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Felipe Mendes (Tereos): “Precisamos criar alavancas de demanda para o etanol”

Diretor de novos negócios da Tereos relata ao NovaCana os principais investimentos da companhia e traz sua visão sobre fontes de demanda por etanol

NovaCana 13 min de leitura

Ampliar a demanda por etanol no curto prazo, especialmente por aumento de mistura à gasolina no Brasil e no mundo, e pensar nos biocombustíveis avançados nos médio e longo prazos. Esse é um dos planos da Tereos, conforme o diretor de sustentabilidade, novos negócios e relações institucionais da sucroenergética, Felipe Mendes.

Ele detalha: “[A mistura de etanol na gasolina] é uma solução um pouco mais óbvia, que já tem um impacto mais imediato, enquanto as outras [SAF e biobunker] precisam de uma série de confirmações de tecnologia, ambição dos armadores, disponibilidade, fluxo, regulação; mas sem dúvida são promissoras”.

Do lado da produção, investimentos em tecnologias no campo, automações, inteligência artificial, monitoramento, irrigação e equipamentos pesados movidos a etanol são algumas das iniciativas já postas em prática ou ainda em testes pela sucroenergética a fim de aumentar eficiência e capturar margens. Tudo com o cuidado de preservar a baixa alavancagem.

Os detalhes foram relatados em uma entrevista exclusiva. Mendes será uma das palestrantes do painel “Capital em movimento: onde estão as maiores oportunidades de mercado” durante a Conferência NovaCana 2026. O evento acontece nos dias 28 e 29 de setembro, em São Paulo (SP), e as inscrições já estão abertas.

A seguir, leia a entrevista completa.

A Tereos firmou uma parceria com gigantes da aviação para produção de SAF na França. Existem possibilidades de inclusão da produção brasileira?
O projeto chamado Rebound tem como objetivo produzir 160 mil toneladas ou metros cúbicos de querosene sustentável de aviação à base de etanol. É um dos primeiros e mais relevantes projetos na rota ATJ [alcohol to jet]. Na Europa, e até mesmo fora dela, carecemos de projetos que ganhem tração nesta rota, mas a Tereos confirma que esse é um caminho viável e que tem a aposta de ‘gente grande’. Nesse momento, o nosso objetivo é alavancar a produção de etanol que temos na Europa. Nós produzimos a base de trigo, milho e beterraba. O objetivo é concentrar o suprimento com etanol de trigo nesse momento, seja da Tereos ou de outras que possamos originar no continente europeu. A princípio, não estamos prevendo uma participação de um fluxo Brasil-Europa porque temos as oportunidades de exportação do etanol brasileiro para outros mercados, pois é um biocombustível de intensidade de carbono extremamente baixa.

Quais países devem receber o produto?
Temos discussões com Austrália, Japão e Estados Unidos. Além disso, têm dois projetos que enxergamos como um pouco mais sérios e maduros de ATJ no Brasil e que também estão nas discussões.

Além do SAF, o etanol também está crescendo no ambiente marítimo. Existem ambições por parte da Tereos em adentrar neste mercado?
Sem dúvida, o marítimo vem em um momento muito relevante para o setor; talvez tenha ganhado até mais tração do que o próprio SAF por não precisar da transformação do etanol em querosene. Já temos a solução pronta e é muito mais sobre entender como a legislação vai caminhar e como os armadores vão adotar os motores a etanol. Estamos acompanhando bastante de perto outros players relevantes do setor via Unica [União da Indústria de Cana-de-açúcar e Bioenergia] e por meio da nossa atuação na Europa. Temos uma agenda muito importante agora em novembro, na IMO [Organização Marítima Internacional]. Precisamos aprovar os 40% de redução de emissões até 2030; só que este marco está passando muito pelos Estados Unidos, país que tem sido o principal detrator das metas. Precisamos mostrar que o etanol é, sem dúvida, uma das rotas mais vencedores nessa agenda de descarbonização. Observamos a Warsila, que vem despontando com motores exclusivamente a etanol, os quais devem estar em nível comercial a partir de 2028; e a Maersk, que está avançando nos testes com mistura de etanol. Os testes são muito promissores.

