Motivada por um potencial de aumento de quase 10 milhões de toneladas, a União Europeia pode alterar o cenário mundial ao direcionar o açúcar branco excedente para a exportação
A partir de outubro de 2017 serão abolidas as cotas que restringem as vendas de açúcar de beterraba e de isoglucose (também chamada de xarope de frutose ou HFS) no mercado interno da União Europeia. Para os produtores brasileiros, essa mudança tem um efeito direto, uma vez que ela também implica no fim das restrições à produção, o que pode trazer uma maior concorrência no mercado mundial de açúcar.
“A beterraba está ganhando força na rotatividade de culturas porque sua produtividade é melhor que a de outras alternativas, como trigo, milho e canola”, afirma o diretor da LMC International, Martin Todd. Ele ainda completa: “Em um nível muito fundamental, a indústria está se sentindo confiante”.
Mas toda essa confiança ainda é acompanhada de muitas incertezas.
No mês passado especialistas se reuniram em São Paulo para discutir o mercado de açúcar. E a nova dinâmica da Europa foi um dos destaques do encontro.
A seguir:
- Resumo das discussões sobre as mudanças na Europa
- Possíveis impactos no mercado de exportação de açúcar
- Novas necessidades da indústria de processamento de beterraba
- Perspectivas para a safra mundial 2016/17
- Características do setor produtivo europeu
- Diferenças entre cultivo de beterraba e de cana-de-açúcar
- Produtividade agrícola e industrial da beterraba
- Apoio governamental aos produtores
A partir de outubro de 2017 serão abolidas as cotas que restringem as vendas de açúcar de beterraba e de isoglucose (também chamada de xarope de frutose ou HFS) no mercado interno da União Europeia. Para os produtores brasileiros, essa mudança tem um efeito direto, uma vez que ela também implica no fim das restrições à produção, o que pode trazer uma maior concorrência no mercado mundial de açúcar.
Durante o Seminário Internacional do Açúcar 2016, realizado no mês passado, o diretor da LMC International, Martin Todd, falou sobre o potencial de expansão da União Europeia com otimismo. De acordo com ele, uma das principais vantagens da cultura é a alta produtividade agrícola e industrial, especialmente nos países com maior produção, como a França.
“A beterraba está ganhando força na rotatividade de culturas porque sua produtividade é melhor que a de outras alternativas, como trigo, milho e canola”, afirma e completa: “Em um nível muito fundamental, a indústria está se sentindo confiante”.
Inclusive, ele aponta que o índice é “muito maior” que o registrado no Centro-Sul do Brasil. Enquanto os produtores brasileiros conseguem produzir em torno de 10 toneladas de açúcar branco por hectare plantado, os franceses alcançam 13 toneladas.

Por sua vez, o produtor inglês William Martin, presidente da divisão de açúcar da União Nacional dos Fazendeiros (NFU Sugar), calcula que alcança 14 toneladas de açúcar por hectare. Em sua fazenda, a produção de beterraba alcança 75 toneladas do produto agrícola por hectare.
Características do setor produtivo europeu
Além da produtividade, o setor açucareiro europeu se diferencia do brasileiro em vários pontos. Entre eles está a dissociação entre produtores e processadoras, a rotatividade de culturas e a inexistência de um comprometimento de longo-prazo por parte dos fazendeiros.
“Não tenho nenhum compromisso de longo prazo com a sobrevivência da indústria. Meu apetite por riscos é diferente e a minha reação aos sinais de mercado também”, William Martin (NFU Sugar)
William Martin explica que a maior parte das propriedades na Europa são pequenas e não há uma tradição das companhias processadoras em cultivar sua própria matéria-prima, ainda que haja casos de cooperativas vinculadas a usinas. De acordo com ele, no Reino Unido, a média é de uma produção de 2 mil toneladas de beterraba por fazenda.
Mas embora as fazendas sejam pequenas, quase todo o trabalho nas lavouras de beterraba é feito por terceirizadas. “Nós, os fazendeiros, temos acesso aos mais modernos equipamentos e às técnicas mais recentes devido ao uso de terceirizadas, que podem pagar por isso. Dessa forma, não somos tecnologicamente prejudicados pela pequena escala de produção”, relata Martin.
“Como produtor, eu preciso – em uma base anual – estar certo de que vale a pena plantar beterraba”, William Martin (NFU Sugar)
Além disso, a rotatividade de culturas é comum. “Eu planto beterraba no mesmo local a cada quatro ou cinco anos. Então, estou sempre plantando outras coisas também, como trigo de inverno, milho, batatas e uma variedade de outras culturas”, exemplifica.
A beterraba, no entanto, tem uma safra que se diferencia das culturas alternativas. Segundo Martin, a maior parte delas são plantadas no outono (outubro a dezembro), enquanto o cultivo da beterraba se inicia em março. Dessa forma, a decisão sobre a área dedicada ao plantio deve ser realizada com meses de antecedência.

