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EUA desconfia dos números da Unica e projeta importação de etanol de cana em 2016

cana-de-acucar 151215Agência do governo norte-americano: “Nós não acreditamos que as informações da Unica dão suporte a esse nível extremamente alto de exportações”

NovaCana 10 min de leitura

Neste mês os EUA chegaram a uma decisão final sobre como os biocombustíveis ocuparão os espaços na matriz energética para 2016. O programa federal de Padrão de Combustíveis Renováveis (RFS) causa reflexos no mundo inteiro, especialmente nos países com potencial para exportar combustíveis renováveis.

Para o Brasil, o mercado é tão interessante que a Unica chegou a fazer um trabalho para tentar convencer a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) de que o Brasil poderia ser um grande exportador de etanol de cana-de-açúcar.

O problema é que o resultado apresentado pela Unica ficou tão distante da realidade que a agência do governo norte-americano resolveu mergulhar nos números brasileiros e descontruiu os argumentos da entidade brasileira.

Além disso, a EPA fez algumas projeções de quais combustíveis ocuparão as metas definidas no início do mês, o volume e preço do etanol de cana que eles importarão em 2016 e apresenta uma perspectiva para os biocombustíveis avançados para além do ano que vem.

E mais:

- Os argumentos da EPA para as exportações de etanol de cana;

- Preços para 2016: etanol de cana X biodiesel X etanol de milho;

- Visão oficial: como as metas estabelecidas serão efetivamente cumpridas;

- Unica vs. EPA.

Neste mês os EUA chegaram a uma decisão final sobre como os biocombustíveis ocuparão os espaços na matriz energética para 2016. O programa federal de Padrão de Combustíveis Renováveis (RFS) causa reflexos no mundo inteiro, especialmente nos países com potencial para exportar combustíveis renováveis.

Para o Brasil, o mercado é tão interessante que a Unica chegou a fazer um trabalho para tentar convencer a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) de que o Brasil poderia ser um grande exportador de etanol de cana-de-açúcar.

O problema é que o resultado apresentado pela Unica ficou tão distante da realidade que a agência do governo norte-americano resolveu mergulhar nos números brasileiros e descontruiu os argumentos da entidade brasileira.

A Unica afirmou que o Brasil seria capaz de enviar no ano que vem 2 bilhões de galões de etanol. Isso representa 7,6 bilhões de litros, ou 26,5% de tudo o que o Brasil deve produzir na safra atual, que deve chegar a 28,66 bilhões de litros.

Os números superlativos causaram desconfiança. Após análise, a agência concluiu que o etanol de cana que os EUA importarão em 2016 dificilmente deve ultrapassar a marca de 200 milhões de galões [757,1 milhões de litros].

A EPA foi desenvolveu uma resposta categórica. “Para começar, exportações de 2 bilhões de galões do Brasil para os Estados Unidos seriam significativamente mais altas que o total de exportações para todos os países em todos os anos anteriores”, disparou.

“Depois de uma investigação, nós não acreditamos que esses níveis de importação sejam possíveis”, afirmou o orgão.

No documento oficial a agência ainda fez questão de elaborar um gráfico para evidenciar o problema da posição defendida pelas usinas brasileiras. Os dados utilizados para este argumento são da própria Unica:

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A EPA alega que, apesar dos comentários da Unica em contrário, as importações de etanol de cana-de-açúcar foram muito variáveis no passado e são dependentes de fatores externos ao programa de RFS. “O maior volume de etanol de cana-de-açúcar já importado pelos Estados Unidos foi de 680 milhões de galões [2,6 bilhões de litros] em 2006 e, desde então, as demandas internacionais cresceram significativamente”, completa.

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A agência argumenta que, nos últimos anos, as exportações de etanol do Brasil para outros países, além dos Estados Unidos, somaram mais de 300 milhões de galões [1,1 bilhão de litros] anuais, tendo aumentado principalmente o envio para a China. Além disso, o Brasil também ampliou seu consumo interno.

“Se isso continuar em 2016, o total de exportações do Brasil precisaria chegar a 2,4 bilhões de galões [9,1 bilhões de litros] para que seja possível fornecer 2 bilhões de galões [7,6 bilhões de litros] para os Estados Unidos.”, calcula. E crava o descrédito: “Nós não acreditamos que as informações da Unica dão suporte a esse nível extremamente alto de exportações”.

Ainda de acordo com a EPA, a Unica baseou suas estimativas do potencial de exportação para os Estados Unidos apenas em uma combinação da capacidade de produção de etanol do Brasil e nas oportunidades criadas pelo programa RFS, desconsiderando incertezas associadas a fatores de mercado, incluindo a parede de mistura do E10 nos Estados Unidos, mudanças no mercado doméstico de etanol no Brasil e fatores competitivos na demanda por açúcar.

O órgão norte-americano também demonstrou preocupação com o aumento do consumo de combustíveis de ciclo Otto no país. “Embora a produção de cana-de-açúcar tenha aumentado moderadamente no Brasil ao longo dos últimos anos, o total de gasolina consumida no país também continuou a crescer. Isso reduz o potencial de crescimento das exportações de etanol em 2016, já que o combustível é uma fonte crítica de fornecimento, sendo utilizado para balancear a carência de petróleo”, observa.

Para completar a agência reforça a limitação entre oferta e demanda: “Na verdade, o consumo total de petróleo no Brasil cresceu a uma taxa de 4,9% ao longo dos últimos anos, enquanto a taxa de produção de cana-de-açúcar cresceu a uma taxa de apenas 2,2%”.

