividade ao mesmo tempo em que mantém a relevância da cana.
A análise afirma que a inovação está mobilizando a concorrência no setor, com grandes grupos investindo em novas tecnologias de produção, como o etanol de segunda geração e novos produtos feitos da cana, como o diesel e o querosene de aviação.
Com o apoio do BNDES, empresas como Amyris, GranBio e Raízen já operam projetos do gênero, seja para produzir etanol a partir da celulose ou bioquímicos da cana, incorporando o conceito de biorrefinaria, modelo que é considerado o futuro das usinas.
Com a biorrefinaria, esclarece a análise “numa mesma planta, será possível produzir diversos produtos, como vários combustíveis (etanol, butanol, diesel etc.), alimentos (açúcar) e muitas outras especialidades químicas”.
Contudo, os principais produtos continuarão sendo aqueles já fabricados atualmente, o que vai manter na matéria-prima o foco da busca por melhor competividade. “Os produtos futuros serão agregados à planta de produção de etanol e, do ponto de vista da usina, serão complementares à produção corrente”, finaliza o banco.
Amanda SchArr - NovaCana