Qual seria o impacto em demanda?
O universo que podemos aproveitar é extremamente grande, estamos falando de mais de 300 bilhões de litros de combustível marítimo mundialmente. Se capturarmos 10% disso, é quase a produção brasileira de etanol, somando cana e milho. O potencial que temos no ATJ também é da ordem de 300 bilhões de litros. Capturando os mesmos 10% e multiplicando pelo fator de conversão de 1,8 para transformação, fica próximo de 60 bilhões de litros. Ou seja, cerca 90 bilhões de litros que teríamos de potencial. E, atualmente, a produção anual global de etanol é da ordem de 130 bilhões. Mas não temos uma estimativa específica para atingir esse volume, é somente um cenário e certamente levariam bons anos para chegarmos lá; ainda estamos no começo da jornada. Pode ser muito transformador, mas eu vejo como agendas de médio a longo prazo.

E no curto prazo?
Continuo enxergando que o que vai mais impactar o setor em escala nacional é o aumento de mistura. Acabamos de ter o E32, tem a possibilidade do E35 no ano que vem, além de E27 na Índia e o E20 na Europa.

Você mencionou a possibilidade de mercado pelo aumento de mistura em outros países. Poderia detalhar mais este tema?
Hoje, os mercados europeu e americano são mais desafiadores para acessar devido a arbitragem de preço, regulação e até competitividade. O preço americano é muito competitivo ante o brasileiro e, no mercado europeu, as janelas têm sido bem curtas para aproveitar. O maior espaço para capturarmos as misturas é na Ásia. É onde, por exemplo, a Unica tem colocado muitos esforços. Houve um recuo no Japão; eles imaginavam o E10, mas estão indo para algo mais sóbrio, provando o E5. Tem a Indonésia, que possui uma frota de motos gigantesca e muito maior do que a de carros, então, existe a possibilidade de ter ou não as motos flex.


“Indonésia, Japão, Coreia, Vietnã e até mesmo a Índia – para onde ainda não temos esse fluxo, mas potencialmente poderia abrir –, são as maiores apostas para começar a construir um novo polo de crescimento de demanda de etanol”, Felipe Mendes (Tereos)


Dentro do Brasil, há espaço para ampliação?
Temos uma produção de etanol de milho vindo em um crescimento vertiginoso e precisamos criar alavancas de demanda. Seja em mistura, seja em abertura de novos mercados dentro do próprio Brasil, como no Nordeste. Como fazemos para ter uma participação maior no ciclo Otto? O próprio E35, alavancas de SAF, de marítimo, e eu vou além. Temos uma agenda bastante pautada em sustentabilidade, vemos iniciativas de equipamentos pesados a etanol e já estamos testando colhedoras e tratores a etanol e outras a diesel e etanol. Ainda precisamos confirmar aspectos de eficiência energética, segurança e logística. Com isso, em um horizonte de cinco anos, não vemos um desequilíbrio muito grande entre oferta e demanda, considerando alguma contribuição vinda de SAF e marítimo. Se não houver, poderemos ter um problema um pouco maior de pressão de preços, mas o mercado vai se ajustando.

Recentemente, a Tereos divulgou a intensificação do uso da vinhaça localizada em seus canaviais. Quais outras práticas sustentáveis e de economia circular estão no radar da sucroenergética?
Hoje aplicamos a vinhaça em 80% da nossa área própria e, obviamente, temos o objetivo de expandir a 100% ao longo dos próximos sete anos. Além disso, temos o uso do bagaço para geração de energia. Estamos, ainda, apostando em iniciativas como o biometano e o biogás. Fomos um dos pioneiros na construção de uma planta piloto na nossa usina sede. Não demos o passo seguinte para o biometano por conta de uma ausência de convicção de que o retorno seria o mais atrativo dentre as opções que tínhamos na mesa, combinado com um cenário de preços e de resultados mais desafiadores. A Tereos, como um player tradicional e conservador, tem sido muito disciplinada e diligente nos investimentos, então, não apertou esse botão, mas continuamos monitorando de perto e é uma outra frente para contribuir em geração de receita para o setor. Mas eu acho que as principais oportunidades moram no campo. Apostamos muito nos bioinsumos: 50% do nosso manejo agrícola já leva bioinsumos. É desafiador quebrar esses paradigmas, mas está funcionando muito bem e o reflexo disso é que, em um ano como esse, a Tereos está liderando em ATR [açúcar total recuperável] por hectare dentre os grandes grupos, apesar de não ter o canavial mais jovem.