O etanol brasileiro na revisão de metas

Por mais que exista certa desconfiança em relação ao etanol brasileiro, a EPA acredita que futuras ampliações em suas metas devem ser focadas exclusivamente nos biocombustíveis avançados. “Nós temos consciência do fato de que aumentos nas metas legais de volume após 2015 serão apenas em biocombustíveis avançados. Eles também proporcionam uma maior redução na emissão de gases de efeito estufa em comparação com combustíveis renováveis convencionais”, informa.

Com o limite da parede da mistura do E10 já rompido pelas metas atuais, a informação traz uma perspectiva importante para os produtores de etanol brasileiros, sendo que o renovável de cana-de-açúcar é uma das duas principais opções para atender à quota de avançados indeterminados. Além do etanol celulósico, embora com uma perspectiva mais distante.

Observando que a projeção de importações de etanol brasileiro para 2015 é de 55 milhões de galões [208,2 milhões de litros], a EPA acredita, como mencionado anteriormente, que esse número pode chegar no próximo ano a aproximadamente 200 milhões de galões [757,1 milhões de litros] em 2016 – o que representaria um aumento de 264%.

“O volume de biocombustíveis avançados que estamos estabelecendo para 2016 irá exigir aumentos substanciais – mas possíveis – nos níveis atuais e levam em consideração possíveis restrições para o fornecimento, nosso julgamento relativo à capacidade dos padrões em mudar padrões de mercado, além de diversas outras incertezas”, completa.

Biodiesel é concorrente dentro das metas

Em seu relatório, a EPA ainda observa que, com relação ao biodiesel avançado e ao diesel renovável, uma alta porcentagem do que é fornecido aos Estados Unidos pode ser qualificado como biocombustível avançado, mesma categoria em que se encontra o etanol brasileiro.

“Biodiesel e diesel renovável produzidos nos Estados Unidos foram em quase sua totalidade biocombustíveis avançados. Também é altamente provável que biodiesel avançado seja importado em 2016”, afirma o documento, embora a EPA considere que as importações vindas da Argentina não devam atingir as expectativas fornecidas pelo mercado.

Com isso, a agência estaria incentivando o crescimento da produção e da importação de biodiesel e de diesel renovável. O objetivo é que essas opções surjam em detrimento dos combustíveis renováveis convencionais, aumentando os benefícios do programa RFS na redução das emissões de gases de efeito estufa.

Segundo o documento, em uma projeção de produção de 2,4 bilhões de galões [9 bilhões de litros] de biodiesel e diesel renovável, aproximadamente 2,1 bilhões de galões [7,9 bilhões de litros] poderiam ser classificados dentro da categoria de biocombustíveis avançados. Em etanol equivalente, esse valor chegaria a 12 bilhões de litros, um número superior à meta oficial estipulada.

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Com isso, a agência estaria incentivando o crescimento da produção e da importação de biodiesel e de diesel renovável. O objetivo é que essas opções surjam em detrimento dos combustíveis renováveis convencionais, aumentando os benefícios do programa RFS na redução das emissões de gases de efeito estufa.

Vantagens e desvantagens econômicas

Uma das preocupações da EPA ao estabelecer as metas está no impacto financeiro que a proposta teria nos Estados Unidos. Assim, a agência fez uma análise para considerar o impacto econômico que os diferentes combustíveis poderiam ter caso ocupassem integralmente as metas destinadas em suas categorias em 2016. Para esses cálculos, foram escolhidos dois biocombustíveis avançados – o etanol de cana-de-açúcar brasileiro e o biodiesel de soja – e o principal alvo do mandato, o etanol de milho, considerado combustível renovável não avançado.

Na análise, foi estimado o custo de produção por galão relativo ao derivado de petróleo que eles substituem. A EPA ainda acrescenta que as comparações não incluem impostos, taxas, margens de varejo, possíveis custos que ocorre na mistura ou investimento com expansão de infraestrutura.

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Dentro desse quadro, a EPA estima que, no próximo ano, o etanol de cana-de-açúcar tenha um custo entre US$ 0,91 e US$ 2,07 por galão. Convertido o volume e a moeda em números brasileiros, isso significaria um custo estimado entre R$ 0,90 a R$ 2,05 por litro, com o câmbio a R$ 3,75.

Considerando mínima e máxima estimadas, a opção brasileira é mais vantajosa que o custo unitário projetado para o biodiesel de soja, seu concorrente pela fatia de avançados indeterminados. No entanto, como o biodiesel tem um poder calorífico superior, é necessário um volume inferior para atender ao consumo determinado, o que resulta, no cenário atual de preços, em um custo total menor que o do renovável de cana.

Isso significa que, para cobrir toda a meta de biocombustíveis avançados em 2016 (de 3,61 bilhões de galões) usando o etanol brasileiro, os Estados Unidos teriam um custo mínimo de US$ 656 milhões, enquanto com o biodiesel esse número cairia para US$ 480 milhões – um valor 26,8% menor.

A porcentagem se atenua quando se considera os custos máximos, com o etanol de cana-de-açúcar custando US$ 1,5 bilhões e o biodiesel de soja a US$ 1,2 bilhões, um montante 20,8% menor.

Por sua vez, com base na projeção da EPA com relação a forma como as metas serão atingidas em 2016, os 757 milhões de litros de etanol custariam entre US$ 182 milhões e US$ 414 milhões. Já os 844 milhões de litros de biodiesel e diesel renovável (valor em etanol-equivalente) demandariam de US$ 844 milhões a US$ 2 bilhões.

Ao mesmo tempo, o etanol de milho surge como a opção mais vantajosa financeiramente, com seu custo total variando de US$ 453 milhões a US$ 597 milhões, ainda que em uma quantidade maior de litros. Como não se trata de um combustível avançado, no entanto, seu impacto ambiental é menos relevante e não concorre com o etanol de cana brasileiro.

Renata Bossle – NovaCana

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