NovaCana

Etanol do Brasil é alvo de ataque de entidade dos EUA

Brasil e EUA no etanol: os argumentos da RFABob Dinneen, presidente da RFA: "O Brasil não tem sido um fornecedor confiável de etanol para os EUA"
NovaCana 7 min de leitura
A batalha pelo etanol nos EUA, que mobilizou o Ministério de Minas e Energia e a Unica, tem opositores determinados. A Renewable Fuels Association (RFA) é uma delas, e está pegando pesado.

A entidade, representada pelo seu presidente, Bob Dinneen, enviou um documento de nove páginas a EPA no início do mês. Um dos objetivos principais do texto é questionar a capacidade do Brasil de exportar etanol.

Brasil e EUA no etanol: os argumentos da RFA
O documento da RFA apresenta quatro argumentos sobre as características do mercado brasileiro para influenciar a EPA de modo a impedir, através da norma RFS2, a importação do biocombustível brasileiro.

Confira abaixo um resumo dos argumentos e inconsistências da RFA.

E mais:
- RFA fala sobre ritmo lento do Brasil e "esquece" de detalhe da safra nacional
- Entidade afirma que o etanol de cana não é avançado
- Questão de preço: etanol de milho ou de cana?
- A pressão do mercado interno
- O que a RFA ignorou

O documento de nove  páginas tem como um dos objetivos principais questionar a capacidade do Brasil de exportar etanol. A RFA quer influenciar a EPA de modo a impedir, através da norma RFS2, a importação do etanol do Brasil.

A batalha pelo etanol nos EUA, que mobilizou o Ministério de Minas e Energia e a Unica, tem opositores determinados. A Renewable Fuels Association (RFA) é uma delas, e está pegando pesado.

A entidade, representada pelo seu presidente, Bob Dinneen, enviou um documento de nove páginas a EPA no início do mês. Um dos objetivos principais do texto é questionar a capacidade do Brasil de exportar etanol.

Não é de hoje que a concorrência brasileira do etanol de cana-de-açúcar incomoda os produtores dos Estados Unidos. Mesmo sendo o maior fabricante mundial do biocombustível, utilizando o milho como principal matéria-prima, o país não tem um produto com a mesma qualidade ambiental que o etanol de cana. Por isso, para cumprir as metas de redução de gases de feito estufa (GEE) a Agência de Proteção Ambiental, EPA na sigla em inglês, prevê a importação do combustível da cana como parte do volume de combustíveis avançados.

As quotas de biocombustíveis para 2013 ainda não foram definidas e a Renewable Fuels Association (RFA), entidade que representa os produtores do etanol de milho, tenta restringir a importação do concorrente brasileiro.

A mais recente e importante manifestação pública aconteceu no início do mês, em comentário da consulta pública sobre o padrão de combustíveis renováveis (Renewable Fuel Standards – RFS2) para este ano. A RFA não deixou dúvidas sobre sua posição crítica ao etanol brasileiro e afirmou que o "Brasil não tem sido um fornecedor confiável de etanol para os EUA". A declaração se baseia na grande variação dos volumes importados a cada ano, mas ignora qualquer fator de influência sobre os números.

A associação considera irreal a expectativa do volume de biocombustíveis avançados a ser produzido pelo próprio EUA de modo a compor o requisito de renováveis. Por isso indica que, ao invés dos 2,52 milhões de litros (666 milhões de galões) de etanol de cana, seriam necessários 2,71 bilhões de litros (716 milhões de galões) para compensar o déficit interno. Porém o documento assinado pelo presidente da RFA, Bob Dinneen, questiona também a estimativa inicial. "A RFA não acredita que 666 a 716 milhões de galões de importação do etanol de cana será razoavelmente viável em 2013".