“Somos o segundo maior gerador de energia por tonelada de cana, com uma eficiência bastante alta. Em um ano de preços deprimidos de açúcar e etanol, a cogeração serve como um colchão de liquidez e de geração de resultado importante”, Felipe Mendes (Tereos)


Você enxerga que estas ações podem ajudar a Tereos a passar com mais facilidade pelos problemas climáticos que o setor está enfrentando ou enfrentará nos próximos meses, como as consequências do El Niño?
É muito difícil para a cana, que é 70% composta por água, sobreviver a secas severas. Você pode fazer o manejo agrícola que for, exceto se apostar em irrigação, acaba sendo exposto. Notamos que, na nossa região, a frequência de secas vem aumentando muito. Nos últimos cinco anos, tivemos duas grandes secas. Mas o nosso canavial tem se mostrado mais resiliente: tivemos uma quebra muito forte em 2021 e perdemos entre 25% e 30% da produção. Já a seca que tivemos há dois anos, inclusive com queima, representou uma perda bem menor, de cerca de 10% a 12%. Foi o reflexo de todas as nossas apostas no campo, como bioinsumos, maturadores, planejamento agrícola, investimento em tecnologia, acompanhamento de melhor ponto de colheita, etc. Independentemente do ciclo, a Tereos nunca deixou de cuidar do canavial, sempre mantendo uma idade média e uma renovação adequada. Temos um portfólio de variedades extenso e um time agronômico que está bem dedicado para esse planejamento agrícola, conseguindo ter este tipo de resiliência. Entretanto, eu acho que a única garantia para surfar esses momentos é a irrigação.

Vocês têm investido nisso?
Esse é um ponto que estamos discutindo muito com o nosso conselho na França. Já temos alguns pilotos e dá um retorno extremamente alto – talvez esse seja um dos melhores projetos do ponto de vista de retorno –, mas ainda não alavancamos os investimentos, pois estamos esperando o momento correto.

A empresa vem implementando automação de processos e até mesmo uso de IA no campo e na indústria? De que maneira?
Onde temos mais espaço para ganhar em retorno, sem dúvida, é no campo, que corresponde a praticamente 70% do custo fixo. O que conseguirmos aplicar de ferramentas para apoiar na tomada de decisão e aumentar a eficiência operacional é onde vamos extrair mais valor. Para isso, temos o centro de operações agroindustriais (COA), onde fazemos toda a conexão do negócio, embarcamos bastante tecnologia e isso tem mostrado [resultado] na eficiência de colheita e de plantio, na redução dos raios, na otimização de consumo de diesel e assim por diante. Tem a parte de analytics, big data, monitoramento. Somos um cluster com cinco unidades, então, é necessário ter um COA para fazer a gestão da cana, para qual usina ela irá e não deixar de aproveitar o melhor momento de colheita, otimizando os custos. Temos um aspecto muito relevante de monitoramento, que faz essa conexão entre campo e indústria.

Existem outras ações?
Tem um segundo bloco, que são as novas tecnologias embarcadas no campo, como colhedora de duas linhas e trator autônomo, que estamos começando a testar. A Tereos gosta de ser pioneira nessa parte de tecnologia, como monitoramento via drone e satélite; estamos sempre prontos para testar. Um terceiro bloco é o da inteligência artificial, onde estamos criando o nosso próprio LLM [grande modelo de linguagem]; é uma agenda que estamos percorrendo, mas que não está madura o suficiente. Estamos em um primeiro nível para ver como traremos a inteligência artificial para o negócio e como ela nos ajudará a trabalhar melhor as tomadas de decisão. Tem alguns pontos de indústria 4.0 em que fomos pioneiros. Gostamos disso, mas tentamos ter pé no chão e manter o foco onde conseguimos direcionar e onde mais agregamos valor. Sem dúvida, isso vem contribuindo muito para uma Tereos muito mais rentável e estruturada do que há cinco ou dez anos.

O acesso a crédito tende e ficar um pouco mais dificultado para as empresas neste ano, considerando taxas de juros elevadas, por exemplo. Como a Tereos enfrenta essas dificuldades e busca capital para implementar melhorias?
O agro, de maneira geral, vem sofrendo e, por isso, tem sido visto por bancos e credores com mais cautela; é só olharmos para a inadimplência do agro. É inegável que os bancos serão mais diligentes. Dentro desse contexto, a Tereos sempre foi uma companhia com uma bancabilidade alta; temos relacionamento e exposição com todos os bancos brasileiros e com uma boa quantidade de bancos internacionais, temos exposição com BNDES, no mercado de capitais. Também temos uma alavanca muito importante, que é o nosso acionista, que consegue captar recurso a juros mais baixos. Há cinco anos, tínhamos uma alavancagem mais próximo de 5 a 6 vezes. Na divulgação de março, o índice está em 1 vez; é um excelente nível. Considerando o que temos alavancado somente em dívida externa, o valor é inferior a 0,5 vez. Soubemos nos preparar para o momento da baixa, para ter acesso a crédito sem dor de cabeça, porque não mostramos um risco elevado comparado à média setorial. Não sofremos pressão ou dificuldade de captação; obviamente, talvez tenhamos desafios em termos de prazo e custo, mas nada parecido com o que enfrentamos no último momento de baixa do setor.

A previsão para este ciclo é de margens mais apertadas para as usinas.
É inegável que passaremos por um ano onde essa alavancagem tende a se elevar um pouco, será natural para todo mundo. Não tem como não perder geração de Ebitda em um ano de preços desafiadores como esse. Será um ano mais desafiador do que o anterior, mas pelo lado dos preços, mas não pelo da produção. Teremos uma safra muito positiva, principalmente considerando mais a produtividade e menos o ATR. Mas, em um negócio de commodity, o custo é rei. O preço de etanol é muito desafiador. Será difícil ver um player no setor que produz etanol de cana e que está operando abaixo do custo de produção. No açúcar, começamos a enxergar um preço reagindo, buscando a casa dos 17 centavos [de dólar por libra-peso], chegou a ‘namorar’ os 18 centavos, e obviamente se enxerga geração de resultado positivo. Mas a verdade é que todo o setor está fixado a valores muito parecidos com o custo de produção. Com as duas principais fontes de receita em linha ou abaixo do custo de produção, vai ser um ano, muito provavelmente, de queima de caixa; não é diferente para a Tereos. Já estávamos nos preparando para isso. Temos que saber surfar; estamos no Brasil há 25 anos e soubemos surfar os anos de baixa. Esperamos que seja um período mais curto de baixa e que esse preço do açúcar se recupere o mais breve possível.


Felipe Fernandes Mendes é um dos palestrantes confirmados na Conferência NovaCana 2026, que acontece nos dias 28 e 29 de setembro. Ele está entre os convidados do painel “Capital em movimento: onde estão as maiores oportunidades de mercado”, que discutirá sobre o ciclo atual de investimentos sucroenergéticos; fusões, aquisições e a consolidação do setor; endividamento, crédito e riscos macroeconômicos; questões climáticas, resiliência no campo, automação e IA; políticas públicas, sustentabilidade e riscos; além de barreiras comerciais e mercado internacional. Clique aqui e acesse a programação completa.


Gabrielle Rumor Koster – NovaCana

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