“Em julho de 2016, eu tomei a decisão para o cultivo em março de 2017. Há uma distância de dois anos entre o momento que decido plantar beterraba e o momento em que esse açúcar chega ao mercado”, afirma e completa: “Embora seja possível ajustar a plantação em uma base anual, não temos uma resposta muito rápida para os sinais do mercado”.
Mudanças no cenário de exportação
Outra importante diferenciação é que o adoçante produzido a partir da beterraba é comercializado apenas como açúcar branco, já que seu processo de produção é diferente do produto derivado da cana-de-açúcar.
Segundo Martin Todd, da LMC, a União Europeia exportava anualmente entre 5 e 6 milhões de toneladas de açúcar branco, o que, no início da década passada, representava mais de 20% do volume negociado. Atualmente, no entanto, o bloco é responsável por 6% desse mercado, com 1,5 milhões de toneladas exportadas por ano.

Ele explica que um possível crescimento da União Europeia na exportação de açúcar branco pode levar a uma queda nos preços do produto, motivando uma redução nas atividades das refinarias. Consequentemente, surgiria um aumento no estoque de açúcar VHP no mercado mundial.
Para os interessados no mercado europeu, contudo, é preciso considerar que, apesar da possível mudança nos preços, não haverá alteração nas taxas de importação para açúcar não refinado (339 euros por tonelada) ou açúcar branco (419 euros por tonelada). Os países que contam com acesso preferencial não serão afetados e a União Europeia pode continuar a negociar acordos de livre comércio. “Essa é uma liberação parcial do regime de açúcar na Europa”, descreve Martin Todd.
“O fim das cotas chegou em um bom momento para os produtores de beterraba. Os valores do açúcar estão bons, enquanto os preços das culturas alternativas estão muito fracos”, Martin Todd (LMC)
Assim, a Europa pode se tornar mais suscetível às flutuações do mercado, podendo optar por ampliar ou reduzir sua produção segundo for conveniente – mas a expectativa é que, em um contexto mundial de preços altos e déficit na produção, a opção seja por um crescimento. Ainda não se sabe, entretanto, quanto o bloco deve exportar. Afinal, também é possível que os produtores optem para destinar seus produtos ao mercado local, originando uma possível redução das importações.
Fim das garantias para fornecedores
Além disso, ainda que muitas regiões da Europa estejam preparadas para o fim das cotas em 2017, Todd relata que 10 países do bloco devem estender suas políticas de apoio voluntário aos fornecedores de beterraba até, pelo menos, 2020. O objetivo seria manter a cultura dentro da rotação dos pequenos agricultores. “Esses países também estão entre os que tem maior rendimento agrícola para a beterraba”, argumenta Todd.
De acordo com a LMC, o país que mais oferece suporte aos produtores é a Finlândia, com 120 euros por tonelada de açúcar. Ainda que muitos países já não ofereçam o benefício – como França, Alemanha, Reino Unido e outros – a Espanha, líder em produtividade agrícola entre 2011 e 2015, oferece a seus produtores cerca de 30 euros por tonelada de açúcar.
Mesmo sem o incentivo governamental, William Martin explica que os produtores fazem o cultivo já com um valor garantido, motivado pelas cotas. Como no Reino Unido há apenas uma planta processadora de beterraba, a regulação da União Europeia determina que as negociações dos produtores sejam feitas em conjunto. Como presidente da NFU Sugar, Martin é o encarregado dessa relação.
“Para mim, a decisão de plantar beterraba nunca foi complicada. Eu sabia quanto receberia. A área de plantio dependia apenas do contrato que eu firmasse com a processadora”, William Martin (NFU Sugar)
“Eu planto beterraba há 30 anos e sempre atuei com uma colheita mínima garantida. Independentemente de qualquer condição de mercado, eu sabia que se plantasse beterraba na minha fazenda, receberia pelo menos um preço mínimo”, afirma.
Aumento dos dias de processamento
Com relação à área industrial, Martin Todd ainda aponta que muitas plantas estão operando abaixo do potencial de 120 a 140 dias por ano. Caso elas consigam matéria-prima suficiente, o diretor acredita que a produção europeia poderia ultrapassar a marca de 20 milhões de toneladas, com destaque para França e Alemanha.

De acordo com ele, os países que operam dentro dessa faixa de dias são Suécia, Áustria, Holanda, Dinamarca e Bélgica. O destaque, contudo, vai para o Reino Unido, com 160 dias de operação por ano. Isso é possível porque a beterraba é menos perecível que a cana-de-açúcar, podendo ser armazenada por mais tempo.
“É possível colher e esperar até duas semanas para levar para a fábrica sem deterioração. Assim, um problema temporário na indústria não tem efeito imediato na colheita de beterraba”, explica William Martin.
Entre as grandes companhias que ainda não atingiram sua capacidade total de processamento, Todd cita Tereos, Cristal Co., Südzucker, Pfeifer & Langen e Polski Sugar. Contudo, ele ressalta que, antes de atingir suas capacidades máximas, essas empresas precisarão fechar contratos com produtores de beterraba.
“A pergunta que ainda pesa é qual será o sucesso das usinas em fazer com que os fazendeiros plantem beterraba suficiente para que eles atinjam sua capacidade de produção”, Martin Todd (LMC)
Outra questão que pesa para as companhias com atuação na Europa é o possível crescimento do xarope de frutose, que pode alcançar até 2,5 milhões de toneladas em açúcar equivalente, segundo a LMC.
Além disso, o clima pode gerar variações na safra de beterraba. De acordo com os dados apresentados, um clima ruim pode levar a uma perspectiva de produção entre 17 e 18 milhões de toneladas, enquanto um bom clima pode proporcionar entre 21 e 22 milhões de toneladas de beterraba. “A maior parte da produção – de 15 a 16 milhões de toneladas – já foi comercializada. É o excedente que fará a diferença no mercado, especialmente para a exportação”, aponta Todd.
O que esperar no curto-prazo
A temporada global 2016/17 (outubro a setembro) será a última temporada ainda afetada pelas cotas. Segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a expectativa é que as importações de açúcar para a Europa correspondam a um volume de 3,25 milhões de toneladas. Ao mesmo tempo, a isoglucose possuirá um mercado de 720 mil toneladas e o açúcar de beterraba chegará a 13,5 milhões de toneladas – ambos valores controlados pelas cotas de produção.

De acordo com a USDA, ainda não é possível apontar com certeza qual será a produção de açúcar de beterraba após o fim das cotas. Fontes consultadas pelo órgão apontam um aumento de 5% na produção total do bloco, mas produtores na França indicaram otimismo e esperam por uma ampliação de 20% ou mais.
Além disso, existe a perspectiva de um aumento na produção de isoglucose para 2 milhões de toneladas, o que poderia atender a 10% do mercado de adoçantes alimentícios. Contudo, isso necessitaria da ampliação de uma infraestrutura considerada velha pelo órgão norte-americano, após ter ficado anos sujeita à limitação das cotas.
Renata Bossle – NovaCana