Nas nove páginas da mensagem enviada em 7 de abril, a RFS discorre sobre os argumentos para que a EPA reveja as metas de combustíveis avançados e, assim, reduza a participação do Brasil como fornecedor. Veja os principais motivos apresentados pela RFA contra o etanol de cana-de-açúcar:

Aumento da mistura a 25%

Na tentativa de influenciar a EPA, a RFA diz que a recuperação da mistura de 25% de etanol anidro à gasolina no Brasil, a partir desta quarta-feira (1º de maio), coloca em risco o fornecimento do combustível aos EUA. "O aumento da taxa de mistura é amplamente esperado para reduzir drasticamente o excedente exportável do Brasil", diz o texto. A majoração da mistura deve demandar um volume extra da produção para o abastecimento do mercado interno. Este incremento de consumo, estimado em 3 a 4 bilhões, se trata de "uma quantidade consideravelmente maior do que o volume de etanol que os Estados Unidos precisam importar para atender ao RFS".

"Ritmo lento" nos primeiros meses de 2013

A RFA avalia que o volume importado nos três primeiros meses do ano ficou muito abaixo da média desejável para atender à proposta de 2,52 bilhões de galões para 2013. Ao assinalar o "ritmo lento de importação" de etanol de cana, em nenhum momento a entidade pondera ser este o período de entressafra.

A partir de dados do governo norte-americano, o texto assinado por Dinneen aponta que até março foi comercializado entre os dois países o equivalente a 333 milhões de litros de etanol de cana. Repetindo esta média de importação nos demais meses do ano, o documento estima que o Brasil alcançará apenas 1,33 bilhões de litros, ou seja, metade do pretendido na proposta do RFS.

Para a entidade também há dúvida sobre a origem do combustível ser habilitada dentro dos padrões estadunidenses. "Não está claro a partir dos dados de importação de etanol semanais se todas as importações até a data são compostos de etanol de cana produzido no Brasil por entidades cadastradas pelo programa RFS para geração RIN D5", questiona.

Nota-se que, além de desconsiderar a retomada produtiva com o início da safra em abril, a associação dá por nulo o fato de não haver regra alguma consolidada para este ano. Embora a indústria brasileira já se prepare para tender à demanda norte-americana, a indefinição sobre o mandato atual provoca insegurança ao setor. A Unica faz considerações neste sentido dentro do comentário enviado a EPA a respeito da participação do Brasil para combustíveis renováveis no RFS 2013.

Como era de se esperar, as estimativas para esta safra de cana-de-açúcar, sensivelmente melhores do que as consideradas pela proposta da EPA, igualmente não estiveram presentes na mensagem da RFA.

Desvantagem competitiva

Para a RFA, o combustível doméstico é economicamente mais vantajoso para os EUA. Com base nos dados do Departamento de Agricultura dos EUA e do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA) da USP, a RFA afirma que desde junho de 2009 o custo médio do etanol de milho tem sido US$ 0,43 mais barato do que o concorrente brasileiro.

Mesmo apesar da alta nos créditos RIN do etanol doméstico (leia mais aqui), neste momento a entidade considera que "há um forte incentivo econômico para as refinarias e misturadores maximizarem o uso de etanol de milho dos EUA e limitar o uso de etanol de cana importado".

Nem tão avançado...

A justificativa derradeira para a solicitação de que a EPA adeque para baixo o volume de combustíveis avançados é de que etanol de cana não seria tão eficiente ambientalmente quanto é considerado. Por isso a RFS quer que a avaliação do biocombustível de cana como um combustível avançado seja revista. "Continuamos a acreditar que a EPA deve revisitar seu ciclo de vida de gases de efeito estufa (GEE), análise e determinação do limiar para as importações de etanol de cana", pede.

Para alcançar a classificação de avançado é necessário que o combustível ofereça 50% menos gases de efeito estufa que a gasolina. Embora o etanol brasileiro produza 61% menos GEE, a RFA cita uma pesquisa do Argonne National Laboratory, do Departamento de Energia dos EUA, que colocaria em xeque este percentual. O estudo teria verificado uma variação de entre 40 a 62% de reduções de emissões de GEE no combustível de cana. Assim, diz a mensagem, "não há garantia de que todo o etanol de cana importado realmente atende a 50 % limite de redução de GEE".

A posição do MME sobre o assunto pode ser conferida aqui.

Um resumo dos argumentos da Unica estão aqui.

Amanda SchArr - NovaCana
Compartilhar: