O potencial e os desafios do processo de expansão do biocombustível de milho em Mato Grosso resumidos em oito pontos-chave
O etanol de milho vem surpreendendo agricultores e consultorias. O interesse na sua produção é crescente, assim como o volume produzido – que ainda pode triplicar em três anos. Embora a matéria-prima seja comum nos Estados Unidos, a cana-de-açúcar é dominante no Brasil, de forma que a expansão do biocombustível de milho traz desafios de cultivo, tecnologia empregada, investimento, logística e escoamento.
Durante o NovaCana Ethanol Conference, que ocorreu nos dias 3 e 4 de setembro, o painel “Etanol de milho: crescimento e oportunidades” reuniu três profissionais ligados ao biocombustível: o presidente-executivo da FS Bioenergia, Henrique Ubrig; o pesquisador sênior da Agroicone Marcelo Moreira; e o estrategista do Rabobank para o mercado de açúcar e etanol, Andy Duff.
Com a presença de um representante das usinas de etanol de milho, de uma consultoria e de um banco voltado ao agronegócio, foi possível traçar um panorama deste mercado no país.
No texto completo, confira oito pontos de destaque do painel. Entre eles:
- Etanol de milho em Mato Grosso – aumento no número de usinas e capacidade de produção
- Impactos econômicos da construção de novas unidades
- Mercados em potencial para o biocombustível
- Cenários possíveis para demanda e preço do etanol de milho
- Perspectivas para o etanol de milho dentro do RenovaBio
- Potencial para expansão produtiva e a relação entre milho e soja
O etanol de milho vem surpreendendo agricultores e consultorias. O interesse na sua produção é crescente, assim como o volume produzido – que ainda pode triplicar em três anos. Embora a matéria-prima seja comum nos Estados Unidos, a cana-de-açúcar é dominante no Brasil, de forma que a expansão do biocombustível de milho traz desafios de cultivo, tecnologia empregada, investimento, logística e escoamento.
Durante o NovaCana Ethanol Conference, que ocorreu nos dias 3 e 4 de setembro, o painel “Etanol de milho: crescimento e oportunidades” reuniu três profissionais ligados ao biocombustível: o presidente-executivo da FS Bioenergia, Henrique Ubrig; o pesquisador sênior da Agroicone Marcelo Moreira; e o estrategista do Rabobank para o mercado de açúcar e etanol, Andy Duff.
Com a presença de um representante das usinas de etanol de milho, de uma consultoria e de um banco voltado ao agronegócio, foi possível traçar um panorama deste mercado no país.
Abaixo, confira oito destaques do painel:
1. Número de usinas e aumento da capacidade
Embora a expansão seja certa, a quantidade de usinas não é. Ainda que alguns projetos estejam avançando, outros são apenas especulações. “Quem tem projeto precisa estressá-lo com inúmeros cenários negativos e, se ele se sair mais ou menos bem, é sinal de que tem chances”, aconselha Duff.
Por sua vez, o mapeamento da Agroicone aponta a existência de 16 usinas (flex e full) entre já existentes e projetos. A capacidade final estimada pela consultoria é de 4 bilhões de litros nos próximos anos, o que demandaria 8 milhões de toneladas de milho.
Marcelo Moreira detalha que as usinas já em construção devem adicionar 2,4 bilhões de litros à capacidade atual de 790 milhões. Os projetos que ainda estão no papel somariam outros 847 milhões de litros.
2. Impactos econômicos
Juntamente com a expansão de capacidade, surge também a questão do impacto econômico das novas usinas no estado.
Andy Duff aponta que o interesse dos clientes do Rabobank em relação ao etanol de milho surge a partir de uma busca para precificar melhor a produção, indo para além do milho e da soja, a fim de agregar valor. “O crescimento do negócio está mais difícil, comprar terras fica cada vez mais caro. É um desafio de expansão horizontal, pois eles [os produtores] se interessam muito mais pela verticalização do negócio”, explica.
Segundo análise da Agroicone, uma usina com capacidade para produzir 500 milhões de litros ao ano geraria um valor de produção de R$ 1,4 bilhão já na fase de construção, além de um PIB adicional de R$ 660 milhões. A geração de emprego direto seria de 8,4 mil e a arrecadação de impostos diretos e indiretos, de R$ 80 milhões.
“Os dados são impressionantes e, por mais que uma parte fique dentro de Mato Grosso, outra tem desdobramento para fora do estado. É um benefício local, mas com transbordamentos”, acrescenta.

Já na fase de operação desta mesma usina, supondo que o Brasil não aumentasse em nada a demanda, o valor da produção anual subiria para R$ 2,5 bilhões, com PIB adicional de R$ 910 milhões, além de 4,5 mil novos empregos. Também são acrescidos R$ 73 milhões em arrecadação de impostos. “Existem motivos socioeconômicos suficientes para estimular essa indústria no Brasil”, conclui Moreira.

3. Destino do biocombustível
Contudo, é preciso considerar que o crescimento do etanol de milho no mercado depende do seu escoamento. Conforme o estudo do Rabobank, dos 1,4 bilhão de litros de hidratado produzidos em Mato Grosso na safra 2017/18, 21% foi proveniente do milho (cerca de 300 milhões de litros).
Segundo dados da ANP de 2017 expostos no estudo, o estado absorveu 850 milhões de litros de etanol, dos quais 650 milhões foram de hidratado. Outros 100 milhões de litros foram para a região Sudeste e o excedente foi para os estados vizinhos (Amazonas e Rondônia).

Ubrig, no entanto, reforça que o Sudeste é “plano B” para a FS Bioenergia. O presidente-executivo da companhia acredita que o destino do etanol de milho mato-grossense é a região Norte e, futuramente, a exportação. A distribuição traçada pelo profissional, referente ao biocombustível produzido pela FS Bioenergia, é de 56% para o Norte e 42% para o Centro-Oeste, incluindo Mato Grosso.
O presidente também vê com otimismo destinos como Belém, Miritituba e Santarém (PA), e Manaus (AM). “Estive em Manaus e não temos hidratado lá”, relata.
4. Cenários para a adoção do etanol de milho
Analisando os possíveis mercados para o biocombustível de milho mato-grossense, Duff aponta a atual relação de preços entre etanol e gasolina em Rondônia e no Amazonas, que é de 80%, ou seja, superior à paridade energética comercialmente estabelecida em 70%. Esse índice reduz o consumo do renovável, cuja participação se resume ao anidro misturado à gasolina.
A falta de competitividade do biocombustível nestes estados está associada principalmente ao balanço entre oferta e demanda, a dificuldades logísticas e ao ICMS incidente nos combustíveis.

Assim, Duff traça dois cenários para o futuro do renovável em Mato Grosso e nos outros dois estados, potenciais mercados para o etanol de milho. No primeiro, ele considera a manutenção das condições atuais de competitividade e uma relativa estabilidade na participação de mercado de cada combustível, de modo que o aumento no consumo depende exclusivamente do crescimento orgânico da demanda.
Neste caso, entre 2017 e 2023, haveria um crescimento de 300 milhões de litros no consumo de etanol em Amazonas e Rondônia, um volume composto majoritariamente por anidro. Já o consumo em Mato Grosso se ampliaria em 640 milhões de litros, dos quais 80% seriam de hidratado. Somando os três estados, o aumento chegaria a 940 milhões de litros.
Já o segundo cenário projeta uma ampliação da participação do renovável a partir de 2020, considerando os efeitos do RenovaBio. Dessa forma, no mesmo período, o aumento de consumo nos três estados seria de 2,07 bilhões de litros. Além disso, Mato Grosso englobaria metade deste crescimento, enquanto a demanda por gasolina ficaria estagnada no estado.

Vale destacar que a distribuição da contribuição para a meta do RenovaBio seria uniforme para todos os estados, um aspecto que está sujeito às estratégias das distribuidoras.
Além disso, as projeções incluem a estimativa atual do Rabobank de que a capacidade a ser construída para etanol de milho nos próximos anos é de aproximadamente 1,5 bilhões de litros.
5. O preço do etanol de milho
Com o preço da saca de milho a R$ 20,00, assim como o estimado por Ubrig, Duff traça panoramas de preços para dois tipos de usinas: uma com capacidade para produzir 240 mil litros ao ano e uma mini destilaria de 10 mil litros ao ano.
Para ele, a faixa de preço para venda de etanol que permite o equilíbrio financeiro destas companhias seria entre R$ 1,50 e R$ 1,70 por litro, tendo como base uma usina em Mato Grosso livre de impostos. Neste caso, o preço dos grãos secos de destilaria com solúveis (DDGS) ficaria em R$ 342,00 a tonelada – na modelagem, quanto maior o preço do milho, maior a valorização do DDGS.
Para traçar o cenário de preços do etanol, o profissional delineou também o da gasolina, que exerce grande influência no valor do renovável. Considerando junto as movimentações do preço internacional do petróleo, da taxa tributária e da taxa de câmbio.
Em três cenários hipotéticos, com câmbio a R$ 3,80, ele calculou que os preços da gasolina podem variar de R$ 3,60 a R$ 4,68 em Mato Grosso e de R$ 3,37 a R$ 4,44 em São Paulo. Assim, para ser vendido a 70% do valor da gasolina, o etanol deve chegar aos postos por valores de R$ 2,52 a R$ 3,28 em Mato Grosso e de R$ 2,36 a R$ 3,11 em São Paulo.
Considerando também a margem de lucro das distribuidoras e dos postos, o analista acredita que, caso a produção de etanol em Mato Grosso fique próxima à demanda, o resultado seria positivo para o preço médio do biocombustível. Se, por outro lado, houvesse excedente significativo e parte da produção precisasse ser escoada para outros estados, o prospecto pode não ser financeiramente atrativo.

Desta maneira, fica claro que o lucro do produtor com o milho é diretamente influenciado pelo balanço entre a oferta e a demanda do etanol. Afinal, a escolha do consumidor é frequentemente relacionada à relação de preço entre a gasolina e o hidratado nas bombas.
6. Espaço para expansão
A partir desses dados, Andy Duff vê com cautela o entusiasmo pela expansão do etanol de milho. “A pergunta é: qual o espaço deste mercado [de milho] na produção do biocombustível, o potencial de crescimento e o preço de venda? É quase impossível ter as respostas quanto a preços por conta do mercado e do RenovaBio”, pontua.
Para Marcelo Moreira, a expansão depende da saturação do mercado e da velocidade do crescimento agrícola. “Na cana, a expansão foi rápida e não necessariamente com redução de custo. O escalonamento destes novos investimentos ao longo do tempo, com mais segurança de conhecimento da área climática, é peça chave”, alerta.
Ubrig, por sua vez, enxerga limitações físicas de expansão por conta de área, mas vê potencial: “Temos 10 milhões de hectares de soja que podem virar 7 ou 8 milhões, se não 10 milhões, de hectares de milho”.
A expansão produtiva, segundo ele, já saiu de 60 para 120 sacas de milho por hectare plantado, mas o objetivo é alcançar as 180 sc/ha – em um comparativo, ele aponta que os Estados Unidos chegam a 200 sc/ha.
7. RenovaBio, aquisição de biomassa e MUT
No quesito de redução da pegada de carbono, o etanol de milho nacional apresentou bons resultados. A Agroicone, que participou do processo de desenvolvimento da calculadora do RenovaBio, projetou emissões médias de 25 gCO2eq/MJ na produção do biocombustível.
A consultoria aponta que a biomassa é um fator que merece atenção nesse caso, pois o milho não gera bagaço para a produção de energia, como ocorre com a cana-de-açúcar. O caminho encontrado pelos produtores brasileiros é a biomassa de eucalipto, o que traz uma vantagem em relação ao etanol de milho importado.
Nos Estados Unidos, as usinas optam majoritariamente pelo gás natural. Entretanto, a Associação de Combustíveis Renováveis dos Estados Unidos (RFA), inclusive, questionou os parâmetros adotados pelo programa.
Segundo Moreira, cada tonelada de milho precisa de 465 kg de cavaco de madeira para gerar vapor e eletricidade para a usina. Sobram 151 kWh de energia e, neste processo, são produzidos 430 litros de etanol, 363 kg de DDGS e 13 quilos de óleo.
Outro fator que surpreendeu a consultoria foi o valor negativo referente à mudança do uso da terra (MUT), embora esse aspecto não seja considerado pelo programa.
“Em todos os lugares, temos a expectativa que a MUT vai ter uma emissão. Neste caso, o milho é de segunda safra e não precisa de área adicional”, explica. “Sem usar área adicional, ele produz o etanol e o DDGS e substitui a soja que seria produzida, reduzindo a necessidade de expansão deste grão”, acrescenta.
Assim, em comparação com a gasolina, a diminuição de emissão de CO2 do etanol de milho é de 70%.
8. Produção depende da relação entre milho e soja
O valor negativo de uso da terra mencionada por Moreira, a agregação de valor buscada pelos clientes do Rabobank e o aumento da produtividade desejado por Ubrig acabam eventualmente se encontrando na relação de simbiose entre o milho e a soja em Mato Grosso.
Ubrig acredita que o etanol de milho contará com uma produção eminentemente local devido às limitações da matéria-prima, que depende do dinamismo com outro grão – o milho safrinha é uma segunda colheita, feita após a da soja. “O milho vinha perdendo competividade e, agora, isso não está mais acontecendo. A saca por R$ 15 não existe mais, já se fala em R$ 20”, explica Ubrig, comentando a valorização do grão.
O profissional destaca que Mato Grosso é o estado que mais dispõe de milho barato, de qualidade e com boa produtividade. Por outro lado, seu uso não é adequado: “85% do milho do estado viaja e viaja mal. Tem baixo valor agregado, vai para Europa e China. É melhor levar 420 litros [de etanol] do que mil quilos [de milho]. A logística é um desafio, mas com valor agregado muito maior”, esclarece.
Dessa forma, a animação dos investidores em relação ao etanol de milho encontra embasamento em fatores ambientais, econômicos e de oportunidade.
Gabrielle Rumor Koster – NovaCana